Tuesday, June 13, 2006

OS PORTAIS DO INFERNO - CAPÍTULO SEGUNDO: FOGO NO MAR


( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA )

Os tubarões devoram os peixes mais fracos. Como um inferno marítimo
eles fazem prevalecer a lei do mais forte. Poderosos e velozes, eles
não dão chance para os peixes mais fracos escaparem. É nessa hora,
que algo inesperado ocorre.
O fogo de repente nasce no meio do mar. Um portal do Inferno se abre
e a sereia, de posse de um dos cacos da pedra, surge. O fogo queima
vários tubarões que morrem incendiados. Seus pedaços bóiam no meio
do oceano. Súbito, dois deles que não tinham sido atingidos pelo
fogo, vêem a criatura e avançam contra ela.
A sereia, desacordada, não percebe a aproximação dos predadores.
Mas, quando eles ficam bem perto dela, o ser abre os olhos. Seus
dentes vampíricos crescem então e seus olhos ficam vermelhos. A
visão do monstro não assusta os tubarões que atacam. Guiados pelo
instinto, os três seres se atracam numa violenta luta. Uma luta onde
só o mais forte sobrevive.

***

- Iahhh...
Eu acordo na escuridão, gritando de medo. O pesadelo foi terrível,
mas vai passar. Agora é chegada a noite e eu tenho de me alimentar.
Sou uma vampira. Um ser das trevas, um sangue-suga. Outrora, fui
uma jovem apaixonada que morreu por amor. Meu pai não compreendia a
paixão que eu e meu namorado sentíamos um pelo outro. Ele me queria
como mulher. Meu criador. Meu destruidor. Tentou me estuprar, mas
acabou me matando. No Inferno, fui transformada em uma vampira,
quando um outro sangue-suga me mordeu.
Eu tinha pego um pedaço da Pedra Filosofal e, através do poder desta,
absorvi o poder do vampiro e tornei-me como ele. Um predador da
noite, um ser sedento por sangue. Eu absorvi as memórias dele
junto. Ele era um senador, um político que não se importava com os
mais pobres e que construiu um casamento de fachada para ganhar a
eleição. A mulher dele, eu sinto que ela o amava de verdade. Os
dois tiveram um filho que estudava nos Estados Unidos.
Não sei ao certo mas sinto que fazia muito tempo que pais e filho não
se viam. Eles viajaram para a América a fim de visitá-lo. Houve uma
pane no avião e os dois morreram. Condenados ao Inferno pela miséria
causada por sua corrupção, eles se transformaram em outros seres como
eu. É estranho, mas sinto que a mulher está mais próxima de mim do
que eu pensava. Ah, quer saber, se ela estiver na Terra e quiser
vingar a destruição do marido, eu vou tá esperando.
Agora é hora de trabalhar, já estou morrendo de fome.
***- Ei, vadia! Esse é o meu ponto! Pode tratando de sair daqui!
Ela começa a me empurrar e eu continuo calada, sem me mover.
- Não tá escutando não, ou tá se fingindo de surda, hem?!
Eu continuo no lugar, sem dizer nada. Ela me dá um tapa no braço e
tira um punhal da bolsa.
- Já que você não escuta mesmo, então eu vou arrancar as suas orelhas!
Quando ela ataca, eu cravo minhas unhas nas orelhas dela e as arranco.
- Iahhh....
- Agora é você quem está surda, minha querida!
Eu cravo os dentes em seu pescoço e chupo seu sangue. Quando o corpo
dela cai morto eu vejo outra prostituta me observando.
Ela então corre desesperada. Eu me transformo em morcego e vôo atrás
dela.
- Chefe! Chefe! Chefe! Chefe!
- Que é, garota?! Que foi?!
- O morcego... Ele... Iahhh...
Ela grita ao me ver transformada em vampira. Os marginais a quem ela
pediu proteção me encaram armados de revólveres e de fuzis.
- O que que tu quer?!
- Seu sangue!
Eu os ataco impiedosamente. Os gritos e os tiros são ouvidos a
quilômetros de distância.

***

- Socorro! Socorro! Socorro!
Ela bate repetidas vezes na porta. O horror das imagens passa pela
sua mente de forma agonizante. Os tiros sendo disparados contra um
corpo já morto. A morta cai, se levanta, crava suas garras no peito
de um dos marginais e arranca o seu coração. A imagem da vampira
chupando o sangue ainda quente do bandido fica em sua mente. Ela
sabe, ela sente que é a próxima a morrer.
- Abra essa porta, por favor!
- Mas o que você quer a essa hora da madrugada?!
- Me ajuda!
Quando ele abre a porta, ela entra correndo e não pára de tremer.
- O que você quer?!
- Me ajuda, amor! Por favor, eu tô encrencada! Me ajuda!
- Eu já tentei te ajudar uma vez garota e você não quis! Agora se
manda que eu não quero me meter nos seus rolos!
- Não, por favor! Ela quer me matar! Por favor, me ajuda!
- Eu já disse que não vou te ajudar! Agora, saía da minha casa!
- Não!
Ela o agarra e o beija. Por um instante, o desejo toma conta do
homem e ele esquece a raiva que sente por aquela mulher.
- Não! Chega! Você não me ama!
- Amo sim!
- Não! É mentira!
- Eu te amo!
- Não!
Ele esbofeteia a mulher. O golpe foi tão forte que ela cai em cima
da poltrona.
- Seu covarde! Você me bateu!
- Você não é prostituta, agora?! Então, vai ser tratada como tal!
Os dois se olham com ódio por um momento. Ela tira um canivete da
bolsa.
- Se vai me tocar, vai ter de me pagar!
- Você ficou louca?! Larga isso!
- Eu sou uma prostituta como você mesmo disse! Esse é o meu
trabalho! E um homem só pode me tocar se me pagar! Agora, ou você
paga ou te mato!
Os dois se olham por um instante. Onde antes existia tanto amor e
tanta ternura, agora só há um sentimento de repulsa, uma repugnância
tão grande de sentimentos que quem vê nem sequer suspeita que essas
duas pessoas já se apaixonaram um dia, já juraram amor eterno e
sonhavam em ter um lar, em ter filhos.
O homem vai até a cômoda e tira o dinheiro.
- Toma! Agora se manda daqui!
- Eu não posso! Tem uma pessoa lá fora querendo me matar e eu
preciso de você!
- Não! Cai fora daqui!
- Se você não me deixar ficar eu te mato!
O homem toma a faca da mulher e fica por cima dela. Ele a segura
pelos pulsos e a beija na boca, no pescoço, entre os seios...

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