Saturday, March 11, 2006

PAIXÕES EM GUERRA

CONTO EM HOMENAGEM À MARINA:
( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA )

Numa floresta, situada em um parque ecológico, dois jovens sentam-se em um banco de mármore e começam a namorar. A garota sente os lábios do amado tocarem os seus. A temperatura dos dois corpos aumenta à medida que o jovem acaricia, com as mãos, os seios da menina. Ela sente o calor, a vontade. Então, a boca do namorado congela de repente. Ela abre os olhos e vê o sangue escorrer da boca do amado.
- Ah, meu Deus!
Ela grita afastando-se do namorado. E vê o vampiro abocanhando o pescoço do garoto e sugando-lhe o sangue.
- Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
- Calma, menina! Diz o vampiro parando de sugar o sangue do jovem. Em breve, você se unirá ao seu amor... no Inferno!
- Iahhh...A garota grita. É quando um homem de sobretudo salta sobre as costas do nosferato e crava-lhe uma estaca de prata.
- Aiii... Grita o vampiro vomitando sangue.
- Ahhh... Grita a garota apavorada.
- Ei, psiu! Faz o caçador irritado. Pare de gritar e fuja!
A garota obedece o caçador e sai correndo. O vampiro aproveitá-se dessa pausa. Botando os braços para trás, o nosferato agarra o caçador pelo sobretudo e o arremessa, de cabeça para baixo, contra uma árvore.
- Ai! Geme o caçador sentindo a dor das costas baterem na árvore.O vampiro some na noite. O caçador, com a mão nas costas, tenta seguir o rastro de sangue do nosferato. Mas o líquido vermelho escorre da boca do caçador.
- Oh, não! Quebrei as costelas! Tenho de ir a um médico antes que elas perfurem o pulmão! Ai!
O caçador sai do parque. Sua sorte é que havia um hospital público por perto. Ele entra no que parece um matadouro. As pessoas doentes ficam largadas pelo chão do hospital à espera de atendimento. O caçador deitá-se ao lado de uma senhora, que sofre da Doença de Chagas. E presencia o momento em que a pobre mulher morre. Ele fecha os olhos da morta, tira um crucifixo e inicia uma oração.
- Deus, ilumine os caminhos dessa pobre criatura no além-vida! Que ela não conheça o Vale das Sombras, mas sim o Caminho da Luz! E que encontre na morte o consolo que não teve em vida! Amém!
O caçador faz o sinal da cruz e adormece à espera de atendimento.
***
De volta ao parque, em uma cabana há muito esquecida, Natasha aguarda o retorno de seu amor. E ele surge curvado, com as costas e a boca ensangüentadas.
- Roberto! Natasha vai até o seu amado. Roberto cai. Ela vê então a estaca fincada nas costas do vampiro.
- Meu Deus!
- Natasha, acabou!
- Não! Não! Não! Eu não aceito isso!
Ela o leva até a cabana. Dentro desta, em uma velha cadeira de balanço, encontra-se uma lasca da Pedra Filosofal. A famosa jóia tinha se partido em milhares de pedaços na fronteira entre o Céu e o Inferno. Milhares de demônios e vampiros lutaram para obter o seu poder. Tal qual Roberto e Natasha. Os dois eram noivos há quatro anos. Na época do carnaval, foram a várias festas. Namoraram bastante, transaram, enfim se divertiram à beça. Mas, na volta para casa, beberam demais. O acidente de carro foi fatal.
Condenados ao Inferno, por terem transado antes do casamento, os dois noivos foram jogados em um mar de sangue quente.
- Já que a bebida foi a causa de sua morte, então que uma nova bebida lhes dêem a imortalidade!
Após as palavras do demônio, a transformação, profana e dolorosa, ocorre. Os berros de Roberto e Natasha podiam ser ouvidos a quilômetros de distância. Quando a transformação termina, eles saem do mar de fogo totalmente deformados. Os olhos dos dois noivos se cruzam. Apesar da aparência grotesca, eles se reconhecem e se dão as mãos.
- Eu te amo, Natasha! Ele fala enquanto dentes afiados nascem na boca de ambos.
- Eu também, meu querido Roberto! Diz Natasha enquanto a pele de ambos fica pálida.
Então, o inesperado ocorre. A Pedra Filosofal explode em um trilhão de pedaços. Demônios e vampiros esticam os braços para apanhar as lascas. Roberto e Natasha se maravilham com a visão da explosão. O noivo, já transformado em vampiro, vê quando milhares de lascas passam por cima deles. E sente o poder. Ainda segurando a mão de Natasha, Roberto salta em direção às lascas e agarra um dos pedaços.
- Natasha, essa é a nossa saída para casa!
- Não consigo me segurar! Dói muito! Aiii...
- Não, Natasha! Segure-se firme! Vamos, pedra! Vamos!
- Não consigo!
A pedra mergulha, na velocidade de um foguete, num portal mágico.
- Eu posso ver o Cristo Redentor, meu amor! Só mais um pouquinho e nós vamos voltar para casa!
- Eu não consigo, Roberto! Dói muito! Aiii...E Natasha se solta do amado.
- Natasha! Nãooo...Mas é tarde demais. O tranco do teleporte puxa Roberto para dentro do portal. Este se fecha e Natasha cai nas trevas.***Duas horas se passaram e o caçador ainda não tinha sido atendido. O cadáver da senhora ao seu lado fede e ele se vira para o outro lado. Súbito, um pensamento lhe vem à mente enquanto ele mergulha na inconsciência.
Rita!
Rita! Sua esposa, sua amada, seu amor! Uma jovem que sempre teve tudo o que o pai e a mãe ricos sempre lhe deram! Tudo menos amor! Os pais de Rita eram casados para a Alta Sociedade, mas separados na vida íntima. Por causa disso, Rita se tornara alcoólatra. E foi numa das esquinas da vida, bêbada, que ela conheceu um rapaz pobre que mudou o seu destino.
Um demônio de vinte metros de altura devorava dois mendigos num beco próximo do bar de onde ela tinha saído.
- Aiii...
- Meu Deus do Céu!
Cambaleando assustada, Rita cai próxima a um muro. E vê o demônio devorar os corpos dos dois mendigos.
- Meu Deus do Céu!
- Não se apavore, mortal! Fala o demônio lambendo a boca manchada de sangue. Eu sou Pavórius, o maior dos demônios... e ainda estou com fome!
- Nãooo...
Pavórius se preparava para devorar Rita quando um homem, do alto de um prédio, derramou um balde de água benta sobre o demônio.
- Iahhh... O demônio berra enquanto seu corpo derrete.
Súbito, uma lasca Pedra Filosofal em sua mão direita começa a brilhar. Os ferimentos cicatrizam.
- Você!
O demônio se vira na direção do agressor. Rita também vê o homem de sobretudo que tinha atacado Pavórius. E se impressiona com a coragem do caçador. Pavórius usa suas garras gigantescas para quebrar a parte do prédio onde o homem se encontrava. O caçador, precavido, salta do prédio e abre um pára-quedas. Nessa hora, Rita percebeu que foi a pedra quem curou o demônio. Sem pensar em mais nada, a jovem saltou contra o braço de Pavórius e deu um forte chute na pedra, quebrando-a.
- Nãooo... Grita o demônio enquanto os cacos da pedra caem pelo chão.Rita cai próxima a Pavórius.
- Sua maldita! Eu vou te comer até lamber os ossos!
- Não!
O caçador molha uma flecha com água benta, a coloca no arco e atira contra o peito de Pavórius.
- Nãooo... O demônio grita enquanto o corpo começa a pegar fogo. Eu não quero voltar para o Inferno! Eu não quero! Eu não quero! Nãooo...
E o corpo de Pavórius explode em um milhão de pedaços. E Rita vê um portal do Inferno se abrir. A patricinha presencia então a alma do homem, do humano que habitava o corpo de Pavórius, se puxada para baixo pelos demônios.
- Nãooo... Tenham piedade! Não! Não! Nãooo...
Os gritos do homem eram agonizantes. O portal se fecha. Rita empalidece com tamanho horror que presenciou. O caçador aproximá-se da patricinha e lhe diz:
- Não se preocupe! Aquele demônio não irá mais perturbá-la!
- Mas e você?! Quem é você?!
- Eu me chamo Matheus e sou um caçador a serviço de Deus!
E aquela jovem, ao ouvir tais palavras, sentiu o amor e a segurança que tanto tentava encontrar.
***
Inferno.
- Que carne mais suculenta!
- Que coxas mais grossas!
- Vamos fazer churrasquinho com essa vampira!
- Não! Não! Nãooo...
Natasha começa a gritar enquanto os dois lobisomens se aproximam. A vampira corre por um planalto de onde escorre uma cachoeira de sangue. Natasha passa por debaixo da cachoeira enquanto os dois lobisomens a perseguem. Um passa por de baixo e o outro por cima da cachoeira. Quando ela sai do planalto, um lobisomem salta ficando de frente para a vampira.
- Iahhh... Berra o lobisomem abrindo sua enorme boca.
- Nãooo...
O medo e o susto fazem Natasha descobrir seu poder. Ela se transforma em morcego e voa desviando-se do golpe desferido pelo lobisomem. O animal vê então um portal se abrir no céu vermelho do Inferno. E seu amor surge para ela.
- Natasha, é você?! Ele fala sem reconhecer o morcego.
- Sou eu, Roberto! O animal grita tornando-se Natasha.
A vampira começa a cair.
- Nãooo...
- Não! De novo não!
Roberto estica o corpo e agarra Natasha pela mão.
- Segure-se firme, meu amor!
- Roberto, não me largue! Por Deus, não me largue!
- Nunca! Eu jamais a abandonarei, meu amor!
Roberto consegue puxar Natasha para dentro do portal, livrando-a do abraço dos dois lobisomens que tinham saltado na direção da vampira.
***
Uma igreja.
- Que Deus ilumine os passos dessa alma redimida! Matheus fala enquanto, com o dedo indicador molhado pela água benta, faz o sinal da cruz na testa de Rita. Que ele não enxergue os crimes cometidos por essa jovem em nome da bebida! Mas que ele veja como é bela a busca pelo perdão tão pretendido por essa criatura! Amém!
Rita, que se encontrava ajoelhada, levanta-se encarando Matheus. Os dois jovens sentem então o amor penetrar em seus corações. Rita beija a mão de Matheus e este estremece com o desejo que invade-lhe o corpo.
- Obrigada, Matheus! Ela fala acariciando com os lábios a mão do caçador. Obrigada por interceder a meu favor junto a Deus!
Matheus solta a mão da boca de Rita. Os dois se olham por um momento.
- Eu só fiz a minha obrigação como cavaleiro de Deus! Mas você tem que parar de beber, Rita!
- Claro! Matheus, eu juro a você que não vou deixar o egoísmo de meus pais influenciarem o meu modo de ser!
Rita acaricia o rosto de Matheus.
- Eu juro!
Sentindo o desejo, o caçador fica de costas para Rita. Ela o abraça e diz aquilo que Matheus temia.
- Eu quero seguir você! Quero ser uma caçadora a serviço de Deus como você!Matheus se vira na direção da mulher.
- Não! É perigoso demais!
- Não me importo com o perigo!
- Você é louca!
- Matheus, até a semana passada, a minha vida não tinha sentido algum! Mas, desde que te conheci, passei a amar a Deus como jamais imaginei amar! E quero fazer algo por amor a Deus!
- Você não entende! Estes seres são muito perigosos! Você pode morrer! E eu não quero que você morra... porque... porque...
Ele desvia o rosto mais uma vez. Ela o pega pelo queixo, o acaricia e diz:
- Eu também amo você!
Os dois se beijam. Por uma janela aberta, a luz do sol ilumina os dois jovens que se beijam e se abraçam sob a imagem de Cristo Crucificado.
***
O presente.
Os portais do Inferno são atemporais. Assim, o que foi o espaço de um dia para Natasha no Inferno, tornaram-se vinte anos na Terra para Roberto. Nesses vinte anos, o vampiro se deleitava com as pessoas que iam visitar o parque ecológico ao mesmo tempo que decifrava os segredos da Pedra Filosofal a fim de tirar sua amada do Inferno.
Quando Roberto finalmente abriu o portal por onde salvaria Natasha, o proprietário do parque, preocupado com o número de mortes que ocorriam no local, contratou Matheus para que ele acabasse com o nosferato.
Natasha, assim, não sabia como usar a pedra para curar Roberto.
Deitado de bruços sobre uma poltrona velha, o vampiro grita em agonia.
- Natasha, tire a estaca! Tire a estaca, Natasha!
- Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!
- Natasha, pare de falar de Deus e... Bluuurp...
Roberto vomita sangue pelo carpete.
- Nãooo...
Natasha se apavora e tenta puxar a estaca das costas de Roberto.
- Aiii...Os berros de dor de Roberto são cada vez mais desesperadores. Lágrimas de sangue escorrem pelos olhos do vampiro. Natasha finalmente arranca a estaca das costas do amado.
- Consegui, Roberto! Consegui! Agora, me diga... me diga o que fazer, meu amor!
- Não! Ele se vira na direção de Natasha. É tarde demais!
- Nãooo...
Natasha joga a estaca no chão e se agarra a Roberto. A vampira chora com o rosto colado ao peito do vampiro.
- Você voltou para me salvar... e eu não pude fazer nada! Eu não pude fazer nada! Iahhh...
Roberto segura forte na mão de Natasha. Os anéis de noivado de um e de outro encostam.
- Natasha... eu vou morrer... mas saiba... que nunca... nunca deixei de te amar!
- Nãooo... Eu quero ir com você, Roberto! Eu não quero perder você! Não quero!
- Não! Você não deve morrer!
- Mas eu não quero te perder!
- Natasha, escuta...
- Não!
- Escuta, caralho! Nós não temos muito tempo! Em breve, irei morrer! A Pedra Filosofal e o poder da imortalidade serão minha herança para você, minha noiva! Meu amor!
Natasha beija a boca de Roberto. As lágrimas dos olhos dela caem sobre o rosto dele.
- Prometa... prometa que continuará... prometa que a dor e a tristeza pelo meu luto não te farão cair nos braços das trevas! Prometa!
Natasha, ainda chorando, diz:
- Se esta é a sua última vontade, meu querido... se você quer que eu caminhe solitária pela Terra,... então pode descansar em paz... pois eu cumprirei minha promessa!
- Oh, Natasha, eu te amo tanto!
- Eu também te amo, Roberto!
- Oh, Natasha, por quê?! Por que você deixou que eu dirigisse bêbado naquela noite fatal?! Por quê?!
- Você... está arrependido?!
- Sim! Estou! Se eu não dirigisse bêbado... hoje estaríamos... casados... e com fiiilhos!...
Os olhos de Roberto viram para o alto e ele dá o seu último suspiro. Natasha chora desconsolada. Um vento forte entra pela janela da cabana enquanto o corpo de Roberto se desfaz em cinzas. Tudo o que restou do vampiro foi o anel de noivado na palma da mão de Natasha.
- Nãooo... Ela grita fechando o punho. Natasha pega a estaca de prata do chão. Com o anel de Roberto na mão direita, Natasha aponta a estaca para si com a mão esquerda.
- Eu não vou conseguir viver sem ele! Não vou conseguir! Não vou conseguir! Não! Não! Nãooo...
***
O barraco onde Rita e os três filhos moram. O telefone toca. Os dois filhos maiores soltam pipa do lado de fora do barraco. Rita, com um bebê nos braços, atende o telefone.
- Alô!
- Rita, sou eu!
- Matheus! Deus do céu, aonde você está?!
- Rita, me escute...O caçador sente a dor das costelas perfurando o pulmão e cospe uma bolha de sangue.
- A minha hora... chegou, Rita!
- Não! Ela fala chorando. Matheus, não! Não pode ser!
- Mas é! Eu... não... tenho... não tenho muito tempo, Rita!
- Matheus, não pode ser! Você é um homem de Deus!
- Eu sou mortal, Rita! E... o... destino... de todos... de todos os mortais é... um só!
Matheus cospe outra bolha de sangue enquanto Rita chora ao telefone.
- Matheus! Matheus! Matheus! Não me deixe, Matheus!
- Não... Não depende de mim, Rita! É Deus quem me chama agora! Só lamento por te trazer comigo nessa vida louca! Só lamento pelos nossos filhos, órfãos dessa guerra! Oh, Rita... me perdoe! Eu... não queria te ver infeliz!
- Não há o que perdoar, meu querido! Eu sabia dos riscos quando me casei com você! E não me arrependo de nada do que fizemos! Pois toda a nossa vida foi baseada no amor de Deus!
Do outro lado da linha, Matheus escuta o choro do bebê nos braços de Rita.
- É... É a Carminha que está aí no seu colo?!
- É! É sim!
- Ponha... Ponha ela no telefone, por favor!
E Matheus escuta a voz de sua filhinha.
- Oi, filhinha! Oi, meu amor! Tudo bem com você?!
- Papa! Papa! Gugu!
- Papai já tá voltando prá casa, tá meu amor?!
- Papa! Papa! Gugu!
A criança sorri ao escutar a voz do pai. Próximo ao orelhão onde Matheus se encontra, um grupo de médicos e enfermeiros fumava e ria num barzinho.
- Chama a mamãe prá mim, meu amor!
- Papa bejo!- Um beijo prá você também, meu anjo!
- Sou eu, Matheus!
- Rita... meu amor... eu não tenho mais tempo!
- Não diga isso, Matheus! Você tem que voltar prá casa... prá cuidar dos nossos filhos... e prá cuidar de mim, meu amor!
- Rita,... eu te amo, mas você tem que ser forte! A guerra... A guerra entre o Céu e o Inferno! Você disse que queria ser uma caçadora! Eu... te ensinei tudo o que sei! Por favor... por amor a Deus...
- Sim! Eu prometo, amor! Eu vou continuar a sua missão divina, meu querido!
- A "nossa" missão divina, Rita! Eu te amo! E... aonde eu estiver, levarei o nosso amor... em meu coração!
Matheus larga o telefone e cai para trás.
- Nãooo...
O grito de Rita foi ouvido do outro lado da linha. Só naquele momento, os médicos e enfermeiros foram socorrer Matheus.Mas aquele caçador temente a Deus, não mais respirava.
***
O enterro de Matheus.
Abraçada a seus dois filhos e com Carminha nos braços, Rita chora a morte do marido. Mas nem ela e nem Natasha cumpriram seu destino.
Os pais de Rita eram contra o casamento desta com Matheus pelo fato dele ser pobre. E, depois da morte do caçador, não lhe ajudaram em nada. A garota passou a trabalhar como caixa em um supermercado. A rotina do trabalho, além da educação e sustento das crianças, a impediu de se tornar uma caçadora. Mas ela ensina os mandamentos de Cristo aos filhos na esperança de que eles sigam os passos do pai.
Quanto à Natasha, apesar do imenso amor que sentia por Roberto, não teve coragem para se matar. Largou a estaca de prata sobre as cinzas de seu amado e se pôs a chorar.
Foi então que ela abriu a mão onde estava o anel de Roberto.
- Eu vou viver, Roberto! Por você! Pelo nosso amor! E, aonde você estiver, os meus pensamentos o acompanharão... por toda a eternidade!
FIM

