Tuesday, June 13, 2006

O JARDIM DO MAL - EPISÓDIO II: DEBAIXO DESSAS ÁRVORES...

Era uma vez um príncipe. Era uma vez um menino cuidado com todo o
amor e carinho. Quando pequeno ele teve os melhores brinquedos.
Quando jovem, os melhores prazeres. Até que ele se apaixonou por sua
princesa e os dois decidiram ficar juntos. Eles namoraram e
noivaram. E por trás dessa romântica história de amor existia um
outro poder... o poder do dinheiro.
Os pais do príncipe dominavam a nação da forma mais corrupta e cruel
possível. E foi o dinheiro que os reis roubavam dos pobres que
comprava os brinquedos... e os prazeres. Mas quem tem dinheiro
sempre quer mais dinheiro. E os reis viam com bons olhos o casamento
de seu filho com uma princesa, filha de imperadores de um reino
bastante rico. A cerimônia selaria assim a união dos dois reinos
numa só nação. E, dessa união, viriam muitos mais plebeus e
conseqüentemente muitos mais impostos para serem cobrados.
A princesa ligava para isso? Não. Ela nem sequer se importava.
Tinha vivido com todo o luxo e pompa que seus pais lhe ofereciam e
considerava mesmo necessário sacrificar alguns pobres em nome do
poder. Estava tão apaixonada por seu amor que nem percebia as nuvens
cinzentas se formando no horizonte.
- Ah, meu amor! Nosso casamento será daqui a três dias! Estou tão
ansiosa! Quero tanto ser tua mulher!
- E eu teu homem, minha querida! Em breve, nosso casamento nos unirá
para sempre!
Ela se abraça ao seu noivo.
- Tu ainda guardas a lembrança de nossa meninice?
- Sim, meu amor! Estás falando do coração que cravamos na árvore
próxima ao palácio de meu pai! Pois como eu poderia não guardar meu
querido?! Pois foi no dia em que cravamos o coração na árvore que
nossa felicidade começou!
- Sim, eu me lembro! Nosso primeiro beijo! Tu ficaste tão
envergonhada!
- É! Eu tinha medo que meu pai descobrisse! Fiquei tão vermelha!
- E a árvore continua no mesmo lugar! Impressionante, não?! Tantos
anos e aquela árvore continua ali, parada, imóvel, um pouco
apodrecida pelo tempo, é verdade! Mas que se recusa a tombar!
- Sabe, às vezes eu penso que o nosso amor é como ela! Imortal como
ela! Que nem o tempo pode apagar!
Os dois se beijam.

***

Já é noite e o príncipe vai ao quarto da Condessa, uma famosa
cortesã. Ele gosta de aproveitar o momento, o prazer. Cada prazer
que o poder do dinheiro lhe der. Ele não pode suportar viver o fardo
dela ter que se manter virgem até o dia do casamento. Por isso,
resolve aproveitar o momento.
Essa história de amor e de pureza é apenas um conto de fadas. Ele
pensa en-quanto mete na Condessa. O que importa é o prazer. O
prazer que só o poder do dinheiro pode dar. Só de pensar que no dia
do casamento, terei o corpo daquela menina em meus braços, minha alma
treme de excitação.
Ele estava obcecado por aquela doce menina. Os dois começaram a
namorar quando crianças e, na adolescência o desejo foi aumentando.
A princesa, no entanto, era uma moça casta. Jamais permitiu que o
príncipe se aproveitasse dela em respeito aos mandamentos de Deus. O
príncipe, por outro lado, desde os quinze anos, tinha sido iniciado
por seu pai nas artes da prostituição.
Ele se lembra de uma das noites em que ele e o pai passaram com duas
cortesãs. No fim da orgia, o rei lhe disse:
- É isso, meu filho! Nossas esposas só servem para serem esposas! O
verdadeiro prazer tu só encontrarás na fornicação pecaminosa!
- Mas tua mulher é minha mãe, meu pai! E, confesso-te que sinto-me
mal ao vê-lo traí-la dessa forma! Afinal, ela lhe deste um filho!
- Sim! E eu hei de para sempre agradecê-la por tal feito! Mas é
preciso que tu endureças teu coração para que não se deixes levar
pelas pieguices de tua noiva! Os pais dela são imperadores com muito
dinheiro, com uma terra muito rica! A peste já matou milhões! Unir
os dois reinos com o teu casamento foi a melhor idéia que tu tiveste!
- Eu não tive idéia alguma! Eu amo minha noiva! Foi tu quem
decidiste unir o prazeiroso ao erário!
- Então que estás fazendo aqui?!
Aquela pergunta deixou o príncipe sem resposta. Com o tempo, no
entanto, ele foi se aperfeiçoando nos prazeres mundanos que o seu pai
lhe incitara. Já bebia, já fumava e, principalmente, já trepava de
forma implacável. Tudo o que o dinheiro lhe dava, ele gastava na
orgia. E quanto mais dinheiro, melhor.

