OS PORTAIS DO INFERNO - CAPÍTULO SÉTIMO: FUGINDO, SEMPRE FUGINDO!
( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA )
Tão logo a sereia proferiu as palavras do texto acima, a água invadiu
o chão da galeria onde a vampira se encontrava. Esta ainda consegue
correr e fugir da enchente. A vampira corre, coloca a pedra no bolso
da blusa e vai até uma escada. O nível da água começa a subir
rapidamente. Ela vai até a tampa do bueiro. Tenta de todas as
formas abrir a tampa, mas a dor dos ferimentos na mão e no rosto é
intensa.
Estou fraca demais! Pensa ela enquanto tenta desesperadamente abrir
a tampa do bueiro. Não consigo. O ferimento na mão dói! Ai! Tenho
de conseguir! Tenho de conseguir!
As ondas ricocheteiam na parede da galeria. Súbito, a sereia surge
em uma das ondas. A vampira, sangue escorrendo pelo rosto, olha
assustada para ela.
- Eu quero a pedra!
- Nunca!
- Iahhhh...
A sereia volta a mergulhar no rio. O nível da água continua a subir
cada vez mais.
Vamos! Pensa a vampira desesperadamente tentando abrir a tampa do
bueiro. Vamos! Vamos! Abre! Abre! Abre! Abre! Abre!
- Abre! Abre! Abre! Abre! Vamos, abra! Por favor, abra! Não!
Não! Não! Nãooo...
O nível da água sobe cada vez mais. Abaixo do rio, a sereia se
aproxima da vampira, chega cada vez mais perto até que...
- Abri!
A vampira usa o resto das forças que lhe restam para saltar fora do
esgoto. Depois, tampa o bueiro novamente.
- Não! Berra a sereia em desespero. Não! Não! Nãooo...
- Está molhado aí embaixo?! Pergunta a vampira debochando da
sereia. Aqui em cima está bem seco, colega! Iah! Iah! Iah! Iah!
Iah!
- Não! Não! Ainda está chovendo! Ainda há água para eu respirar!
- Por pouco tempo minha querida! Esqueceu que quem provocou essa
tempestade fui eu?! Pois com um estalar de dedos eu posso cessá-la!
A vampira estala os dedos, mas nada acontece. A chuva continua a
cair. Os raios e relâmpagos não param. Ao invocar a tempestade, a
vampira alterou os padrões climáticos da cidade. Agora, a chuva cai
sem controle sobre o Rio de Janeiro.
- Pare! Berra a vampira tentando parar a tempestade. Pare, por
favor! Pare de chover! Pare de chover! Pare de chover! Pare de
choveeeeeeeer!
Mas a tempestade não pára. Então, a tampa do bueiro se move.
- Não! Diz a vampira apavorada. Não! Não! Não! Não! Não!
Nãoooo...
A vampira pula em cima da tampa tentando colocá-la no lugar. Mas um
jato d`água a derruba e joga a tampa para longe.
A vampira, ainda com o sangue escorrendo pela mão, sente a fraqueza.
Ela sabe que dessa vez não há saída. A água desce de volta para o
esgoto.
- Agora! Anda! Anda! Anda! Cura a minha mão! Anda!
A vampira esfrega a pedra na mão e no rosto a fim de curar seus
ferimentos.
- Anda! Anda! Anda! Anda! Anda! Anda! Vai! Aiiii...
E então a pedra cicatriza as feridas da vampira. É nesse momento que
um monte d`água emerge do bueiro. No topo do monte, a vampira vê a
sereia, com o sangue escorrendo pelos seios.
- Agora é o seu fim, maldita!
A vampira se levanta e encara a sereia.
- Posso estar fraca e no seu ambiente, mas não estou ferida como
você! Eu ainda posso te vencer!
- Tola! A água me dá forças! Mesmo ferida, me sinto... ai, ai, ai,
ai, ai, ai!
O monte de água se desfaz e a sereia cai na rua. A vampira se
aproxima da adversária caída.
- O que estava dizendo mesmo, hem, sua vaca?!
- Maldita! Desgraçada! Eu ainda vou te matar! Me dê a pedra!
