OS ESCRAVOS DO TERROR
( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)
- Não! Não! Nãooo... Pára! Pára! Pára! Eu não agüento mais, feitor! Pare! Pare! Pare! Aiii...
O escravo não suporta as chicotadas. Berra e chora de dor. O feitor, insensível às súplicas do negro, continua o seu trabalho. Não que ele não gostasse do escravo. Era pago para torturar e não tinha motivos para pôr fim aos açoites. Só quando o Barão de Madureira ordena, é que ele pára de açoitar o negro.
- Já chega, feitor! Desse jeito, você me estraga a mercadoria! Pode ir cuidar dos outros escravos!
- Sim, senhor Barão!
- Isso não é justo! Chora o negro tristemente. Por que eu não tenho o direito de ser livre?! Por quê?!
O Barão de Madureira caminha até o negro e lhe diz:
- Você está reclamando do quê?! Da falta de liberdade?! Você tem casa e comida de graça, seu crioulo safado! Tem gente que trabalha, dá duro prá ter onde dormir! Você dorme na senzala de graça e ainda reclama!
- Do que adianta ter onde dormir?! Do que adianta ter o que comer, se trabalho desde o alvorecer do dia até o sol se pôr?!
- Olha, você não me venha como histórias, ouviu?! Não me venha com histórias que eu gastei muito dinheiro prá te ter de volta!
O feitor se vai. O Barão de Madureira ordena a dois capatazes que tirem o escravo do tronco e o levem para a senzala. Os empregados obedecem o Barão. O nobre vai até a Casa Grande. E se arruma para ir à igreja.
***
- Irmãos, todos nós somos filhos de Deus! Fala o Arcebispo durante a missa. Nós, que nascemos brancos e abençoados pela nobreza, somos filhos de Deus! Por isso, pratiquemos a caridade! E não nos esqueçamos das palavras de Cristo: Amai-vos uns aos outros como eu voz amei!
Após as palavras do Arcebispo, escutá-se um estrondoso Amém. O Barão de Madureira ora ao lado de sua esposa e de seus três filhos. No final da missa, o Arcebispo vai cumprimentar o Barão e sua esposa. O filho mais velho vai cortejar sua futura noiva. Os dois mais novos, um menino e uma menina, vão brincar com um grupo de crianças do lado de fora da igreja, sob o olhar atento de sua mãe. O Barão de Madureira aproveita a ausência da esposa para conversar mais discretamente com o Arcebispo.
- E então?! Tudo pronto para hoje à noite?!
- Sim! Só tenho um receio!
- Fale, Arcebispo!
- A criatura já matou três dos meus escravos! E confesso que isso me incomoda! Os escravos me custaram dez contos de réis! Sei que o tesouro que nos aguarda é maior... mas não quero ficar no prejuízo!
- Entendo, Arcebispo! Mas, infelizmente, um escravo tentou fugir da fazenda à noite passada e tive prejuízos ao capturá-lo!
- Mas e o meu prejuízo, senhor Barão?!
- Senhor Arcebispo, eu vou recompensá-lo, juro!
Os dois continuam discutindo. Eles não percebem. Aliás, nem ligam para o pobre próximo a eles. Mancando de uma perna, o pobre escuta a conversa do nobre e do clérigo. E sente que a hora da caçada se aproxima.
***
Quando anoitece, o pobre vai para a igreja. Com dificuldade para se locomover, devido ao defeito na perna, ele se ajoelha e ora pela caçada desta noite.
- Deus Pai Todo-Poderoso, me dê forças para cumprir a missão que meu pai deixou-me de herança! Ajude-me a combater as forças das trevas, com o poder da fé! Amém!
O pobre faz o sinal da cruz. Ele se apóia sobre o banco de madeira para se levantar. Faz uma expressão de dor. O defeito na perna foi a herança de sua infância pobre. Seus pais eram filhos de pequenos agricultores e seguiram a profissão da família. O trabalho duro na roça e nas caçadas não lhes permitiam ter uma vida confortável. Mas a fé em Deus lhes davam forças para continuarem a luta em nome de Deus. A má alimentação enfraqueceu o corpo do pobre. E sua perna acabou pagando um alto preço.
O Padre sai da sacristia e aproxima-se do pobre.
- É verdade?! Pergunta o sacerdote cochichando no ouvido do pobre.
- Sim! O Arcebispo e o Barão de Madureira aliaram-se ao Demônio, Padre!
- Está com fome?
- Um pouco.
- Vamos para a sacristia comer alguma coisa, então!
O Padre ajuda o pobre a ir até a sacristia. Nela, o pobre sentá-se numa cadeira próxima a uma mesa de mármore. Ele come vorazmente dois pães com ovos enquanto bebe um copo de leite.
- A situação não poderia estar pior! Fala o Padre enquanto belisca algumas uvas numa cesta sobre a mesa. O Barão de Madureira é a maior autoridade daqui! E agora o Arcebispo também está envolvido!
- O que a Igreja de Roma acha disso?
- As ordens são bastante claras! Quem se alia ao Demônio deve ser queimado com ele!
- Vou fazer o serviço esta noite, então!
- Mas eu não tenho dinheiro!
- Então nada feito!
O Padre e o pobre se olham seriamente por um instante.
- Preciso de dinheiro para comprar mais flechas!
- Mas e a Igreja?! Já encomendei a compra de dez imagens para enfeitá-la e não posso quebrar o compromisso!
