SONHOS SANGRENTOS
ESTÁGIO SETE
( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)
Eu choro. Na escuridão da noite, eu choro. Ninguém irá ver minhas lágrimas ou ouvir a minha lamentação. Com o tempo ele se esquecerá de mim. E é bom que isso ocorra. Que ele nunca se lembre que beijou meus lábios. Que me sentiu em seus braços. Que ele viva feliz com sua família.
Eu estou morta. Sem direito a ter filhos, amor e uma família. Envelhecer ao lado de quem se ama. Esse é o maior tesouro que se pode ter, sabendo que constituiu filhos. Que terá uma linhagem que possa ocupar o seu lugar quando você se for. Eu não posso ter filhos e sou imortal. Jamais morrerei tendo a esperança de deixar algo para trás. Jamais morrerei pois já estou morta.
Fiz bem em não matá-los. A vingança só me traria mais dor e sofrimento do que eu jamais poderia sonhar. Ele se lembraria de mim para sempre só para me odiar. E, entre o esquecimento e o ódio, eu prefiro o esquecimento. Os momentos que passei com ele não mais existirão. Essa dor que eu sinto agora irá desaparecer. E nada do que aconteceu em minha outra vida irá me influenciar mais. Eu agora não sou mais a menina apaixonada e rebelde que era. Eu agora sou e para sempre serei, uma vampira,... até o fim do mundo.
***
A dor física que eu senti depois não se compara à dor emocional que eu senti antes.
***
Meu corpo não está aqui. Por um instante eu me desespero e choro. Não sou mais uma vampira. Agora sou só espírito. Alguém levou o meu corpo. E eu não tenho pistas de quem seja. Breve, o dia irá nascer e a minha alma voltará para o Inferno. No meu corpo havia a pedra. Sem ela, não posso sobreviver de dia, mesmo fora do meu corpo.
Mas que importa?! Que importa recuperar meu corpo se nele já não há amor?! Se nele já não há felicidade ou futuro?! Se meu maior pecado foi ter desobedecido meus pais e não mantido minha virgindade, então que eu seja condenada! Que minha alma pereça no fogo do Inferno!
- Você tem certeza de que quer isso?!
- Quem?!
Eu olho para trás e não vejo ninguém.
- Quem está aí?! Apareça, seja lá quem for!
Então, o homem que estava me seguindo já algum tempo surge diante de mim. Um outro vampiro, também desgarrado de sua forma física, em forma de fantasma.
- Quem... Quem é você?!
- Não seria melhor perguntar o que eu sou?!
- Não precisa! Você é um vampiro como eu! O que quer?!
- O que eu quero...Então, ele se aproximou de mim, me olhou apaixonadamente e tocou em minhas mãos. Dois seres de forma imaterial podem se tocar. Eu pude sentir a paixão em seus olhos e vi em seus pensamentos que há tempos ele buscava a minha atenção.
- Você...
- Eu venho te observando desde que veio a este mundo!
- O que quer comigo?! É a pedra?!
- Não! Eu tenho minha própria pedra!
Ele abriu sua capa e me mostrou sua pedra. Pude sentir que ela não era minha.
- Se não está aqui pelo poder, está aqui por...
- Amor!
- Não!
Eu me viro de costas para ele.
- Eu só amei uma pessoa em todo o Universo!
- E hoje ela não te quer mais!
Eu me volto para ele, furiosa.
- Ora, como você ousa invadir a minha vida dessa forma?Avanço contra ele. Mas o vampiro me segura com força. Quando percebo que seu poder é maior que o meu, baixo minha cabeça sobre seu peito e choro.
- Por que está fazendo isso comigo?! O dia já está amanhecendo e eu morrerei de novo! Por que você não me deixa morrer em paz?!
- Eu não posso! Ele me agarra e ergue meu rosto em sua direção.
- Eu não posso! Eu... Eu tenho lhe observado há muito tempo! Eu a amo! Sei de todos os seus segredos! Quem você é, o que faz! Eu te admiro! Você deixou a compaixão sobrepujar o desejo de vingança!
- Pare! Você não sabe nada sobre mim!
- Deve ter sido muito doloroso vê-lo com outra mulher e deixá-la viver!
- Foi! Foi doloroso sim! É isso o que você quer saber, é?! Por quê?! Vai rir de mim?! Vai debochar da "vampira boazinha"!
