Saturday, June 10, 2006

E AO PÓ VOLTARÁS

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

Ele sente a falta de ar e abre os olhos. O alien vê o cosmo à sua
volta. Ele não sabe como foi parar ali. Lembrá-se apenas de ter
enfrentado Daniela na Terra. Mas algo em sua memória lhe oculta a
imagem de sua morte.
O alien pode sentir seu corpo jogado na imensidão do espaço. Mas não
tem tempo para contemplar a beleza do Universo. Desesperado pela
falta de ar que lhe sufoca o organismo, ele nada no vácuo. Corre na
direção de algum planeta que lhe dê oxigênio. Avista ao longe um
mundo parecido com o da Terra. O híbrido terráqueo-alienígena se
esforça para atingir o planeta que ele pensa ser seu mundo natal.
A falta de ar ainda o sufoca. Ele se desespera. Mergulha em direção
ao planeta, na busca de oxigênio. Chega próximo à atmosfera.
Mergulha mais uma vez. O esforço é terrível.
De repente, ele sente sua pele queimar. O alien, então, começa a
cair. Quando dá por si, seu corpo está em chamas. Desce cada vez
mais, entrando no planeta. Mal dá prá sentir o ar chegar aos órgãos
respiratórios. O alien grita desesperado sentindo as chamas
desintegrarem seu corpo. Então, ele vê, canto do olho esquerdo, um
lago. Se esforça, durante a queda, para mudar seu rumo. Se não
conseguir, seu corpo atingirá um desfiladeiro repleto de montanhas.
Aí, será morte certa, pensa o alien. Quando seu corpo fica abaixo
das nuvens, ele consegue incliná-lo... cada vez mais... faltando
poucos minutos para atingir o chão... ele só cai... em chamas.
Inclina o corpo mais um pouco até que... cai no lago.
Fica por alguns segundos debaixo d`água. Então:
- Bluaarr...
O monstro berra enquanto saí do lago. A água apagara as chamas mas
era quente como ácido. O monstro saí rapidamente do lago, gemendo de
dor. Pelo excessivo clima quente do lugar, ele sabia que não estava
na Terra. Não havia ventos, a água era quentíssima e o céu,
vermelho, parecia aquecer ainda mais o ambiente.
- Vejam! Comida!
Ele escuta o grito. Se vira na direção de onde o som veio e vê um
verdadeiro exército de pessoas vermelhas. Eram, ao contrário do que
era descrito nas lendas do mundo de onde viera seu pai, raquíticos,
rastejavam como répteis. Pela aparência, estavam há vários dias sem
comer, talvez meses.
- O nosso Deus não nos abandonou! Disse um deles com expressões
faciais semelhantes às do Padre Olavo. O monstro veio do céu para
servir de alimento para nós! Vamos devorar a fera antes que ela nos
ataque!
O alien não podia crer no que estava vendo. De alguma forma, ele
atingiu o destino pretendido por seu pai. E conseguiu sair da Terra
para chegar no mundo cheio de pessoas vermelhas que poderiam servir
de alimento para sua raça.
E agora estes seres querem devorá-lo! Pois vão ter uma surpresa! A
vinda àquele mundo fez com que o monstro desperdiçasse muita
energia! Ele estava faminto e, ao ver aquelas pessoas vermelhas, sua
fome aumentou!
O alien e os habitantes vermelhos do planeta avançaram uns contra os
outros e entraram em choque. O primeiro a cair foi o homem parecido
com o Padre Olavo. O monstro não o reconheceu! Mas isso pouco
importava para ele! Estava sedento de fome e devorou o corpo do
homem! Os outros habitantes vermelhos morderam-lhe o corpo todo.
- Iahhh... Berra a fera soltando o esqueleto do homem.
Ele estica os cinco dedos das mãos e suas presas atravessam os corpos
daqueles que o mordiam. O sangue vermelho respinga sobre seu corpo.
O monstro estava faminto, mas cada vez mais pessoas avançavam contra
ele não lhe dando tempo de comer. O alien ficou furioso e disparou
suas presas contra seus atacantes estraçalhando seus corpos. A fera
percebeu que só poderia comer em paz se matasse todos os habitantes
vermelhos daquele planeta. E assim o fez. Devorando uns ali,
cravando suas presas para estraçalhar outros aqui, a fera agarrava
seus corpos e os despedaçava como se fossem brinquedos.
Os gritos ecoam. Os habitantes vermelhos, vendo que estavam diante
de um ser superior, recuam. Mas aí é tarde demais. Eles conseguiram
enfurecer o alien, que não descansaria enquanto não matasse todos
eles. Sua boca e seus dentes estavam encharcados de sangue
vermelho. Bem como suas presas.
Mas o monstro queria mais. Pretendia exterminar aquela raça para
estabelecer o domínio da sua. Enquanto matava os habitantes
vermelhos, a fera pensava em construir uma nave que pudesse trazer os
aliens azuis àquele mundo.
As pessoas vermelhas tentavam se esconder, mas não conseguiam. Não
havia florestas e nem casas naquele mundo. Em um dia, o monstro
matou todos. E, à noite, devorou os cadáveres de suas vítimas. Foi
uma farta refeição. O monstro nunca esteve tão satisfeito. Nunca
tinha comido tanto em toda a sua vida. O sangue vermelho também era
delicioso. Ele chupava tudo com gosto.
Ao fim do dia, o alien construiu um trono feito com os ossos dos
habitantes vermelhos. Um fenômeno, no entanto, chama sua atenção. O
céu fica escuro, mas o clima continua quente. Não há chuva e o
monstro fica pensando que espécie de mundo era aquele onde só havia
calor e nunca frio!
- Ai!
Ele grita. A primeira dor vem da barriga. Depois, o pênis, o ânus e
o saco começam a doer.
- Ai! Ai! Ai! Ai! Berra o monstro. Aiiiii... Ai! Ai! Ai!
Bluaarr... Iahhh... Iahhh...
De repente, ele começa a mijar sangue vermelho. E não pára! Seu
pênis arde como se estivesse mijando ácido! Um braço sai de dentro
de sua barriga! Depois outro, outro e mais outro! A fera berra de
dor! Outros braços saem por seu ânus!
- Aiii... Grita o alien enquanto os habitantes vermelhos saem de
dentro de sua barriga e de seu ânus.
O saco da fera fica enorme e explode liberando mais habitantes
vermelhos. Enquanto uns ainda saem do corpo do alien, este é
devorado por aqueles que já tinham saído dele.
- Ai! Grita a fera sentindo as mordidas. Iahhh... Iahhh...
Iahhh... Aiiiii... Aigh... Aiiii...
De repente, o monstro sente algo subir pelo seu pescoço. A fera não
consegue mais fechar a boca quando o Padre Olavo saí de dentro dela.
- Pai nosso, abençoada seja esta comida enviada por ti! Diz o Padre
com uma cruz na mão. Amém!
Olavo, de dentro da boca do alien, começa a comer os olhos da
criatura. Os habitantes vermelhos daquele planeta estavam há anos em
comer. Alguns deles viviam na miséria há milênios. O grande
problema é que a carne azul da criatura não tinha gosto. Por isso,
eles se esforçam desesperadamente para devorá-la. Depois, começam a
matar uns aos outros para poderem saciar sua fome. Arrancam pedaços
do corpo da fera e passam a disputá-los furiosamente.

