OS PORTAIS DO INFERNO - CAPÍTULO PRIMEIRO: PARAÍSO FEITO DE TREVAS
Depois que o avião caiu no Oceano Pacífico, o fogo substituiu a água.
Eu podia sentir o líquido entrando pelo nariz, pelos ouvidos, pela
boca e até pelos olhos. Sem respirar, ainda lutei para me soltar do
cinto e dos destroços. Não queria. Não podia morrer antes de ver
meu filho novamente. Ele está estudando Ciência Política em Oxford e
está para se formar ainda esse ano. Meu marido dizia que ele viria a
ser presidente um dia.
Presidente, quem diria?! Quando que eu iria pensar que aquela
criaturinha que saiu de dentro de mim um dia comandaria uma nação
inteira?! Parecia até um sonho. Pena que tudo teve de acabar tão
rápido.
As lembranças da vida que eu tive na Terra vem em minha mente de
forma dolorosa e lenta. Eu lembro de quando eu e meu amado nos
tornamos noivos. De como nossas famílias ficaram felizes com o nosso
casamento e com o nascimento do nosso filho. Iria continuar a nossa
geração. A geração que vem dominando este país há décadas.
Comandando a política, o Exército e os negócios. As nossas famílias
mandam nesta nação. Enriquecemos graças aos impostos que o povo
paga. Oferecemos escolas, hospitais e segurança.
Tudo bem que não é o bastante. As escolas passam os alunos de
qualquer maneira, sem saberem nada. As pessoas morrem nas filas dos
hospitais. E os policiais se vendem até por uma cerveja na esquina.
Que pobreza. É nessas horas que eu vejo o quanto o povo não
aproveita o que nós lhe damos. Mas o que eles querem, afinal?! Será
que eles acham sinceramente que nós nos importamos com eles?! Tudo o
que nós queremos é o dinheiro, o poder. Afinal de contas, se não
fosse pelo dinheiro da Saúde pública, como eu iria comprar jóias tão
caras?!
Queria tanto ver meu filho continuar a tradição da nossa família.
Mas, quando eu acordo, não sinto mais o frio da água do mar. Então
sinto um choque de calor penetrar em meu corpo e acordo. Então eu
vejo os mares de fogo onde os diabos jogavam as pessoas e reconheço o
lugar. Meu Deus, eu estava no Inferno. Mas por que?! Eu sempre fui
fiel ao meu marido. Minha família e eu somos as pessoas mais cristãs
que existem nesse mundo. Sempre íamos à Igreja rezar por nós, pelos
nossos parentes e pelos mais necessitados. Dávamos sempre uma certa
quantia em dinheiro para a Igreja. Tudo bem, que era um dinheiro bem
parco, mas será que por causa disso, eu devo ser condenada ao
Inferno?!
Meu marido, como senador, mandou construir pontes, estátuas e
escolas. Ajudou a aprovar leis que beneficiassem os mais pobres
dando-lhes um cartão para que eles pudessem comprar comida. Tudo bem
que ele fez bem menos obras do que estavam nos contratos. E também
acho mais fácil ajudar os mendigos a comerem sem ter de trabalhar do
que dar emprego a eles. Gerar empregos nesse país dá muito trabalho
e é preciso muito dinheiro. Dinheiro que nós não temos. Se gerarmos
a quantidade de empregos que essa gentalha necessita, como iremos
viajar para a Disneylândia?! Como compraremos um carro novo para o
nosso filho( o último ele perdeu num "pega"! Francamente eu acho
essas manifestações de vandalismo uma pobreza, mas como os outros
amigos da mesma classe que a nossa participam desses eventos, então
não deve ser tão ruim assim, né?!)?
Como poderemos participar dos chás, dos bailes e das demais
cerimônias da alta sociedade, se tivermos de dar emprego para os mais
de dois milhões de azarados que assolam essa nação?! O povo tem de
entender que a questão do desemprego é uma questão de sorte! Só está
bem empregado hoje em dia quem tem sorte! A sorte de ter pais que
possam lhe dar uma boa educação e assim ter conhecimento para subir
na vida. Mas tem tantos pobres coitados que nem pais têm.
