( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA )
- Não! Não! Não! Nãooo...
O homem natimorto é cercado de pêlos, suas unhas tornam-se garras
afiadas, suas orelhas, seu nariz e sua boca crescem assemelhando-se
aos de um animal. Seus dentes, manchados pelo sangue que escorria da
testa, crescem de forma assustadora. Em sua testa, um chifre de
unicórnio nasce de forma lenta, espalhando sangue por todo o
apartamento.
- Au! Au! Au! Au! Au!
Os gritos de dor do lobo são aterrorizantes. Ganham eco. A vampira
cai botando as mãos nas orelhas, tamanho é o som dos uivos da
criatura.
- Au! Au! Au! Au! Au!
- Ahhhhh...
- Au! Au! Au! Au! Au!
- Ahhhh... Não! Não! Não! Nãoooo...
Parte do sangue cai sobre a vampira. Ela lambe o sangue tentando
recobrar forças para combater a criatura. A transformação profana
finalmente termina e o desempregado renasce como o lobo com um chifre
no meio da testa. Um lobisomem.
A vampira se levanta devagar, temendo a reação da fera.
- Mã...
A vampira só geme assustada, procurando uma saída. Ela tenta avançar
até a porta de forma devagar.
- Mã... E... Eu...
A criatura não entende o que a fera quer lhe dizer. O lobisomem
balbucia de forma incompreensível.
- Eu...
- Você... Você quer... O que você quer?!
- Eu... Mã...
- Diga-me... o que você é?! O que você quer?!
- Sangue!
O lobisomem ergue a cabeça na direção da vampira.
- O sangue que alimenta!
- Ah, meu Deus! Ah, meu Deus!
- O seu sangue! O sangue da vida! O sangue de seus seios!
- Ahhh...
O lobisomem avança contra a vampira. Esta, assustada, se joga contra
a janela da sala, que se quebra. A luz do sol invade o apartamento e
atinge o lobisomem em cheio.
- Ahhh...
Ele grita sentindo o chifre recuar para dentro da testa. O sangue
volta a escorrer pela cabeça do animal, cujos pêlos vão sumindo.
- Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!
A transformação é repleta de dor. Os dentes, o nariz e a boca
começam a voltar ao tamanho normal de forma dolorosa. E finalmente o
animal transforma-se em homem. O desempregado desmaia de tanta dor.
- Mã... Ma... Mamãe!
Ele geme enquanto o sangue continua a escorrer de sua testa.
***
Paralelamente à transformação profana, do lado de fora do prédio, a
vampira mal tem tempo para se transformar em morcego. Tão logo os
raios do sol a atingem em pleno ar, ela se transforma numa bola de
fogo.
- Não! Não! Não! Nãoooo...
Ela grita em desespero enquanto cai e as chamas começam a dilacerar o
seu corpo.
- Não! Não! Me ajudem! Alguém! Não! Não! Não! Não! Me
ajudem! Deus, nãooo... Não! Não! Não!
O corpo, como um meteoro em chamas, cai rápida e dolorosamente. As
pessoas na rua se assustam com a bola de fogo que cai do céu e saem
correndo. O corpo em chamas da vampira finalmente atinge o chão. A
criatura, quase sem forças, profere um encanto para sobreviver ao fim
inevitável.
- Chum abrum... torraaaaaa...
O chão se abre no momento do impacto. Dentro da terra, em meio às
trevas, ela mergulha abrindo outro buraco em direção ao metrô no
exato momento em que um expresso estava passando. As pessoas dentro
do trem mal têm tempo para gritar. Ainda em chamas, a vampira atinge
o expresso, provocando uma explosão. Um outro buraco é aberto. A
vampira cai no esgoto em cima d`água. Ratos correm assustados com a
presença profana.
- Não! Não! Não!
A água seca as chamas, mas não impede um desastre maior. O trem e as
pedras caem sobre a vampira... deixando-a na mais completa escuridão.