- Não! Seu gesto de compaixão foi muito nobre!
- Eu não fiz isso por ser nobre! Eu fiz pela criança! Ninguém tem o direito de tirar o pai e a mãe de uma criança!
- Fez para vê-lo feliz!
- Ele será feliz! Já eu estarei para sempre condenada ao Inferno! Então que as trevas me traguem logo!
- Eu não deixarei! A magia de minha pedra poderá protegê-la da luz do sol... se você prometer vir comigo!
Eu olho para os olhos dele e vejo o que ele quer.
- Não! Prefiro queimar!
Então, foram os olhos dele que começaram a brilhar de tristeza. E eu vi o vampiro chorar.
- Tudo bem!
Ele fala me soltando e virando-se de costas.
- Se é o que deseja... eu irei embora!
Eu ainda o viro em minha direção e olho para ele. Vejo que ele me ama e fará qualquer coisa por mim.
- Por que?! Por que eu?!
- Porque você tem a magia e a beleza que eu jamais vi em meus últimos setecentos anos!
Fico admirada com o que ouço. Afinal, ele não parece ser tão velho assim. Por um instante, eu penso na carência, na solidão de minha vida pós-morte e, então ergo a mão para ele. O vampiro me olha. É um olhar que mistura felicidade e surpresa.
- Toque-me!
E ele me toca. Se ajoelha e beija minha mão! Quando ele se levanta, nossos lábios quase se tocam. Mas eu senti que ainda não era a hora.
- Não quero fazer isso sem meu corpo! E você sabe onde ele está, não sabe?!
- Sei! Mas... você... ficará comigo?!
- Sim! Mas... preciso saber duma coisa!
Os meus olhos ficam cheios d`água quando eu pergunto:
- Nós... Eu... Eu hesito mais uma vez antes de perguntar:
- Eu posso ser mãe?!
Ele baixa os olhos. Pude ver, pela expressão que ele tinha medo de me perder se respondesse afirmativamente. Compreendi o gesto e não repeti a pergunta. Agora eu já sabia. Eu jamais terei filhos. Nunca serei mãe.
- Mesmo assim, lutarei com todas as minhas forças para fazê-la feliz!
Eu via a sinceridade de suas palavras e de seus gestos. E o amor dele me pareceu algo tão bonito que, finalmente, eu decidi aceitar sua ajuda para recuperar o meu corpo. Ele me envolveu em sua capa e nós nos teleportamos para longe dali.
***
No caminho para a mansão onde ele vivia, o vampiro me contou sua história, talvez considerando que ao me revelar seus segredos, eu ficaria com ele. Ao perceber isso, por um instante, tive nojo daquela criatura. E já arquitetava um plano para obter a pedra de volta e fugir daquele lugar.
***
Confesso que chorei. Não suportei a dor de vê-lo naquele estado. Me arrependi de ter duvidado de suas palavras. O vampiro chorava enquanto me contava sua triste história de amor.
Um cavaleiro das trevas que outrora serviu à luz. Um homem apaixonado por sua donzela. Cujo amor puro e casto era uma tênue fagulha de bondade... em meio ao mal que assombrava aquele reino.
Ele era um príncipe. Um jovem cavaleiro com seu escudo e sua espada que desafiava as criaturas horrendas que tinham chegado à Terra. Tudo por um amor não correspondido. Montado em seu cavalo, o nobre príncipe se lembra do fardo de sua missão. Algo que o enche de culpa e, ao mesmo tempo, de esperança por um futuro melhor para sua gente.
Tudo por um simples gesto de repulsa. A mulher que ele amava sempre foi uma donzela muito caridosa. Ela doava alimentos e roupas para os mais humildes sempre que estes necessitavam. Até que, certo dia, um pobre mendigo se apaixonou pela jovem princesa.
Ele sabia que ela amava a outro e, por alguns dias, suportou a dor de ter de esconder seu amor por ela. No entanto, conforme o tempo foi passando, o amor se tornou obcessão, loucura, desejo doentio. Foi quando ele a viu novamente, junto de seu amado príncipe. Ele viu seus beijos, seus abraços e a inveja foi lhe dilacerando a alma.
