Wednesday, June 14, 2006

OS PORTAIS DO INFERNO - CAPÍTULO SEXTO: VAMPIRAXSEREIA ( SEGUNDO ROUND)

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

O desempregado acorda na escuridão. Por um instante, seus olhos
tornam-se vermelhos e seus músculos crescem. Mas aí, uma lâmpada
pendurada acima de seu corpo emite uma luz que interrompe a
transformação profana. Os músculos diminuem, mas os olhos continuam
vermelhos. O sangue não pára de pingar da testa do desempregado.
Pequenas gotas vermelhas sujam o chão do lugar.
Amarrado pelos pés e pelas mãos no pau-de-arara, o desempregado
subitamente sente a dor dos choques elétricos em seu ânus e em seus
órgãos genitais.
- Aiiiiiiiiiiiiii... Ai! Ai! Não! Não! Não! Ai!
Aiiiiiiiiiii... Não! Por favor, parem! Pelo amor de Deus, parem!
Por favor... Nãoooooo...
Mas a tortura continua. Os policiais molham o corpo do desempregado
para que a corrente elétrica torne-se mais forte. A dor aumenta.
- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiii... Não! Por Deus, nãoooooo... Por favor,
parem! Pelo amor de Deus, parem! Parem, por Deus, nãooooo...
Nãoooo... Aiiiiiiiiiiii... Não, por favor!
- Isso é prá você aprender a não matar polícia!
- Mas eu não matei ninguém! Eu não sou assassino! Eu juro... Por
favor, aiiiiiiiiiiiii...
Os choques elétricos aumentam à medida que a lâmpada acima do corpo
do desempregado começa a queimar. Assim, luzes e trevas se alternam
no lugar sombrio. Os olhos do desempregado continuam vermelhos. O
sangue que escorre de sua testa suja as paredes do local. Ele se
contorce gritando de dor. Os músculos ora diminuem, ora aumentam,
bem como os pêlos. A boca e o nariz chegam a ter um aspecto lupino
por um instante. Os choques elétricos e os gritos do desempregado se
intensificam. Em meio à dor, ele vê outros presos serem torturados
como ele, gritarem de dor como ele. A dor que é silenciada pelas
gargalhadas dos policiais. Um traficante. Um estuprador. Um
revolucionário. Todos sofrem no pau-de-arara. Todos os pobres
sofrem no pau-de-arara. O desempregado vê a dor daqueles homens.
Ouve seus gritos de clemência.
- Eu sou inocente! Eu não matei ninguém! Eu não matei ninguém! Só
vendia o bagulho prá quem pagava mais! Aiiii...
- Ela tava dando mole prá mim, polícia! Eu não tive culpa! Eu não
tive culpa! Eu sou homê! Eu sou homê, porra! Aiiiii...
Aiiiiii... Aiiiii... Parem, pelo amor de Deus! Eu só queria dar
uns pegas naquela vagabunda! Aiiiii...
- Aiiiii... Aiiii... Aiiiiii...! Aiiiiiii... Não! Não! Não!
Nãoooo... Aiiii... Aiiii... Aiiii...
- E aí?! Vai parar de falar mal dos militares ou já não foi o
suficiente?!
- Nun... Nunca! Prefiro morrer aqui do que trair o meu país! Um...
Um dia outros como eu vão derrubar a Ditadura Militar e aí o Brasil
vai ser o maior país do mundo!
- Então prefere morrer?!
- Pelo Brasil, sim! Aiiii... Aiiii... Aiiii... Aiiii... Aiiii...
Só naquele momento o desempregado percebeu. Aquelas eram as almas
das pessoas que tinham morrido naquele lugar. Os gritos deles se
misturam aos seus gritos. Ele escuta as suas súplicas em sua mente.
Ouve os fantasmas dos mortos lhe pedirem ajuda, lhe pedirem clemência.
- Eu não matei ninguém! Eu não matei ninguém! Eu só vendia a
droga! Eu só vendia a droga! Eu só vendia a droga!
- Ela tava dando mole prá mim! Só depois que eu beijei ela é que a
vagabunda começou a gritar! Pô, se tu visse a mulher tu também ia
querer trepar com ela! Ela era muito linda! Muito linda!
- Liberte o povo brasileiro da opressão! Liberte o povo brasileiro
da opressão! Liberte o povo brasileiro da opressão! Diretas Já!
Diretas Já! Diretas Já!
- Nãoooo...
Era demais. A dor física se mistura à dor mental. O desempregado
não agüenta. Usa toda a sua força. E quebra o pau-de-arara se
libertando das cordas. Caído no chão da cela, ele ainda sente a dor
dos chutes dos policiais que o torturavam.