***O passado.
O jovem dorme na areia da praia depois de ter feito amor com a
namorada. Esta acaricia os cabelos do garoto admirando a beleza
deste. O jovem acorda, olha para a namorada e diz:
- Como é bom sentir o seu carinho... e o seu amor!
Os dois se beijam.
- Também gosto de sentir o seu amor!
- O nosso amor, minha querida! O nosso amor... é para sempre!
As mãos de um e de outro se tocam e os dois falam:
- Para sempre!
Os dois jovens se beijam mais uma vez.
***
- Oi, mãe!
A garota chega em casa e tira a mochila das costas. A mãe se levanta
e encara a filha seriamente. A jovem desvia o olhar e sobe as
escadas em direção ao seu quarto.
- Vou trocar de roupa e depois a gente vai almoçar, tá, mãe?!
- Tá, tá bom!
A mãe vai até a cozinha enquanto a jovem sobe para seu quarto.
Quando a garota abre a porta do quarto qual é sua surpresa ao ver o
pai, sentado em sua cama, com uma cartela de camisinhas à mostra.
- O que significa isto?!
A filha encara o pai com ódio enquanto ele se levanta e larga a
cartela sobre a cama.
- Significa que finalmente surgiu um homem que irá me libertar da sua
opressão!
- Quem é esse rapaz?! Com quem você anda saindo?! Responda! Você é
minha filha e me deve obediência!
- Eu não te devo nada porque você não é o meu pai! Não é o mesmo
homem que me deu tanto amor e carinho quando eu era pequena! Você é
um monstro!
O pai agarra a filha pelos braços.
- Não ouse erguer a voz para mim! Grita o pai. Não ouse me
desafiar! Eu te dei a vida! Te criei! Te dei casa, comida, roupa!
Eu sou o seu criador e só eu posso ter você!
- Não! Ela grita enquanto tenta se soltar do pai. Você nunca irá me
ter, seu monstro! Eu sempre amei você porque era meu pai! Mas,
agora, eu sinto nojo de você!
- Eu sou seu pai! Tenho direitos! Você tem que me obedecer!
- Nunca! Nunca! Nunca! Me largue! Me largue! Me largue!
O pai tenta beijar a filha. Ela se desvia da boca do criador. Este
agarra a criatura pelos cabelos e a beija na boca.
- Não! Não! Não! Na... Não! Me largue! Me solte!
A filha dá um tapa no rosto do pai. Este esbofeteia a filha. Esta
tenta fugir, mas ele a agarra e começa a rasgar a roupa da garota
enquanto bate nela.
- Venha cá, filhota! Vem cá ver o tamanho do pau do seu pai!
- Não! Não! Mamãe! Mamãe, me ajude! Mamãe! Mamãe! Mamãe! Mãe!
Socorro! Socorro!
- Isso é prá você aprender a não desobedecer o seu pai! Berra a mãe
na parte de baixo da casa. É para o seu próprio bem!
- Não! Não! Não! Ele está tentando me estuprar! Meu pai está
tentando me estuprar!
O pai agarra novamente a garota pelos cabelos e beija a sua boca de
novo. Ela sente a língua do pai passear em sua garganta. Sente os
lábios de seu genitor tocarem os seus. O nojo toma conta da criatura
enquanto o criador tenta abrir-lhe as pernas para meter nela.
- Não! Não! Não!
A garota grita enquanto o pai tenta forçá-la a abrir as pernas. Ele
beija mais uma vez a boca da filha. Esta não suporta tamanho
tormento e morde o lábio superior do pai.
- Sua filha ingrata!
O pai berra enquanto esbofeteia a filha mais uma vez. A garota cai e
saí do quarto. O pai a persegue até a entrada da escada. O criador
agarra a criatura pelo braço e a vira para si.
- Eu criei você... e posso destruir você!