AQUELE QUE NÃO AMA... MORDE!

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)
- Eu quero você! Eu preciso de você! Eu amo você!
- Mas eu não te amo, cara! Vê se me deixa em paz! Larga a mão de ser chato!
- Escute, eu sou rico, tenho dinheiro!
- Mas eu não quero o seu dinheiro, porra! Que que adianta ter dinheiro, se você é feio que dói!
- Você me acha mesmo feio?!
- Sim! Te acho horrível! O homem mais feio, mais horroroso que eu já vi na vida! Só não te digo que você é o cão chupando manga porque o cão chupando manga chega a ser mais belo do que você!
- Mas também que que adianta?! Você reclama que eu sou feio e que é por isso que você não me ama! Mas se você namorar um homem bonito ele vai te chifrar, te trair com a primeira vagabunda que disser que é "a sua melhor amiga"! Então, que que adianta você ter um homem bonito se ele não te ama de verdade?!
- Eu não quero amar, seu babaca! Eu quero trepar! Quero trepar com um homem forte, bonito, másculo, que tenha olhos verdes e cabelos escuros! Um morenaço com uma bunda enorme! É disso que eu gosto!
- Mas e o amor?!
- Ah, vá tomá no cú! Vê se me esquece garoto!
A garota fica de costas para o jovem. Este a pega pelo braço e a vira para si.
- Que é garoto?! Tá maluco?! Me larga!
- Iahhh...
- Nãoooo...
O garoto morde o pescoço da jovem e chupa-lhe o sangue.
- Eu posso ser feio, mas pelo menos eu sou imortal!
Rê! Rê! Rê! Rê! Rê!
FIM

VAMPIRAS BOAZUDAS

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

O vampiro chupa os enormes peitos da vampira. Os dois nús na cama começam a trepar de forma intensa. A mulher grita, berra, a piroca enorme do vampiro é metida em sua xereca de forma selvagem, excitante, porca, com a terra e a merda ao seu redor.
A merda e a terra das vítimas dos dois nosferatos. Caidos pelo chão, os cadáveres apodrecem. O seu cheiro se mistura à imundície da merda pelo chão.
-Ahhh... Ahhhh... Ahhhh... Ahhh... Ahhh... Ahhh... Ahhhh... Ahhh... Ahhhh... Ahhh... Ahhh... Ahhhh... Ahhh... Ahhh... Ahhh... Ahhh... Ahhh... Ahhhh... Ahhh... Ahhh... Ahhh... Ahhh...
Os dois vampiros gemem intensamente enquanto trepam. Quando a luz do sol chega, eles se encolhem de baixo dos lençóis e conseguem se proteger.Iah! Iah! Iah! Iah! Iah!
Quando anoitece, o vampiro pega a vampira pela cintura e come-lhe a bunda. Mete no cú da vampira.
- Vai, mostrá esse cuzão prá mim!
- Ai! Ai! Ai! Ai! Que pirocãooooooo...
E o vampiro mete, mete e mete. Quando goza, tira a piroca do cú da vampira. A pica estava toda suja de merda e de goza.
Os dois se transformam em morcegos e voam para longe dali.
Iah! Iah! Iah! Iah! Iah!
FIM

A BOSTA SAGRADA

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)
No meio da escuridão da noite, uma menina de dez anos corre indefesa pelo jardim de sua casa.
- Socorro! Socorro! Mamãe! Papai!
Ela olha para trás e vê o morcego voando em sua direção.
- Mamãe! Papai! Me ajudem! Buá! Buá! Snif! Snif!
A menina corre até uma árvore e começa a subir nela. A dor de barriga que sente é enorme. Sempre quando ficava com medo, a menina sentia uma vontade irresistível de cagar. Ela tira a saia e a calcinha. Abaixo da árvore, o morcego se transforma em vampiro e observa a garota tirar a roupa.
- Que bundinha redondinha essa menina tem! Dá até gosto de ver a criança... Não! Não! Não!
E acontece o inevitável. A merda cai do cú da criança e acerta em cheio a cara do vampiro. O nosferato cai e tenta tirar a bosta do rosto. Mas mais merda cai sobre sua cara e ele morre sufocado pelo cocô.
Minutos depois, os pais da criança aparecem e a tiram da árvore. Um final feliz... e fedido.
FIM!
Iah! Iah! Iah! Iah! Iah! Iah!