***

Debaixo dessas árvores, debaixo dessas folhas, eu li o diário e
descobri seu se-gredo. Ele me enganou. Mentiu para mim como só o
mais baixo dos homens poderia ter mentido. Maldito. Desgraçado.
Talvez ele até me ame. Talvez ele até me queira como sua mulher.
Mas e quando ele enjoar de mim?! E quando ele se cansar da
luxúria?! Provavelmente, irá me trair com outra. Ah, mas isso eu
não permitirei. Nem que eu tenha de morrer de novo.

***

Os pobres doentes que ele encontra no caminho não lhe interessam.
Ele caminha pelas ruas da vila em direção a um lugar secreto. A
peste tem matado milhões. Tanto nobres quanto plebeus já tombaram
nos cemitérios, vítimas daquela doença transmitida pela pulga dos
ratos. E naqueles últimos dias o príncipe sentia a brevidade da vida
em cada alma que partia para o outro mundo. Não que ele se
importasse com quem morria. Mas, ao presenciar tamanha mortandade, o
seu corpo temeu pelo pior.
Ele percebia que toda a vida um dia acabava. Seja pobre, seja rico,
todos vão para o mesmo lugar. Esta filosofia, é claro, contrastava
com o pensamento de seu pai. Mas ele via. Ele percebia que a morte
era o único destino ao qual o homem estava preso e repugnou-se com
isso.
A cada dia que passa, a peste mata mais gente. Ele pensa enquanto
caminha para seu esconderijo. Será que serei vitimado por ela?!
Será que não chegarei a ter o corpo da princesa em meus braços?!
Como eu desejo aquela menina! Ah, como eu quero tê-la comigo!
Enquanto desce as escadas em direção ao esconderijo, um lugar sombrio
vai sendo preenchido pela luz do dia. Ele fecha a porta e a
escuridão retorna. No chão do lugar há o rabisco de um pentagrama.
Meu pai acredita que nós, por sermos ricos estamos livres de uma
morte horrível, como acontece com os mais pobres. O príncipe pensa
enquanto olha fixamente para o pentagrama. Ele diz que é a vontade
de Deus que eu e minha princesa não sejamos levados pela peste, que
nos casaremos e teremos filhos. Pois eu não quero a vontade de
Deus. Eu quero ser Deus! Eterno! Imortal! Comer eternamente!
Beber eternamente! Amar... eternamente!
Ele encontrou os livros de bruxaria há pouco mais de um mês. O
príncipe vê a morte se aproximar. Mas quer fugir dela. Então, ele
sentá-se no pentagrama e inicia o encantamento.

***

A Duquesa invade o esconderijo. Está tudo muito escuro, o que a
deixa um pouco amedrontada. Mas pelo prazer de passar uma noite de
amor com o príncipe tudo valia a pena.
Ela o encontra já de pé, nú e no meio de um pentagrama.
- Vem! Ele diz estendendo a mão.
- Sim!
Ela tira o vestido e caminha na direção dele. Os dois se beijam.
Ele sente o roçar do corpo dela em seu corpo. Sente a boca dela em
seu pescoço. A língua entra em seu ouvido e faz-lhe cócegas. Ele a
agarra pela cintura e, de pé, suspende o corpo da mulher. As pernas
enlaçam sua cintura. Ele goza selvagemente como sempre.
A sensação de prazer misturá-se a uma alegria, uma certeza de que ele
terá aquele tesouro eternamente. Vida eterna. Pena que uma dama tão
bonita tenha de pagar o preço.
- Iahhh...
Ela grita quando o príncipe morde-lhe o pescoço. O corpo dele cai
sobre o dela e, como um leão que mata a corça, ele chupa o seu sangue
e devora o seu corpo de forma brutal. Quando ela morre, o vampiro
arranca a carne dos ossos. O sangue da Duquesa era delicioso.
- Sangue nobre! Hummm!
Ele chupa o sangue e come a carne. No ritual satânico, o príncipe
tinha aberto um portal para o Inferno. Um pedaço da Pedra Filosofal
saltou do portal. E ele pegou a pedra numa mistura de assombro e
desejo. De dentro do portal, um morcego também surgiu e uma voz de
trovão ecoou naquele cubículo.
- Me dê a pedra! Me dê a pedra agora! Agora!
A voz ensurdeceu seus ouvidos. Ele agarrou a pedra, que brilhava
muito, e a direcionou contra o morcego. O brilho absorveu o morcego
para dentro da pedra. E o príncipe sentiu a fusão. Uma criatura das
trevas tinha entrado em seu corpo e os dois tornaram-se um só. A
pedra serviu de canal para a mutação. E, o príncipe, agora trans-
formado em vampiro, sentiu o líquido da imortalidade circular por
suas veias... minutos antes da Duquesa aparecer.