***

Em outro lugar:

- Aiii... Grita Rafael enquanto sente as chamas desintegrarem seu
corpo.
Ele olha para o céu e começa a sentir sua alma indo para o alto. As
chamas vão desaparecendo. Rafael sente um vento forte que apaga o
fogo e atenua seu sofrimento.
- Iahhh... Grita o jovem negro sentindo a dor nas costas quando asas
brotam destas. Mas o quê?!
Ele se admira ao ver que está todo de branco, com uma auréola na
cabeça, voando em direção ao céu.
- Deus, será a verdade?! Se pergunta Rafael. Será que irei mesmo
para o Céu depois de toda a culpa que eu sinto... pelas mortes
cometidas pelo meu sobrinho?!
Súbito, o negro atinge um lugar sólido. Localizado entre o azul do
Céu e o branco das nuvens, Rafael reconhece o lugar descrito nas
escrituras:
- Deus, é o Céu! É o Céu! Eu não acredito! É o Céu!
O negro pula de alegria. Sente uma felicidade indescritível invadir
o seu corpo. Súbito, ele escuta o bater de asas. Virá-se para o
lado e vê Bianca( isso mesmo! A Bianca, a namorada de Bryan!) voando
em sua direção. Rafael sorri de alegria ao ver a Anjo, mas percebe
algo triste nos olhos dela. Um sorriso sem brilho e um olhar vazio
preenchem o rosto de Bianca quando esta pousa de frente para Rafael.
- Boa tarde, Rafael, você foi abençoado!
- Oba! Oba! Oba! Grita o negro todo contente. Deus seja louvado!
- Bem-vindo ao Sétimo Céu! Você provou ser digno do reino onde o
amor verdadeiro e a aceitação sem limites imperam! Em breve você se
juntará aos seus pais e à sua irmã!
- Minha família está aqui?!
- Sim! Apenas um parente seu ficou preso na outra dimensão do Além-
Vida cujo nome eu não ouso dizer!
Ela deve estar falando do meu sobrinho! Pensa Rafael que se lembra
de Daniela.
- E Daniela?! Ele pergunta. Ela também veio para cá?!
Nesse momento, Bianca lhe jogou um olhar sério e aterrador. Rafael
ficou assustado.
- Ela está ou não está aqui?! Ele insiste.
- Mais ou menos! Responde Bianca.
- Como assim mais ou menos?! Ela está ou não está aqui?! Não minta
para mim!
Bianca sorri.
- Ora, eu não mentiria para você! Responde a Anjo sorridente, mas
ainda com o olhar vazio. Acha que a mentira existe neste lugar?!
Rafael fica sem graça.
- Ih, é! Eu esqueci onde estava!
- E onde você está?
- Não lembro! Quero dizer, estou no Céu, no Céu!
- No Sétimo Céu!
- Isso! No Sétimo Céu! Mas não podia ser o primeiro?!
- Hummm! Venha comigo!
- Quê?!
- Além de burro, é surdo, quero dizer, segure a minha mão!
Rafael, levado por uma força desconhecida, segura a mão da Anjo. Os
dois voam. O negro fica maravilhado com tudo aquilo. Olha para
baixo e vê a Terra com todas as suas injustiças, desigualdades e
guerras. Rafael imagina como seria bom usar o poder adquirido no Céu
para consertar as coisas ruins que ocorrem no mundo. Bianca sorri.
- Deus fez bem em escolhê-lo para vir ao Sétimo Céu! Você vive
pensando nos outros, mesmo naqueles que o oprimem!
- É verdade! É claro que há certos momentos em que eu sinto raiva e
revolta! Mas eu jamais seria capaz de prejudicar as pessoas! O que
me deixa com raiva é justamente a forma como elas são exploradas!
- Verdade!
- Me desculpe, mas eu não sei qual o seu nome!
- Bianca!
- Bianca! Pôxa, que nome bonito!
- Obrigada!
- Bianca, é impressão minha ou você é infeliz?!
A Anjo negra baixa os olhos por um instante. Ela se lembra dos
beijos e das carícias que jamais terá! Rafael percebe que falou
merda!
- Desculpe, eu não queria invadir a sua vida pess...
- Eu sou feliz, Rafael! Só que eu não tive a mesma sorte que você e
hoje o meu amor arde nas chamas da outra dimensão!