Friday, March 10, 2006

MORDER E TREPAR É SÓ COMEÇAR

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)
O vampiro agarra a pobre donzela que grita, grita, grita, grita. Ele rasga a blusa da mulher e os seios enormes ficam à mostra. Que mulher. Que pedaço de carne suculenta.
A mulher grita, grita, grita, grita, grita, grita, grita, grita, até que o vampiro não aguenta mais e diz:
- Porra, pára de gritar, caralho!
- Mas eu estou apavorada! Eu tenho medo!
- Isso dá prá perceber! Mas não tem ninguém surdo aqui, caralho! Porra! Que merda de mulher histérica!
- Histérica, eu?! Você me agarra, me mostra essa bosta desses dentes, rasga minha roupa e quer que eu fique como?!
- Excitada!
- Ah, vá tomá no cú! Isso lá excita uma mulher!
- E o que te excita?!
- Abre essa porra dessa boca e lambe os biquinhos dos meus seios!
O vampiro ficou admirado.
- O quê?!
- Porra, tu é surdo mesmo! Lambe logo os meus peitos!
E assim ele fez.
- Isso! Me lambe! Me goza! Me mete! Me faz mulher! Isso! Mete! Mete! Mete! Mete, seu brocha! Mete! Mete! Iah! Iah! Iah! Ahhhhh...
No final da transa, o vampiro fala:
- Oh, que esplêndido! Que maravilhoso! Como foi bom te meter! Como foi bom te chupar!
- Iahhh...
A mulher crava uma estaca de prata no peito do vampiro.
- Não! Ai! Ai! Ai!
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
O vampiro grita enquanto o sangue escorre de sua garganta. A mulher só ri da cara do nosferato enquanto ele parte para o Inferno.
FIM

UMA LAMBIDA ANTES DA MORDIDA

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

- Aquela filha da puta me enganou! Ela me abandonou! Eu a odeio! Maldita! Desgraçada! Buá! Buá! Buá! Snif! Snif!
E o bêbado caía pela calçada chorando. E como chorava aquele homem brocha. Ele estava amargurado, triste, sem ter o que levantar. Praticamente e sexualmente morto. Então, é a esses coitados que os seres das trevas atendem.
E ele vê. Vê o que?! A mulher mais linda que ele já viu, nua, sem nada, os pêlos no meio da chereca o atraíam de uma forma assustadoramente sedutora. A mulher esfregava os enormes seios e gemia como uma cadela. O bêbado, de joelhos, foi até a mulher e lambeu sua xota. Depois, enfiou a língua no meio das pernas da mulher, que gritava, gritava, gritava.
Até que finalmente gozou.
Ela se ajoelhou, ficando diante do bêbado. Em seguida, beijou aquela boca imunda, cheia de vermes, de pêlos e de goza. O prazer que a louca fugida do hospício sentiu foi enorme. Desde que seu namorado tinha sido morto por um grupo de traficantes, que a louca nunca mais tinha sentido nenhum prazer na vida.
Enlouqueceu com a morte do amado. Arrancou o piru dele e o colocou numa vasilha, chupando-o até a exaustão.
O bêbado mete selvagemente na louca. E ela grita, grita e grita enquanto é metida.
***
No meio da rua, os dois amantes dormem.
- Ai, estou com fome! Fala ela.
- É?! E o que você gostaria de comer?!
- Sei lá! Uma garrafa de Vodka seria bom!
- Mas você falou em comer e não em beber!
- A vida é assim!
- Como é?!
- Não sei! O que você é?!
- Olha, faz muito tempo que eu não sei o que sou!
- Quem eu sou?! Quem eu sou?! Quem eu sou?! Você já gozou?!
- Não! Eu sou brocha!
- Mas eu sentia... algo... Não!
A louca só percebeu naquele momento. O sangue escorria de seu pescoço. O bêbado, com olhos vermelhos e dentes afiados, diz:
- Ainda estou com fome!
E termina de matar a louca, chupando-lhe o sangue.
FIM!
Iah! Iah! Iah! Iah! Iah! Iah!

SURUBA VAMPÍRICA

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)
Ricardo passeava fatigado pela noite. Já tinha sugado o sangue de muitos mortais. A fome do estômago não mais o perturbava. No entanto, seu corpo, sua alma, ele sentia vazios. E não sabia o que fazer para preencher o vazio que lhe dilacerava a alma.
Até que ele sentiu algo. Seria algum outro ser das trevas?! Seu corpo teria sido possuído por algum demônio?! Ou um caçador estava à espreita?! Não! Ele tinha sentido a unha do dedo médio de Samanta, a vampira puta, penetrar em seu cú.
- Te espero hoje à noite, morcegão!
Samanta, depois dessa frase, tira o dedo de dentro do cú de Ricardo e lambe o sangue e a merda que estavam em seu membro. Em seguida, transformou-se em morcego e voou para longe.
Ricardo então sentiu a vontade. O desejo lhe invadia o corpo todo e ele não queria mais saber de sangue, de morte, de porra nenhuma! O que ele queria era trepar!
- Ah, eu vou comer essa vampira!
Ele fala enquanto se transforma em morcego. ***
Existia um puteiro de vampiros no Valqueire chamado Las Trevas! Nele, as orgias rolavam soltas. A princípio, os vampiros tinham de pagar para comer as vamp-putas. Mas eles ficaram tão furiosos com tal afronta contra os imortais, que decidiram mandar o proprietário do lugar para o inferno.
E foi o que fizeram. Las Trevas era o lugar mais frequentado de todo o reino maligno. Ricardo, ao entrar no lugar, viu várias vampiras e vampiros nús, transando, fazendo oral, anal, vaginal, tudo o que se pode imaginar.
Ele e Samanta se encontraram. Ela já estava nua. Ele tirou a roupa em seguida. Os dois começaram a se beijar. Depois, Ricardo começou a chupar os enormes seios de Samanta. Em seguida, sentiu a boca de Priscila, outra vamp-puta, lamber o seu pescoço e a sua orelha. Atrás dela, estava Mariano. Este metia ardorosamente no cú gigantesco de Priscila. Aquela vamp-puta tinha o maior rabão.
Os quatro se deitaram em uma cama e começaram a transar com mais intensidade. Os gemidos tornavam-se gritos. Samanta chupou a piroca cheia de goza de Ricardo. Priscila implorou para que Mariano metesse a língua em seu cú. E ele o fez. Depois, com a boca suja de merda e de pêlos, beijou a bela boca de Priscila.
A orgia continuava cada vez mais intensa até a madrugada.
***
De manhã, só existiam os quatro em Las Trevas. Dormindo, eles não perceberam que um viado dum caçador tinha invadido o recinto sombrio.
- Ah, vampiros malditos! Vocês todos serão exterminados. Eu, Cleosvaldo, em nome de Deus, os enviarei de volta para o Inferno!
Ricardo e Mariano não aceitaram aquela situação e, nús, atacaram Cleosvaldo. Este jogou água benta nos dois vampiros e, em seguida, cravou uma estaca de prata no coração de cada um deles. Ricardo e Mariano não tiveram nenhuma chance. Ao verem os corpos derretidos de seus amantes, Samanta e Priscila se entreolharam sem saber o que fazerem.
Mas, de repente uma idéia surgiu em suas mentes. Priscila se ergueu na direção de Cleosvaldo não mais transformada em vampira. Ela esfregou sua enorme bunda na piroca de Cleosvaldo. Este, fingindo não estar excitado, jogou água benta nas costas da vamp-puta. - Aiiii...
- Grite ser das trevas! E morra queimada pela água sagrada!
Apesar da dor, Priscila continuou esfregando a bunda na pica de Cleosvaldo. Este não entende. É quando Samanta se levanta da cama e vai até o caçador.
- Nós nos rendemos, Cleosvaldo! Sabemos que você é o maior dos caçadores! Mas queremos uma prova de que você é mesmo o maior! As duas vamp-putas olham taradamente para Cleosvaldo.
- Vamos! Diz Samanta. Mostre que você é o maior! Cleosvaldo não aguenta a beleza das duas mulheres e arria as calças. A piroca fica em riste. Priscila ajoelha-se e fala:
- Uau, Cleosvaldo! Você é mesmo o maior dos caçadores!
A vamp-puta começa a chupar a piroca de Cleosvaldo enquanto Samanta beija a boca dele. A boca da vamp-puta desce da boca do caçador até o pescoço.
Quando Cleosvaldo percebe, já é tarde demais. Samanta morde-lhe o pescoço e Priscila, bem, morde-lhe a pica chupando o sangue branco da goza de Cleosvaldo.
FIM!
Iah! Iah! Iah! Iah! Iah!