***

A criatura que emergiu daquela câmara sombria não era em nada
diferente do que o príncipe tinha sido durante toda a sua vida.
Irresponsável, perverso, mentiroso e, acima de tudo, assassino. Se
antes ele e a família imperial matavam o povo do reino através da
corrupção e dos impostos, agora o príncipe, transformado em vampiro,
exterminava os pobres da forma mais impiedosa que se possa crer.
A morte da Duquesa não foi premeditada como as outras. O vampiro, ao
renascer da morte, sente uma necessidade imensa de sugar sangue.
Houve uma intensa investigação para saber o que ocorrera com a
cortesã. O vampiro, precavido, comeu o corpo da mulher depois de
matá-la a fim de não deixar vestígios. Naquele tempo, com os poucos
recursos tecnológicos que a guarda imperial dispunha, foi impossível
desvendar seu desaparecimento.
Desta forma, tudo corria às mil maravilhas para o vampiro. A
criatura matava os pobres na calada da noite e depois de saciar sua
sede de sangue, ia às tavernas divertir-se com as prostitutas,
ansiando com o dia em que teria a formosa princesa em seus braços.
Só dois fatos o aborreciam: a vulnerabilidade à luz do sol e a
dependência da pedra para circular pela cidade de dia. Mas, se por
um lado, o vampiro irritava-se com suas fraquezas, por outro nunca
antes ele tivera a certeza da imortalidade. Enquanto a morte rondava
o reino, seja pela peste, seja pelos ataques do "assassino noturno"
ou mesmo pelas constantes revoltas dos plebeus contra os abusos da
monarquia; o vampiro namorava sua princesa, banqueteava-se com o
sangue dos pobres e ainda bebia como um porco e trepava como um
coelho.
Mas a alegria do demônio não viria a durar muito conforme se verá nas
páginas a seguir.

***

A igreja estava mais luxuosa do que nunca naquele dia. Era o
casamento dos príncipes. Finalmente o amor daqueles dois jovens
seria selado. Finalmente o vampiro teria aquela menina nos braços.
E finalmente os pais dos príncipes unificariam os dois reinos,
criando um país composto por mais de um milhão de pagadores de
impostos.
- Estou tão feliz, meu pai! Dizia o vampiro enquanto a carruagem
onde ele se encontrava dirigia-se para a igreja. Afinal, eu e meu
amor nos uniremos por toda a eternidade!
- E é bom mesmo que este casamento perdure! Graças à união de vós,
eu e o pai dela enriqueceremos ainda mais às custas do povo.
Se for assim, a fortuna gerada hoje se perpetuará para sempre! Pensa
o vampiro diabólico. Assim que estivermos na lua de mel,
transformarei a princesa em uma vampira! E viveremos ricos para...
- Meu Deus!
Os pensamentos do vampiro são interrompidos pela mais terrível cena
de toda a sua vida. Sua mãe, a princesa e os outros convidados
estavam presos na igreja enquanto esta pegava fogo.
- Pare a carruagem! Pare!
O rei ordena e o cocheiro obedece. Mas, assim que ele sai da
carruagem, uma flecha acerta-lhe o peito.
- Pai!
O vampiro tenta socorrer o rei mas uma outra flecha acerta-lhe as
costas. O cocheiro salta da carruagem e consegue fugir.
O líder do bando que alvejou pai e filho declara:
- Chega de tirania! Chega de opressão! Pela liberdade do povo!
- Liberdade! Clamam os rebeldes em polvorosa.
- Socorro! Socorro! Tire-nos daqui! Socorro!
Eram os gritos dos nobres que estavam trancados na igreja.
- Vós pedis por socorro?! Por ajuda?! E quando vós ajudastes os
mais pobres?! E quando pensastes em nós que sofremos com a miséria e
com a doença?!