Anda! Eu tô mandando sua pobre!
- Você não manda em mim, madama!
A vampira chuta o rosto da sereia. Os dois dentes da frente
superiores da criatura marinha saltam longe junto com sangue.
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! A sereia ficou banguela! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah!
- Maldita seja sua mendiga!
- Sim! Sou uma mendiga sim! Mas pelo menos não estou sangrando até
a morte! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
A vampira pisa na nuca da sereia e começa a esmagar o crânio desta.
- Maldita é você que se aproveitava da roubalheira do seu marido para
comprar jóias! Maldita é você que desviava o dinheiro da Saúde
Pública para gastar em shopping-centers! E maldita é você que vivia
na fartura e na bonança enquanto mendigos como eu, passam fome!
Então, mais uma vez o inesperado ocorre. Um barulho. Uma trovoada.
Então, uma enchente invade as ruas da cidade.
- Não! Não! Não!
- Sim! Este é o seu fim, mendiga dos diabos!
A sereia agarra as pernas da vampira. É quando a enchente atinge em
cheio as duas imortais levando-as para longe.
***
Terror na delegacia.
- Socorro! Socorro! Não! Não! Não! Não! Nãooo...
O lobisomem devora cada preso e cada policial que encontra. A noite,
escura como as trevas, alimenta seus poderes. As balas são
amortecidas por seus pêlos. O chão escorrega tamanho é o sangue que
salta das vítimas do lobisomem. Partes de pele e de ossos se
espalham pelos cantos. O lobisomem se banqueteia com suas vítimas.
No final, quando a criatura termina de matar todos os homens e
mulheres da delegacia, ela emite um uivo:
- Auuuuuuuuuuuuuuuuu...
Então, o chifre do lobisomem começa a brilhar. Ele sente a presença
de algo, de uma presença profana por perto. O animal vai até o
depósito de armas. É de lá que vem a presença profana. Ele arranca
a porta do lugar. E vê o que o atraía. Outra lasca da Pedra
Filosofal. A lasca que a vampira apanhou no Inferno. Quando a
nosferato usou aquela mesma pedra para matar uma modelo, cujo corpo
foi possuído por um demônio, foi presa na hora. A polícia apreendeu
a pedra como prova do crime. A vampira conseguiu sair da prisão com
a ajuda de seu antigo amante.
Agora, o lobisomem vê a pedra e sente um estalo em sua testa. As
duas partes da Pedra Filosofal lhe dariam um poder quase ilimitado.
O lobisomem sente a atração pela pedra. Pelo poder. Por mais
imortalidade. Mas, quando estava prestes a apanhar a lasca, a
enchente que atingiu a vampira e a sereia ainda há pouco invade a
delegacia.
A força das águas puxa o lobisomem para fora do lugar. Ele ainda vê
a pedra. Tenta esticar a mão para alcançá-la. Mas aí um rato morde-
lhe o membro.
O lobisomem rasga o corpo do rato com as garras da outra mão. A
correnteza leva a lasca embora. O animal não tem tempo para se
preocupar com ela. Um verdadeiro exército de ratos parte em sua
direção. O lobisomem nada contra eles e ocorre o choque. Os dentes
dos ratos mordem suas pernas e seus braços. O lobisomem vai
devorando os ratos um por um. Seu sangue se mistura com o dos
ratos.
Debaixo d`água, as feras se mordem numa luta desesperada. O instinto
dos ratos pela perda de seus entes queridos não os deixa saírem da
batalha. Eles arranham e mordem o corpo do lobisomem. O imortal, no
entanto, não se importa. Garras e dentes do lobisomem vingam os
ferimentos em seu corpo, rasgando e devorando os ratos. Não há som
debaixo d`água, mas a cena é aterrorizante.
***
Ainda debaixo d`água, um outro confronto ocorre. A sereia morde a
coxa direita da vampira. Esta grita. A dor e a falta de ar a
enfraquecem ainda mais. A sereia aproveitá-se disso e toma a pedra
da mão da vampira.
Não! Não! Não! Pensa a vampira em desespero. Eu a perdi! Eu a
perdi! Agora nunca mais poderei ver a luz do sol novamente! Nunca
mais! Nunca mais!