***

Caminhando por uma das galerias subterrâneas, uma criatura das trevas
chora enquanto o sangue escorre de suas mãos.
- Ai! Ai! Por favor, me cura! Ai! Ai! Ai, minhas mãos! Ai, como
dói! Ai!
A vampira cai próxima a um córrego. Ela pega a pedra no bolso e a
coloca entre as mãos feridas.
- Faça parar de sangrar! Faça parar de sangrar! Faça a dor passar!
Eu não agüento mais! Eu não agüento mais!
A pedra nada faz. A vampira não agüenta. O ser das trevas estava
muito fraco. Tinha perdido muito sangue. Já não agüentava. A
vampira sabia. Sentia que sua hora tinha chegado. Que finalmente
iria pagar pelos crimes que cometeu, no Inferno. Era o fim.
A cabeça da vampira cai para trás. Ela fecha os olhos. As imagens
transmitidas pela pedra surgem em sua mente.
Ela vê o senador, o vampiro de quem sugou os poderes, em uma suruba.
Vê a mulher, a sereia que confrontou ainda há pouco, em outra forma.
Mais velha, cabelos grisalhos, a senhora cuida da roupa do filho.
Verifica se a empregada passou as camisas e as calças direito. Ela
estava tão orgulhosa. Seu filho viria a se tornar governador. E,
mais tarde, quem sabe, presidente da República. Como ela tinha
orgulho do filho, de sua inteligência, de seu porte. Ele era como o
pai. Bonito, elegante e inteligente. Através de sua sabedoria, as
famílias da mulher e do senador iriam enriquecer ainda mais. Ele era
o futuro. Um futuro com dias mais felizes. Com mais dinheiro para
gastar.
Mas o acidente com o avião mudou tudo. Tudo. Ela morreu junto com o
marido. A vampira vê o momento em que o demônio derrama o sangue de
vampiros mortos por caçadores, pela boca do senador. Vê o momento em
que ele se torna o vampiro. Presencia o momento em que a mulher é
jogada no mar de fogo. E as duas mulheres, a vampira e a sereia, a
jovem e a mulher, vêem o senador gastar o dinheiro do Saneamento
Básico com prostitutas.
- Ele não podia ter feito isso comigo! Eu era sua esposa! A mãe do
seu filho! A mulher a quem ele jurou lealdade! Ele não podia! Não
podia...
Então a verdade é revelada. O senador só se casou com a mulher
porque esta era duma família rica. Ele precisava mostrar ao povo que
era um homem casado e que tinha uma família cristã a fim de ganhar a
eleição. E foi o que aconteceu.
A mulher chora no mar de fogo tamanha é a dor que está sentindo. O
demônio se apaixona por ela. Os olhos da mulher brilham pedindo
vingança contra a traição cometida. O demônio, louco de amor pela
mulher, a transforma em uma sereia. Foi naquele momento que a Pedra
Filosofal explodiu em um trilhão de pedaços. Os demônios e vampiros
começaram a lutar entre si por fragmentos daquela pedra amaldiçoada.
A jovem tinha sido torturada por demônios e já não suportava mais
tamanha dor. Foi quando ela viu. Uma lasca da Pedra Filosofal tinha
caído perto dali. Ela se arrasta sem perceber o senador, agora
transformado em vampiro, segui-la. Ela se aproxima. A dor no corpo
é terrível. Mas a jovem sentia que aquela pedra era a saída de volta
para casa. Estica o braço. A mão quase alcança a pedra.
A sereia também se arrasta na direção do vampiro e da jovem. Ela quer
se vingar das traições cometidas pelo marido. Quer destruí-lo com as
próprias mãos. As duas mulheres se esforçam numa luta satânica. No
momento em que a jovem agarra a lasca da Pedra Filosofal, o vampiro
morde-lhe o pescoço. Aí, o impensável acontece. A jovem, através do
poder da Pedra Filosofal suga-lhe os poderes e a essência. O vampiro
derrete enquanto dentes afiados crescem na boca da jovem.
- Nãoooo...
A sereia grita com ódio. Ela se vira na direção do demônio e fala:
- Ela me negou a vingança! Destrua-a!
O demônio arremessa um machado de fogo na direção da vampira. Esta
estica o braço na direção da criatura. A lasca absorve o machado e o
devolve em forma de lâminas flamejantes. O demônio tem então o corpo
todo esquartejado.
- Pai, nãooooo... Meu pai! Ele me recriou! Me deu poder para me
vingar daquele maldito! Nãooo... Ele era meu pai! Meu pai! Meu
pai!
- Meu pai! Ele me amava! Ele me queria como mulher! Por causa
dele, fui morta e vim parar no Inferno! O lugar onde me transformei
em vampira!
A vampira acorda. O ferimento em suas mãos já está cicatrizado. O
sangue já não escorre mais. Ainda cansada, a vampira volta a
dormir.
Agora eu sei! Pensa ela enquanto descansa. Agora sei porque aquela
sereia me odeia! Pois muito bem! Ela quer vingar a morte do pai que
a recriou! Pois que venha! Eu estarei esperando por ela! Que ela
venha! Que venha!

