Saturday, June 17, 2006

OS PORTAIS DO INFERNO - CAPÍTULO OITAVO: O DIA SEGUINTE!

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

A chuva pára. E um lindo dia de sol ilumina a cidade do Rio de
Janeiro. Coisas do efeito estufa. Depois de uma noite infernal, que
culminou em 32 mortos e 50 desabrigados, os cariocas acordam para
verem o paraíso de beleza e encanto que o dia revela.
No entanto, não são todos os cariocas que têm tempo para contemplar a
beleza de sua cidade. A maioria corre para não chegar atrasada no
trabalho. Policiais, bombeiros, militares, taxistas, motoristas ( de
ônibus, de kômbis ou de vans ), lojistas, comerciantes, camelôs,
analistas de sistemas, advogados, professores, juízes, médicos,
promotores, executivos. Todos lutam pelo pão de cada dia. Seja por
meio do trabalho, seja pela corrupção.
Um dos felizardos, livres da rotina e da luta do dia-a-dia, é a
vampira. Ela acorda na praia da Barra da Tijuca e, ao ver as luzes
do sol sem sentir nada, dá um pulo de alegria.
- Viva! Viva! Viva! A magia da Pedra Filosofal deu certo! A magia
da Pedra Filosofal deu certo! Que dia lindo! Que sol maravilhoso!
Que praia deliciosa! Viva! Viva! Viva a vida!
A vampira não perde tempo. Ela tira a roupa ficando só de calcinha.
Na alça desta, a vampira amarra a pedra e corre para o mar. Um
mergulho na água gelada refresca o corpo e a alma da vampira. Ela
nada despreocupada. Mergulha. Dá cambalhotas. A vampira faz a
festa na praia.
- Oi, amiga! E aí?!
- Oi, colega! Como vai?!
- E aí?! Como foi a aula de Física?!
- Sei lá! Eu nunca assisto àquela aula mesmo!
As duas amigas riem. É nesse momento que seus namorados chegam.
- É ele! O meu amor! O homem a quem eu dei a vida! Aquele por quem
eu morri!
A vampira corre até a areia e abraça o seu namorado, beijando-o com
paixão.
- Meu amor! Como é bom te sentir! Como é bom te beijar de novo!
- Eu também estou feliz por te encontrar de novo, minha princesa!
- Não quer tomar um banho?! A água está ótima!
- Eu até gostaria de tomar banho com você, minha querida... mas você
está morta!
Após essas palavras, os olhos da vampira se enchem de lágrimas. A
imagem da amiga e do namorado desta se dissipam. A vampira cai de
joelhos!
- Não!
A imagem do namorado muda. O jovem se torna homem. Um homem com uma
esposa ao seu lado e uma filha.
- Nãooo...
A imagem daquela família se distancia da vampira.
- Nãooo... Volte! Volte para mim! Volte para mim! Volte para
mim! Volta! Vooooltaaaa...
A vampira cai na areia esticando o braço na direção da imagem. Mas a
família se dissipa sob a luz do sol.
- Nãoooo... Por quê?! Por quê?! Por quêêê?...
Ela chora deitada sobre a areia da praia.
- Por que meu pai quis me estuprar?! Por que ele me matou?! Por que
ele me matou?! Por que ele me matou?! Agora nunca... nunca mais
irei amar de novo! Agora nunca mais poderei ser mãe!