Ainda assim, ele tentou suportar o mal que já havia tomado conta de seu coração. Certa tarde, a princesa via-se sozinha passeando entre os pobres que a adoravam por sua bondade e cristandade. Então, ele se ajoelhou aos seus pés e declarou:
- Formosa princesa, tu és a luz dos meus dias! O sol que ilumina meus olhos! Teu corpo é como o pão que alimenta minha fome! E minha fome, minha bela princesa, é pelo teu amor!
A princípio, a princesa apavorou-se com aquelas palavras oriundas de um estranho. Depois, viu nos olhos do mendigo que ele a amava verdadeiramente. Então, comovida, disse-lhe:
- Nobre mendigo! Tuas palavras são belas! Teu coração, vejo em teus olhos, o enorme sentimento que guardas dentro dele! Mas não se iluda! Eu amo a outro e é a ele com quem pretendo viver o resto dos meus dias!
O amor platônico cedeu então à loucura.
- Tu és minha! Meu coração já é teu! E tu serás minha!- Homem, modera tua palavra! Não quero que os guardas machuquem-te pois vejo que és bom! Só estás confuso porque apaixonou-se pela pessoa errada! Mas tal fato acontece!
- Não! Tu serás minha e só minha! Nunca mais serás dele! Nunca mais!
***
Aquelas palavras assustaram a princesa e ficaram horas em sua mente. Havia motivos para a jovem donzela assustar-se. Na noite daquele mesmo dia, o mendigo encontrou um antigo livro de magia negra e decidiu que iria lutar com todas as suas forças para ter a sua amada nos braços. Os ensinamentos daquele livro só poderiam ser decifrados definitivamente num espaço de dois anos. Mas o que motivava o mendigo naquele momento não era simplesmente o desejo pelo conhecimento, pelo poder. O amor ou a loucura que o movia o fez aprender todos os ensinamentos da noite para o dia. E foi assim que ele preparou sua emboscada contra o príncipe.
***
No outro dia, de manhã, quando os príncipes inauguravam um mercado para dar mais trabalho aos mendigos, o bruxo então surgiu em meio a uma explosão de fogo e relâmpagos.
- Príncipe maldito! Ouças o que tenho a dizer-lhe! Tua mulher não merece ser amada por ti! Mas sim por mim, que agora sou o maior de todos os feiticeiros!- Oh, meu Deus! Cuidado meu príncipe!
- Bruxo! Tua magia não me assusta! Só o poder da bondade pode superar o poder do mal! E tu, bruxo maldito, és o mal!
O príncipe tirou a espada da bainha e avançou contra o bruxo. Este disparou um raio contra o chão. O solo se partiu e uma trepadeira gigantesca, com olhos e dentes vermelhos surgiu.
- Quem invoca Trepos, o demônio das árvores?!
- Eu! Disse o bruxo. Sou teu mestre agora, demônio! Atacas o príncipe que representa o bem e tudo o que não nos convém!
- Sim! Tu és um bruxo poderoso e eu não hei de desobedecê-lo!- Então, prepare-se para retornar ao Inferno, cão!
- Meu amor, não!
O príncipe avançou contra o demônio. Este enlaçou o jovem mancebo com seus galhos, prendendo seus braços e suas pernas. O príncipe lutava com sua espada cortando os galhos que o prendiam. Mas, quanto mais galhos caíam, mais nasciam em seu lugar.
- Amor! Meu Deus! Pare, bruxo, eu lhe peço! Amo demais esse homem! Por favor, peça ao demônio para parar!
- Nunca! Agora tu serás minha para sempre!
- Não ouses tocar nela, bruxo!
Usando um bastão com um amuleto mágico na ponta, o bruxo realizou um novo feitiço em resposta. Rapidamente, a lava saiu por debaixo da cratera de onde tinha vindo Trepos. A lava transformou-se num enorme gigante de fogo. Este agarrou a princesa enquanto ela gritava desesperada.
- Não! Minha amada! Nãooo...
- Meu príncipe! Não se preocupe comigo! Lute! Lute não só com a coragem, mas com a magia também!
- Não! Não se vá!
Os camponeses e mendigos, que adoravam os príncipes, ao verem toda aquela cena, começaram a jogar pedras contra o bruxo. Este criou um campo de força que o protegia. Em seguida, sumiu junto com o gigante de fogo e a princesa.
- Não! Ele a levou! Não! Não! Não!