Ele esbofeteia a filha mais uma vez. A garota rola as escadas e bate
fortemente com a cabeça no chão. O sangue começa a escorrer da testa
da jovem e ela morre.
***
O presente.
- Não! Não! Não! Não! Não! Pai, não! Não! Não!
A vampira berra. Em meio à escuridão, ela tem lembranças de seu
assassinato. Do lado de fora dos escombros, os bombeiros e a Defesa
Civil tentam retirar as pedras que rolaram com o desmoronamento. Até
que um dos bombeiros escuta os gritos da vampira.
- Ouvi gritos por aqui!
O bombeiro sobe até o topo da pilha de pedras.
- Vamos ajudar!
Os outros bombeiros se aproximam do colega. Este, com os olhos
vermelhos e dentes de vampiro, se vira na direção dos companheiros.
- Eu não preciso de ajuda!
***
Debaixo dos escombros, a vampira não pára de gritar. A escuridão do
lugar se assemelha com a do Inferno e ela fica apavorada.
- Não! Não! Não! Eu não quero voltar para o Inferno! Eu não quero
voltar para o Inferno! Eu não quero voltar para o Inferno! Não!
Súbito, os gritos dela são interrompidos por berros oriundos do lado
de fora dos escombros.
- Ai!
- Não!
- Socorro!
- Ai!
- Alguém nos ajude! Bluarrpp...
A vampira fica quieta estranhando os gritos.
- O que é isso?! Ela fala apavorada. Meu Deus, o que é isso?! O
que está acontecendo?! O que está acontecendo?!
- Não! Não! Ai! Ai! Não! Não!
Os gritos deixam a vampira ainda mais apavorada. Ela chega a suar
frio. De repente, os gritos param. O silêncio é aterrador.
- Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Deus!
Deus! Deus!
As pedras começam a ser retiradas de cima dela. É quando a vampira
vê um machado caindo em sua direção.
- Não! Ela estica os braços para o alto.
Suas mãos agarram a ponta do machado e começam a sangrar.
- Ai! Ai! Ai!
- Isso! Sofra! Que sua dor se espalhe por todo o universo!
O bombeiro, com olhos vermelhos e dentes afiados, tenta matar a
vampira. Ela não entende. Como um simples machado poderia destruir
um imortal?! É quando ela vê os corpos dos outros bombeiros
sangrando, espalhados pela galeria.
A vampira percebe então que aquele não era um simples bombeiro, mas
um outro ser das trevas. Ela chuta a barriga do bombeiro jogando-o
longe ao mesmo tempo em que lhe toma o machado das mãos.
- Iahhhh...
Se levantando em meio aos escombros, a vampira berra com o machado na
mão direita e o punho esquerdo fechado. O sangue continua a escorrer
de suas mãos. O machado se transforma num dos fragmentos da Pedra
Filosofal.
- Não! Ai! Não! Não! Não!
A vampira escuta os gritos do bombeiro e virá-se na direção dele.
- Meu Deus!
A vampira fica apavorada. Sem a lasca da Pedra Filosofal, a sereia
não pode continuar em outros corpos. A pele do bombeiro começa então
a cair enquanto a sereia saí de dentro do corpo dele.
- Meu Deus do Céu!
- Não! Ai! Ai! Ai! Ai!
Se arrastando pelo chão da galeria, a sereia começa a ressecar com a
falta de ar. Súbito, o seu olhar crava no olhar da vampira. Esta a
reconhece. As duas ex-mulheres, mesmo em outras formas, sentem que
já se encontraram no Inferno.
- Você! A esposa do senador!
- Maldita seja! Você me privou da vingança e matou meu pai! Mas eu
vou me vingar de você... custe o que custar! Aiiii...
A sereia continua se arrastando na direção da vampira. Apesar da dor
e da falta de ar, a vingança toma conta de seu corpo de uma forma
indescritível. A vampira não perde tempo. Corre até a sereia e
chutá-lhe o rosto arremessando-a no rio que corria ali perto.