Thursday, March 09, 2006

SONHOS SANGRENTOS

ESTÁGIO SETE
( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

Eu choro. Na escuridão da noite, eu choro. Ninguém irá ver minhas lágrimas ou ouvir a minha lamentação. Com o tempo ele se esquecerá de mim. E é bom que isso ocorra. Que ele nunca se lembre que beijou meus lábios. Que me sentiu em seus braços. Que ele viva feliz com sua família.
Eu estou morta. Sem direito a ter filhos, amor e uma família. Envelhecer ao lado de quem se ama. Esse é o maior tesouro que se pode ter, sabendo que constituiu filhos. Que terá uma linhagem que possa ocupar o seu lugar quando você se for. Eu não posso ter filhos e sou imortal. Jamais morrerei tendo a esperança de deixar algo para trás. Jamais morrerei pois já estou morta.
Fiz bem em não matá-los. A vingança só me traria mais dor e sofrimento do que eu jamais poderia sonhar. Ele se lembraria de mim para sempre só para me odiar. E, entre o esquecimento e o ódio, eu prefiro o esquecimento. Os momentos que passei com ele não mais existirão. Essa dor que eu sinto agora irá desaparecer. E nada do que aconteceu em minha outra vida irá me influenciar mais. Eu agora não sou mais a menina apaixonada e rebelde que era. Eu agora sou e para sempre serei, uma vampira,... até o fim do mundo.
***
A dor física que eu senti depois não se compara à dor emocional que eu senti antes.
***
Meu corpo não está aqui. Por um instante eu me desespero e choro. Não sou mais uma vampira. Agora sou só espírito. Alguém levou o meu corpo. E eu não tenho pistas de quem seja. Breve, o dia irá nascer e a minha alma voltará para o Inferno. No meu corpo havia a pedra. Sem ela, não posso sobreviver de dia, mesmo fora do meu corpo.
Mas que importa?! Que importa recuperar meu corpo se nele já não há amor?! Se nele já não há felicidade ou futuro?! Se meu maior pecado foi ter desobedecido meus pais e não mantido minha virgindade, então que eu seja condenada! Que minha alma pereça no fogo do Inferno!
- Você tem certeza de que quer isso?!
- Quem?!
Eu olho para trás e não vejo ninguém.
- Quem está aí?! Apareça, seja lá quem for!
Então, o homem que estava me seguindo já algum tempo surge diante de mim. Um outro vampiro, também desgarrado de sua forma física, em forma de fantasma.
- Quem... Quem é você?!
- Não seria melhor perguntar o que eu sou?!
- Não precisa! Você é um vampiro como eu! O que quer?!
- O que eu quero...Então, ele se aproximou de mim, me olhou apaixonadamente e tocou em minhas mãos. Dois seres de forma imaterial podem se tocar. Eu pude sentir a paixão em seus olhos e vi em seus pensamentos que há tempos ele buscava a minha atenção.
- Você...
- Eu venho te observando desde que veio a este mundo!
- O que quer comigo?! É a pedra?!
- Não! Eu tenho minha própria pedra!
Ele abriu sua capa e me mostrou sua pedra. Pude sentir que ela não era minha.
- Se não está aqui pelo poder, está aqui por...
- Amor!
- Não!
Eu me viro de costas para ele.
- Eu só amei uma pessoa em todo o Universo!
- E hoje ela não te quer mais!
Eu me volto para ele, furiosa.
- Ora, como você ousa invadir a minha vida dessa forma?Avanço contra ele. Mas o vampiro me segura com força. Quando percebo que seu poder é maior que o meu, baixo minha cabeça sobre seu peito e choro.
- Por que está fazendo isso comigo?! O dia já está amanhecendo e eu morrerei de novo! Por que você não me deixa morrer em paz?!
- Eu não posso! Ele me agarra e ergue meu rosto em sua direção.
- Eu não posso! Eu... Eu tenho lhe observado há muito tempo! Eu a amo! Sei de todos os seus segredos! Quem você é, o que faz! Eu te admiro! Você deixou a compaixão sobrepujar o desejo de vingança!
- Pare! Você não sabe nada sobre mim!
- Deve ter sido muito doloroso vê-lo com outra mulher e deixá-la viver!
- Foi! Foi doloroso sim! É isso o que você quer saber, é?! Por quê?! Vai rir de mim?! Vai debochar da "vampira boazinha"!
- Não! Seu gesto de compaixão foi muito nobre!
- Eu não fiz isso por ser nobre! Eu fiz pela criança! Ninguém tem o direito de tirar o pai e a mãe de uma criança!
- Fez para vê-lo feliz!
- Ele será feliz! Já eu estarei para sempre condenada ao Inferno! Então que as trevas me traguem logo!
- Eu não deixarei! A magia de minha pedra poderá protegê-la da luz do sol... se você prometer vir comigo!
Eu olho para os olhos dele e vejo o que ele quer.
- Não! Prefiro queimar!
Então, foram os olhos dele que começaram a brilhar de tristeza. E eu vi o vampiro chorar.
- Tudo bem!
Ele fala me soltando e virando-se de costas.
- Se é o que deseja... eu irei embora!
Eu ainda o viro em minha direção e olho para ele. Vejo que ele me ama e fará qualquer coisa por mim.
- Por que?! Por que eu?!
- Porque você tem a magia e a beleza que eu jamais vi em meus últimos setecentos anos!
Fico admirada com o que ouço. Afinal, ele não parece ser tão velho assim. Por um instante, eu penso na carência, na solidão de minha vida pós-morte e, então ergo a mão para ele. O vampiro me olha. É um olhar que mistura felicidade e surpresa.
- Toque-me!
E ele me toca. Se ajoelha e beija minha mão! Quando ele se levanta, nossos lábios quase se tocam. Mas eu senti que ainda não era a hora.
- Não quero fazer isso sem meu corpo! E você sabe onde ele está, não sabe?!
- Sei! Mas... você... ficará comigo?!
- Sim! Mas... preciso saber duma coisa!
Os meus olhos ficam cheios d`água quando eu pergunto:
- Nós... Eu... Eu hesito mais uma vez antes de perguntar:
- Eu posso ser mãe?!
Ele baixa os olhos. Pude ver, pela expressão que ele tinha medo de me perder se respondesse afirmativamente. Compreendi o gesto e não repeti a pergunta. Agora eu já sabia. Eu jamais terei filhos. Nunca serei mãe.
- Mesmo assim, lutarei com todas as minhas forças para fazê-la feliz!
Eu via a sinceridade de suas palavras e de seus gestos. E o amor dele me pareceu algo tão bonito que, finalmente, eu decidi aceitar sua ajuda para recuperar o meu corpo. Ele me envolveu em sua capa e nós nos teleportamos para longe dali.
***
No caminho para a mansão onde ele vivia, o vampiro me contou sua história, talvez considerando que ao me revelar seus segredos, eu ficaria com ele. Ao perceber isso, por um instante, tive nojo daquela criatura. E já arquitetava um plano para obter a pedra de volta e fugir daquele lugar.
***
Confesso que chorei. Não suportei a dor de vê-lo naquele estado. Me arrependi de ter duvidado de suas palavras. O vampiro chorava enquanto me contava sua triste história de amor.
Um cavaleiro das trevas que outrora serviu à luz. Um homem apaixonado por sua donzela. Cujo amor puro e casto era uma tênue fagulha de bondade... em meio ao mal que assombrava aquele reino.
Ele era um príncipe. Um jovem cavaleiro com seu escudo e sua espada que desafiava as criaturas horrendas que tinham chegado à Terra. Tudo por um amor não correspondido. Montado em seu cavalo, o nobre príncipe se lembra do fardo de sua missão. Algo que o enche de culpa e, ao mesmo tempo, de esperança por um futuro melhor para sua gente.
Tudo por um simples gesto de repulsa. A mulher que ele amava sempre foi uma donzela muito caridosa. Ela doava alimentos e roupas para os mais humildes sempre que estes necessitavam. Até que, certo dia, um pobre mendigo se apaixonou pela jovem princesa.
Ele sabia que ela amava a outro e, por alguns dias, suportou a dor de ter de esconder seu amor por ela. No entanto, conforme o tempo foi passando, o amor se tornou obcessão, loucura, desejo doentio. Foi quando ele a viu novamente, junto de seu amado príncipe. Ele viu seus beijos, seus abraços e a inveja foi lhe dilacerando a alma.
Ainda assim, ele tentou suportar o mal que já havia tomado conta de seu coração. Certa tarde, a princesa via-se sozinha passeando entre os pobres que a adoravam por sua bondade e cristandade. Então, ele se ajoelhou aos seus pés e declarou:
- Formosa princesa, tu és a luz dos meus dias! O sol que ilumina meus olhos! Teu corpo é como o pão que alimenta minha fome! E minha fome, minha bela princesa, é pelo teu amor!
A princípio, a princesa apavorou-se com aquelas palavras oriundas de um estranho. Depois, viu nos olhos do mendigo que ele a amava verdadeiramente. Então, comovida, disse-lhe:
- Nobre mendigo! Tuas palavras são belas! Teu coração, vejo em teus olhos, o enorme sentimento que guardas dentro dele! Mas não se iluda! Eu amo a outro e é a ele com quem pretendo viver o resto dos meus dias!
O amor platônico cedeu então à loucura.
- Tu és minha! Meu coração já é teu! E tu serás minha!- Homem, modera tua palavra! Não quero que os guardas machuquem-te pois vejo que és bom! Só estás confuso porque apaixonou-se pela pessoa errada! Mas tal fato acontece!
- Não! Tu serás minha e só minha! Nunca mais serás dele! Nunca mais!
***
Aquelas palavras assustaram a princesa e ficaram horas em sua mente. Havia motivos para a jovem donzela assustar-se. Na noite daquele mesmo dia, o mendigo encontrou um antigo livro de magia negra e decidiu que iria lutar com todas as suas forças para ter a sua amada nos braços. Os ensinamentos daquele livro só poderiam ser decifrados definitivamente num espaço de dois anos. Mas o que motivava o mendigo naquele momento não era simplesmente o desejo pelo conhecimento, pelo poder. O amor ou a loucura que o movia o fez aprender todos os ensinamentos da noite para o dia. E foi assim que ele preparou sua emboscada contra o príncipe.
***
No outro dia, de manhã, quando os príncipes inauguravam um mercado para dar mais trabalho aos mendigos, o bruxo então surgiu em meio a uma explosão de fogo e relâmpagos.
- Príncipe maldito! Ouças o que tenho a dizer-lhe! Tua mulher não merece ser amada por ti! Mas sim por mim, que agora sou o maior de todos os feiticeiros!- Oh, meu Deus! Cuidado meu príncipe!
