Sunday, May 07, 2006

A ESTRELA DA MORTE

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

A criança é algemada pelas mãos e pelos pés na mesa de cirurgia. A menina berra de medo.
- Não me machuquem!
Grita ela sentindo o bisturi perfurar sua barriga.
- Por favor, parem! Ai! Aiii... Não! Mamãe! Papai! Mamãe! Papai! Aiii...
Os três cirurgiões abrem o corpo da criança e começam a arrancar os órgãos de dentro dele. Súbito, um deles sente algo perfurar sua mão direita e tenta tirá-la de dentro do corpo da menina. Ele tenta tirar a mão, mas não consegue. Então, começa a gritar:
- Ai! Alguém me ajude! Ai! Ai! Aiii...
- O que aconteceu? Pergunta um dos colegas do cirurgião.
- Não sei. Ia tirar o fígado, mas alguma coisa... ai... Não! Não! Nãooo... Aiii...O cirurgião sente algo dentro do corpo da criança mastigar sua mão. Os outros tentam ajudá-lo e puxam seu corpo para trás. A menina, sangue escorrendo pelo nariz e pela boca, não mais respirava. Quando os cirurgiões finalmente conseguem puxar o colega, o braço direito é arrancado do corpo.
- Iahh... Berra o cirurgião pulando de tanta dor enquanto sangue escorre do lugar onde estava seu braço.
- Meu Deus! Fala o outro cirurgião.
- Mas o que será que aconteceu?! Pergunta o terceiro.
É nessa hora que os dois cirurgiões escutam um urro terrível oriundo do corpo da criança. Eles se viram na direção da menina e vêem um ser amarelo, careca, com dentes e garras afiados, devorar o braço de seu colega. O nosferato amarelo se encontrava ainda dentro do cadáver da menina. Quando ele termina de devorar o braço do cirurgião, o monstro se vira na direção dos outros dois médicos. Asas nascem de suas costas e ele berra ao senti-las. Os dois cirurgiões correm. Mas aí, o nosferato amarelo voa na direção de um deles, o agarra pela cabeça e começa a morder seu pescoço sugando-lhe o sangue. O cirurgião sem o braço vê a cena e abre a porta do depósito.
- Me ajudem! Ele grita aos dois seguranças que montavam guarda no depósito.
- Meu Deus! Diz um dos seguranças ao ver o cirurgião sem o braço.
- Iahh...
Os dois seguranças e o cirurgião sem o braço escutam os berros do terceiro médico e ficam apavorados.
- Fique aqui, doutor, que nós vamos ver o que está acontecendo lá dentro! Diz um dos seguranças enquanto ele e o colega entram no depósito de armas em punho.
- Está bem! Está bem!
O cirurgião sem o braço cai. A excessiva perda de sangue enfraqueceu seu corpo e o médico desmaiou.

***

Dentro do depósito, os dois seguranças caminham na mais profunda escuridão. Eles passeiam por corredores repletos de cilindros com órgãos humanos dentro. Fígados, estômagos, pâncreas, corações. Toda aquela mercadoria tinha sido arrancada dos corpos de pessoas pobres e ia ser vendida às pessoas ricas. A polícia e a Justiça nada fazem contra os criminosos. Afinal, estes eram contratados por pessoas poderosíssimas ao passo que suas vítimas eram sempre pessoas humildes. E quem é que se importa com os pobres no Brasil, não é mesmo?
Os dois seguranças chegam até a mesa de cirurgia, onde o corpo da criança se encontrava todo aberto. Eles não se impressionam e nem se importam com a cena pois já a tinham assistido milhares de vezes. Os dois seguranças passam pelo cadáver da menina sem perceberem a criança abrir seus olhos negros. Então, a menina renasce com dentes e unhas afiados. Ela ataca um dos seguranças abocanhando-lhe o pescoço.
- Aiii...
O outro segurança fica petrificado de pavor. A menina sugava o sangue do guarda enquanto seu fígado e seus rins caíam no chão do depósito. O corpo do segurança cai morto e a menina se vira para o colega deste.
- Eu... Eu... quero... seu... coração!
- Nãooo...
O segurança berra atirando contra a menina. A força dos tiros é tão grande que os braços da criança caem. O corpo fica todo perfurado de balas. Mas, a menina continua andando na direção do segurança. Este caminha para trás tentando se afastar da criatura. Mas não consegue. A menina chega próxima ao segurança.
- O que você quer? O que você quer? O que você quer?A pergunta apavorada do segurança muda de sentido quando as balas do revólver acabam:
- O que você é?
A menina, sangue escorrendo pela garganta, olha profundamente nos olhos do segurança.
- Eu... sou... Eu... sou...
Alguns segundos se passam enquanto a menina geme as palavras acima. Até que dois braços amarelos saem da barriga aberta da criança e, com garras, perfuram o peito do segurança.
- Aiii...
- O Conquistador! Berra o nosferato amarelo saindo do corpo da menina, que cai para trás.
- Nãooo...
O segurança berra de dor quando O Conquistador arranca seu coração e devora este. É quando o nosferato vê o cirurgião sem o braço encostado à porta do depósito. O Conquistador voa na direção do médico. Este tenta fechar rapidamente a porta. Quando consegue, sente as batidas da criatura na porta e treme de medo. Com apenas um braço, o cirurgião tenta tirar um celular do bolso e discar um número. As batidas contra a porta aumentam.
- Anda! Fala o cirurgião tentando discar o número enquanto usa o corpo para manter a porta trancada. Atende! Atende! Atende!
É quando braços amarelos com garras atravessam a porta e agarram o cirurgião. O celular cai. O cirurgião ainda luta para tentar alcançar o telefone e consegue esticar o corpo. Mas aí, a cabeça do Conquistador atravessa a porta. E, pelo buraco que a criatura fez nesta, o corpo todo do Conquistador sai do depósito e cai sobre o cirurgião mordendo o pescoço deste.
- Aiii... Grita o médico sentindo o resto de seu sangue fluir para o corpo do Conquistador.
- Não! Berra O Conquistador largando o cadáver do médico enquanto os raios do sol queimavam seu corpo. Não pode! Não quero! Não quero! Nãooo...
E os raios amarelos do sol derretem o corpo da criatura. Tudo o que restou do Conquistador foi uma poça de ácido incandescente.

