O JARDIM DO MAL - EPISÓDIO I: FELICIDADE BANHADA DE SANGUE
Por seis meses vivi com meu amor. Por seis meses a felicidade ia de
encontro aos meus lábios sob a forma de um beijo, de uma carícia ou
mesmo um capricho. Eu já não era a menina apaixonada de outrora.
Mas também já não era a vampira infeliz que vagueava pelas ruas da
cidade em busca de sangue. Não. Agora eu tinha alguém com quem
contar. Um amante. Um homem. E, nos braços dele, eu não me sentia
uma vampira, mas sim uma mulher.
Dois amantes. Um homem e uma mulher. Duas criaturas das trevas
vivendo sob o mesmo teto. Alimentando-se da mesma comida. Usando o
mesmo quarto. Partilhando o mesmo amor... e algo mais.
A pedra dele ficava no centro do salão do palácio onde morávamos.
Sua magia era potencializada por antigos encantamentos que
praticávamos à noite. Para que de dia, toda a nossa propriedade
fosse protegida da luz do sol.
Era uma vasta mansão, cheia de quartos, banheiros, salas, tapetes e
quadros an-tigos. Parecia um enorme museu. Só havia uma cozinha
dedicada aos criados em tempos antigos. Hoje, se tivéssemos criados,
eles é que seriam a nossa refeição.
Por causa disso, vivíamos só, eu e meu amor. Também para que criados
se podemos fazer tudo com o poder de um pensamento? E para que
comprar comida? A carne humana é tão mais suculenta que a de
galinhas ou perus.
Existia um jardim nos fundos do palácio. E ele era imenso, repleto
de folhas floríferas, cheias de frutas. Por nos transformarmos em
morcegos, sentimos um enorme prazer em comer frutas. Afinal, o único
mamífero que voa as adora, não é mesmo? Mas eu gostava mesmo era de
comer as frutas quando nos tornávamos humanos. Assim, eu me iludia
mais uma vez, achando que teria uma parcela da minha mortalidade em
meio àquelas frutas.
- Você não sente o gosto, não é mesmo?
Eu sou interrompida em meus pensamentos pelas palavras de meu amado.
- Meu amor, você ainda não se adaptou à sua nova vida?! Já se
passaram seis meses!
- Eu sei, meu querido! Mas é que eu acreditei sinceramente que
poderia... que poderia romper com a minha maldição!
- Só existe uma maneira de fazê-lo, minha querida! E você sabe muito
bem qual é!
- Sim! Mas, antes de te conhecer, achava que iria viver sozinha para
sempre! E hoje, sei que estarei ao seu lado por toda a eternidade!
- Meu amor...
- Deixe-me terminar! Eu considerava que por ter encontrado a
felicidade em seus braços, que eu poderia deixar de ser uma vampira
também! Que eu poderia voltar a ser uma mulher!
- E você acha que eu também já não me decepcionei com tal ilusão?!
Meu amor, vampiros foi o que nos tornamos e vampiros é o que nós
somos! Veja pelo lado bom, podemos fazer coisas que ninguém pode
fazer! Podemos voar! Evocar uma tempestade! Temos um poder
ilimitado em nossas mãos!
- De que adianta esse poder se eu não posso ter filhos?!
Nessa hora, as lágrimas jorraram como cataratas de meus olhos. Ele
mais uma vez me abraçou e me acariciou como fazia em meus momentos de
depressão. Eu não podia ser mãe, mas ainda tinha meu amado para me
confortar por toda a eternidade.
- Ei, que tal uma corrida?! Disse ele levantando-se.
Como sempre, meu amor tenta me fazer sorrir em meio à tristeza que é
a minha vida de vampira.
- Só se eu escolher o alvo!
- Tudo bem! O alvo é todo seu!
Às vezes nós brincávamos de corrida, em forma de morcegos para
acertar uma fruta ou uma flor. Era uma felicidade apostar com meu
amado, pois ele sempre me deixava ganhar, embora ele seja um vampiro
muito mais poderoso do que eu.
E, nessa hora, havia uma margarida lá no fundo do jardim, que acabara
de nascer. A sua beleza me comoveu e confessei ao meu amor que se eu
tivesse aquela flor na cabeceira de minha cama, ficaria feliz.
- Então deixe que eu a pegue para você!
- Só se você conseguir me alcançar primeiro!