- O que?! Espere um momento, se o seu amor está no Infer...
- Não fale esse nome aqui!
- Desculpe, mas se o seu amor está na outra dimensão...
- Assim está melhor!
- ... e você está dizendo que eu tive mais sorte que você então...
- Daniela está aqui!
- Jura?! Ai, meu Deus do Céu, que bom! Agora seremos felizes por
toda a eternidade!
- Rafael, espere até encontrarmos Daniela! Até lá, não alimente
falsas esperanças!
- Mas como assim?! Acaba logo com esse mistério, Bianca, e me diz
aonde ela está!
- Você quer saber? Ela está ali.
Rafael ergue a cabeça na direção do lugar apontado por Bianca. E vê,
impressionado, uma menina de dez anos de cabelos loiros e olhos azuis
como os de Daniela. Rafael caminha até a criança sem entender.
- Isso é brincadeira, não?! Pergunta o negro estupefato.
- Menina, diga ao moço qual o seu nome! Diz Bianca.
- O meu nome é Daniela! Diz a menina.
- Mas não pode ser! Grita Rafael confuso. Daniela morreu adulta!
Essa garota não pode ser a mulher que eu amei!
- Toque na testa dela e leia os seus pensamentos! Diz Bianca.
- Quê?!
- Vamos, ande!
Rafael obedece. A menina fecha os olhos.
Imagens surgem na mente do negro. Imagens do enterro de Elizabete, a
mãe de Daniela. Os poderes da menina já tinham se manifestado
naquela época. Ela sabia que Cristo dera à mãe a missão de tirar o
racismo do coração de seu pai. Sabia do sofrimento que ela passava
nas mãos de Richard I. Isso a atormentava em pesadelos. Sentia
raiva do pai, mas não conseguia desafiá-lo! Durante o enterro,
chorando, Daniela e Richard I discutiram. O pai a esbofeteou duas
vezes. Assustada, a menina correu para fora da igreja.
Desconsolada, a menina não viu quando uma carruagem passava e foi
atropelada pelos cavalos.
- Daniela! Gritou Richard I aos prantos.
Minutos depois, a menina estava sendo tratada pelos médicos. Estes
não tinham a mínima esperança de salvá-la. Richard I ficou
desesperado. Ele tinha perdido a mulher que amava por causa de seu
racismo. Agora, o mesmo poderia se dever à sua filha. O Rei de
Brancalândia trancá-se em sua biblioteca e vê um punhal em cima da
mesa.
Deus, ele vai se matar! Pensa Daniela enquanto saí de seu corpo. E
eu não posso fazer nada, meu Deus, nada!
Mas você pode Daniela!
Ela escuta uma voz nas sombras.
- Quem é você?! Pergunta a alma de Daniela.
- Um anjo minha querida! Disse a voz. Um anjo enviado por Papai do
Céu para atender ao seu pedido!
- Anjo com voz de mulher?!
- Os anjos não têm sexo, meu bem! Agora, me diga qual o seu maior
desejo!
- Meu maior desejo?! Ué, por que você quer saber do meu maior
desejo?!
- Porque você é uma menina muito boazinha! E Deus atende aos pedidos
das meninas boazinhas! Agora, diga-me o que você quer!
Daniela pensa um pouco. Ela sente que o pai vai se matar se perder a
filha.
- Eu quero viver! Declara Daniela. Meu pai vai morrer se eu
morrer! Sei que ele é um homem mau, mas eu ainda o amo!
- É claro minha querida! Afinal, ele é seu pai!
- E então?! Vai me fazer viver de novo?!
- Eu não posso fazer isso, Dani! Mas há algo que eu posso tentar!
- E o que é?!
- Ficar no seu corpo enquanto você vai para o Céu! Assim, eu
cuidarei do seu pai pelo resto da vida!
A menina sorri.
- Você promete fazer o meu pai bem feliz?!
- Prometo, minha criança! Juro que irei ficar sempre ao lado dele!
- Então tá tudo bem!
A alma de Daniela vai então para o Céu. Richard I, na biblioteca,
prepara-se para cortar os pulsos até que escuta a voz mais doce que
já ouviu na vida!
- Papai!
- Filha, você voltou!
Richard I se agarra a Daniela e os dois choraram muito naquele
momento.