Perto dali, um jovem, com uma tábua, surfa sobre as ondas da enchente.
- Olha só que demais cara! Muito maneiro!
Os colegas do jovem, em um lugar seco, observam o amigo surfar e riem.
- Esse é o mar do favelado!
- Tu não tá com medo não, cara?!
- Medo?! Eu, com medo?! Medo de que?!
- Sei lá!
- Tu acha o que, amigo?! Que uma vampira vai surgir do meio da água
e me levar pro fundo?!
- Iahhh...
- Não!
A vampira puxa o garoto pela perna até o fundo da enchente. Os
amigos do jovem correm assustados, gritando sem saber o que fazerem.
- Cadê o cara?! Cadê o cara?! Cadê o cara?! Cadê o cara?!
Os jovens tentam encontrar o amigo em vão.
***
- Socorro! Socorro! Alguém me ajude!
O homem tenta se segurar nos carros e nos destroços das casas para
escapar da enchente. Mas é tarde demais. Ele afunda e desmaia.
Súbito, braços o agarram pelas costas tentando trazê-lo para a
superfície. Após uma árdua luta contra a correnteza, o salvador do
homem consegue levá-lo para terra firme.
- Cof! Cof! Cof! Muito obrigado! Muito obrigado! Muito obrigado!
- Não há de que, mortal!
- O que?! Não! Não! Não! Nãoooo...
A sereia ataca o homem arrancando sua pele com as garras das unhas e
devorando seu corpo.
***
Do alto de um campo de futebol que não foi atingido pela enchente, a
sereia usa a lasca da Pedra Filosofal para se curar. Depois
adormece. A bela loira estava exausta, cansada. Precisava recuperar
as forças. Ao lado dela, jaz um esqueleto humano. Ela olha para
ele. Depois, olha para o mar formado pela enchente ao redor do campo
de futebol. A chuva não pára e os pingos são como um alimento para
seu ser. Os dentes que ela tinha perdido há pouco renascem de forma
devagar.
Ela se lembra de seu pai. O demônio que a recriou. Que lhe deu o
poder e a imortalidade, tentou estuprá-la. Ela se lembra do pênis
dele rasgando seu rabo de peixe, procurando lhe meter de qualquer
jeito. A dor foi enorme.
- Você não pode mais fazer sexo!
A frase desperta a sereia. Ela acorda. Ela sente. O demônio não
pôde estuprá-la porque ela não tinha vagina.
- Oh, não! Isso quer dizer... Não! Não! Não! Não!
A sereia chora. Só naquele momento ela percebeu. Embora tivesse as
mais belas formas que todo homem gostaria de ter nas mãos, ela jamais
poderia transar.
- Não! Não! Não! Não! Nãoooo...
Eternamente condenada a viver sem sentir prazer. Sem experimentar um
corpo de homem sobre o seu. E, ao mesmo tempo, presa a uma forma tão
bela que atrai os homens para o mar e para a morte. Esta é a
maldição da sereia. A maldição que lhe perseguirá até o fim dos dias.
***
O rio corre próximo a uma planície seca. De repente a água torná-se
vermelha. E o cadáver do garoto que surfava ainda há pouco na
enchente, bóia levado por uma correnteza de sangue.
- Iahhh...
A vampira grita quando consegue colocar a cabeça para fora d`água.
Nadando, ela luta contra a correnteza para chegar até a planície. A
coxa ferida, no entanto, atrapalha a vampira. O sangue escorrendo
por sua perna torna-a pesada. É como se tivessem amarrado uma bola
de chumbo em seu pé. A vampira não desiste. Nada, nada, nada até
que...
- Aiiii...
Finalmente ela alcança a superfície da planície. A ferida em sua
coxa, no entanto, dói.
- Ai! Ai! Ai! Aiii...
A vampira se arrasta pela grama enquanto o sangue escorre cada vez
mais de sua coxa. Quando se vê totalmente livre da enchente, vira o
corpo de barriga para cima e fecha os olhos.
Eu não entendo! Ela pensa em meio à imensa dor que está sentindo.