- Bruxo! Tua magia não me assusta! Só o poder da bondade pode superar o poder do mal! E tu, bruxo maldito, és o mal!
O príncipe tirou a espada da bainha e avançou contra o bruxo. Este disparou um raio contra o chão. O solo se partiu e uma trepadeira gigantesca, com olhos e dentes vermelhos surgiu.
- Quem invoca Trepos, o demônio das árvores?!
- Eu! Disse o bruxo. Sou teu mestre agora, demônio! Atacas o príncipe que representa o bem e tudo o que não nos convém!
- Sim! Tu és um bruxo poderoso e eu não hei de desobedecê-lo!- Então, prepare-se para retornar ao Inferno, cão!
- Meu amor, não!
O príncipe avançou contra o demônio. Este enlaçou o jovem mancebo com seus galhos, prendendo seus braços e suas pernas. O príncipe lutava com sua espada cortando os galhos que o prendiam. Mas, quanto mais galhos caíam, mais nasciam em seu lugar.
- Amor! Meu Deus! Pare, bruxo, eu lhe peço! Amo demais esse homem! Por favor, peça ao demônio para parar!
- Nunca! Agora tu serás minha para sempre!
- Não ouses tocar nela, bruxo!
Usando um bastão com um amuleto mágico na ponta, o bruxo realizou um novo feitiço em resposta. Rapidamente, a lava saiu por debaixo da cratera de onde tinha vindo Trepos. A lava transformou-se num enorme gigante de fogo. Este agarrou a princesa enquanto ela gritava desesperada.
- Não! Minha amada! Nãooo...
- Meu príncipe! Não se preocupe comigo! Lute! Lute não só com a coragem, mas com a magia também!
- Não! Não se vá!
Os camponeses e mendigos, que adoravam os príncipes, ao verem toda aquela cena, começaram a jogar pedras contra o bruxo. Este criou um campo de força que o protegia. Em seguida, sumiu junto com o gigante de fogo e a princesa.
- Não! Ele a levou! Não! Não! Não!
- Sim! E agora tu serás meu!
Os galhos elevam o príncipe em direção à boca de Trepos. O demônio abre a boca e o espetáculo de horror que o príncipe presencia é aterrorizante. De dentro da boca de Trepos o sangue encharcava e existiam milhares de almas condenadas que eram mastigadas pelos dentes da criatura.
- Tu farás parte de minha coleção, príncipe!
- Mefis topus fim!
As palavras ecoam do castelo onde o rei e a rainha moram. Os pais do príncipe foram alertados sobre o que estava havendo e convocaram o mago do lugar para acabar com Trepos. Com o feitiço, o mago faz com que o demônio-árvore apodreça e se despedaça em milhares de cinzas. Abalado com a perda de seu amor, o príncipe ajoelha-se e chora.
***
Dentro do castelo a mais completa tristeza se abala sobre as famílias do príncipe e da princesa. Mas, em meio à melancolia, uma pergunta, mistura de frustração e raiva, irrompe na sala de magia do mago:
- Por que não a salvou?!O mago se vira na direção do jovem príncipe. Este continua:- Por que fez isso comigo?! Conosco?! Por quê não enfrentou o bruxo antes que ele levasse minha amada?! Por quê?!
O mago, então falou:
- Tu não és o príncipe do reino?! Não treinaste anos a fio com teu pai e com os cavaleiros que o precederam para tornar-se um guerreiro digno de teu reino?!
- Sim, mas...
- Não há mais nem meio mais! Tu és sem dúvida um dos maiores, senão o maior cavaleiro que há nestas terras! Tu podes vencer o mais temível dos desafios! Podes e farás!
- Mas ele é um bruxo! Como poderei enfrentar um ser cujos poderes estão além de minha compreensão?!
O mago nada diz. Apenas se volta para o caldeirão e remexe o líquido gosmento que nele se encontra. Após alguns segundos de meditação, ele declara:
- A magia dele não é tão forte assim! Daqui posso vê-lo a uns cinqüenta ou sessenta quilômetros da vila!
- Onde?!
- Na floresta, próximos à grande cachoeira! O bruxo pretende desonrar sua amada e afogá-la nas águas do rio!A notícia abalou profundamente o príncipe.- Mas por que?! Se ele a ama, por que quer matá-la?!
- Para depois revivê-la... na forma de um demônio que o servirá pelo resto de seus dias!A cólera tomou novamente conta do coração do príncipe.
- Vou até a floresta agora mesmo! Falarei com o comandante e vamos invadir aquele matagal! Obrigado, mago, por me fornecer a localização de minha amada!
- Príncipe!
- O que foi?!
- O coração de quem vive no fogo só é alimentado pelo ódio! Não se esqueça disso!
O príncipe não entendeu as palavras do mago e saiu da sala.
***
Minutos depois, um exército de soldados invadia a floresta queimando e cortando as flores, plantas e árvores que existiam no caminho. A cólera tinha dominado o coração do príncipe. Enquanto ele e seus fiéis soldados destruíam a floresta na esperança de encontrar a princesa, as lembranças dos momentos felizes que tiveram juntos não saíam de sua mente. Os dois se conheciam desde pequenos. Eram amigos inseparáveis. Ficavam grudadinhos. Iam à missa todos os dias e oravam para que Deus protegesse eles, sua família e seu reino. Praticavam a caridade e a cada dia que passava, estavam mais e mais juntos.Foi na adolescência que eles descobriram o amor que sentiam um pelo outro. Isto causou alegria em todo o reino. Alegria que agora eles não têm. Separados por um mendigo, um pobre transformado em um ser das trevas com poderes inigualáveis. Sedento por uma paixão doentia. Alguém que podia sentir o fogo do ódio se aproximar.
- Ele está vindo! Disse ele ao gigante de fogo que segurava a princesa. Queime-o.
- Não! Por favor, eu faço qualquer coisa, mas não mate-o! Eu o amo muito e não quero perdê-lo!
O gigante baixou a mão com que segurava a princesa e a soltou. Rapidamente, uma força maior que a do seu corpo dominou a jovem e esta se viu aprisionada numa prisão invisível.
- Não percebe que é por isso que deves morrer?! Se ainda o amas, não poderá me amar! E se não pode me amar, não terei o que desejo!
- Pois você jamais me terá, está ouvindo?! Jamais!
O bruxo olhou para ela e viu a raiva se misturar à tristeza. Ela ainda ficava mais bela quando brava. Ele olhou então para o gigante e ordenou:
- Vá!
E o gigante se foi.
Na medida em que se distanciava de seu mestre, a criatura cuspia fogo contra a floresta. As labaredas eram tão intensas que mesmo a sessenta quilômetros do exército, elas conseguiam atingir vários soldados que morriam incendiados. Os cavalos e os outros soldados começaram a recuar. Todos menos o príncipe, o ódio em seu coração era grande. Seu eqüino já o tinha abandonado, mas ele continuava em frente. O jovem não sabia o que o sufocava mais por debaixo da armadura que revestia seu corpo, o fogo ou o ódio que pulsava em seu coração.
Então, um lampejo de sanidade surgiu em sua mente. Algo que o mago falou antes de ele partir. Ele se lembra. " O coração de quem vive no fogo só é alimentado pelo ódio."
- É claro! E o oposto do ódio é... o amor!
O príncipe baixou sua espada, sua armadura e sua roupa. Nu, em meio ao fogo, ele gritou:
- Eu te amo!
E ela ouviu. A mais de sessenta quilômetros dali, a jovem ouviu a frase de seu amado. As palavras se intensificaram em meio ao fogo. O eco fez o bruxo tampar os ouvidos. E então, o príncipe se concentrou apenas em seu amor pela princesa, nos dias felizes que passaram juntos. Na promessa de um casamento, de filhos e de bonança. E o mar de fogo se abriu para ele. As águas da grande cachoeira de onde o bruxo e a princesa estavam próximos, subiu, foi até o céu e caiu sobre o gigante de fogo destruindo-o. Mas, o mais impressionante ainda estava por vir.
Quando a água desceu de volta ao rio, o calor do fogo que ela apagou provocou um redemoinho e, de dentro de suas águas o escudo de Hollstag começou a levitar. Hollstag foi um falecido cavaleiro do reino que era considerado o maior herói de todos os tempos. O escudo foi então ao braço do príncipe e este escutou a voz de um moribundo:
- Tu és puro de coração pois venceste o gigante de fogo que me destruiu no passado! Em meio à guerra e ao desespero de ver meus camaradas de batalha e amigos mortos pela criatura, o meu coração foi tomado pelo ódio e eu não consegui vencê-lo! Mas tu provaste ser merecedor desta arma que agora dou a ti!
O príncipe, de escudo em punho avançou em direção à princesa e a prisão onde ela estava se desfez.
- Não vai tomá-la de mim! Ela é minha!
O bruxo lançou um raio contra o príncipe. O escudo defletiu o raio e este atingiu em cheio o feiticeiro. As chamas começaram então a consumir o seu corpo, que sumiu no ar.
- Meu amor, eu sabia que tu me salvarias! Tu és poderoso e bravo como só os heróis podem ser!
- Não foi o poder nem a bravura que me permitiram libertá-la, meu amor! Foi o sentimento que nos une que me deu forças para superar a feitiçaria e o mal!
Ela o abraçou. Os dois se beijaram e fizeram amor às margens do rio. A flor que existia no coração de ambos finalmente tinha desabrochado.
***
O bruxo retornou a seu esconderijo. O mendigo não parava de gritar enquanto as chamas consumiam seu corpo. Ele rapidamente abriu o livro novamente.
- Tenho de achar! Preciso me libertar das chamas! Ahhhh... Ahhhhh... Ahhhhh...
Ele encontrou o feitiço para apagar o fogo. As chamas consumiram o livro maldito. Então, o bruxo confundiu-se nas palavras e falou os vocábulos errados:
- Papum est num... Dragum!
O inevitável ocorreu. Sua pele começou a cair enquanto outra pele nascia de dentro de seu corpo. Uma pele verde escamosa. Seu nariz e sua boca esticaram, seus olhos ficaram vermelhos. A pele verde absorveu as chamas. E, gigantesco, com mais de dez metros de altura, o dragão nascia destruindo o esconderijo do bruxo. Seu grito de nascença foi desesperador. As asas nasciam em suas costas como espinhos. A dor da criação foi terrível. Agora o homem não era mais mendigo e nem bruxo, mas sim um monstro das trevas.