***

Na escuridão mais sombria, a luz se faz presente.
No chão da cela, o desempregado chora enquanto vozes ocultas na
escuridão riem dele. O sangue que escorre de sua testa misturá-se ao
líquido vermelho que sai de sua boca e de seu nariz.
- Olha o bebê chorão, olha!
- Tá com medinho, é assassino?!
- Você nunca vai sair vivo daqui, seu marginal!
- Olha como ele chora! Parece uma menininha! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Os outros policiais acompanham a risada do colega. O desempregado,
cheio de hematomas, só chora.
- Escute, nós sabemos que você não contrabandeou arma nenhuma!
O desempregado se vira na direção do policial. Uma pergunta escapa
de seus lábios machucados:
- Por que... eu?!
- Porque você é pobre! E pobre e bandido é a mesma coisa!
Mais lágrimas escorrem dos olhos do desempregado. Antes de perder o
emprego, ele era um trabalhador, um homem que pensava em constituir
uma família com a mulher que amava. Mas aí, o governo aumentou os
impostos sobre os produtos que a fábrica onde ele trabalhava fazia.
Para cortar gastos, a empresa foi obrigada a praticar uma demissão em
massa. Era isso o que os empresários pensavam dos trabalhadores, dos
homens honestos que perderam o seu sustento, um gasto.
- Será que ele tem medo do escuro, será?!
- Vamos apagar a luz para ver!
Um dos policiais apaga a lâmpada. E aí o inferno começa.
- Não! Não! Não!
- Ai! Ai! Ai! Nãoooo...
- Pare! Ai! Ai! Pare!
- Segurem ele! Segurem ele! Aiiii...
- Não, por Deus não! Nãoooo...
Os policiais do lado de fora da cela escutam os gritos e correm até o
local. É quando um dos guardas que estavam com o desempregado
consegue abrir a porta.
- Nãoooo...
- Meu Deus!
- Minha Nossa Senhora!
- Mas o que é isso?!
O policial que tinha aberto a porta estava sem as duas pernas e tinha
se arrastado até a porta. O sangue atrás dele se espalha. A luz do
dia invade o recinto sombrio. Peles e ossos humanos estavam
espalhados pelo chão da cela. No fundo do lugar, encolhido em um
canto, o desempregado só chora.
- Deus! Oh, Deus, o que aconteceu?! O que foi que eu fiz?!
Os hematomas e os sangramentos tinham sumido. Só sua testa
continuava ferida.
- Ele... Foi ele... Bluuurp...
O policial aponta para o desempregado. Depois, vomita sangue e morre.