Rapidamente, nos transformamos em morcegos e partimos para a corrida
a uma velocidade estupenda. Mais de trezentos quilômetros por hora.
Era uma maravilha sentir o poder daquela maneira. Ver o mundo
esplêndido que aquele jardim nos mostrava. Todas as folhas, flores,
frutas, tudo ao nosso redor passava com a velocidade de um
relâmpago. E nessa hora eu era feliz por ser uma vampira.
Faltavam poucos metros para meu amor alcançar a margarida. Ainda
assim, eu forcei o vôo e consegui agarrá-la. Já transformados em
vampiros, ele caiu por cima de mim e eu ria erguendo a flor para o
alto e dizendo que tinha ganho a disputa. Como prêmio, ele me deu um
beijo e fomos terminar nossas carícias no quarto.
- Todos prontos?!
- Tudo certo!
- Então vamos lá! É hoje que essa mansão vai ser nossa!
O palácio era uma verdadeira obra arquitetônica. Encrustado no
coração da pobreza, ele era freqüentemente alvo da inveja e da cobiça
daqueles que dominavam os mais fracos. Traficantes, contrabandistas,
assaltantes, toda a espécie de corja que se encontrava na cidade já
tentou dominar aquele castelo. Esse bando de marginais não é
diferente. Eles acreditam que, pelo fato de dominarem o tráfico de
drogas na área, que nossa mansão também é propriedade deles. E se
preparam para atacar.
Rapidamente, duas granadas explodem as portas da mansão. A maior
parte do bando é composta por integrantes da PM e do Exército. Por
isso, a polícia da área não dá a mínima pro que acontece ou deixa de
acontecer naquele reduto. O meu amor se aproveita disso.
Eles entram como se estivessem em uma guerra. Ouvidos e olhos estão
atentos a cada movimento estranho que encontrarem no palácio. Após
alguns instantes de tensão, eles pegam os quadros do salão principal
e os colocam nas sacolas.
- Socorro! Socorro!
O assalto é interrompido pelo grito de um vulto branco,
provavelmente, uma mulher. Ela sai de dentro de um dos aposentos do
interior da mansão e corre para o jardim.
- Peguem ela!
Experientes, uma parte do grupo fica no salão, uma segunda parte sobe
as escadas e uma terceira invade o jardim atrás da mulher.
A parte que ficou no jardim é composta por três homens. Eles ficam
atentos em meio à escuridão, certos de que vão encontrar o seu alvo.
Então, eles escutam:
- Socorro! Não! Não! Não!
Os gritos da mulher os atraem. Eles rapidamente atiram na direção
dos gritos acertando a mulher que cai de bruços.
- Você viu aquilo, cara?!
Havia um morcego nas costas da mulher que não parava de mordê-la
mesmo depois de morta.
- Caramba, que bicho é esse?!
- Ô imbecil, não tá vendo que é um morcego?! Eu vou ali acabar com o
bicho!
O marginal aproximá-se da fera. Quando ele aponta o fuzil contra o
monstro, a criatura virá-se em sua direção e emite um guincho que
ensurdece os três bandidos. O marginal atira, a fera voa em sua
direção e morde-lhe o pescoço. Os gritos do bandido são acompanhados
pelos gritos dos colegas deles que ficaram no andar de cima. Há
barulhos de tiros e o cheiro da pólvora é intenso. Os gritos
continuam. Uma poça de sangue se forma ao redor do bandido enquanto
o morcego continua o ataque. Os dois marginais correm de volta para
o salão principal.
- Ei, cara, olha o que eu achei?!
- Me solta! Me larga!
Eu tento me soltar do chefe do bando. São oito homens no total,
juntando os dois que tinham saído do jardim.
- Chefe, o senhor não escutou os gritos vindos de lá de cima?!
- Sim! O Carrapato e o Formiga foram ver o que houve! Agora vamos
nos divertir um pouco com a donzela em apuros!
- Não!
Eu mordo o pulso dele e corro para o jardim. Os oito homens me
agarram e começam a rasgar minha roupa. O cheiro do sangue do chefe
deles atrai uma criatura há muito adormecida. O cenário então muda.
As folhas tornam-se árvores. Os galhos começam a se fechar cada vez
mais. Os marginais, preocupados em me estuprar, não percebem que
estão cercados... até ser tarde demais.
- Ai!