O VAMPIRO E O LOBISOMEM

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

Era uma noite calma, sem grandes mistérios. Carlos já tinha jantado e voltava da janta. Foram mendigos, prostitutas e viciados em drogas que tinham saciado sua sede.

Nada demais. O cardápio era o de sempre. Carlos estava bem alimentado. O que o perturbava era uma forte dor de cabeça e cravos pontiagudos que nasciam em sua testa.

O vampiro, irritado, transformou-se em um morcego e voou para casa. Sabia que não devia ter transformado Teresa em uma vampira. A mulher era bela, mas a alma era impura. Era incrível como os vampiros tinham a capacidade de matar sem dó nem piedade, várias mulheres que poderiam lhes ser fiéis, e como eles se apaixonam justamente por mulheres ingratas.

O morcego chegara em casa e já se transformava em um vampiro. Os chifres cresciam cada vez mais. Quando chegou no quarto qual não foi a surpresa ao ver Teresa deitada ao lado de um homem. Achando que era um outro vampiro, Carlos pegou o vidrinho com água benta e jogou sobre os dois corpos.

- Sua piranha! Gritou o vampiro enquanto a mulher derretia e gritava em dor.

- Não! Tenha piedade!

- Vá prá puta qui pariu, sua vagabunda! Sua puta!

- Não!

A vampira foi para o quinto dos infernos. O homem também acordou com a água benta e, ao ver o esqueleto da vampira, perguntou:

- Quem é você?!

- Eu sou o marido dessa vagabunda com quem você dormia! Mas, espere, você não é um vampiro?!

O homem misterioso se levantou, encarou Carlos e, num urro, transformou-se em um lobisomem.

- Não! Eu não sou um vampiro!

- Não! Não! Não! Tenha piedade! Aiiii...

O lobisomem ataca o vampiro e o mata selvagemente.

É, ele não era mesmo um vampiro. Iah! Iah! Iah! Iah! Iah!

FIM

SEDE DE PODER

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)
- E aí?! Trouxe o dinheiro?!
- Cinquentinha cara! Tá na mão!
- Valeu!
- Da próxima vez, dá o número da tua conta que a gente deposita na maior limpeza!
- Ué, por que?
- É que, sabe como é, vai que um desses caras da Imprensa aparece, filma nós aqui, trocando dinheiro...
- Teu patrão tá com medo de quê?! Da multa?!
- Sou eu quem tá com medo, cara! Se os repórteres nos flagram aqui, na maior transação, quem se ferra sou eu! É a minha cara que vai tá lá na telinha, não é a do meu patrão!
- Mas ele pode pagar uma multa, cara! E olha que a grana que ele vai ter que tirar do bolso não é pouca não, aí!
- E tu acha que ele liga prá isso mermão?! Meu patrão tem "amigos" na Justiça! Se acontecer alguma coisa, eles têm como arquivar o processo durante um tempo e a Imprensa esquece rapidinho o que aconteceu!
- Ué, mas então por que ele paga prá não ser multado?!
- Questão de imagem, cara! Se a Imprensa divulga a quantidade de lixo que essa empresa joga no mar, a publicidade dela queima!
- É! Tem razão! Bom! Vou nessa! Até mais!
- Até!
O fiscal entra na lancha que o tinha levado até a embarcação e sai do local. Ao longe, ele vê um dos funcionários do navio jogar uma garrafa plástica no mar. A empresa Trans-Ilvânia - Transportes LTDA não se importa com a poluição ambiental, mas sim com o lucro. Perto dali, um tubarão cabeça-chata fêmea agarra uma garrafa plástica, arremessada por um dos funcionários do navio, com os dentes. Ela leva a garrafa até seus filhotes e percebe que está faltando um de seus rebentos. A fêmea olha para trás e vê o filhote desgarrado seguir o navio, atraído pelos detritos que este joga no mar. Buscando recolocá-lo para junto de seus irmãos, ela vai atrás dele. Mas, excitada pelo lixo, ela também o segue em sua jornada. O macho permanece ao lado dos outros filhotes para protegê-los dos predadores. No entanto, a excitação pelo lixo, um fenômeno inexplicável pelos biólogos, também o atrai.
Dividido entre o instinto de preservação da espécie e o da atração pelo lixo, o macho tenta resistir à tentação. Balança o corpo de um lado para o outro tentando devorar pequenos seres a fim de aliviar a tensão. Mas, afinal, decide seguir o rumo da fêmea e do filhote, indo os três em direção às praias do Recife.