- Então compre as imagens para enfeitar sua igreja e deixe o povo morrer nas mãos dos filhos de Satã!
- Está bem! Está bem! Pôxa, você devia ser mais ligado à Igreja!
- Sou ligado ao povo de Deus! E é por esse povo que eu combato os seres das trevas!
- Está bom! Está bom!
O Padre tira uma caixa duma gaveta. De dentro da caixa, o sacerdote pega o dinheiro e o entrega ao pobre. Este conta o dinheiro e fala:
- Agora sim o senhor falou a minha língua, Padre!
***
Tarde da noite.
Uma criatura das trevas encontrá-se acorrentada pelos pés e pelas mãos. Ela sente o cheiro insuportável dos ramalhetes de alho sobre seu corpo. E geme desesperada tentando se libertar. Mas é inútil. O alho enfraquece seus poderes. Então, tenta gritar por socorro, por ajuda. Mas a mordaça de ferro em sua boca a impede de falar e o vampiro só consegue emitir grunhidos agonizantes.
O Arcebispo e o Barão de Madureira aproximam-se do vampiro caído e amordaçado.
- Está desesperado, não está? Fala o Barão de Madureira sorrindo para o vampiro.
O nosferato, entretanto, mal consegue falar.
- Não se preocupe, meu amigo! Fala o Barão tirando a mordaça da boca do vampiro. Em breve, seremos irmãos!
- Por favor, me liberte! Grita o vampiro desesperado. Eu lhes darei a vida eterna de bom grado! Agora, por favor, me libertem! Não me machuquem, por favor!
- Acha que somos idiotas?! Se o libertarmos, você irá matar a todos nós! E sabe como eu sei disso?! Porque se fosse comigo, eu faria o mesmo!
Um dos dois capatazes, que montavam guarda do vampiro, olha para o Arcebispo. Este faz um sinal com a cabeça. O capataz, com um facão, corta o pulso direito do vampiro enquanto o outro bota um balde em baixo do membro ferido.
- Aiii... Berra o vampiro enquanto seu sangue inunda o balde.
- Finalmente! Fala o Barão de Madureira com os olhos brilhando de cobiça. Agora o poder da vida eterna é meu! Todo meu!
O Barão pega o balde e bebe todo o sangue que nele existia.
- Espere! Fala o Arcebispo avançando contra o nobre. Você prometeu me dar a vida eterna também!
O Barão de Madureira larga o balde e avança contra o Arcebispo abocanhando-lhe o pescoço.- Iahhh... Grita o sacerdote enquanto o nobre sugá-lhe o sangue.
Assustados, os dois capatazes ficam de espingardas em punho. Após matar o Arcebispo, o Barão de Madureira se vira na direção dos dois empregados. Estes ficam apavorados. Os dentes do Barão estavam afiadíssimos, sua pele estava pálida e seus olhos, vermelhos. Tão vermelhos quanto o sangue que escorria de sua boca. O Barão de Madureira passa a língua pela boca e diz alucinado:
- Sangue! Mais sangue!
Os dois capatazes atiram contra o Barão de Madureira. Este sente o impacto dos disparos mas seus ferimentos cicatrizam. O Barão de Madureira salta sobre os dois capatazes e dá um forte tapa em um deles. O golpe foi tão poderoso que arrancou a cabeça do empregado. O nobre abocanha o pescoço do outro capataz e suga o sangue deste. Quando o corpo sem vida do empregado cai, o Barão de Madureira escuta uma batida na porta. Depois outra e mais outra, até que o pobre, com um chute, consegue arrombar a porta. Cambaleando, devido ao defeito em sua perna, o pobre cai.
- Hummm... Faz o Barão de Madureira lambendo o sangue de sua boca. Mais sangue para sugar!
O Barão aproximá-se do pobre caído. Este, desesperado, molha uma das flechas com água benta e a coloca no arco. Quando o Barão de Madureira salta sobre seu corpo, o pobre atira a flecha contra o peito do nosferato.
- Nãooo... Berra o Barão de Madureira enquanto seu corpo explode em chamas. Eu tenho o poder! Eu tenho o poder! Eu sou imortal! Eu sou imortal! Iahh...
Ainda em chamas, o esqueleto do Barão de Madureira cai. O pobre desviá-se a tempo e se levanta apoiando-se na parede. E o fogo finalmente consome o corpo do Barão de Madureira. Um vento frio entra por uma janela e leva as cinzas do Barão de Madureira. Dele e do outro vampiro, que não suportou a perda de sangue e a fraqueza causada pelo alho. O pobre agarra o terço em seu pescoço, o beija e diz:
- Obrigado, meu Deus! Obrigado!
***
No dia seguinte, correu a notícia da morte do Arcebispo, do vampiro e dos dois capatazes. A roupa do Barão e alguns ossos também indicavam a morte do nobre. O Padre declarou luto oficial por três semanas em respeito à morte de duas das mais ilustres figuras da nobreza e do clero. Um mês depois, o Padre foi nomeado como o novo Arcebispo, o que era sua ambição desde que soube que o antigo sacerdote tinha um pacto com o diabo.
Quanto ao pobre, continua carregando sua cruz, como caçador a serviço de Deus. Isto até o dia de sua morte. Porque todos nós, ricos ou não, libertos ou escravos, um dia morremos. Porque tudo o que tem um começo... tem um fim!
FIM

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