Sempre ouvi dizer que os vampiros são seres imortais! Tiros, facas,
nada pode destruí-los! E aqui estou eu, sangrando até a morte por
causa da mordida duma sereia! Ai!
A vampira se contorce. Sua mão direita toca o ferimento em sua coxa.
Talvez eu tenha me tornado muito dependente da pedra! Pensa a
vampira concentrando-se no sangue que sugou do garoto e na energia
que a escuridão da noite lhe transmite. Tenho que... tentar... o
encantamento!
- Ferim... nefus... cure!
Nada acontece. O sangue continua a escorrer da ferida e a vampira
sente a fraqueza.
- Vamos! Ai! Ferim nefus cure! Ferim nefus cure! Ferim nefus
cure! Ai! Ai! Aiii...
Ela chora. Lágrimas saltam de seus olhos. A vampira pressiona as
pálpebras. Concentrá-se.
- Ferim nefus cure! Ferim nefus cure! Aiii... Feeeerim neeeefus
cuuuuuuureeee... Iahhh...
E a ferida cicatriza, parando de sangrar.
- Ai, graças a Deus! A vampira cai para trás, suando frio.
Obrigada, Deus! Obrigada!
De repente, ela sente um estalo em sua coxa. Então, a dor da dentada
recomeça.
- Não! Grita a vampira chorando. Não! Não! Nãoooo...
E a ferida se abre maior, derramando ainda mais sangue pela relva.
- Aiiiii...
A vampira berra chorando. É nessa hora que ela sente um estalo em
seu peito. E uma sensação conhecida, um elo simbiótico há muito
esquecido, a faz sorrir.
- É ela! Ai, Deus seja louvado! É ela! A minha pedra! A pedra que
me deu o poder! A pedra que me transformou em um nosferato! Ela
está aqui por perto! Posso senti-la! Aiii...
A vampira virá-se de bruços e se arrasta novamente pela grama.
- Ai, vamos! Esquece a dor, garota! Vamos! Ai!
A vampira se concentra na força da noite para suportar a dor. Ao
longe, ela escuta as vozes de dois criminosos.
- Mermão, olha só o que encontrei!
- Uau, cara! Que pedra bonita!
- Essa pedra deve valer uma cara! Se a gente vender ela, nunca mais
vamos ter de assaltar caixa eletrônico!
- Que é isso, cara?! Mesmo que a gente venda essa pedra por um bom
preço, não vamos desperdiçar a grana que a gente tá faturando com os
assaltos!
- Essa pedra é minha!
Os dois assaltantes viram-se para trás e vêem a garota caída próxima
a uma árvore, com o sangue escorrendo de sua coxa.
- Essa pedra me pertence! Ela berra em tom impositivo. Me devolvam
agora mesmo!
- Ih, olha a patricinha querendo dar ordem na gente, mano!
- Me devolvam a pedra agora!
Um dos assaltantes vai até a garota e a esbofeteia.
- Não vem gritar com a gente não! Berra o assaltante sacando um
revólver. Não vem gritar com a gente não que eu te mato, sua
vagabunda!
- Iahhh...
- Deus, nãooo...
A vampira crava os dentes no pescoço do bandido. Este não pára de
atirar contra o peito do nosferato enquanto ela chupá-lhe o sangue.
- Nossa Senhora! Grita o outro assaltante enquanto a pedra não pára
de brilhar em sua mão.
Quando termina de matar o bandido, a vampira se ergue. O sangue
ainda escorria de sua perna, mas ela estava mais forte do que nunca.
- Bem melhor! Diz a vampira lambendo o sangue de seus dedos enquanto
os ferimentos no peito cicatrizavam. Até que o sangue desse inútil
era bem delicioso!
- Nãooo...
O assaltante saca um revólver e dá um tiro na testa da vampira. O
impacto do disparo foi tão forte que virou a cabeça do nosferato para
trás. O corpo da vampira, no entanto, continua de pé.
- Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Não! Não! Não!
Nãoooo...
A vampira tira a bala de sua testa com a mão direita. Em seguida,
ela vira a cabeça voltando-se para o assaltante.
- Tome sua bala de volta!
- Nãooo...
Ela atira a bala acertando a testa do bandido. Este cai morto.