***

Ontem à noite.
Os lábios se tocam. Mão passeiam pelo corpo da menina. Ela sente ele tirar sua bermuda. Mas, de repente, um terrível pensamento a enche de pavor. Amélia se lembra de sua missão. Do quanto lutou e estudou para poder chegar na faculdade. Então, ela afasta Carlos de si antes que ele abra o fecho-ecler de sua bermuda.
- Carlos, pára!
- Ah, gata, que foi?! Pergunta ele enquanto as mãos de sua namorada o afastam.
- Sei lá! Não tô gostando disso!
- Mas, meu amor, a gente se ama! Vamo curti!
- Não! Que curti o que! Chega!
Amélia afasta Carlos de si e senta na cama improvisada. O garoto se aproxima dela e a beija no ombro.
- Que foi?! Fiz alguma coisa que cê não gostou?!
- Não! Não é nada disso! É que eu não estou a fim, tá?!
- Ué! Mas por quê?!
Ela se vira olhando para ele e fala:
- Você sabe porque.
- Por que você ainda é virgem?! Carlos pergunta olhando seriamente para Amélia.
- É! É por isso também!
- E vai ficar virgem até quando, gata?! Vai me dizer que tu pensa em casa virgem, em ir pro altar na moral vestida de véu e grinalda?!
Amélia ri.
- Você é muito bobo, sabia?!
- Sabia! Mas é isso o que mais te atrai em mim, né?!
Amélia abaixa a cabeça quieta.
- Amélia, eu sei que tu não curte essa de casa virgem! Então por que...
- Ai, Carlos, chega! Eu não quero porque não tô a fim! Porque sinto que ainda não chegou a hora!
- Não chegou a hora... ou é cê que não me quer?
Amélia vira-se na direção de Carlos e olha para ele. Ela o acaricia o rosto de seu amado e diz:
- É claro que eu te quero meu amor, mas é que eu tenho tanto medo...
- Medo de que, gata?
- Sei lá! De engravidar! De, de repente, duma hora prá outra ter de abandonar a faculdade, casar, ter filhos, assumir uma responsabilidade que eu acho que não estou pronta prá assumir!
- Cê tá com medo de fica prenha depois de fazermos amor?!
- É! É isso Carlos! Eu tenho mil planos pro futuro! Meu pai ralou prá caramba prá me botar na faculdade, tive de estudar uma montoeira de livros prá chegar onde cheguei e não quero parar agora!
- Gata, eu tenho a solução prá esse problema!
Carlos tira um pacote de camisinhas do bolso e mostra à namorada.
- Tá vendo, meu amor, como eu penso em tudo? Comprei camisinha aos monte pensando na nossa noite de amor! E é cada uma de uma cor! É só cê escolher que a gente pode ter a nossa "lua de mel" improvisada!
No entanto, a possibilidade de fazer amor com seu namorado de forma segura, não animou tanto Amélia como Carlos esperava. De modo contrário, a reação da garota o surpreendeu:
- Seu insensível! Você só pensa nisso, é?!
- Não, meu amor, não é assim...
- É assim sim! Você diz que me ama, mas será que me ama mesmo, Carlos?!
- Mas é claro, Amélia! Eu te adoro!
- "Eu te adoro"! Sei! Sei! Prá mim, você só tá a fim de me traçar, seu tarado!
- Não, Amélia! Não é nada disso! Juro!
- Ih, Carlos, tá bom! Não precisa jurar não, tá?! Agora caí fora daqui que eu quero dormir!
- Que?! Mas Amélia, e a nossa noite de amor?!
- Noite de amor uma ova! Não vou querer fazer amor com um garoto que só tá a fim de me pegar como uma qualquer!
- Mas Amélia, eu te amo de verdade!
- Ihhhhh.... Carlos, chega! Agora vá dormir na outra tenda que eu tô com sono, vai! Até amanhã!
Amélia deita na cama e se cobre. Carlos se levanta e vai até a entrada da tenda. Ele olha para sua namorada com paixão. Ela sente o olhar tentador dele. Sente vontade de agarrá-lo e de beijá-lo, mas a insegurança impera em seu coração.
- Carlos, tá fazendo o que ainda aqui, hem?! Cai fora, garoto!
Os dois ainda dão uma última troca de olhares. Até que Carlos dá "até amanhã" e vai embora. Amélia volta a se cobrir e tenta dormir. Mas não consegue. Fica imaginando como teria sido bom transar com Carlos, sentir seu amor dentro de si. No entanto, seus planos e objetivos pro futuro já estavam bem traçado. Ela iria terminar a faculdade de Serviço Social este ano. Iria finalmente trabalhar e ganhar dinheiro com aquilo que gosta: ajudar a quem precisa. Em sua mente, Amélia imagina se a camisinha de Carlos tivesse furado no momento de sua transa. Como ela ficaria diante dos pais, que se sacrificaram tanto para dar a ela um bom estudo, grávida esperando um filho de um garoto que talvez nem a amasse?! Amélia amava Carlos! Mas o medo do futuro e a insegurança que o garoto lhe traz a impedem de viver intensamente esse amor!
Já sua amiga Bia, na outra tenda, nos braços de Eduardo, não pensa nem um pouco em futuro ou insegurança. Ela agarra seu amado com força, sente ele lhe meter com selvageria enquanto lhe tira o sutian e a calcinha. Bia arranha as costas de seu amado enquanto tira-lhe a sunga. Os dois nús começam a transar intensamente. Bia sente a boca de Eduardo em seu pescoço e começa a gemer enquanto ele lhe mete cada vez mais:
- Ah.... Ahhhhh.... Ahhhhh.... Ahhhhh... Ahhh.... Ahhhhh...
Bia goza junto com Eduardo. Como ela poderia ter insegurança ou medo em relação a seu amor, depois de tudo o que eles viveram? Na adolescência, ele foi o seus primeiro homem. Aquele a quem ela se entregou de corpo e alma. No entanto, Eduardo a traiu com outra mulher e os dois terminaram o namoro. Depois dele, Bia achou que nunca mais se entregaria a outros homens. Mas entrou na faculdade e conheceu outras pessoas. E outros homens. Amou uns e teve prazer com outros, nunca pensando em compromisso. Até que ela conheceu Paulo, um homem que a encontrou bêbada, quase sem ter como ficar de pé. Este homem, ao invés de se aproveitar da situação, a levou de volta para casa. Foi dessa forma que Paulo conquistou a confiança e o interesse de Bia. Ela ficava imaginando o que ele deve ter sentido ao vê-la deitada no banco traseiro de seu carro sem sequer tocá-la. E resolveu ver até que ponto aquela curiosidade a levaria.
Em pouco tempo, os dois tornaram-se amigos. Em dois anos, ficaram noivos. Iriam se casar depois que terminassem a faculdade. Até que Eduardo ressurgiu em sua vida, divorciado e com um filho prá cuidar. A princípio, ela riu do reencontro. Achou ridículo vê-lo naquela situação: com um péssimo emprego, tendo de trabalhar para sobreviver além de pagar a pensão à mulher e ao filho pequeno. Ao passo que ela já estava noiva, faltando um ano para se formar e com uma promessa de conseguir um emprego de Serviço Social em uma firma particular.
No entanto, em seis meses, o amor que Bia sentia por Eduardo voltou e começou e a tomar conta de seu coração. Ela terminou o noivado com Paulo e declarou aos pais que iria morar com Eduardo. Eles ficaram furisosos com a atitude da filha e disseram que nunca iriam ajudá-la no que eles consideravam "uma loucura de jovem mimada". Mas Bia sabia que eles estavam zangados porque a filha iria ser mulher de um homem divorciado. No entanto, a menina deu uma "banana" para todos e foi viver com seu grande amor em uma casa de praia.
Ao fim da transa, ao se lembrar de tudo o que passou para viver ao lado de Eduardo, Bia não exita ao declarar:
- Eu te amo, Dudu! Te amo e sempre te amarei!
E Eduardo responde com a mesma paixão:
- Eu te amo também, Bia! Muito!
Os dois apertam as mãos um do outro e falam, antes de dormir:
- Para sempre!


***

Hoje de manhã.

O dia surge. Antes de Eduardo e sua amada dormirem de vez, eles transam novamente. O sol da manhã ilumina seus corpos nús sobre a cama.
Eduardo acorda e admira o espetáculo de beleza que o corpo de Bia lhe proporciona. O rapaz tinha casado com outra mulher há um ano atrás acreditando ter encontrado a pessoa ideal. Engravidou a mulher e, por força das circunstâncias, casou-se com a criatura. No entanto, apesar de ter amado sua ex-esposa, com o passar do tempo, Eduardo percebeu que a mãe de Renato não era a mulher ideal para ele. O homem chegava em casa cansado do trabalho e não havia comida pronta, a casa estava suja, a roupa para trabalhar no dia seguinte estava mal passada.
Eduardo passou apuros com sua mulher, que era extremamente gastadeira. A gota d`água foi quando cortaram a luz porque ela usou o dinheiro da conta para comprar bijouterias. Os dois brigam até hoje na Justiça prá ver quem fica com a guarda do Renato.
Agora chega de farras, Eduardo. Ele pensa enquanto acaricia o corpo de Bia. Eu amo Bia desde o primeiro momento em que a vi! Tenho um filho para criar e não posso abandoná-los! Meus dois amores! Eu os amo! E vou lutar com todas as minhas forças para ficar com vocês.
Do lado de fora da tenda, Carlos olha para o mar e vê a mancha negra de detritos se aproximar da praia. O jovem se lembra do seu primeiro beijo em Amélia. De quando a ensinou a surfar. A garota era amiga de Bia, atual esposa de Eduardo, seu melhor amigo e companheiro de ondas. Quando os dois se encontraram, Carlos achou que seu coração iria pular do peito. O jovem sempre teve tudo na vida. Ele até ama Amélia, mas sua infantilidade atrapalha-o na conquista.
Amélia e sua amiga Bia tinham ido para o mar a fim de surfar. O garoto pegou sua prancha e resolveu acompanhar as duas. De repente, ele se joga no mar, gritando:
- Tubarão! Tubarão!
- Oh, Deus! Carlos!
Amélia nada na direção de seu amado. Bia tenta alertá-la, mas é inútil. Carlos agarra a namorada, a puxa para dentro do mar e a beija. A garota se solta dele e sai da água dizendo:
- Seu idiota! Cof! Cof! Cof! Você quase me afogou! Imbecil!
- Pô, Amélia! Aí, foi mal! Tava só brincando!
- Quer brincar?! Então vai pegar uma boneca, vai!
- Pô, qual é?!
Amélia, irritada, sai da água enquanto Bia, rindo, a acompanha. Se Carlos soubesse pelo menos como mostrar o quanto ama a namorada ao invés de bancar o bobão o tempo todo talvez eles tivessem uma segunda chance. Talvez.
- Epa! Carlos sente que sua prancha esbarrou em alguma coisa.
Súbito, ele vê a mancha negra de detritos próxima de si e leva um susto quando o filhote de tubarão emerge de boca aberta.
- Meu Deus!
Ele grita. O filhote morde sua mão esquerda.
- Aiii... Grita Carlos enquanto o filhote o puxa para dentro d´água.
- Carlos!
Amélia olha para trás, preocupada com seu amado. Ela vê Carlos sendo puxado pelo filhote, mas não consegue enxergar este.
- Amélia, que foi? Pergunta Bia.
- Sei lá! Responde Amélia. O Carlos gritou! Ah, mas não deve ser nada! Vai ver, ele está só de brincadeira de novo! Esse garoto é tão infantil!
- Infantil, mas louco por você, "bróderzinha"!
-É!
- E você?!
- Eu o que?!
- Você não é louca por ele?!
- Ah, sei lá, Bia! Eu gosto dele, mas o Carlos é tão...
De repente, Amélia vê uma mancha de sangue surgir no lugar onde Carlos estava e se apavora.
- Meu Deus! Carlos!
Sem pensar em mais nada, Amélia pega sua prancha e corre entrando no mar indo em direção à mancha.
- Amélia, espere!
Bia pega sua prancha e corre atrás da amiga. Ao longe, Eduardo vê as duas correndo para o mar.
Garotas bobas! Pensa o jovem. Será que elas não vêem que o Carlos só... está... brincando?! Meu Deus!
Ele avista duas barbatanas de tubarão se aproximando da mancha de sangue. E corre com sua prancha na direção das duas garotas tentando alertá-las.
- Bia, espere! Pare! Não entre na água! Tubarão! Tubarão!
É inútil. As duas já estão próximas da mancha. Eduardo não consegue conter seu nervosismo. Seu amor por Bia é tudo para ele. O jovem só pensa nela quando entra no mar.
Nisso, Carlos grita desesperadamente enquanto o filhote o puxa mais e mais para o fundo. Em meio ao lixo que cerca ele e o animal, o surfista vê um caco de vidro. Desesperado, ele pega o caco e o crava no olho esquerdo do bicho. O filhote grita e solta Carlos enquanto seu sangue se mistura com o de sua vítima.
A fêmea vê o sangue escorrer de seu filhote enquanto o jovem nada até a superfície.
- Carlos! Grita Amélia desesperada. Carlos, cadê você?
Bia se aproxima de sua amiga e leva um susto ao ver a mancha de sangue.
- Meu Deus!
- Carlos! Oh, meu Deus, o que será que aconteceu com ele?
- Amélia, calma! A gente vai encontrar o Carlos! Eu não sei o que aconteceu mas...
Súbito, Bia vê uma barbatana afundar na água.
- Meu Deus, Amélia! Vamos sair daqui agora!
- Mas e o Carlos, Bia?!
- Amélia, esquece o Carlos! Tem tubarões aqui!
- Nãooo...
- Amélia, eu lamento...
- Iahhahahah...
Carlos surge do lado de Amélia sem a mão esquerda e com o sangue escorrendo do braço.
- Ahhh... Amélia grita apavorada.
Enquanto isso, no fundo do mar, a fêmea constata que seu filhote morreu. A vingança contra o humano que o matou a enche de ódio. Ela impulsiona seu corpo para o alto em direção a Carlos.
- Carlos... Meu Deus! Diz Amélia chorando.
- Ai! Aiiiii.... Ai.... Carlos grita em desespero enquanto nada para longe da mancha.
Bia também começa a chorar.
- Carlos... Vamos embora! Diz Amélia enquanto acompanha Carlos.
- Temos de sair daqui! Temos de sair daqui! Bia acompanha seus amigos soluçando.
A fêmea tenta morder a perna de Carlos mas acaba acertando Amélia.
- Aiiii.... Grita a jovem enquanto afunda na água.
- Amélia! Grita Carlos.
- Amélia, não! Grita Bia.
- Amélia!
- Carlos, vamos embora!
- Nãooo...
Ele mergulha e vê a fêmea devorar as pernas de sua amada puxando-a para dentro de si. Ainda armado com o caco de vidro, Carlos tenta acertá-la, mas a fêmea o vê antes e consegue surpreedê-lo soltando Amélia. Sem as pernas, a jovem tenta nadar só com os braços até a superfície. No entanto, enfraquecida pelo excesso de perda de sangue, Amélia desmaia.
Na superfície, o tubarão macho surpreende Bia abrindo a boca para ela.
- Ahh... A jovem grita em desespero.
- Não!
Eduardo lança sua prancha contra a boca do tubarão. O cabeça-chata começa a devorá-la enquanto o surfista leva sua amada para longe dali.
Debaixo d`água, Carlos corta a cara da fêmea com o caco. O animal, mais forte que seu filhote, resiste aos golpes e ataca o jovem mordendo novamente seu braço esquerdo. Carlos grita de dor e de desespero enquanto seu corpo é puxado para dentro da fêmea. Mas seu sofrimento dura pouco. O tubarão abre mais a boca, devorando a cabeça de Carlos e o resto de seu corpo.
- Vamos, Bia! Grita Eduardo. O "Touro" já deve ter devorado minha prancha e com certeza está atrás de nós!
- Oh, Dudu! Diz Bia chorando. O Carlos e a Amélia... Eles...
- Eu sei! Também estou triste por eles! Mas não é hora prá isso agora, Bia! Temos de chegar até a praia antes que seja tarde demais!
- Buááá... Buááá´... Snif! Snif!
- Oh, Bia...
De repente, o corpo de Amélia aparece de bruços boiando.
- Ahhhh.... Grita Bia se agarrando a Eduardo ao ver o corpo da amiga sem as duas pernas. Meu Deus, Dudu! É a Amélia!
Paralelamente a isso, no fundo do mar, a fêmea termina de devorar Carlos. Após saciar sua vingança, a fome começa a tomar conta de seu corpo. Seguindo o rastro de sangue de Amélia, o animal nada com rapidez em direção ao corpo de sua vítima.
- Bia, vamos embora daqui!
- Não, Dudu, a Amélia ainda pode esta viva!
- Bia, tá na cara que ela está morta!
- Não! Não pode ser! Amélia!
- Bia!
A jovem, movida pela compaixão, vai até o corpo da amiga e o vira.
- Oh, meu Deus! Amélia, não!
Bia constata que o corpo sem as duas pernas de sua amiga não mais respira. Inesperadamente, a fêmea emerge das águas e ataca o cadáver de Amélia devorando-o.
- Ahhh... Grita Bia em desespero.
- Bia, vamos embora daqui!
Eduardo pega sua amada pelo braço e os dois nadam tentando atingir a praia. Nisso, a fêmea devora o braço direito e a barriga de Amélia.
- Anda, Bia! Vamos!
A fêmea devora os peitos de Amélia e avança para o pescoço desta.
- Meu Deus! Buáááá´... Snif! Snif!
A fêmea devora quase todo o corpo de Amélia. Só sobrou o braço esquerdo. O animal, no entanto, não liga para o membro pois ele tem pouca carne. Mas, ao ver Bia, percebe que esta tem mais carne. Então, nada até a garota e seu namorado.
- Ai!
- Bia, que foi?!
- Ai, Dudu! Meu pé!
- Meu Deus! Bia, não!
Eduardo pega perna direita de Bia e vê que sua amada cortou o pé numa garrafa quebrada escondida no fundo do mar. O sangue da garota atrai ainda mais a fêmea que, rapidamente alcança os dois jovens. O tubarão emerge de boca aberta assustando Eduardo e Bia.
- Ahhh... A garota grita.
- Não!
Eduardo solta a perna de Bia e o tubarão acaba mordendo seu braço esquerdo.
- Aiii...
- Eduardo, nãooo...
Em meio ao desespero, num relance, Bia vê as marcas que Carlos deixou na fêmea com o caco de vidro! Percebendo que há um corte mais profundo no animal, a jovem pega sua prancha e atinge a ponta desta no ferimento.
- Bluaaarrr.... O tubarão grita soltando Eduardo.
Bia abre ainda mais o ferimento da fera que, sentindo dor, se afasta dos dois jovens. A garota pega Eduardo pelo pescoço e nada tentando atingir a areia. O tubarão macho, que ficou faminto depois de ter comido a prancha do amado de Bia, segue o rastro de sua fêmea e, ao vê-la, começa a atacá-la devorando-a.
- Ai! Ai! Eduardo geme de dor.
- Calma, Dudu! Calma, meu amor, a gente já está chegando! Calma!
Os dois finalmente chegam na areia. Bia coloca o corpo de seu amado sobre a areia e vê que parte do braço esquerdo de Eduardo foi devorada pela fêmea.
- Oh, meu Deus! A jovem fala soluçando.
- Oh, não! Grita Eduardo ao ver o buraco em seu braço. Não! Não! Nãoooo...
Os dois jovens choram em desespero, vítimas da corrupção.