***

Cai a noite.
Abaixo da terra, a escuridão reina absoluta. É quando os imortais
recobram suas energias e se preparam para a batalha.
A pedra, nas mãos da vampira começa a brilhar. Então, ela sente um
estalo e acorda. Algo se aproxima. Algo poderoso e sombrio como o
mais mortífero dos redemoinhos está chegando pelo córrego perto da
galeria. Pelo chão desta, os pedaços dos corpos das vítimas do
acidente no metrô bem como daqueles que foram assassinados pela
sereia apodrecem enquanto ratos devoram a carne.
A vampira se levanta. Ela sabe. Ela sente. Algo se aproxima.
- É ela! Está vindo! Conseguiu recobrar suas forças! Mas eu também
recobrei as minhas! Já é noite! Me sinto mais forte agora! Só
preciso de um pouco de sangue! Mas antes, está na hora de acertar as
contas!
A vampira se vira de um lado para o outro sentindo que a sereia se
move em várias direções, procurando o momento e o lugar adequados
para atacar. A espera dura segundos, minutos, duas horas. A agonia
toma conta da vampira. O silêncio é sepulcral. A vampira sente
medo, mas sabe que não há escolha. Se fugir, a sereia irá caçá-la
novamente e esse conflito nunca iria ter fim. Então que termine
agora. Que o confronto venha. No entanto, a espera pelo combate
aborrece a vampira.
- Qual é?! Está com medo, madama?! Sim, eu sei que você já foi
rica! Sei que você foi esposa de um senador corrupto, o mesmo homem
que me deu o poder! O mesmo homem que te traiu usando o dinheiro que
ele e você roubaram do povo, sua corna! Corna! Corna! Sua corna!
Sua corna! Chifruda! Você disse que queria vingar a morte de quem
lhe deu o poder?! Pois eu nem me importei com o seu marido quando
ele me deu o meu! Está ouvindo, chifruda?!
Uma mão gigantesca feita de água emerge do córrego, agarra a vampira
e a puxa para dentro do rio. No interior deste, a vampira sente a
água entrar em sua boca, em seu nariz, nos ouvidos, nos olhos. A
falta de ar é insuportável e a vampira grita, berra mas as ondas
silenciam sua voz. Um grito. Um berro silencioso em meio às trevas
fluviais. Enquanto isso, nadando na velocidade de um tubarão, a
sereia se aproxima cada vez mais. Presa pela força das correntes, a
vampira se debate, tenta se libertar das correntes feitas de água.
Mas a falta de ar a consome. O desespero toma conta de seu ser. A
dor é intensa. Ela não percebe a criatura marinha se aproximando.
Rápida. Veloz. As unhas tornam-se garras. Os dentes crescem. Os
olhos tornam-se vermelhos. A bela sereia se transforma num monstro
horripilante.
Era com certeza o fim da vampira. Mas, às vezes um simples lance de
olhares pode mudar tudo. Quando a Ditadura Militar foi imposta,
todos achavam que o regime ditatorial iria durar para sempre. Mas
aqueles que financiaram o governo sabiam que tudo muda. Tudo muda e
tudo pode mudar. Esta sereia já foi uma mulher oriunda de uma das
famílias políticas mais corruptas deste país. Um acidente com um
avião mudou o seu destino. Assim é o acaso. Assim é a vida! Assim é
a morte!
E eis que o acaso surge. A vampira vê, pelo canto do olho direito, a
sereia se aproximar. A pedra estava em sua mão direita. Então,
suportando a falta de ar e a dor, a vampira pronuncia um antigo
encantamento usado pelos deuses do mar.
- Mum mar fogeeeeeee...
Então, um vento forte invade a galeria espalhando os pedaços dos
mortos por quilômetros. O sangue frio deles espirra nas paredes da
galeria manchando-as. O vento atinge em cheio o lugar onde a vampira
e a sereia travam a batalha. A sereia chega perto da vampira e se
prepara para devorá-la sem se importar com o efeito que a carne de
uma imortal possa causar em seu organismo. Até que o vento
impulsiona-a para longe da vampira. Súbito, a água ao redor da
nosferato também se afasta, criando um buraco de terra em meio ao
córrego. A vampira cai no buraco libertando-se das correntes de água
que a prendiam. O corpo da sereia voa para fora das águas, levado
pelo vento. A vampira, ainda sem ar, tem forças para transformar a
pedra numa lança e depois arremessá-la contra os peitos da criatura
marinha.
- Iahhhhh... A sereia grita enquanto a lança atravessa seu corpo e
se finca na parede atrás dela.
O peito da sereia explode em sangue. A vampira pronuncia mais um
encantamento:
- Vá lá ventuno!
O vento se vai.
O córrego volta ao seu curso normal. E o corpo da sereia cai sobre
as águas.