Antes de ser tragada pelas águas imundas do esgoto, a sereia gritou:
- Você não escapará da minha vingança! Eu vou vingar meu pai! Eu
vou vingar meu pai!
***
- Ok, gravando!
- Um míssil atingiu esta rua no centro da Cidade na manhã de hoje e
causou uma tremenda explosão, ocasionando esta cratera que está atrás
de mim! Até agora temos a confirmação de 20 mortos, segundo a Defesa
Civil, mas esse número pode aumentar! Estamos aqui com o Comandante
da 16ª DP que pode nos dar mais informações! Comandante, isto foi um
atentado terrorista?!
- Olha, nós ainda não temos certeza disso! Mas, ao que tudo indica,
tudo não passou de um acidente!
- Um acidente?! Mas foi um míssil que foi disparado...
- Nós acreditamos que o míssil tenha sido disparado acidentalmente
daquele apartamento ali!
O comandante aponta para o apartamento onde o desempregado mora.
- E quem mora naquele apartamento, Comandante?!
- Um homem que recebia armas que eram contrabandeadas do Afeganistão
para o Brasil! Nós já iniciamos uma investigação no apartamento do
elemento e descobrimos uma grande quantidade de granadas e uma bazuca
de onde provavelmente veio o míssil!
- E já sabem quem é esse homem?!
- Nós estamos interrogando o proprietário do imóvel para saber a
identidade desse contrabandista!
- O que faz a polícia pensar que tenha se tratado de um acidente e
não um atentado terrorista?!
- Olha, não há razão para pensarmos que se trata de um atentado
terrorista...
- Por que não há razão para se pensar na hipótese de um atentado
terrorista?!
- Porque os criminosos, geralmente traficantes e contrabandistas, não
costumam usar armas de grande poder de fogo como a bazuca aqui no
Brasil! É muito mais lucrativo para eles vender essas armas, aí sim
nós já estamos trabalhando com essa hipótese, para países onde os
atentados terroristas são comuns, como Iraque, Israel e o próprio
Afeganistão! Outro fator que deve ser levado em consideração é que o
terrorismo, mesmo sendo uma ação abominável, é impulsionado por
princípios ideológicos, políticos e até religiosos! Os criminosos
daqui do Brasil não estão interessados nesses princípios! O que eles
querem é o lucro! E é muito pouco lucrativo para eles causar um
atentado terrorista no Brasil porque essas armas custam muito caro,
mesmo entrando no país de forma ilegal! É mais lucrativo para eles
revender essas armas para os países que eu já citei! Mesmo assim nós
vamos iniciar uma investigação para saber se há ligações de
traficantes e contrabandistas brasileiros com grupos terroristas no
exterior!
- E o que vai acontecer com esse contrabandista que recebia as armas,
supostamente vendidas por terroristas internacionais?!
- Esse contrabandista vai ser encaminhado por meio de uma ambulância
para um hospital! Um outro fator que indica ter se tratado de um
acidente é que encontramos o elemento ferido em seu apartamento!
Isso é um forte indício de que o disparo foi acidental! E assim que
ele for devidamente medicado, nós vamos interrogá-lo para saber se
ele era mesmo receptador dessas armas que foram encontradas em seu
apartamento! Mas tudo indica que sim!
- Muito obrigado, Comandante! Mário Salgado para o Tudo na TV!
A explosão causada pela vampira provocou um enorme estrago. Os danos
de propriedade foram imensos! O número de mortos aumentava! A
Opinião Pública exigia uma resposta das autoridades! Pressionados
pela Imprensa, a polícia colocou uma bazuca e granadas no apartamento
do desempregado para fazer deste um bode expiatório. O homem era
pobre e seria fácil inventar que ele era um receptador de armas.
Para a polícia foi fácil, portanto, incriminar o desempregado pela
explosão que abriu uma cratera no meio da rua, destruiu o metrô e
atingiu as galerias subterrâneas, causando mais de 50 mortes.