- Ai!
- Não!
- Ai!
- Não!
Seus gritos foram terríveis. Enquanto os galhos perfuravam seus
corpos, eu, transformada em vampira os atacava e chupava seu sangue.
Meu amor já tinha se servido do marginal do jardim e dos bandidos
aprisionados no labirinto de flechas que ficava na parte de cima da
mansão.
O encantamento feito por ele deu certo. A janta já estava servida.
Pena que eles se separaram em bandos. Impediram que eu e meu amado
nos banqueteássemos juntos. Mas, de qualquer forma, a comida estava
suculenta.
Nem sempre o luxo e a riqueza de nossa mansão atraíram a cobiça e a
inveja dos detentores do poder que não se cansam de querer mais
poder. A opulência de frutas de nosso jardim, por exemplo, era alvo
da fome dos mais necessitados que moravam nas ruas próximas ao nosso
castelo de amor.
Como essa família, composta pela mãe e pelos cinco filhos, todos eles
famintos, desesperados por um pouco de comida. Eles entram no jardim
pulando a muralha que fica nos fundos da mansão. No jardim, os
pobres esfomeados encontram um verdadeiro paraíso. Bananas, mangas,
caquis, laranjas, pêras e várias outras frutas estão à sua dis-
posição. No entanto, algumas das crianças ainda hesitam. Elas já
ouviram falar de outros que tentaram invadir e roubar aquela mansão e
nunca mais foram vistos. Uma aura de me-do circunda suas mentes. A
mãe, entretanto, lhes diz que as histórias sobre a mansão ser mal
assombrada são só histórias e, assim, a família se banqueteia com as
frutas do lugar.
Histórias, é?! Vou lhes mostrar que as histórias são bem
verdadeiras.
Eu me transformei em morcego e sorrateiramente voei para as árvores
que cercavam as plantas do jardim. Depois, voltei à minha forma
vampira e já estava prestes a revelar minha presença para aquela
família de desafortunados quando, meus olhos encontraram algo
escondido atrás de uma pedra. Rapidamente desci das árvores e
retirei a pedra por cima daquilo. Era algo escondido há muito
tempo. Algo que despedaçou meu coração e dilacerou minha alma.
UM DIA DEPOIS:
O castelo que outrora ostentava tanto luxo e tanta riqueza, hoje jaz
em pedaços. Seus portões estão apodrecidos. Suas paredes, repletas
de traças e teias de aranha. Seus quadros que antes tinham tanta
cor, hoje estão amarelados. Subindo as escadas, cheias de buracos,
encontramos o dono do lugar, escondido num canto escuro, atrás de um
armário, tentando se proteger das luzes do sol que queimam sua pele.
Ele ainda pode ver pela janela a morte das plantas e das árvores que
em outros tempos cultivou com tanto amor. As flores murcham e as
frutas apodrecem. O castelo que era alvo de tanta cobiça e de tanta
inveja, hoje não existe mais. É um mausoléu abandonado pela vida e
habitado pela morte. O jardim cujas frutas enchiam os olhos dos mais
humildes, hoje exala um fedor tão pútrido que as pessoas nem chegam
perto dele.
Lá embaixo, em meio à tanta feiúra, encontrá-se a chave para o enigma
que atormenta o dono do lugar. Seu diário estava aberto e, ao lado,
uma carta de sua recente companheira. Ele vê o vento levar algumas
páginas do diário e não se importa. Ele sabe o que lá encontrá-se
escrito. Mas o que ele quer mesmo ler é a carta daquela a quem ele
arriscou sua eternidade por amor e que agora o abandonou, levando-lhe
o poder e a riqueza.
Quando a noite cai, ele desce as escadas rapidamente e corre na
direção do jardim. Dá graças ao Inferno pelo vento não ter levado a
carta. O diário já não importa mais. São páginas de um passado que
ele deveria ter enterrado há muito tempo. O que importa é a carta.
A carta daquela que o abandonou recentemente. Ele quer uma
explicação que já sabe qual é. No entanto, é preciso ler a carta
para ter pelo menos uma última vez, o gosto de sentir as palavras
dela penetrarem em seu coração.
Assim que ele abre a carta, lê a primeira frase:
"Eu descobri tudo."