A vampira tira a pedra da mão do morto e a encosta na ferida em sua
coxa. O ferimento cicatriza e pára de sangrar bem como o buraco em
sua testa.
- Ah, finalmente! Fala a vampira sentindo-se mais forte. Agora, eu
entendo! Ferimentos comuns podem ser cicatrizados sem o auxílio da
pedra! Já ferimentos causados por outros imortais, só a pedra pode
curar!
A vampira ergue o corpo e observa a enchente que assola a cidade
enquanto a chuva não pára de cair.
- Agora finalmente estou livre daquela miserável! Tomara que as
águas da enchente a tenham levado para bem longe daqui! Maldita!
A vampira se transforma em morcego e voa para longe dali. Agora, ela
e a pedra eram um só ser novamente.
***
Segundos após a saída do morcego, pedaços e sangue de ratos bóiam na
água próxima à planície. Erguendo-se das águas, surge o lobisomem
com o corpo todo ensangüentado. O animal, enfraquecido pelas
mordidas dos ratos, cai sobre a relva. O chifre brilha em sua
testa. Rapidamente, os ferimentos cicatrizam e o sangue pára de
escorrer. O lobisomem dorme tentando recuperar o fôlego. Ele se
recupera da batalha recente contra os ratos enquanto uma outra se
aproxima.
- Grr...
O lobisomem escuta o grunhido e acorda. O animal se levanta e vê um
leão, com a boca manchada de sangue, se aproximar. A água da
enchente invadiu o zoológico. O nível do rio cresceu a tal ponto que
quase afogou o leão em sua jaula. O animal usou toda a sua força e
conseguiu abrir sua prisão. Aproveitando-se que os funcionários
lutavam para não se afogar na enchente, o leão os atacou devorando
seus corpos.
- Grr...
- Au!
- Grr... Grrr... Grrr...
- Au! Au! Au! Au!
Os gritos de guerra prenunciam a batalha. O leão salta sobre o
lobisomem e morde-lhe o braço esquerdo. Ratos, pulgas, formigas e
aranhas aproximam-se para presenciar o combate. O lobisomem crava as
garras de sua mão direita na barriga do leão, abrindo-a.
- Grrr... Grita o leão enquanto as tripas caem de seu corpo.
- Auuuuuu...
O lobisomem crava o chifre na garganta do leão atravessando-a. O
animal cospe sangue enquanto a vida escapa-lhe do corpo. O leão
cai. O lobisomem pega o cadáver do animal e o ergue.
- Auuuu... Berra o lobisomem anunciando a vitória.
Os outros animais, ao verem aquela cena, fogem assustados,
respeitando o novo senhor da selva. O lobisomem joga o cadáver na
enchente e as águas do rio levam para longe o corpo e o sangue do
leão.
O chifre do lobisomem brilha e o ferimento em seu braço esquerdo
cicatriza. Então, ele sente um cheiro familiar. Através de seu
olfato apurado, o lobisomem sente a presença da vampira. Ele
encontra os cadáveres dos dois assaltantes e percebe que ela já
esteve ali obtendo a outra lasca da Pedra Filosofal. O poder. Ele
podia sentir a força de seu corpo musculoso. E queria mais. O
lobisomem já era o rei da selva. Faltava agora ele ser o rei deste e
de outros mundos. Imperador da Terra. Soberano do Inferno. Rei do
Céu.
Com a outra lasca da Pedra Filosofal, o lobisomem sentia que iria se
tornar o ser mais poderoso do Universo.
Seguindo o rastro da vampira, o lobisomem dá um salto estupendo indo
parar no alto de um edifício de dez andares. Desse edifício ele
salta para outro. Saltando de edifício em edifício, o lobisomem
chega à praia da Barra da Tijuca. Ele salta sobre a areia espalhando
os grãos desta a quilômetros de distância. O lobisomem sabia que a
vampira se encontrava por ali. Mas aí, os primeiros raios do sol
atingem-lhe o corpo. O chifre recua em sua testa, que começa a
sangrar. O lobisomem se transforma no desempregado. Este cai na
areia da praia e dorme enquanto a água da chuva cai sobre seu corpo.

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