- Sim! E agora tu serás meu!
Os galhos elevam o príncipe em direção à boca de Trepos. O demônio abre a boca e o espetáculo de horror que o príncipe presencia é aterrorizante. De dentro da boca de Trepos o sangue encharcava e existiam milhares de almas condenadas que eram mastigadas pelos dentes da criatura.
- Tu farás parte de minha coleção, príncipe!
- Mefis topus fim!
As palavras ecoam do castelo onde o rei e a rainha moram. Os pais do príncipe foram alertados sobre o que estava havendo e convocaram o mago do lugar para acabar com Trepos. Com o feitiço, o mago faz com que o demônio-árvore apodreça e se despedaça em milhares de cinzas. Abalado com a perda de seu amor, o príncipe ajoelha-se e chora.
***
Dentro do castelo a mais completa tristeza se abala sobre as famílias do príncipe e da princesa. Mas, em meio à melancolia, uma pergunta, mistura de frustração e raiva, irrompe na sala de magia do mago:
- Por que não a salvou?!O mago se vira na direção do jovem príncipe. Este continua:- Por que fez isso comigo?! Conosco?! Por quê não enfrentou o bruxo antes que ele levasse minha amada?! Por quê?!
O mago, então falou:
- Tu não és o príncipe do reino?! Não treinaste anos a fio com teu pai e com os cavaleiros que o precederam para tornar-se um guerreiro digno de teu reino?!
- Sim, mas...
- Não há mais nem meio mais! Tu és sem dúvida um dos maiores, senão o maior cavaleiro que há nestas terras! Tu podes vencer o mais temível dos desafios! Podes e farás!
- Mas ele é um bruxo! Como poderei enfrentar um ser cujos poderes estão além de minha compreensão?!
O mago nada diz. Apenas se volta para o caldeirão e remexe o líquido gosmento que nele se encontra. Após alguns segundos de meditação, ele declara:
- A magia dele não é tão forte assim! Daqui posso vê-lo a uns cinqüenta ou sessenta quilômetros da vila!
- Onde?!
- Na floresta, próximos à grande cachoeira! O bruxo pretende desonrar sua amada e afogá-la nas águas do rio!A notícia abalou profundamente o príncipe.- Mas por que?! Se ele a ama, por que quer matá-la?!
- Para depois revivê-la... na forma de um demônio que o servirá pelo resto de seus dias!A cólera tomou novamente conta do coração do príncipe.
- Vou até a floresta agora mesmo! Falarei com o comandante e vamos invadir aquele matagal! Obrigado, mago, por me fornecer a localização de minha amada!
- Príncipe!
- O que foi?!
- O coração de quem vive no fogo só é alimentado pelo ódio! Não se esqueça disso!
O príncipe não entendeu as palavras do mago e saiu da sala.
***
Minutos depois, um exército de soldados invadia a floresta queimando e cortando as flores, plantas e árvores que existiam no caminho. A cólera tinha dominado o coração do príncipe. Enquanto ele e seus fiéis soldados destruíam a floresta na esperança de encontrar a princesa, as lembranças dos momentos felizes que tiveram juntos não saíam de sua mente. Os dois se conheciam desde pequenos. Eram amigos inseparáveis. Ficavam grudadinhos. Iam à missa todos os dias e oravam para que Deus protegesse eles, sua família e seu reino. Praticavam a caridade e a cada dia que passava, estavam mais e mais juntos.Foi na adolescência que eles descobriram o amor que sentiam um pelo outro. Isto causou alegria em todo o reino. Alegria que agora eles não têm. Separados por um mendigo, um pobre transformado em um ser das trevas com poderes inigualáveis. Sedento por uma paixão doentia. Alguém que podia sentir o fogo do ódio se aproximar.
- Ele está vindo! Disse ele ao gigante de fogo que segurava a princesa. Queime-o.
- Não! Por favor, eu faço qualquer coisa, mas não mate-o! Eu o amo muito e não quero perdê-lo!
O gigante baixou a mão com que segurava a princesa e a soltou. Rapidamente, uma força maior que a do seu corpo dominou a jovem e esta se viu aprisionada numa prisão invisível.
- Não percebe que é por isso que deves morrer?! Se ainda o amas, não poderá me amar! E se não pode me amar, não terei o que desejo!