Ele amassa a carta entre as mãos e chora. Numa só frase ele percebeu
a raiva e a frustração que tomaram conta de sua amada. A história
verdadeira de sua vida tinha sido descoberta e ele sabia que ela
jamais o perdoaria pelos pecados que cometeu no passado.
encontro aos meus lábios sob a forma de um beijo, de uma carícia ou
mesmo um capricho. Eu já não era a menina apaixonada de outrora.
Mas também já não era a vampira infeliz que vagueava pelas ruas da
cidade em busca de sangue. Não. Agora eu tinha alguém com quem
contar. Um amante. Um homem. E, nos braços dele, eu não me sentia
uma vampira, mas sim uma mulher.
***
vivendo sob o mesmo teto. Alimentando-se da mesma comida. Usando o
mesmo quarto. Partilhando o mesmo amor... e algo mais.
A pedra dele ficava no centro do salão do palácio onde morávamos.
Sua magia era potencializada por antigos encantamentos que
praticávamos à noite. Para que de dia, toda a nossa propriedade
fosse protegida da luz do sol.
Era uma vasta mansão, cheia de quartos, banheiros, salas, tapetes e
quadros an-tigos. Parecia um enorme museu. Só havia uma cozinha
dedicada aos criados em tempos antigos. Hoje, se tivéssemos criados,
eles é que seriam a nossa refeição.
Por causa disso, vivíamos só, eu e meu amor. Também para que criados
se podemos fazer tudo com o poder de um pensamento? E para que
comprar comida? A carne humana é tão mais suculenta que a de
galinhas ou perus.
***
de folhas floríferas, cheias de frutas. Por nos transformarmos em
morcegos, sentimos um enorme prazer em comer frutas. Afinal, o único
mamífero que voa as adora, não é mesmo? Mas eu gostava mesmo era de
comer as frutas quando nos tornávamos humanos. Assim, eu me iludia
mais uma vez, achando que teria uma parcela da minha mortalidade em
meio àquelas frutas.
- Você não sente o gosto, não é mesmo?
Eu sou interrompida em meus pensamentos pelas palavras de meu amado.
- Meu amor, você ainda não se adaptou à sua nova vida?! Já se
passaram seis meses!
- Eu sei, meu querido! Mas é que eu acreditei sinceramente que
poderia... que poderia romper com a minha maldição!
- Só existe uma maneira de fazê-lo, minha querida! E você sabe muito
bem qual é!
- Sim! Mas, antes de te conhecer, achava que iria viver sozinha para
sempre! E hoje, sei que estarei ao seu lado por toda a eternidade!
- Meu amor...
- Deixe-me terminar! Eu considerava que por ter encontrado a
felicidade em seus braços, que eu poderia deixar de ser uma vampira
também! Que eu poderia voltar a ser uma mulher!
- E você acha que eu também já não me decepcionei com tal ilusão?!
Meu amor, vampiros foi o que nos tornamos e vampiros é o que nós
somos! Veja pelo lado bom, podemos fazer coisas que ninguém pode
fazer! Podemos voar! Evocar uma tempestade! Temos um poder
ilimitado em nossas mãos!
- De que adianta esse poder se eu não posso ter filhos?!
Nessa hora, as lágrimas jorraram como cataratas de meus olhos. Ele
mais uma vez me abraçou e me acariciou como fazia em meus momentos de
depressão. Eu não podia ser mãe, mas ainda tinha meu amado para me
confortar por toda a eternidade.
- Ei, que tal uma corrida?! Disse ele levantando-se.
Como sempre, meu amor tenta me fazer sorrir em meio à tristeza que é
a minha vida de vampira.
- Só se eu escolher o alvo!
- Tudo bem! O alvo é todo seu!
Às vezes nós brincávamos de corrida, em forma de morcegos para
acertar uma fruta ou uma flor. Era uma felicidade apostar com meu
amado, pois ele sempre me deixava ganhar, embora ele seja um vampiro
muito mais poderoso do que eu.
E, nessa hora, havia uma margarida lá no fundo do jardim, que acabara
de nascer. A sua beleza me comoveu e confessei ao meu amor que se eu
tivesse aquela flor na cabeceira de minha cama, ficaria feliz.
- Então deixe que eu a pegue para você!
- Só se você conseguir me alcançar primeiro!
Rapidamente, nos transformamos em morcegos e partimos para a corrida
a uma velocidade estupenda. Mais de trezentos quilômetros por hora.