***

EPÍLOGO:

Cidade de Deus. Um ano atrás.
- Olha lá, Rodrigo! Grita a menina apontando para um ponto luminoso que caía do céu. Uma estrela tá caindo! E em plena luz do dia!
- Vamos lá ver, Amanda!
Amanda e Rodrigo correm até o lugar onde a estrela tinha caído. As duas crianças se apressam em assistir a estrela caída como se apostassem corrida. Coisas de crianças que, mesmo sendo pobres, ainda acreditam na maravilha que é a vida. Amanda chega antes de Rodrigo num rio onde o esgoto corria a céu aberto.
- Iahh... Grita O Conquistador sentindo os raios do sol queimarem seu corpo.
- Meu Deus do Céu! Berra Amanda, assustada com o aspecto horripilante da criatura.
O Conquistador olha para Amanda. E percebe que esta é a sua última esperança de sobrevivência. Ele encolhe o corpo diminuindo de tamanho até se transformar em fumaça. Esta entra pela boca, ouvidos e narinas de Amanda. O cheiro forte da fumaça faz a menina desmaiar. Rodrigo chegara ao rio e, ao ver Amanda desmaiada, chamou os pais da menina. Os dois levaram a criança para o hospital. Os médicos cuidaram de Amanda e disseram que ela sofreu uma pequena intoxicação, que não era muito grave.
Eles não sabiam que Amanda tinha sido possuída por um monstro, por uma criatura que já tinha dizimado planetas. Mundos onde o sol vermelho não enfraquecia O Conquistador. Por isso, a Liga Galáctica resolveu exilar a criatura na Terra. O planeta onde o efeito estufa destrói a camada de ozônio. E o calor dos raios amarelos do sol pode destruir até o mais poderoso dos seres.

FIM

Monday, May 01, 2006

OS ESCRAVOS DO TERROR

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

- Não! Não! Nãooo... Pára! Pára! Pára! Eu não agüento mais, feitor! Pare! Pare! Pare! Aiii...
O escravo não suporta as chicotadas. Berra e chora de dor. O feitor, insensível às súplicas do negro, continua o seu trabalho. Não que ele não gostasse do escravo. Era pago para torturar e não tinha motivos para pôr fim aos açoites. Só quando o Barão de Madureira ordena, é que ele pára de açoitar o negro.
- Já chega, feitor! Desse jeito, você me estraga a mercadoria! Pode ir cuidar dos outros escravos!
- Sim, senhor Barão!
- Isso não é justo! Chora o negro tristemente. Por que eu não tenho o direito de ser livre?! Por quê?!
O Barão de Madureira caminha até o negro e lhe diz:
- Você está reclamando do quê?! Da falta de liberdade?! Você tem casa e comida de graça, seu crioulo safado! Tem gente que trabalha, dá duro prá ter onde dormir! Você dorme na senzala de graça e ainda reclama!
- Do que adianta ter onde dormir?! Do que adianta ter o que comer, se trabalho desde o alvorecer do dia até o sol se pôr?!
- Olha, você não me venha como histórias, ouviu?! Não me venha com histórias que eu gastei muito dinheiro prá te ter de volta!
O feitor se vai. O Barão de Madureira ordena a dois capatazes que tirem o escravo do tronco e o levem para a senzala. Os empregados obedecem o Barão. O nobre vai até a Casa Grande. E se arruma para ir à igreja.