SONHOS SANGRENTOS

ESTÁGIO SEIS
( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

No dia seguinte, de manhã abro o jornal e vejo que ocorreu uma guerra entre traficantes e policiais no Morro do Andaraí. Até aí, a batalha ocorrida na favela não tem nada a ver comigo. Se não fosse pelo fato de que um dos traficantes, baleado pela polícia, antes de morrer, confessou ter me contratado para matar o filho do industrial.
Ainda segundo o marginal, a vítima lhe devia muito dinheiro e, pelo fato de ser uma pessoa rica, achava que podia não pagar o tráfico e sair ilesa. Como eles já tinham descoberto meu antigo corpo no necrotério e já que o traficante morreu, o caso foi dado como encerrado. No entanto, houve um detalhe que passou desapercebido pelos investigadores, mas que foi denunciado pela Imprensa. Durante minha passagem pelo túnel de teleporte, dezessete anos se passaram. Isto porque o túnel é atemporal, ou seja, o tempo não é o mesmo que o da Terra. Assim, o que foi um espaço de um dia pro outro para mim, representou dezessete anos neste mundo.
Como então uma pessoa que morreu há dezessete anos, pode ter cometido um homicídio anteontem? Isso a polícia não soube responder. Na verdade, o traficante foi torturado pelos investigadores para contar a história mencionada acima. Os repórteres já estão, inclusive investigando o que ocorreu com o marginal já que a causa da morte dele não foi do tiro que ele levou, mas sim duma pancada que ele teve na cabeça. Os policiais se defendem dizendo que o criminoso caiu de cabeça no chão no momento do disparo. Mas, se foi realmente isso que aconteceu, segundo os especialistas, a morte seria instantânea, sem ter dado tempo para o marginal confessar o homicídio do filho do industrial.
Os pais da vítima também querem esclarecer que a história contada pela polícia é mentirosa pois é de seu interesse que ninguém saiba que seu filho tinha contato com traficantes. E, por maior que seja o número de testemunhas que afirmem o contrário, eles abriram um processo criminal contra a garota filha do dono de padarias por calúnia e difamação, já que foi ela quem mencionou primeiro a ligação do morto com o tráfico. Ou seja, ninguém vai saber que fui eu.
No entanto, outro fato chama a minha atenção nessa reportagem. Os repórteres investigaram minha vida e descobriram que meu pai disse que cai da escada, como se fosse um acidente. Eles averiguaram, por outro lado que meu genitor tinha fama de violento e verificaram que os legistas não consideraram que existiam marcas de espancamento em meu corpo. O caso foi dado como acidente e arquivado. Por um instante, o ódio toma conta do meu coração e eu rasgo o jornal. Saio do beco e vou andando pela rua enquanto olhares ocultos me observam de longe.
***
Eu gosto de andar pela rua quando é dia para ver a vida iluminada pelo sol. Vejo os trabalhadores correrem pelas ruas. Os casais de namorados se amando. As crianças brincando no parque. As padarias sendo abertas. O trânsito caótico da cidade. Os subornos sendo passados disfarçadamente. Os mendigos se acabando no álcool e na insanidade. As brigas. As discussões. A luta pelo dinheiro que sustenta famílias. A batalha pelo poder em algum ponto de drogas.
Todo esse imenso espetáculo existe aqui, no Brasil, há muitos anos. E, com o tempo, ele vem se deteriorando, transformando a cidade numa sucursal do Inferno. Quantas almas perdidas pela ambição sem medida. Quantos coitados que poderiam ir para o Paraíso se não fosse pelo vício. A impunidade e a corrupção podem ser vistas por todos. Mas ninguém se importa. Ninguém liga. O importante é sobreviver.Há um bom motivo para terem arquivado o caso que envolveu a minha morte. Meu pai era policial da reserva. E, além de ser um homem violento, também era corrupto. Ele conhecia amigos na polícia. E seus amigos conheciam outros entre os legistas. Foi assim que ele encobriu minha morte, minha destruição. Foi assim que ele abandonou minha mãe na mais absoluta miséria.
***
Os repórteres pediram para que os legistas fizessem um novo exame em meu corpo. Mas o estado deste estava tão deteriorado, que tal ação não pôde ser realizada. A suspeita, no entanto, ficou. E os repórteres descobriram que meu pai morreu, assassinado pela segunda esposa, que fugiu, deixando minha irmã órfã. Clarissa ficou sob a tutela do Estado, em uma instituição para menores carentes. Lá, ela se tornou viciada em drogas e assassina. Matou uma garota porque esta lhe roubou um saquinho de cocaína. Isso só piorou as coisas para ela. Clarissa foi espancada pelas funcionárias do lugar. Estas pensam que conseguiram enfraquecê-la com a surra. Não sabem o demônio que criaram no interior da menina.
***
Penso em ir ajudá-la, mas sei que ela não quer minha ajuda. Sei que ela me odeia. Que me considera culpada por tudo que aconteceu a ela e aos pais. Eu não a culpo. Clarissa era a filha que meu pai sempre quis ter. Diferente de mim, ela não tinha nada de rebelde. Só se tornou o que é por minha causa. Por minha culpa. Eu não devia tê-la usado daquela maneira. Mas tinha de me vingar de meu pai. E, a satisfação pela vingança cumprida supera meu sentimento de culpa. Se um dia, Clarissa quiser vingar a morte do pai, eu a estarei esperando.
***
Eu me lembro que nós dois estávamos muito apaixonados um pelo outro para pensar em prevenção naquele dia. Eu confiava totalmente nele e ele confiava muito em mim. Segurança. Esta é a palavra mágica que faz com que um homem e uma mulher se entreguem. O amor só se constrói com confiança mútua e isso nós tínhamos de sobra.
- Garota, o que você fez? Eu lhe falava que sonhava em ser sua esposa e a mãe de seus filhos. Que meu pai nunca iria deixar que ficássemos juntos. Que meu genitor me desejava. Que me queria só para ele.
- Desculpa, moça! Você se machucou?
Ele dizia que me amaria para sempre. Que seria sempre fiel a mim, não importasse o que acontecesse. Por isso, ao contrário das outras vezes em que nós nos amávamos, entreguei-me a ele sem nenhum cuidado, sem nenhuma prevenção. Ele dizia que iria lutar contra meu pai para me libertar do seu jugo opressor.
- Você não me reconhece?
- Você tem que ter mais cuidado, quando andar de bicicleta, garota!
- Você não me escutou?
- Que, moça? O que disse?
- Você não se lembra de mim, droga?
Eu me levanto e o espanto. Os mesmos olhos que me viam com ternura, agora me olham com medo.- Do que você está falando? Eu nunca a vi em toda a minha vida!
- Você jurou me amar, não lembra?
- O que? Desculpa, moça, mas eu sou casado!
- Nãooooo...Gritei até perder a voz. Me transformei em vampira como por instinto, assustando pai e filha. E um corpo que outrora esteve dentro de mim, balbucia:
- Deus...
- Deus não tem nada a ver com isso! Será que agora você me reconhece?!
- Papai, eu tô com medo!
- Está assustando minha filha!
- Filha! Esta é... sua... filha?! Mas você disse...
- Moça, eu não sei quem você é!
Eu comecei a chorar então, de joelhos, diante dele, e lhe disse:
- Eu te amo!
Nesse instante, os olhos do homem arregalaram:
- Espere, essa voz... Você... Não pode ser! Faz tanto tempo... desde que me casei...Ele me pegou pelos braços e me ergueu. Dessa vez, o medo foi substituído pela curiosidade.
- Me disseram que você tinha morrido! Achei que nunca mais te veria...
Eu olho para a menina e esta chora, ainda com medo.
- Você me amava?
Eu pergunto olhando fundo nos olhos dele. Ele não responde.
- Não?!
As lágrimas caem de seus olhos.
- Eu era muito jovem...
- Ahhhhh...
Eu o jogo no chão. O impacto é tão grande que acabo quebrando o seu braço direito. Ele grita em agonia.
- Maldito! Eu me preparo para atacar quando a menina me agarra pela perna e diz:
- Não, por favor, não mate meu pai! Por favor, não machuca meu papai! Por favor...
Eu olho para ela e olho para ele.
- Sua mulher... Ela te roubou de mim!
- Eu pensei que você tinha morrido!
- Você nunca me amou! Nunca! Eu... Eu morri por sua causa!
"Tire a felicidade dele!"
- O que?!
- Moça, não machuca meu papai!
A criança chora em desespero.
"A menina! Pegue a menina!"
- Pare! Quem é você?!
Ela está louca! Ele pensa, mas realmente eu comecei a escutar vozes dentro da minha mente.Não sabia se era um desejo meu. Talvez fosse. O fato é que me deixei levar pela armadilha "dele" e fiz o que não devia.
Eu olho para ele e para a menina uma vez mais e digo:
- Não vou te matar, mas você ficará para sempre, com o peso em sua memória, de que eu morri por sua causa! Por sua causa... Por sua causa...Por sua causa! Por sua causa! Por sua causa! Por sua causa!
- Ahhh...
Ele acorda no hospital sem entender o que houve.
- O que? O que aconteceu?
- Calma, querido, eu estou aqui!
- Amor, mas... e a nossa filha?! E a nossa menina, como ela está?!
- Ela está bem, querido! Os médicos disseram que você pode voltar para casa daqui a pouco! Ela o beija e, num impulso de raiva, eu mordo seu lábio superior.
- Ai! Ela se afasta assustada.
- Nossa, querido! Mesmo de cama, você é um tigrão, hem?
Ela sai do quarto um tanto quanto feliz. Um pensamento invade a mente do homem.
Por que eu a mordi?! Ele pensa.
- Amor, o que exatamente aconteceu?
- Parece que vocês foram assaltados por uma mulher! Ela fugiu, mas a polícia já a está caçando! Você não se lembra do que aconteceu?
- Não! Assalto? Mas eu achei que tinha visto...Ele pausa em sua fala, assustado.
- O que, querido? Quem você pensou que tinha visto?
- Nada! Nada não amor!
- De qualquer forma, vou conversar com o médico para saber dessa sua repentina perda de memória! Enquanto isso, repouse um pouquinho, tá? Te amo!
O homem nada responde. Uma força de dentro de seu corpo o impede de responder ao carinho da esposa.
- O que foi?!
- Que foi o que?
- Eu disse que te amo!
- Tá, amor, desculpe, mas é que eu não estou me sentindo bem! Preciso mesmo repousar!
- Tá! Tá bom!A mulher se vai. O seu olhar de desconfiança denota que é agora que o jogo começa.
***
Biquíni no lugar de livros.
Tanga no lugar de cadernos.
Era todo dia a mesma coisa. Eu arrumava minha mochila como se fosse prá escola, mas na verdade ia para a praia. Meus pais nunca desconfiaram de nada. Mas também esse era o único jeito de vê-lo. De tocá-lo, de senti-lo. E naquela manhã não foi diferente. Eu nunca gostei das aulas na escola. Em pleno verão, com um sol lindo iluminando a Terra... e aquela chata daquela professora me vem com equações do 2º Grau. Eu lá quero saber o que é isso? Mas o pior mesmo era a chatice da aula de Literatura. Falando de Mal do Século, de Romantismo. De jovens que se matavam por amor. Que chato. A gente querendo ir prá praia, ouvir música, comer churrasco, beber refrigerante e... o principal, namorar.
Eu e a minha melhor amiga inventávamos para nossos pais que íamos para a escola estudar, mas a gente saía com nossos namorados. Uma acobertando a outra. Eu conheci meu amor em uma danceteria. Nós conversamos, falamos da vida, ele quase se formando, eu ainda no ginásio. Ele era lindo quando falava e também quando ficava calado. Eu me apaixonei de cara. Também achei o mesmo dele. Nos beijamos naquela mesma noite. Ele trabalhava de tarde e estudava de manhã. Depois que me conheceu, começou a matar aula também para me encontrar.
Eu ainda o aconselhava a não fazer aquilo. Que ele já estava quase se formando. Que não valia a pena ele arriscar a sua carreira por uma adolescente. Ele dizia que eu estava certa. Mas que ele não estava arriscando a sua carreira por uma adolescente e sim por amor. Como sempre ele era muito doce comigo. Depois de um mês transamos na praia. Ele tirou uma folga no serviço só para me ver. Ele me amava. Eu sentia segurança nele. O achava muito confiante. Acredito que ele confiava em mim também. A partir daquela tarde, a minha vida mudou para sempre. Mas minha mãe desconfiou de que algo de muito ruim estava acontecendo. O meu pai sempre foi um homem muito violento e ela tinha medo que ele brigasse com ela por minha causa. Ela o amava. Acreditava que ele brigava comigo porque eu não seguia seus princípios de respeito e de honra. Ela não via a verdade e eu não tinha coragem para lhe dizer.
O meu pai me queria só para ele. Meu genitor considerava que, pelo fato de ter me criado, ele tinha o direito de ter todo o controle sobre a minha vida. Ele queria que eu fosse sua amante. Eu o achava um monstro por isso. Certa vez ele passou a mão entre minhas pernas enquanto eu dormia. Ele não sabia que eu já estava pronta. Tirei o canivete por debaixo da cama e o ameacei.
- Nunca mais encoste a mão em mim!
- Você é minha! Eu te criei e você tem que ser minha!
- Não! Nunca! Nunca!
- Você vai ser minha! Ah! Se vai!
Minha mãe não sabia ou fingia não saber o que estava acontecendo. Ela sempre ficava do lado dele e eu não conseguia suportar aquela situação. Por isso, um dia, ela abriu meu armário, leu meu diário, viu os biquínis, as tangas... e as camisinhas. Falou tudo para meu pai. E aconteceu a briga que me matou.
Eu morri por amor. Ainda me lembro do que dissemos antes de minha morte.
- Eu sempre terei você dentro do meu coração!
- E você viverá para sempre em meu pensamentos, porque você já faz parte deles!
- Eu te amo!
- Eu também te amo!
Nós nos beijamos naquela manhã de sol de mãos dadas, sem saber o que estava para acontecer. Me lembro que quando caí da escada e bati com a cabeça, um último pensamento veio em minha mente:
Eu vou morrer por amor.
E acabei morrendo mesmo por amor. Condenada ao Inferno. O sangue que escorria de minha cabeça tampou meus olhos e eu adormeci. Acordei com o cheiro forte de enxofre me intoxicando. Mas, assim que abri os olhos, já reconheci o ambiente descrito na Bíblia. Os poços de lava incandescente, os diabos lutando entre si pelo poder. Monstros. Pessoas deformadas pela transformação demoníaca. Eu seria a próxima.Amarrada de pernas e braços em uma corda que pendia sobre uma das poças, eu era torturada pelos diabos com seus tridentes espetando meu corpo. Os meus gritos foram desesperadores naquele momento. Eu só sentia dor. Não parava de chorar. Mas, um pensamento me confortava diante de todo aquele pesadelo. Que eu não tinha me rendido à opressão de meus pais. Que eu tinha tido a coragem de desafiar uma situação criminosa e vil. Mas, acima de tudo, que eu tinha morrido por amor. E que esse amor seria carregado no coração e na alma do homem que me amava.
***
Fui condenada ao Inferno e me transformei em uma vampira por amor. Amor a esse homem que agora dorme com outra mulher. Eu não tenho coragem para matá-lo. Mas ela, ela não tinha o direito de roubar meu amor de mim. Eu que o amei primeiro. Ele devia ser fiel a mim para sempre, não importasse o que acontecesse. Mas não foi. E agora ela vai pagar.
Quando eu pego o travesseiro e tento sufocá-la, ela resiste, luta para se libertar. Este corpo está debilitado, fraco demais para uma luta devido ao gesso no braço. O gesso pesa. A mulher acerta um murro em meu rosto e eu caio para o lado. Ela se levanta da cama e me encara assustada.
- Você ficou louco?!
- Você não vai ficar com ele! Não vai!
Eu avanço contra ela e a encho de tapas no rosto. A mulher cai chorando. Eu a agarro pela blusa e lhe digo:
- Está vendo como é bom ser estapeada?! Como é bom ser espancada por amor?! Foi assim que eu morri por causa desse homem... e você o tirou de mim! O tirou de mim, sua maldita!
- Não! Pare! É por causa dela, não é?!
- Que?!
- Você sempre se culpou pela morte daquela garota! Eu sempre tentei conquistar o seu amor depois que ela se foi, mas parece que não deu certo, não é mesmo?! Você ainda a ama! Ainda a quer! Como eu fui burra! Achei que isso iria mudar depois da vinda de nossa filha, mas pelo que vejo, me enganei! Mas eu não sou a única culpada! Eu te queria sim! Te amava!
- Você não tem o direito de amá-lo! Só eu!
- Pare de falar como se fosse ela! Ela morreu! Morreu! Deu prá entender?! Morreu! Nós estamos vivos e temos uma filha prá criar! Ou vai querer que ela cresça órfã!
As palavras da mulher, por um instante, me chocam. Se eu a matar, a criança que ele teve com ela, crescerá sem mãe! Um pensamento sombrio vem em minha mente! Ninguém me disse, mas eu sabia que não poderia ser mãe! E essa mulher deu ao homem que eu amo a filha que nós dois poderíamos ter! Tive vontade, nessa hora de matar a mulher e a menina! Mas, aí outra mistura de dor e de tristeza invadiu a minha mente. Os pensamentos dele. Ele tinha se tornado um pai exemplar. Era justo, não era severo. Era carinhoso, não era libertino. Tudo o que o meu pai nunca foi. Ela era uma mãe muito aberta ao diálogo e amorosa. Juntos, eles não eram uma família perfeita, mas era tudo o que eu queria ter tido. E eu vou estragar tudo agora. Matando essa mulher que nem me conhecia. Que tudo o que quis foi dar um pouco de amor ao meu amado quando este me perdeu para os braços da morte. Que lhe deu felicidade e conforto em momentos de angústia e de desespero. Que lhe deu uma filha. Eu entendo. Embora, tenha dominado este corpo, ele está lutando para se libertar, pois, sim, ele ama a mulher e a filha. Começo a chorar. A mulher não entende. Por um instante, ela hesita, mas por fim, abraça o marido. E eu chego à conclusão de que a vingança não vai fazê-lo me amar, mas sim odiar a memória da pessoa que eu fui... e não sou mais.
- Adeus, meu amor! Guarde a lembrança do nosso amor em seu coração! Eu sempre a terei dentro do meu! Quando eu saio do corpo dele, os dois me olham com uma mistura de surpresa e de dor.
- Eu o amava, mas hoje ele ama você! Eu estava errada em querer me vingar por algo que você nunca me fez! Mas, por favor, me prometa que você irá amá-lo para sempre! Por favor... não o deixe sozinho!
Após alguns instantes de espanto, a mulher responde:
- Eu vou amá-lo tanto quanto você o amou!
Eu sorrio tristemente e sumo na escuridão. Ainda escuto a mulher dizer:
- Que Deus guarde sua alma!