Era uma maravilha sentir o poder daquela maneira. Ver o mundo
esplêndido que aquele jardim nos mostrava. Todas as folhas, flores,
frutas, tudo ao nosso redor passava com a velocidade de um
relâmpago. E nessa hora eu era feliz por ser uma vampira.
Faltavam poucos metros para meu amor alcançar a margarida. Ainda
assim, eu forcei o vôo e consegui agarrá-la. Já transformados em
vampiros, ele caiu por cima de mim e eu ria erguendo a flor para o
alto e dizendo que tinha ganho a disputa. Como prêmio, ele me deu um
beijo e fomos terminar nossas carícias no quarto.
***
- Tudo certo!
- Então vamos lá! É hoje que essa mansão vai ser nossa!
O palácio era uma verdadeira obra arquitetônica. Encrustado no
coração da pobreza, ele era freqüentemente alvo da inveja e da cobiça
daqueles que dominavam os mais fracos. Traficantes, contrabandistas,
assaltantes, toda a espécie de corja que se encontrava na cidade já
tentou dominar aquele castelo. Esse bando de marginais não é
diferente. Eles acreditam que, pelo fato de dominarem o tráfico de
drogas na área, que nossa mansão também é propriedade deles. E se
preparam para atacar.
Rapidamente, duas granadas explodem as portas da mansão. A maior
parte do bando é composta por integrantes da PM e do Exército. Por
isso, a polícia da área não dá a mínima pro que acontece ou deixa de
acontecer naquele reduto. O meu amor se aproveita disso.
Eles entram como se estivessem em uma guerra. Ouvidos e olhos estão
atentos a cada movimento estranho que encontrarem no palácio. Após
alguns instantes de tensão, eles pegam os quadros do salão principal
e os colocam nas sacolas.
- Socorro! Socorro!
O assalto é interrompido pelo grito de um vulto branco,
provavelmente, uma mulher. Ela sai de dentro de um dos aposentos do
interior da mansão e corre para o jardim.
- Peguem ela!
Experientes, uma parte do grupo fica no salão, uma segunda parte sobe
as escadas e uma terceira invade o jardim atrás da mulher.
A parte que ficou no jardim é composta por três homens. Eles ficam
atentos em meio à escuridão, certos de que vão encontrar o seu alvo.
Então, eles escutam:
- Socorro! Não! Não! Não!
Os gritos da mulher os atraem. Eles rapidamente atiram na direção
dos gritos acertando a mulher que cai de bruços.
- Você viu aquilo, cara?!
Havia um morcego nas costas da mulher que não parava de mordê-la
mesmo depois de morta.
- Caramba, que bicho é esse?!
- Ô imbecil, não tá vendo que é um morcego?! Eu vou ali acabar com o
bicho!
O marginal aproximá-se da fera. Quando ele aponta o fuzil contra o
monstro, a criatura virá-se em sua direção e emite um guincho que
ensurdece os três bandidos. O marginal atira, a fera voa em sua
direção e morde-lhe o pescoço. Os gritos do bandido são acompanhados
pelos gritos dos colegas deles que ficaram no andar de cima. Há
barulhos de tiros e o cheiro da pólvora é intenso. Os gritos
continuam. Uma poça de sangue se forma ao redor do bandido enquanto
o morcego continua o ataque. Os dois marginais correm de volta para
o salão principal.
- Ei, cara, olha o que eu achei?!
- Me solta! Me larga!
Eu tento me soltar do chefe do bando. São oito homens no total,
juntando os dois que tinham saído do jardim.
- Chefe, o senhor não escutou os gritos vindos de lá de cima?!
- Sim! O Carrapato e o Formiga foram ver o que houve! Agora vamos
nos divertir um pouco com a donzela em apuros!
- Não!
Eu mordo o pulso dele e corro para o jardim. Os oito homens me
agarram e começam a rasgar minha roupa. O cheiro do sangue do chefe
deles atrai uma criatura há muito adormecida. O cenário então muda.
As folhas tornam-se árvores. Os galhos começam a se fechar cada vez
mais. Os marginais, preocupados em me estuprar, não percebem que
estão cercados... até ser tarde demais.
- Ai!
- Ai!
- Não!
- Ai!
- Não!
Seus gritos foram terríveis. Enquanto os galhos perfuravam seus
corpos, eu, transformada em vampira os atacava e chupava seu sangue.