***

- Nãooo... Grita Rafael de joelhos, chorando.
O grito ganha eco e pode ser ouvido por todos os reinos do Céu! Os
anjos e santos silenciam pois sentem a dor e a aflição de um dos
seus. Só Bianca falou naquele momento:
- A voz que assumiu o corpo de Daniela não era a de um anjo!
- Não?! Perguntou Rafael com lágrimas nos olhos. Então de quem era?!
- Da Demônia Pérfida!
- O que?! Está querendo me dizer que eu dormi com um demônio?!
Então, por que estou no Céu?! Por que?!
- Porque foi o seu amor que conseguiu destruir a ambição dela!
Rafael não acredita. A revelação o fez chorar como nunca. Bianca
continuou:
- Há muito tempo, Pérfida ambicionava o poder de Daniela para
conquistar a Terra e entregar o planeta nas mãos de Satã! Quando
Daniela morreu, ela se aproveitou da pureza da menina e fez um pacto
com ela!
- Nãooo... Isso não pode ser verdade! Não! Não! Nãooo...
- Apesar de ambiciosa, Pérfida sempre se deixou levar pela luxúria!
E esta foi sua maldição! Ela tomou um corpo humano com todas as
emoções boas e ruins que existem nele! Ela só pegou as coisas
ruins! Não levou em conta as coisas boas! Transformou David num
racista! Fez sexo contigo para liberar de vez os poderes de
Daniela! Esperava chegar à idade adulta e assim evoluir suas forças
até a plenitude! Lamento dizer Rafael, mas se Daniela não tivesse
morrido por amor a você, Pérfida e Satã teriam vencido!
- Nãooo... Eu não acredito nisso! Não! Não! Nãooo...
- Por isso você está no Céu! Foi a integridade de seus sentimentos o
que salvou o mundo!
- Não! É mentira! Mentira! Eu quero Daniela! Eu a quero!
- Eu tô aqui, tio! Diz a verdadeira Daniela.
Ele olha para a menina com ternura. Sente a doçura de suas
palavras. Vê o rosto de Daniela no rosto dela. Se lembra dos
beijos, da carícia, do amor.
- Nãooo... Ele grita mais uma vez ensandecido. Não! Não! Não!
Não! Nãooo...
- Vamos embora, Dani! Diz Bianca pegando a menina pela mão. Rafael
tem muito o que chorar antes de aceitar a sua nova vida aqui no Céu!
A Anjo sabe do que está falando. Há muitos séculos adiante, ela
soube que nunca mais poderia ver Bryan novamente. E chorou
desconsolada do mesmo jeito que Rafael chora agora.
Oh, Bryan! Pensa Bianca enquanto lágrimas escorrem por seu rosto.
Meu amado, por que cometeu tantos crimes?! Por que se deixou levar
pela vingança e pela luxúria?! Por quê?!
Assim como Bianca aceitou viver eternamente sem Bryan, Rafael, com o
tempo, também aceitou viver ao lado de Daniela em forma de criança.
Ao lado de seus pais e de sua irmã, o Anjo busca a felicidade
eterna. Mas sua boca jamais esquecerá do sabor do beijo da mulher
que ele mais amou em vida.