***

Após alguns segundos de choro, a vampira avista um homem, deitado de
bruços, na areia da praia. E sente a sede. A sede pelo sangue da
imortalidade. O mesmo sangue do poder amaldiçoava a vampira a viver
na solidão e na esterilidade.
Ela se levanta da areia e caminha até o homem. Este sente a presença
profana, acorda e se vira na direção da vampira.
- Nãoo... Ela berra ao reconhecer o desempregado que outrora se
transformara em lobisomem.
- Você!
O desempregado fica furioso ao ver a vampira. Observando a lasca da
Pedra Filosofal atada à cintura do nosferato, o desempregado arria a
calcinha da vampira. Em seguida, salta contra ela derrubando-a na
areia. A lasca cai por ali perto. Apesar da luz do sol impedir sua
transformação em lobisomem, o desempregado ainda tinha a força
poderosa de um natimorto.
- Você matou a mulher que eu amava! Ele berra enquanto tenta
estrangular a vampira. Você quase me matou! Quase me matou e mandou
minha amada para o Inferno! Por sua causa, fui preso por um crime
que não cometi! Eu, que nunca roubei nem quando me tiraram o
emprego, fui tratado como um marginal! Por sua causa! Por sua causa!
- Aiii... Grita a vampira sentindo os raios do sol queimarem seu
corpo e as mãos do desempregado a estrangularem. Nãooo... Não!
Ai! Ai! Ai! Aiii! Não! Não! Nãooo...
A vampira berra enquanto sua pele cai e o sangue escorre de sua boca
e de seus ouvidos. Ela sente o líquido vermelho pingar da testa
ferida do desempregado até o seu rosto. E vê, num relance, a ponta
da lasca da Pedra Filosofal, que ficou cravada na testa do
desempregado, reluzir. Num lance rápido, a vampira ergue a mão
direita, sem pele e repleta de ossos, e agarra a ponta da lasca.
- Iahhh...
Um potente choque elétrico acontece no momento em que a vampira
agarra a ponta da lasca. Ela volta ao normal, mas quarenta mil volts
percorrem os corpos da vampira e do desempregado.

***
- Quanto você cobra por suruba?!
- Duzentos, mas por dois homens tão gostosos eu faço um desconto de
50%!
Os dois homens não perdem tempo. Eles abraçam a prostituta e começam
a beijá-la na boca e no pescoço. A mulher sente o homem de trás
abrir suas pernas e acariciar sua vagina enquanto o outro chupá-lhe
os seios.
- Hããã... Hãããã... Ahhh... Ahh... Ahhh...
- Nãooo...
A descarga elétrica transmite a visão ao desempregado.
- Ela ainda não era casada comigo! Não era! Não era! Não eraaaa...
E ele vê os dois homens traçarem sua esposa. Ela agarra os corpos
dos dois homens com selvageria. E o desempregado vê, no dedo anelar
direito, o anel de casamento da prostituta.
- Não! Nãooo...
Ao longe, quatro policiais vêem as descargas elétricas e correm até a
praia.

***

No apartamento do desempregado, a prostituta bate com a frigideira em
um morcego.
- Ai, meu Deus do Céu! É ela! É ela!
- Mas o que que foi?! Será que além de mulher da vida, você se
tornou viciada em drogas?!
- Eu sou piranha sim! E com muito orgulho!
- Orgulho?! Orgulho de se deitar com estranhos por dinheiro?!
- Quem foi que disse que é só por dinheiro, seu corno?! Eu trepo por
prazer! Porque eu gosto! Porque eu quero é mordomia! Ter o sexo e
o dinheiro a hora que eu quiser! Ter o homem que eu quiser! E não
um merda fracassado como você!
É nessa hora que a vampira surge atrás da prostituta. O desempregado
tenta falar, mas a vampira faz sinal de silencio. E ele obedece.
- Que foi, seu corno?! Vai chorar agora, nenezão?! Vai, chora, seu
merda! Diabo de homem que não presta prá porra nenhuma!
A expressão triste do desempregado muda para a mais pura fúria.
Mate-a! Ele pensa transmitindo uma mensagem telepática à vampira.
Acabe com ela! Acabe com ela! Acabe com ela! Acabe com ela! Mate-
a! Mate-a! Mate-a!
Sim,... meu filho!
A vampira morde o pescoço da prostituta.
- Iahhh...
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
O desempregado gargalha enquanto a vampira mata a prostituta.