Meu amor já tinha se servido do marginal do jardim e dos bandidos
aprisionados no labirinto de flechas que ficava na parte de cima da
mansão.
O encantamento feito por ele deu certo. A janta já estava servida.
Pena que eles se separaram em bandos. Impediram que eu e meu amado
nos banqueteássemos juntos. Mas, de qualquer forma, a comida estava
suculenta.
***
Nem sempre o luxo e a riqueza de nossa mansão atraíram a cobiça e a
inveja dos detentores do poder que não se cansam de querer mais
poder. A opulência de frutas de nosso jardim, por exemplo, era alvo
da fome dos mais necessitados que moravam nas ruas próximas ao nosso
castelo de amor.
Como essa família, composta pela mãe e pelos cinco filhos, todos eles
famintos, desesperados por um pouco de comida. Eles entram no jardim
pulando a muralha que fica nos fundos da mansão. No jardim, os
pobres esfomeados encontram um verdadeiro paraíso. Bananas, mangas,
caquis, laranjas, pêras e várias outras frutas estão à sua dis-
posição. No entanto, algumas das crianças ainda hesitam. Elas já
ouviram falar de outros que tentaram invadir e roubar aquela mansão e
nunca mais foram vistos. Uma aura de me-do circunda suas mentes. A
mãe, entretanto, lhes diz que as histórias sobre a mansão ser mal
assombrada são só histórias e, assim, a família se banqueteia com as
frutas do lugar.
Histórias, é?! Vou lhes mostrar que as histórias são bem
verdadeiras.
Eu me transformei em morcego e sorrateiramente voei para as árvores
que cercavam as plantas do jardim. Depois, voltei à minha forma
vampira e já estava prestes a revelar minha presença para aquela
família de desafortunados quando, meus olhos encontraram algo
escondido atrás de uma pedra. Rapidamente desci das árvores e
retirei a pedra por cima daquilo. Era algo escondido há muito
tempo. Algo que despedaçou meu coração e dilacerou minha alma.
UM DIA DEPOIS:
O castelo que outrora ostentava tanto luxo e tanta riqueza, hoje jaz
em pedaços. Seus portões estão apodrecidos. Suas paredes, repletas
de traças e teias de aranha. Seus quadros que antes tinham tanta
cor, hoje estão amarelados. Subindo as escadas, cheias de buracos,
encontramos o dono do lugar, escondido num canto escuro, atrás de um
armário, tentando se proteger das luzes do sol que queimam sua pele.
Ele ainda pode ver pela janela a morte das plantas e das árvores que
em outros tempos cultivou com tanto amor. As flores murcham e as
frutas apodrecem. O castelo que era alvo de tanta cobiça e de tanta
inveja, hoje não existe mais. É um mausoléu abandonado pela vida e
habitado pela morte. O jardim cujas frutas enchiam os olhos dos mais
humildes, hoje exala um fedor tão pútrido que as pessoas nem chegam
perto dele.
Lá embaixo, em meio à tanta feiúra, encontrá-se a chave para o enigma
que atormenta o dono do lugar. Seu diário estava aberto e, ao lado,
uma carta de sua recente companheira. Ele vê o vento levar algumas
páginas do diário e não se importa. Ele sabe o que lá encontrá-se
escrito. Mas o que ele quer mesmo ler é a carta daquela a quem ele
arriscou sua eternidade por amor e que agora o abandonou, levando-lhe
o poder e a riqueza.
***
Quando a noite cai, ele desce as escadas rapidamente e corre na
direção do jardim. Dá graças ao Inferno pelo vento não ter levado a
carta. O diário já não importa mais. São páginas de um passado que
ele deveria ter enterrado há muito tempo. O que importa é a carta.
A carta daquela que o abandonou recentemente. Ele quer uma
explicação que já sabe qual é. No entanto, é preciso ler a carta
para ter pelo menos uma última vez, o gosto de sentir as palavras
dela penetrarem em seu coração.
Assim que ele abre a carta, lê a primeira frase:
"Eu descobri tudo."
Ele amassa a carta entre as mãos e chora. Numa só frase ele percebeu
a raiva e a frustração que tomaram conta de sua amada. A história
verdadeira de sua vida tinha sido descoberta e ele sabia que ela
jamais o perdoaria pelos pecados que cometeu no passado.

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