***

Andando sobre o córrego, a vampira se aproxima da sereia. Esta,
ainda viva, começa a vomitar sangue.
- Ai! Ai! Ai!
- O que foi?! Está tão acostumada a viver no luxo e no dinheiro que
ainda não suporta a dor?!
- Sua... maldita! Eu... Você matou o único ser que me deu alento no
pior momento... da minha vida!
- Nós não estamos vivas sua tola! Nós somos imortais agora! Mas
você... você é uma idiota!
- Maldita! Eu te odeio! Eu vou te matar!
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
- Eu ainda vou vingar o meu pai!
- Seu pai?! Sabe a quem você está chamando de pai?! A um demônio!
A um ser maligno!
A vampira pega a sereia pelos cabelos.
- Ai!
- Dói, não dói?!
- Ai, pare! Pare! Não é justo! Você matou meu pai! Eu tinha de me
vingar de você! Ninguém tem o direito de tirar a vida do pai de uma
pessoa! Mesmo se esse pai for um demônio!
- Hãããã...
A vampira estapeia a sereia. A cabeça desta vira para trás.
- Não me venha falar de pai! Não me venha dizer que ninguém tem o
direito de matar um demônio!
- E se fosse o seu pai?!
A vampira olha com ódio para a sereia e diz:
- Meu pai me matou! Meu pai quis me estuprar! Ele achava que eu era
sua propriedade e por isso considerou que eu devia ser sua mulher!
A vampira corre até um canto, se encolhe e começa a chorar. A
lembrança de que seu genitor, aquele que lhe deu a vida, foi seu
assassino ainda é dolorosa em sua mente.
Súbito, a sereia percebe algo. As palavras da vampira penetram em
sua mente de forma dolorosa. Então, as duas imortais sentem. O
ranço do teleporte. Um portal do Inferno se forma. A vampira se
ergue. A sereia olha para trás e vê seu pai, o demônio que a recriou
na forma de um ser magnífico, sair de dentro do portal. Os chifres e
os dentes do demônio assustam a sereia.
- Não queria me ver, filhota?!
- Pai, não! Não! Não! Não! Não!
- Pois aqui estou eu!
- Não! Não! Não! Nãooo...
O demônio agarra a sereia pela cintura. A vampira vê a cena e
lágrimas escorrem de seu rosto. Tudo volta em sua mente. Ela
imagina que tudo aquilo não passou de uma tortura preparada pelo
Inferno para fazê-la sofrer ainda mais. Os mesmos gritos. A mesma
dor de quem foi quase estuprada por aquele que lhe criou. A luta.
Os tapas. O sangue. A morte.
- Não! Não! Não, pai! Nãooo... Não! Não! Não! Não!
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
- Não, pai! Não! Pare! Está doendo! Está doendo! Não! Nãoooo...
O demônio começa a meter na sereia. A vampira vê a lança ainda presa
contra a parede da galeria. Ela não suporta. Não agüenta. O
nosferato corre até a lança e a arremessa contra o peito do demônio.
- Iahhhh...
A criatura grita em agonia enquanto sangue verde escorre de seu peito.
- Volte para o Inferno, demônio!
- Iahhhh...
O demônio explode em mil pedaços. O portal do Inferno se fecha. A
sereia cai. Ao lado dela, a pedra também cai no rio. A força da
correnteza leva a lasca da Pedra Filosofal para longe.
- Não! Grita a vampira correndo na direção da pedra. Não! Volte!
Eu preciso de você para caminhar de dia! Não! Não! Nãooo...
A sereia, com o sangue ainda escorrendo do peito, nada até a pedra e
a agarra.
- Iahhh...
A vampira pula em cima da sereia e as duas afundam em meio à merda
que escorre pelo rio. No interior deste cada uma puxa a pedra para o
seu lado.