***

- Irmãos, todos nós somos filhos de Deus! Fala o Arcebispo durante a missa. Nós, que nascemos brancos e abençoados pela nobreza, somos filhos de Deus! Por isso, pratiquemos a caridade! E não nos esqueçamos das palavras de Cristo: Amai-vos uns aos outros como eu voz amei!
Após as palavras do Arcebispo, escutá-se um estrondoso Amém. O Barão de Madureira ora ao lado de sua esposa e de seus três filhos. No final da missa, o Arcebispo vai cumprimentar o Barão e sua esposa. O filho mais velho vai cortejar sua futura noiva. Os dois mais novos, um menino e uma menina, vão brincar com um grupo de crianças do lado de fora da igreja, sob o olhar atento de sua mãe. O Barão de Madureira aproveita a ausência da esposa para conversar mais discretamente com o Arcebispo.
- E então?! Tudo pronto para hoje à noite?!
- Sim! Só tenho um receio!
- Fale, Arcebispo!
- A criatura já matou três dos meus escravos! E confesso que isso me incomoda! Os escravos me custaram dez contos de réis! Sei que o tesouro que nos aguarda é maior... mas não quero ficar no prejuízo!
- Entendo, Arcebispo! Mas, infelizmente, um escravo tentou fugir da fazenda à noite passada e tive prejuízos ao capturá-lo!
- Mas e o meu prejuízo, senhor Barão?!
- Senhor Arcebispo, eu vou recompensá-lo, juro!
Os dois continuam discutindo. Eles não percebem. Aliás, nem ligam para o pobre próximo a eles. Mancando de uma perna, o pobre escuta a conversa do nobre e do clérigo. E sente que a hora da caçada se aproxima.

***

Quando anoitece, o pobre vai para a igreja. Com dificuldade para se locomover, devido ao defeito na perna, ele se ajoelha e ora pela caçada desta noite.
- Deus Pai Todo-Poderoso, me dê forças para cumprir a missão que meu pai deixou-me de herança! Ajude-me a combater as forças das trevas, com o poder da fé! Amém!
O pobre faz o sinal da cruz. Ele se apóia sobre o banco de madeira para se levantar. Faz uma expressão de dor. O defeito na perna foi a herança de sua infância pobre. Seus pais eram filhos de pequenos agricultores e seguiram a profissão da família. O trabalho duro na roça e nas caçadas não lhes permitiam ter uma vida confortável. Mas a fé em Deus lhes davam forças para continuarem a luta em nome de Deus. A má alimentação enfraqueceu o corpo do pobre. E sua perna acabou pagando um alto preço.
O Padre sai da sacristia e aproxima-se do pobre.
- É verdade?! Pergunta o sacerdote cochichando no ouvido do pobre.
- Sim! O Arcebispo e o Barão de Madureira aliaram-se ao Demônio, Padre!
- Está com fome?
- Um pouco.
- Vamos para a sacristia comer alguma coisa, então!
O Padre ajuda o pobre a ir até a sacristia. Nela, o pobre sentá-se numa cadeira próxima a uma mesa de mármore. Ele come vorazmente dois pães com ovos enquanto bebe um copo de leite.
- A situação não poderia estar pior! Fala o Padre enquanto belisca algumas uvas numa cesta sobre a mesa. O Barão de Madureira é a maior autoridade daqui! E agora o Arcebispo também está envolvido!
- O que a Igreja de Roma acha disso?
- As ordens são bastante claras! Quem se alia ao Demônio deve ser queimado com ele!
- Vou fazer o serviço esta noite, então!
- Mas eu não tenho dinheiro!
- Então nada feito!
O Padre e o pobre se olham seriamente por um instante.
- Preciso de dinheiro para comprar mais flechas!
- Mas e a Igreja?! Já encomendei a compra de dez imagens para enfeitá-la e não posso quebrar o compromisso!
- Então compre as imagens para enfeitar sua igreja e deixe o povo morrer nas mãos dos filhos de Satã!
- Está bem! Está bem! Pôxa, você devia ser mais ligado à Igreja!
- Sou ligado ao povo de Deus! E é por esse povo que eu combato os seres das trevas!
- Está bom! Está bom!
O Padre tira uma caixa duma gaveta. De dentro da caixa, o sacerdote pega o dinheiro e o entrega ao pobre. Este conta o dinheiro e fala:
- Agora sim o senhor falou a minha língua, Padre!