- Pois você jamais me terá, está ouvindo?! Jamais!
O bruxo olhou para ela e viu a raiva se misturar à tristeza. Ela ainda ficava mais bela quando brava. Ele olhou então para o gigante e ordenou:
- Vá!
E o gigante se foi.
Na medida em que se distanciava de seu mestre, a criatura cuspia fogo contra a floresta. As labaredas eram tão intensas que mesmo a sessenta quilômetros do exército, elas conseguiam atingir vários soldados que morriam incendiados. Os cavalos e os outros soldados começaram a recuar. Todos menos o príncipe, o ódio em seu coração era grande. Seu eqüino já o tinha abandonado, mas ele continuava em frente. O jovem não sabia o que o sufocava mais por debaixo da armadura que revestia seu corpo, o fogo ou o ódio que pulsava em seu coração.
Então, um lampejo de sanidade surgiu em sua mente. Algo que o mago falou antes de ele partir. Ele se lembra. " O coração de quem vive no fogo só é alimentado pelo ódio."
- É claro! E o oposto do ódio é... o amor!
O príncipe baixou sua espada, sua armadura e sua roupa. Nu, em meio ao fogo, ele gritou:
- Eu te amo!
E ela ouviu. A mais de sessenta quilômetros dali, a jovem ouviu a frase de seu amado. As palavras se intensificaram em meio ao fogo. O eco fez o bruxo tampar os ouvidos. E então, o príncipe se concentrou apenas em seu amor pela princesa, nos dias felizes que passaram juntos. Na promessa de um casamento, de filhos e de bonança. E o mar de fogo se abriu para ele. As águas da grande cachoeira de onde o bruxo e a princesa estavam próximos, subiu, foi até o céu e caiu sobre o gigante de fogo destruindo-o. Mas, o mais impressionante ainda estava por vir.
Quando a água desceu de volta ao rio, o calor do fogo que ela apagou provocou um redemoinho e, de dentro de suas águas o escudo de Hollstag começou a levitar. Hollstag foi um falecido cavaleiro do reino que era considerado o maior herói de todos os tempos. O escudo foi então ao braço do príncipe e este escutou a voz de um moribundo:
- Tu és puro de coração pois venceste o gigante de fogo que me destruiu no passado! Em meio à guerra e ao desespero de ver meus camaradas de batalha e amigos mortos pela criatura, o meu coração foi tomado pelo ódio e eu não consegui vencê-lo! Mas tu provaste ser merecedor desta arma que agora dou a ti!
O príncipe, de escudo em punho avançou em direção à princesa e a prisão onde ela estava se desfez.
- Não vai tomá-la de mim! Ela é minha!
O bruxo lançou um raio contra o príncipe. O escudo defletiu o raio e este atingiu em cheio o feiticeiro. As chamas começaram então a consumir o seu corpo, que sumiu no ar.
- Meu amor, eu sabia que tu me salvarias! Tu és poderoso e bravo como só os heróis podem ser!
- Não foi o poder nem a bravura que me permitiram libertá-la, meu amor! Foi o sentimento que nos une que me deu forças para superar a feitiçaria e o mal!
Ela o abraçou. Os dois se beijaram e fizeram amor às margens do rio. A flor que existia no coração de ambos finalmente tinha desabrochado.
***
O bruxo retornou a seu esconderijo. O mendigo não parava de gritar enquanto as chamas consumiam seu corpo. Ele rapidamente abriu o livro novamente.
- Tenho de achar! Preciso me libertar das chamas! Ahhhh... Ahhhhh... Ahhhhh...
Ele encontrou o feitiço para apagar o fogo. As chamas consumiram o livro maldito. Então, o bruxo confundiu-se nas palavras e falou os vocábulos errados:
- Papum est num... Dragum!
O inevitável ocorreu. Sua pele começou a cair enquanto outra pele nascia de dentro de seu corpo. Uma pele verde escamosa. Seu nariz e sua boca esticaram, seus olhos ficaram vermelhos. A pele verde absorveu as chamas. E, gigantesco, com mais de dez metros de altura, o dragão nascia destruindo o esconderijo do bruxo. Seu grito de nascença foi desesperador. As asas nasciam em suas costas como espinhos. A dor da criação foi terrível. Agora o homem não era mais mendigo e nem bruxo, mas sim um monstro das trevas.

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