***

Demora! Nunca antes o vampiro sentira uma dor como aquela. Sua vida
sempre fora dedicada ao prazer! Ele só sabia o que era dor devido às
quedas na infância! Mas um ferimento de flecha era algo que ele não
esperava. Por isso, ele custa a se recobrar do choque. Após alguns
minutos, o vampiro tira a flecha das costas. O sangue escorre pela
boca. O vampiro se levanta. Não há mais ninguém ali, a não ser ele
e o pai. Seus olhos nesse momento fitam a destruição total da
igreja. O incêndio levou sua mãe e sua amada para o outro mundo.
- Não! Não! Não! Não pode ser! Malditos! Malditos! Malditos!
Ele cai de joelhos e chora. A pessoa que lhe ensinou os primeiros
passos. Aquela que foi responsável pela sua educação, que lhe
comprava os melhores brinquedos e dedicava todo o seu amor e carinho,
estava morta.
Sua mãe. Foi dela que ele nasceu pela primeira vez. Mas, como um
príncipe, não como um vampiro. Ele sabia, ao seu fundir com um
demônio, que seu corpo morreria. E, quando renascesse como vampiro,
uma nova vida surgiria. Ainda assim, mesmo depois de ter feito o que
fez e ganhado uma nova vida, ele chora por ela.
Por outro lado, como ele poderá reviver a mãe e a sua princesa se as
cinzas delas se misturaram com as dos convidados do casamento? Ah,
quantas noites de amor ele sonhou com aquela mulher! Quanto delírio,
quanto prazer sufocados e agora perdidos para sempre!
- Filho!
Ele escuta a voz do pai caído ao seu lado.
- Filho, que tragédia sucedeu à nossa família! Deus, que horror!
Nós dois perdemos as mulheres das nossas vidas! Me ajude, por
favor! Tire a flecha do meu peito! Se não fosse pelo brasão real,
eu não teria sobrevivido!
A cólera irrompe no coração do vampiro.
- Como assim "as mulheres das nossas vidas"? Tu nunca amaste minha
mãe, pai! Só se casaste com ela pelo poder, porque ela era da
corte! E ia fazer o mesmo comigo e com minha amada!
- Ai! Filho, por favor, ajude-me! Sei que estás triste com o
falecer de tua mãe! Mas lembre-se, tu só tens a mim no mundo! Achas
que os rebeldes acabarão por aqui? Pois engana-se! Assim que eles
souberem que tu estás vivo, irão matar-te!
O vampiro força a flecha para dentro do peito de seu pai.
- Ai! Tu estás louco, filho meu?!
- Eu não preciso mais de tua proteção, meu pai pois agora tenho o
sangue da vida eterna!
E o rei vê seu filho tornar-se um vampiro.
- Meu Deus!
- Pena que tu não possas desfrutar dele!
- Nãooo...
O grito do pai é interrompido pela dentada do filho em seu pescoço.
O vampiro, numa mistura de ódio e de sede, matou o próprio pai. Com
a pedra, ele cicatriza o ferimento em suas costas. Mas o vampiro
necessitava de mais sangue. Ele vê a casa onde moram um agricultor e
sua família. Quando ele ataca o lugar, os gritos do casal e das
crianças ecoam pelo fim da tarde.

***

Ao assumir o trono, o novo rei ordenou que os guardas massacrassem
aqueles que se revoltavam contra o governo. Foi assim que as
monarquias européias sufocaram as revoltas daquele período.

