Tuesday, June 13, 2006

CÃO


( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

Era uma vez um cãozinho muito bonitinho chamado Engraçado. Há dez
anos atrás, uma madame da Alta Sociedade chamada Honória comprou
Engraçado numa pet shop. E, a partir daquele momento aquele belo
cãozinho passou a ter vida de gente.
Engraçado devorava as melhores comidas, era lavado e bem tratado com
freqüência; tinha as unhas bem cortadas, os dentes bem escovados e
até tinha um veterinário exclusivo para ele. Engraçado também
freqüentava um spa, para aliviar a tensão de ter uma vida
tão "agitada". O cão vivia no paraíso.
Com o tempo, o cãozinho crescia forte e sadio. Seus dentes já eram
afiados como navalhas e suas patas podiam derrubar facilmente uma
criança. Honória olhava orgulhosa para Engraçado e o enchia de
beijos. A senhora lembrá-se dos filhos. De quando eles eram
pequenos e carinhosos. Mas na vida tudo passa. O marido tinha
morrido num acidente de barco. Os filhos cresceram, se casaram,
tiveram filhos e tocaram a vida. Honória se encontrava solitária em
sua mansão, chorando pelo falecido e pelos filhos ausentes, que
sequer telefonavam para ela dando notícias.
Honória percebeu então o quanto o ser humano era cruel. Abandonar a
mãe daquela maneira era algo degradante. A mulher que os ensinou a
darem os primeiros passos. Que os alimentou e vestiu. Que lhes deu
a vida.
Honória viu o quão egoísta é o Homem e passou a ter ojeriza à
humanidade. Ela percebeu que os animais eram muito mais humanos que
os próprios humanos. Assim, decidiu comprar Engraçado e fazer dele
seu novo filho!
- Oh, meu nenezão! Honória fala brincando com o cão enquanto os dois
estavam em uma limusine. Tá tão crescidinho, Engraçado! Tão
bonito! Upa! E está tão esperto esse meu garoto! Meu menino! Meu
lindo filho!
E a madame brincava com o cachorro beijando-lhe o focinho. Próximo à
limusine, em uma calçada, um grupo de mendigos pedia esmolas. Mas
Honória nem se importava. A Humanidade tinha sido cruel demais com
ela e a madame decidiu pagar com a mesma moeda.
***

Há dez anos atrás aquela casa abandonada já foi uma mansão. O portão
enferrujado nem lembra a opulência que apresentava no passado. O
cheiro de mofo é insuportável. Aquela tapeçaria persa que custou um
milhão de reais, hoje não vale nem dez centavos. Mas é assim, o ser
humano morre e seus bens morrem com ele.
Os meninos, que moram em uma favela próxima à casa abandonada, nem se
importam com o fedor e a podridão do lugar e jogam futebol em frente
à residência. Até que a bola atravessa os muros da casa e cai no
quintal desta.
- Porra, João, olha só o que tu fez!
- Foi mal, Jorge!
- E agora?! Quem é que vai pegar a bola de volta?!
Os meninos ficam quietos. Nenhum deles demonstra querer pegar a bola
de Jorge de volta!
- Puta qui pariu! Diz o menino escalando o muro. São um bando de
medrosos mermo!
- Peraí, Jorge! Grita João. Dizem que o diabo mora aí!
- Ai, caralho! Vão ser cagões assim lá no raio do caralho!
- Cagões uma boceta! Fala um outro garoto. Eu não tenho medo de
porra nenhuma!
- Então vem e sobe o muro, Gleison! Berra Jorge irritado.
- Mas dizem que o diabo tá nessa casa!
- O diabo tá é no inferno, seu cagão!
- Cagão uma porra! Vá tomá no cú!
- Vá você! Vá se foder!
Jorge salta o muro.
- Ah, eu vou provar prá esse filha da puta que eu sou muito homem!
Diz Gleison escalando o muro.
- Não faz isso, Gleison! Berra João apavorado.
- Pois eu já tô fazendo, mermão!
Gleison escala o muro e salta para dentro do quintal. Jorge virá-se
na direção do amigo.
- Ah, tô vendo que tu é corajoso mermo!
- Não vem com graça, Jorge! Cadê o caralho da bola, porra?!
- Tá aqui seu merda! Não preciso de você prá pegar porra nenhuma!
- Ei, que merda é aquilo, cara?!
Gleison aponta para o alto. Os dois meninos vêem o esqueleto de uma
mulher caído sobre o batente de uma das janelas da casa e tremem de
medo.
- Grr...
- Caralho, que que foi isso?! Pergunta Jorge chorando.
- Au!
O cachorro avança contra o menino e abocanha-lhe o pescoço. O animal
derruba Jorge e começa a mordê-lo no pescoço e no rosto.
- Aiii... Berra Jorge enquanto a pele é arrancada de seu corpo.
Iahh... Aiii...
- Meu Deus do Céu! Grita Gleison chorando.
Os outros meninos, ao escutarem os gritos de Jorge, saem correndo.
- Ai, Gleison! Me ajuda! Iahhh...
O menino não obedece Jorge. Gleison começa a escalar o muro
desesperado. Mas não consegue chegar ao topo. Os espinhos do muro
parecem mais pontiagudos agora do que na outra escalada.
- Ai! Fala Gleison enquanto o sangue escorria de suas mãos e de seus
pés. Esses espinhos tão me furando todo! Ai!
O cachorro salta na direção de Gleison e, com a força das patas,
rasga-lhe o short.
- Ahh... Berra o menino com medo. Socorro! Socorro! Alguém me
ajude! Aiiii...
O cachorro salta mais uma vez sobre Gleison e abocanha-lhe a bunda.
- Iahhh... Berra o menino enquanto a carne de uma das nádegas cai.
O menino não suporta a dor e desaba no quintal. O cachorro morde-lhe
o rosto arrancando a pele. No lugar da face de Gleison só havia uma
caveira.
Desgraçado devora os dois meninos depois de matá-los. Outrora aquele
cachorro chamava-se Engraçado. Agora seu nome é Desgraçado, pois a
desgraça é o destino daqueles que ousam invadir os domínios do cão.

FIM

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