***
Escuridão.
A fronteira entre o Céu e o Inferno. Entre o mundo mortal e o mundo
imortal. A alma do desempregado viaja entre os dois mundos. Os
sussurros de dor de quem vive no Inferno. A alegria de quem chegou
no Paraíso. Tudo isso ele escuta enquanto afunda... aonde?! A
escuridão e as vozes assustam o desempregado! Súbito, ele vê, ouve!
Abaixo de si, sendo puxada pelas trevas, ele enxerga sua amada!
- Socorro! Socorro! Me ajude!
- Segure em minha mão! Segure em minha mão!
- Me ajude! Me ajude!
- Segure em minha mão! Segure em minha mão!
O desempregado mergulha nas trevas e estica a mão na direção do braço
da prostituta. O esforço era terrível. Era como se a escuridão
tivesse a força das ondas do mar. Um oceano negro feito de nada.
Ele continua a esticar a mão, seu dedo indicador toca o dedo médio da
prostituta. O desempregado se esforça, luta para salvar seu grande
amor.
- Não consigo mais manter o braço erguido!
- Tente, meu amor! Tente! Eu não vou deixar você morrer! Eu não
vou deixar você morrer! Eu não vou deixar você morrer!
A força do amor do desempregado pela prostituta vence. Ele
finalmente alcança a mão da mulher.
- Obrigada, meu amor! Obrigada!
Os olhos de ambos se enchem de lágrimas.
- Eu te amo!
- Eu também te... Aiiii...
- Não!
O cenário subitamente muda. Um demônio enorme e gordo morde a perna
esquerda da prostituta e começa a devorá-la. O mar negro torná-se
branco nesse momento.
- Não! Segure firme meu amor! Eu vou puxá-la!
- Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!
O desempregado usa toda a sua força para puxar a prostituta de
volta. Mas não adianta. A mulher é devorada pelo demônio.
- Não! Não! Não!
- Hummm! Fala o demônio chupando um dos ossos da prostituta. Que
carne mais suculenta!
- Maldito! Desgraçado!
O desempregado começa a socar o rosto do demônio em desespero.
- Traga ela de volta prá mim! Traga ela de volta prá mim! Traga ela
de volta prá mim! Traga ela de volta prá mim!
O demônio não reage. Os socos do desempregado são cheios de força e
violência. Pingos de sangue verde se espalham pelo céu branco. O
corpo do demônio explode em mil pedaços à medida que o desempregado o
soca. O céu torná-se verde enquanto o desempregado desce até um chão
branco.
- Cadê?! Cadê?! Cadê?! Cadê?! Cadê?!
O desempregado procura entre os destroços da criatura, partes do
corpo da prostituta. Súbito, uma imagem vestida de branco sai de
baixo do chão onde o desempregado se encontrava. Era um homem negro
com asas nas costas e vestido de branco. A única pergunta que escapa
dos lábios do desempregado ao ver o anjo negro é esta:
- Onde está ela?! Onde está ela?!
- Acalme-se meu bom homem!
- Diga! Onde está ela?! Onde está o meu amor?!
- Num lugar onde os ímpios são condenados!
- Não!
- Num local onde a tentação da carne é banida!
- Não! Não! Não! Não!
O desempregado começa a chorar. Apesar da esposa ter sido uma
prostituta em vida, ele ainda a amava. Acreditava mesmo que através
de uma vida honesta poderia mudá-la. Mesmo depois de morto, ele
achava que ainda existia salvação para a prostituta.
- Mas alegre-se! Apesar de você ter cometido alguns pecados, sua
vida foi um exemplo de virtude e de dignidade! Seus pecados foram
pequenos e você ficará aqui, no Purgatório, o espaço entre o Céu... e
o reino das trevas!
- Não! Eu não quero ficar aqui! Eu quero ir pro Inferno!
O anjo se sobressalta com as palavras do desempregado.