***

Todas essas lembranças perpassam pela sua mente antes dele continuar
a ler a carta. Então todas as memórias do que ocorreu depois invadem
seu cérebro com uma inundação de imagens. Todas as mulheres que ele
amou. Todas as farras. As matanças. Sempre tendo que se adaptar
aos ambientes e às transformações mundiais.
Tudo ele presenciou. A expansão ultramarina, a Revolução Francesa, a
Revolução Industrial, a Revolução Russa, as guerras, todos os grandes
fatos que mudaram a história da humanidade. E este vampiro, este ser
das trevas sobreviveu a tudo isso sendo sutil, fazendo alianças com
aqueles que ele via que iriam vencer. Destruindo as vidas daqueles
que iriam perder. Foi assim que ele refez sua fortuna milhares e
milhares de vezes.
Mas tudo passa. Até mesmo a saciedade da vida. O vampiro cansou das
farras e das orgias. De uns tempos para cá a única coisa que ele tem
feito na vida era matar para sobreviver. Um tédio. Quando ele a
encontrou, achou que tudo mudaria. Que ela daria um novo colorido à
sua vida. Por isso, mentiu, criou uma história romântica em cima da
verdade.
E agora ela se foi. Foi embora com a pedra, sua única esperança de
andar pela Terra durante o dia. O vampiro resolve então ler o resto
da carta.

"Eu descobri tudo. E, o que me deixa enojada não são as mortes que
você cometeu pois a sede de sangue existe também dentro de mim. Eu
também sou uma vampira e sei o que é ter de matar para sobreviver.
O que me enoja é que você, assim como foi com a sua princesa, agiu
com falsidade comigo. Você traiu não uma, mas várias vezes uma
mulher que você dizia que amava. Você mentiu para mim inventando uma
história na qual eu te via não como um vampiro, mas como um homem.
Um homem bom, humilde, fiel. Eu acreditei nesse homem. Eu amei esse
homem.
Mas, o que é pior, você escolheu deixar de ser homem para tornar-se
um demônio. Isso por si só já demonstra o quão monstruoso você é.
Como vou acreditar em você agora?! Eu só não te chamo de mentiroso
porque mentir é natural do ser humano e isso você nem mesmo é!

Com todo ódio do mundo, sua ex-mulher!
PS: Eu levei a pedra, tá?!"

***

Até que não foi tão ruim! Pensa o vampiro. É, eu devia estar louco
quando achei que poderíamos viver juntos! Pena! Eu a amava tanto!
Ai, é nessas horas que a gente vê o quanto o passado influencia o
presente! Nós tentamos passar uma borracha em cima do que aconteceu
mas não adianta! O passado nos persegue como uma maldição! Uma
maldição!
Foi então que o vampiro percebeu algo que não tinha notado em todos
os seus setecentos anos.
- Não! Não! É claro que o passado não pode ser esquecido! O
passado sou eu! Esse vampiro que eu me tornei! Essa criatura
horrenda que vive de sugar sangue! Não! Não! Não!
E ele chorou naquele momento! A frase escrita na carta não sai de
sua memória!
"Você escolheu deixar de ser homem para tornar-se um demônio!"
- Eu escolhi! Deus, eu escolhi! Eu escolhi!
Ele se encolhe e chora, sabendo que mesmo que rasgue o diário, o
passado estará sempre com ele. E ele sempre será o que escolheu ser,
um imortal, um sangue-suga, um pervertido, mas, acima de tudo, um
solitário.

***

Depois que eu terminei de ler o diário dele, senti tamanha tristeza
em meu coração que decidi não matar aquela família que tinha invadido
o jardim da mansão. Escrevi a carta, coloquei-a ao lado do diário.
Em seguida, transformei-me em um morcego e voei até o salão onde
ficava a pedra. Peguei-a e fugi da mansão sem olhar para trás. Sei
que o que poderia se esperar de mim, depois de ter descoberto toda a
verdade sobre aquele canalha, seria um confronto de vida ou morte.
Mas preferi o desprezo. Sabe, às vezes, você consegue destruir uma
pessoa com a repulsa. E foi isso que eu fiz. E depois, ele era bem
mais poderoso do que eu e facilmente me destruiria. Não que eu ame a
minha vida. Mas, por maior que seja a dor que eu sinto, não quero
voltar pro Inferno pelas mãos de uma criatura tão medíocre quanto ele.
E talvez, no fundo da minha alma, apesar da dor que eu carrego, da
culpa e da solidão, eu não tenha mesmo coragem para me destruir. O
jeito é continuar vivendo. Continuar vivendo até o fim. Eu sei, eu
sei. Eu sou imortal e o fim não existe para mim. Mas, quem sabe do
nosso destino, não é mesmo?!