***

O choque elétrico se desfaz e os dois corpos caem cada um para um
lado. Sentindo ainda os raios do sol queimarem sua pele, a vampira
se arrasta até a lasca da Pedra Filosofal e a agarra. O efeito dos
raios solares cessa e o corpo da vampira pára de queimar.
- Maldita!
O desempregado grita enquanto cai na areia da praia. Sua expressão
era a mais pura fúria. Os quatro policiais chegam até a praia e, ao
verem os dois seres nús, imaginam o pior.
- É o contrabandista que matou os nossos colegas!
- Ele deve ter tentado estuprar a garota!
- Ah, esse canalha vai ter o que merece!
Os quatro policiais partem para cima do desempregado.
- Toma, seu maldito estuprador assassino de tiras!
O policial acerta uma cacetada na cabeça do desempregado. Este se
vira e soca o rosto do guarda, arremessando sua cabeça a alguns
metros de distância.
- Atirem nele! Acabem com esse criminoso duma vez!
Os três policiais sacam seus revólveres na direção do desempregado.
- Deixem meu filho em paz!
Ao ouvirem o berro, os guardas se viram na direção da vampira.
- Meu Deus!
- É um monstro!
- Não pode ser!
- Iahhh...
A vampira se torna um morcego e voa na direção de um dos policiais
abocanhando-lhe o pescoço. Nisso, a lasca da Pedra Filosofal cai
novamente na areia.
- Aiii... Grita o guarda enquanto o morcego suga seu sangue.
- Vou matar o bicho! Diz um outro policial apontando um revólver
contra o morcego.
Mas um soco acertá-lhe as costas e atravessá-lhe o peito. O
desempregado retira o braço ensangüentado do corpo do policial e joga
o coração deste fora. O guarda cai morto. O último policial atira
contra o desempregado, mas uma mão agarra a bala antes de atingir o
homem.
- Meu Deus!
Sentindo a dor do tiro e dos raios solares, a vampira esmaga a bala
enquanto o ferimento em sua mão cicatriza.
- Deus não vai salvá-lo, mortal!
- Nãooo...
A vampira agarra o policial e morde-lhe o pescoço. Ela suga o sangue
do guarda e, em seguida devora sua carne. Depois, pega a lasca da
Pedra Filosofal do chão.
Espalhados pela areia da praia, um corpo sem cabeça, um outro sem
sangue, outro rasgado e um esqueleto compõem uma cena macabra. Mas o
desempregado não se importa com isso. Seus olhos fixam-se nos do da
vampira.
- Mamãe?!
- Sim, meu filho! Eu sou sua mãe!
A imagem da vampira jogando um caco da Pedra Filosofal em sua testa
surge em sua mente.
- Você... me matou?!
- Não! A vampira fala enquanto se aproxima do desempregado. Te dei
uma nova vida! Te dei poder... e imortalidade! Agora você é o rei
da selva... e eu... sou sua mãe!
- Oh, mãe! O desempregado fala abraçando-se à vampira. Você me
salvou! Eu sempre fui oprimido por ser pobre! Mas, agora... agora
eu tenho o poder de um deus! Obrigado, minha mãe!
Lágrimas escorrem pelo rosto da vampira.
- Eu é que te agradeço, meu filho! Agora, sei que não passarei o
resto da eternidade sozinha! Porque agora eu sou mãe! Eu finalmente
me tornei mãe!
A vampira chora de felicidade enquanto sente o conforto do filho.
Ela que, depois de se transformar em vampira, achou que nunca mais
poderia ter um filho, agora era mãe... por toda a eternidade.

EPÍLOGO

Oceano Pacífico.
O tubarão sente a solidão do mar. Distante de outros animais, ele
percebe que uma nova criatura se aproxima. Não é humana, mas também
não é peixe. É uma sereia. Inesperadamente, o novo ser faz sexo com
o tubarão... e em seguida o mata.
O prazer... Ela pensa enquanto o cadáver e o sangue do tubarão caem
no fundo do oceano. Foi por isso que meu pai me enviou para perto de
um grupo de tubarões! Não era para eu matá-los, mas sim para ter
sexo com eles, uma vez que não posso sentir o mesmo prazer com os
homens. Sim! Agora eu entendo! Essa foi a minha condenação! Ser
uma mulher belíssima, impossibilitada de transar com os homens!
Agora tudo está claro para mim! Este é o meu castigo pela miséria e
pela fome que perpetrei em meu país! A partir deste momento, eu
assumo minha animalidade... como a rainha do mar! E nenhum outro ser
humano irá me ver novamente!
A sereia nada pelo mar à procura de mais tubarões para transar. Como
tinha decidido não sair jamais da água, abandonou sua lasca da Pedra
Filosofal no fundo do oceano. A pedra. A jóia pela qual ela tanto
lutou, no fim, não servia para mais nada.
Mas, os mais poderosos são assim mesmo. Roubam, matam, fazem o diabo
para obter alguma coisa de valor. E, quando conseguem tê-la,
percebem que ela não é tão valiosa assim.

FIM

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