- Mas lá é um lugar onde só há dor e tristeza!
- Mas é lá que ela está! E, aonde o meu amor estiver, eu quero
estar, não importa a dor, não importa o desespero! Quando me casei
com ela, eu prometi estar ao seu lado na saúde e na doença, na dor e
na tristeza! E, se o Inferno foi o destino dela, será meu destino
também!
Súbito, um forte vento, como um sopro de vida, perpassa pelas duas
criaturas. O anjo, sentindo a voz de Deus em seu coração, fala:
- É verdade, meu amigo! Seu lugar não é aqui! Mas não porque quer
acompanhar sua amada no reino maligno! E sim porque sua alma ainda
não está morta!
- Mas meu amor,... eu quero ficar com ela!
- E ficará! Infelizmente, você foi amaldiçoado pela Pedra
Filosofal! Sua alma só está aqui porque seu corpo está em coma!
Mas, em breve ele despertará! E, quando morrer de novo, você estará
no reino de Lúcifer como tanto deseja, ao lado de seu amor!
A imagem do anjo e todo o cenário começam a se afastar do
desempregado.
- Não! Eu quero ficar ao lado dela agora! Eu preciso dela! Eu a
amo muito! Por favor, volte! Não! Não! Não! Não!
A brancura do cenário é substituída pela escuridão de uma
ambulância. O desempregado vê soros e tubos enfiados em seu corpo
enquanto sua testa não pára de sangrar.
- Ah, a bela adormecida acordou! Diz um dos três PMs que
acompanhavam o desempregado.
- Onde?! Onde?!
Confuso e desorientado, o desempregado não sabe o que dizer. Ele
sente um estalo no corpo. Os músculos começam a crescer.
- Mas você não vai ficar aqui por muito tempo, seu contrabandista
maldito!
- Contrabandista?! Eu?! Mas eu...
- Pode aplicar o veneno!
Um dos três PMs aplica uma injeção com um líquido verde na seringa do
soro do desempregado. O coração do homem começa a bater de forma
acelerada. A dor que ele sente é intensa.
- Você vai morrer!
- Contrabandista!
- Você vai morrer!
- Pobre não tem direito à defesa!
- Você vai morrer!
- Contrabandista!
- Contrabandista!
- Contrabandista!
- Contrabandista!
- Não! Não! Eu não sou um criminoso! Eu não sou um criminoso! Eu
não sou... Grrr...
Os pêlos crescem, a boca e os dentes também. Os chifre de unicórnio
se estica. Com as garras, o lobisomem rasga as algemas.
- Meu Deus!
- O que é isso?!
- Nossa!
Os PMs não perdem tempo e começam a bater cacetetes no lobisomem.
Este, com a força de uma das mãos, arranca o braço esquerdo de um dos
PMs.
- Aiiii...
- Meu Deus do Céu!
O lobisomem crava as garras de seus dois braços contra o peito de
outro PM arrancando-lhe o coração e os pulmões.
O terceiro policial saca um revólver e atira três vezes contra o
animal. Os pêlos do lobisomem, entretanto, amortecem o impacto dos
tiros. A criatura abre sua boca e, com a força dos dentes, arranca a
pele do rosto do policial. Este, com uma caveira no lugar do rosto,
cai morto.
O PM sem o braço começa a gritar.
- Apoio! Apoio! Alguém me ajude!
O motorista da ambulância e o policial ao lado deste escutam os
gritos oriundos da parte traseira do veículo. Mas é tarde demais. O
lobisomem crava o chifre de unicórnio na grade que separa as duas
partes da ambulância. O chifre atravessa o peito do motorista,
matando-o.
- Meu Deus! Grita o policial ao lado do motorista.
Garras atravessam o corpo do PM não lhe dando tempo para agir. O
sangue escorre pela boca do policial.
O outro PM sem o braço tenta desesperadamente abrir a porta traseira
da ambulância. O lobisomem se vira para ele e agarra suas pernas
enquanto começa a devorá-lo.