***

Tarde da noite.
Uma criatura das trevas encontrá-se acorrentada pelos pés e pelas mãos. Ela sente o cheiro insuportável dos ramalhetes de alho sobre seu corpo. E geme desesperada tentando se libertar. Mas é inútil. O alho enfraquece seus poderes. Então, tenta gritar por socorro, por ajuda. Mas a mordaça de ferro em sua boca a impede de falar e o vampiro só consegue emitir grunhidos agonizantes.
O Arcebispo e o Barão de Madureira aproximam-se do vampiro caído e amordaçado.
- Está desesperado, não está? Fala o Barão de Madureira sorrindo para o vampiro.
O nosferato, entretanto, mal consegue falar.
- Não se preocupe, meu amigo! Fala o Barão tirando a mordaça da boca do vampiro. Em breve, seremos irmãos!
- Por favor, me liberte! Grita o vampiro desesperado. Eu lhes darei a vida eterna de bom grado! Agora, por favor, me libertem! Não me machuquem, por favor!
- Acha que somos idiotas?! Se o libertarmos, você irá matar a todos nós! E sabe como eu sei disso?! Porque se fosse comigo, eu faria o mesmo!
Um dos dois capatazes, que montavam guarda do vampiro, olha para o Arcebispo. Este faz um sinal com a cabeça. O capataz, com um facão, corta o pulso direito do vampiro enquanto o outro bota um balde em baixo do membro ferido.
- Aiii... Berra o vampiro enquanto seu sangue inunda o balde.
- Finalmente! Fala o Barão de Madureira com os olhos brilhando de cobiça. Agora o poder da vida eterna é meu! Todo meu!
O Barão pega o balde e bebe todo o sangue que nele existia.
- Espere! Fala o Arcebispo avançando contra o nobre. Você prometeu me dar a vida eterna também!
O Barão de Madureira larga o balde e avança contra o Arcebispo abocanhando-lhe o pescoço.- Iahhh... Grita o sacerdote enquanto o nobre sugá-lhe o sangue.
Assustados, os dois capatazes ficam de espingardas em punho. Após matar o Arcebispo, o Barão de Madureira se vira na direção dos dois empregados. Estes ficam apavorados. Os dentes do Barão estavam afiadíssimos, sua pele estava pálida e seus olhos, vermelhos. Tão vermelhos quanto o sangue que escorria de sua boca. O Barão de Madureira passa a língua pela boca e diz alucinado:
- Sangue! Mais sangue!
Os dois capatazes atiram contra o Barão de Madureira. Este sente o impacto dos disparos mas seus ferimentos cicatrizam. O Barão de Madureira salta sobre os dois capatazes e dá um forte tapa em um deles. O golpe foi tão poderoso que arrancou a cabeça do empregado. O nobre abocanha o pescoço do outro capataz e suga o sangue deste. Quando o corpo sem vida do empregado cai, o Barão de Madureira escuta uma batida na porta. Depois outra e mais outra, até que o pobre, com um chute, consegue arrombar a porta. Cambaleando, devido ao defeito em sua perna, o pobre cai.
- Hummm... Faz o Barão de Madureira lambendo o sangue de sua boca. Mais sangue para sugar!
O Barão aproximá-se do pobre caído. Este, desesperado, molha uma das flechas com água benta e a coloca no arco. Quando o Barão de Madureira salta sobre seu corpo, o pobre atira a flecha contra o peito do nosferato.
- Nãooo... Berra o Barão de Madureira enquanto seu corpo explode em chamas. Eu tenho o poder! Eu tenho o poder! Eu sou imortal! Eu sou imortal! Iahh...
Ainda em chamas, o esqueleto do Barão de Madureira cai. O pobre desviá-se a tempo e se levanta apoiando-se na parede. E o fogo finalmente consome o corpo do Barão de Madureira. Um vento frio entra por uma janela e leva as cinzas do Barão de Madureira. Dele e do outro vampiro, que não suportou a perda de sangue e a fraqueza causada pelo alho. O pobre agarra o terço em seu pescoço, o beija e diz:
- Obrigado, meu Deus! Obrigado!

***

No dia seguinte, correu a notícia da morte do Arcebispo, do vampiro e dos dois capatazes. A roupa do Barão e alguns ossos também indicavam a morte do nobre. O Padre declarou luto oficial por três semanas em respeito à morte de duas das mais ilustres figuras da nobreza e do clero. Um mês depois, o Padre foi nomeado como o novo Arcebispo, o que era sua ambição desde que soube que o antigo sacerdote tinha um pacto com o diabo.
Quanto ao pobre, continua carregando sua cruz, como caçador a serviço de Deus. Isto até o dia de sua morte. Porque todos nós, ricos ou não, libertos ou escravos, um dia morremos. Porque tudo o que tem um começo... tem um fim!

FIM