***

Enquanto isso, nas profundezas do Inferno:
Ele acorda em meio a um jardim. O monstro não se lembra do que lhe
acontecera antes, mas o corpo todo dói, mesmo reconstruído. Ele não
se lembra de ter estado agora há pouco em outro reino infernal, onde
aqueles que exploram o povo vivem eternamente com fome para pagar por
seus pecados.
Agora ele está em outro reino demoníaco. Mas, por um instante, o
lugar lhe parece assustadoramente familiar. Súbito, uma abelha verde
pica-lhe o olho esquerdo.
- Bruu... Ele grunhe matando a abelha com duas de suas garras.
De repente, ele ouve um bater de asas intenso. Cada vez mais
forte... se aproximando.
E milhares de abelhas verdes saem das plantas e atacam o alien. O
ser é picado impiedosamente por todas as partes do corpo. Mas se
defende matando algumas das abelhas com as garras e muitas ele
devora. Ele sente o gosto de seu veneno e o acha delicioso. Logo,
começa a devorá-las com mais intensidade. Como um sapo, usa a língua
para apanhá-las. Bebe de seu doce néctar. Apavoradas, as abelhas
fogem. O monstro vai atrás delas. Ele cambaleia. O veneno é muito
forte e seu sangue está repleto dele. O monstro saí do jardim. As
abelhas que tinha devorado saem de sua boca e iniciam novo ataque. E
ele, por sua vez, as devora de novo. Em meio à guerra sem fim o
monstro vê seres semelhantes a ele, de mesma pele, com dentes e
presas, lutando contra as abelhas. E são milhares de seres azuis
lutando contras as abelhas verdes.
O filho de Mariângela vê um trono gigantesco, feito de cadáveres e
ossos humanos. Sentado nele, ele vê Daniela também gigante, com
chifres na testa e olhos vermelhos. Ela gargalha sem parar enquanto
se delicia com a matança.
O monstro não sabe que esta não é Daniela, mas sim a Demônia Pérfida,
que voltou ao Inferno com a forma que assumiu nos últimos tempos.
Condenada por Lúcifer a nunca mais voltar à Terra por ter se
apaixonado por um mortal, ela tenta se divertir com a crueldade para
recuperar o sangue frio. Mas está tentando enganas a si mesma.
Presa na forma de Daniela, Pérfida tenta aproveitar quando todos não
estão vendo, para chorar pelo homem negro que conseguiu domar a
maldade que existia em seu coração.
Para o monstro, isso é o caos total. Naquele momento, ele lembrou-se
de Bryan no Inferno. As demônias arrancavam a pele do assassino
serial e ele se transformara num alien azul. E a fera reconhece seu
pai.
Nunca existiram alienígenas azuis. Bryan morreu na cadeira elétrica,
foi ao Inferno e depois voltou à Terra em sua forma demoníaca.
Estuprou Mariângela. A desintegração de sua pele enquanto ele metia
nela foi seu castigo pelos estupros que praticou em vida.
E aí nasceu o monstro. Fruto da relação carnal de uma mortal com um
demônio. O monstro não acredita e chora. Ele se entrega às
abelhas. O tempo todo as pessoas que o chingavam de Demônio estavam
certas... e só ele não queria acreditar. Agora, o Demônio irá chorar
por toda a eternidade, pois já estava condenado antes mesmo de ter
nascido.
Os habitantes de Burralândia achavam que o monstro era um Demônio.
No século XIII, os conhecimentos científicos eram muito atrasados. E
nós, que vivemos no século XXI, será que sabemos a verdade sobre a
origem da vida?!
FIM

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