- Não! Não! Não! Ahhh... Ahhh...
O lobisomem come as duas pernas do PM. Este saca um revólver e atira
contra a criatura. Os disparos só servem para distrair o lobisomem
enquanto o policial se arrasta até a porta traseira da ambulância.
Uma poça de sangue se forma atrás do PM, oriunda do lugar onde
ficavam suas duas pernas. O lobisomem corre até o policial. Este se
vira novamente e atira contra a criatura. O animal berra sentindo o
impacto dos disparos. Mas, nada sofre. Seus pêlos são tão grossos
que amortecem as balas. Por falar nelas, as do revólver do policial
já acabaram. Ao perceber isso, o PM tenta se arrastar novamente até
a porta.
- Abre! Abre! Abre! Abre! Abre! Abre!
O lobisomem se recupera dos disparos e corre até o PM.
- Abre! Abre! Abre! Pelo amor de Deus, abre! Abre! Abre! Abre!
Não! Não! Nãoooo...
O lobisomem devora a cabeça do policial matando-o. O ato ocorre ao
mesmo tempo que o PM consegue abrir a porta traseira da ambulância.
A luz do sol atinge em cheio o lobisomem, que volta a se transformar
no desempregado, completamente pelado e com o sangue escorrendo pela
testa.
- Meu Deus!
A ambulância estava parada em um engarrafamento. Ao ver um homem nú,
além de corpos e pedaços de corpos espalhados pela ambulância, o
motorista do carro de atrás treme de medo.
- Deus, o que aconteceu?! Se pergunta o desempregado gritando.
Os outros motoristas dos outros carros correm para o local onde a
ambulância se encontrava.
- Ele matou todos aqueles policiais! Diz um comerciante.
- Olha, ele está nú! Fala um padre.
- Não tem vergonha! Diz uma senhora.
- Deve ser um daqueles assassinos seriais! Comenta um jovem playboy.
- Uau, que pedaço de homem! Diz uma adolescente.
- Esse homem é um assassino! Grita um policial reformado.
- Eu não sou assassino! Eu não sou assassino!
- É, sim, um assassino! E o seu lugar é na cadeia! Polícia!
Polícia! Polícia!
- Não! Não! Eu não sou um assassino! Não sou um assassino!
- Polícia! Polícia!
Havia uma viatura ali perto que ouviu os apelos do aposentado. Os
dois policiais correm até a ambulância. O desempregado não perde
tempo e foge do local do crime.
- Meu Deus! Diz um dos dois policiais quando eles chegam na
ambulância e vêem os corpos e pedaços de corpos.
- Foi aquele tarado quem matou os seus colegas, policial! Aponta o
aposentado. Vinguem a morte de nossos companheiros!
Os policiais correm até o desempregado e o agarram.
- Eu não sou assassino! Eu não sou assassino!
- Ora, cale a boca! Diz um dos policiais socando o meio das pernas
do desempregado.
- Ai! Ai!
O outro policial acerta uma cacetada na cabeça do desempregado, que
desmaia. Os dois tiras colocam o desempregado na viatura e o levam.
- Viva! Grita o aposentado. A justiça foi feita!
A adolescente dá um tapa no braço do aposentado.
- Ai! Mas o que é isso, menina?! Por quê você me bateu?!
- Por ter espantado o homem gostoso que estava aqui! Ah, que droga!
Um pedaço de homem como aquele e o senhor vem dar uma de moralista!
- Ah, sua atrevida!
- O senhor tem é inveja daquele homem gostoso ser mais bonito que o
senhor!
E a senhora, que achou um absurdo ver aquele homem pelado, ficou a
favor do aposentado. O playboy tentou apartar a briga, mas sabem
como é, no meio da monotonia da cidade grande, quando acontece alguma
coisa de diferente, brasileiro sempre arranja espaço para discussão.