- Largue! Grita a sereia. Eu preciso da pedra para me curar! E
para andar sobre a terra! Largue!
A sereia morde o pulso da vampira. Esta grita e solta a pedra. A
sereia tenta nadar para longe dali, mas a vampira a agarra pelo rabo
de peixe. Então, a sereia faz um gesto com a mão e correntes de água
prendem as pernas e os braços da vampira. Esta se esforça para
libertar. Sente novamente a falta de ar. As correntes a puxam para
o fundo do rio. As merdas também contribuem para sufocá-la. Em meio
à dor e ao desespero a vampira tenta esticar a mão para o alto. Do
lado de fora dos esgotos, o céu negro fica ainda mais sombrio.
Nuvens de chuva se aproximam. Pingos d`água começam a cair. Raios e
relâmpagos preenchem o negro vazio do céu.
Ela ainda tenta esticar mais a mão para o alto. Tenta. Tenta.
Tenta. A merda entra pelo nariz. A dor e o fedor são
insuportáveis. Mas, então finalmente acontece. Um relâmpago atinge
a calçada que desaba sobre o esgoto impedindo que o rio e a sereia
prossigam.
- Não! Não! Não!
A sereia se volta para a vampira acorrentada. Com um puxe de mão a
água leva a vampira até a sereia.
- Faça parar! Faça parar! Iahhh...
A sereia esbofeteia a vampira. Sem poder falar devido à merda e à
água que a sufocam, a vampira sofre em silêncio. Sua expressão é a
mais desesperadora possível. A sereia crava as garras no rosto da
vampira. O sangue escorre da nosferato e ela sente a sede, a vontade
de chupar mais do líquido vermelho.
Então, um novo relâmpago entra pelo buraco na calçada e atinge a
sereia.
- Iahhhhh...
Dez mil. Vinte mil. Trinta mil. Quarenta mil volts. A água fica
iluminada. A eletricidade corre pelo rio. Corpos de ratos são
explodidos pela descarga elétrica.
- Não... vou... desistir!
E nem eu! Pensa a vampira.
A descarga elétrica aumenta. Já são oitenta mil volts de
eletricidade correndo no corpo da sereia.
- Iahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...
O ser marítimo desmaia. A vampira nada até o corpo da sereia e tira
a pedra de suas mãos. As descargas elétricas diminuem até cessarem.
A vampira sai do rio toda fedida.
- Cof! Cof! Cof! Cof!
Ela tosse, tentando recuperar o fôlego. E vê o corpo da sereia
sangrando, boiar no rio. Encostada a uma das paredes da galeria, a
vampira geme tentando respirar. Cansada. Exausta. E toda fedida.
Então, a pedra brilha mais uma vez. E a vampira sente a presença
dela. Um monte de água é formado e sobre ele, a sereia, sangrando.
É nessa hora que a vampira percebe que sua mão e seu rosto estão
sangrando também.
- Eu preciso da pedra para caminhar sobre a terra!
- Você... Você é uma sereia, é a rainha do mar! Seu lugar não é
aqui! É embaixo das águas! É lá o lugar para onde você deve ir!
Vá! Volte para o mar! Cure suas feridas!
- Não! Eu não quero ficar só no mar! Eu quero andar sobre a terra
também! Como eu fazia antes quando estava viva!
- Pelo que vejo, sua morte não destruiu sua ambição! Você nunca se
contenta com mais, não é mesmo?! O salário do seu senador era para
mais de vinte mil reais! Mas você se contenta com isso?! Não!
Querem mais! Sempre mais!
- Eu quero a pedra! E tudo o que eu quero, eu consigo!
A vampira se levanta revoltada.
- Dessa vez não! Se quer a pedra, venha pegar!
- Pois muito bem! Foi você quem pediu!

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