EPÍLOGO:

"Impossível identificar a assassina da modelo".
Eu tinha esquecido desse poder. A imagem de um vampiro não aparece
em um espelho e ele não pode ser fotografado nem filmado por não ser
deste mundo. Mas será que ele se importa?! Será que ele sabe que a
assassina sou eu, mesmo sem a minha foto estampada na primeira
página?!
- Olá, "padre"!
- Você! O que faz aqui?!
- Vim revelar algo para você!
Ele me olha assustado. Estamos em um cemitério e, apesar de ainda
ser de manhã, o ambiente é assustador. Ele estava rezando em frente
ao túmulo de Bernardo quando a folha do jornal com a minha manchete
voou em seu rosto. Eu olho para ele e vejo que o "padre" nem
desconfia que a assassina sou eu.
Mas não é sobre isso que vim falar com ele. Eu toco em sua testa e
mostro-lhe a lembrança. Ele vê Bernardo acobertando o seu romance
com a irmã. Vê ela fazer o mesmo com Bernardo e Marcelo. E,
finalmente, a imagem final. Ela envenenando a comida dos pais e do
irmão.
- Não!
Ele tira a minha mão da testa dele.
- O que foi?! Não consegue ver a verdade?!
Eu o pego pelas bochechas e ergo o seu rosto em minha direção.
- Ela matou os pais! Ela matou o Bernardo!
- Não, por favor! Ele chora enquanto fala. Pare com isso! Como vou
acreditar em você?! Como vou confiar num ser das trevas?
- Você sabe que é verdade! Você já desconfiava disso há muito tempo,
mas eu finalmente lhe abri os olhos!
Ele pára de chorar e me encara.
- O que vai fazer agora?!
- O que vou fazer?! O que você espera que eu faça?!
- Vai denunciá-la à polícia, não vai?!
- Eu não tenho provas! E nem você!
- O que quer dizer com isso?!
- Que eu não pretendo denunciá-la à polícia! Eu a amo do fundo do
meu coração! A amo como jamais amei nenhuma mulher em toda a minha
vida!
- Você a ama... ou ama o dinheiro dela?!
Ele se levanta e me encara.
- Você não sabe quem eu sou! Não sabe porque eu quis o sacerdócio!
- Então me diga "padre"! Por que tornou-se um sacerdote sabendo que
não tinha vocação?
- Eu não sabia! Eu... sempre acreditei em Deus, no amor e na
cristandade! Na pureza dos sentimentos e na solidariedade!
- Você sabe que não vai para o Inferno por ter abandonado o
sacerdócio por causa de uma mulher! Mas sabe que Deus irá castigá-lo
se continuar a ser cúmplice de um assassinato!
- Isso é você quem diz! Mas você não sabe o que é viver
enclausurado, prisioneiro! Tendo que censurar seus desejos mais
íntimos! Sentindo o fogo da paixão lhe queimar o coração e sem poder
sequer tocar na pessoa amada! Eu não suportei a paixão! Fui fraco!
Falhei com Deus e comigo mesmo! E você acha que eu não vou para o
Inferno por ter abandonado o sacerdócio por amor a uma mulher?!
- Então é assim?! Você vai acobertar um crime só porque acha que
está condenado, é isso?!
Ele não responde. O cunhado de Bernardo ajoelha-se novamente diante
do túmulo deste. Eu viro de costas e estou prestes a ir embora
quando ele me pergunta:
- Por que veio aqui?!
Eu me viro na direção dele. Ele continua:
- Por que se importa?!
Eu caminhei em sua direção, virei novamente o rosto dele para mim,
olhei no fundo de seus olhos e disse-lhe:
- Porque quem ama não mente! E ela mentiu prá você!
- E você já conheceu alguém que amou, que mentiu para você?!
- Sim!
- E o que você fez?!
- Mandei ele pro Inferno!
Eu me levanto e saio dali.
Essa última frase penetrou fundo no coração dele. No dia seguinte, o
homem abandonou a mulher e voltou para o sacerdócio. Voltou para
Deus. E, quando ele experimentou verdadeiramente o amor de Deus
entrar em seu coração, o padre não se sentia mais solitário e nem
prisioneiro, mas sim um homem livre.
Livre do pecado que aprisiona e pronto para uma nova vida em paz.
Uma paz que um dia eu já desejei, mas que agora eu não quero. Eu sou
e sempre serei uma vampira... até o apocalipse.

FIM

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