Então por que eu vim parar no Inferno?! Eu não entendo. Nunca
matei, nem roubei nada. Meu marido é quem cuida das finanças. Eu só
cuido dos gastos. Outro dia eu fiz um arraso de compras no shopping
com o dinheiro que ele recebeu dos impostos que iriam para a
Segurança. As melhores marcas de roupas, de brincos e de jóias.
Tudo do bom e do melhor.
Eu era tão feliz. Será que ser feliz é pecado?! Será que ninguém
pode se dar ao luxo de gastar honestamente todo o dinheiro que seu
marido obteve, em compras?! Eu nunca li na Bíblia nada disso. E
olha que eu sou uma pessoa bastante devota.
- Deus! Deus, o que estou fazendo aqui, no Inferno?! Eu que sou
mãe, esposa, dona de casa! Eu que mando as empregadas lavarem a
roupa, cozinharem e fazerem todos os serviços que o poder do dinheiro
nos dá condições de fazer! Eu nunca matei e nunca roubei! Sempre li
a Bíblia! E nunca faltei a Igreja um domingo sequer! Por que,
Deus?! Por que eu tive de vir parar aqui?!
Súbito, os diabos escutam os meus gritos e voam em minha direção.
- Não! Não! Não! Não!
Eu corro enquanto eles voam atrás de mim armados de tridentes.
Súbito esbarro em alguém e grito.
- Não, meu amor! Não!
Eu tinha esbarrado em meu marido. O corpo dele estava todo
ensangüentado, pregado na cruz como Jesus Cristo.
- Deus, por que?! Por que fizeram isso com ele?! Por que?! Ele
sempre foi um bom marido, um ótimo pai! Por que?!
Súbito, os diabos me pegam pelos braços e, voando me levam em direção
a um dos poços de fogo.
- Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
E eles me jogam no mar de fogo. Eu começo a gritar em desespero
enquanto as chamas me consomem. Tento ainda sair de dentro do mar de
fogo, mas os diabos, com os tridentes me empurram de volta. Não
parei de gritar durante todo aquele momento. A dor que eu sentia era
incomparável a qualquer outra que eu tinha sentido enquanto estava
viva. Me afoguei no mar de fogo. A mesma sensação de quando eu
morri, foi tomando conta de mim. Eu tinha fogo nos olhos, no nariz,
nos ouvidos. O corpo todo queimava e era um fogo que não terminava
nunca. Quando os dois diabos se foram, saí do mar de fogo toda
deformada. A pele só não caía do meu corpo porque eu já estava
morta. Então, eu vi algo do qual eu jamais me esquecerei.
Um demônio gigantesco estava atrás da cruz onde meu marido se
encontrava cravado pelos pregos em suas mãos e em seus pés. O
monstro carregava um enorme jarro, cheio de sangue. Ele abriu a boca
de meu marido e derramou aquele sangue goela abaixo nele.
- Quantos pobres já morreram por sua soberba! De quantas pessoas
você sugou a vida em nome da ambição! Pois já que gosta de sugar
vidas, que seja um sangue-suga então!
- Não!
O meu marido gritava de agonia enquanto o demônio derramava o sangue
goela abaixo em seu corpo. Era como se sua alma queimasse por
dentro. Foi quando ele se libertou dos pregos e caiu diante de mim,
gritando em agonia. Nesse instante, seus dentes cresceram e seus
olhos ficaram vermelhos com o brilho do ódio. O meu marido tinha
sido transformado em um monstro, em um vampiro, num ser das trevas.
***
O jovem que comprava flores na adolescência. O homem por quem eu me
apaixonei. O meu marido. O pai do meu filho. A pessoa a quem eu
jurei amor eterno tinha se transformado em um vampiro.
Quando ele me olha, eu sinto medo. O mesmo pode se perceber dele, ao
fitar para o meu ser. Ele se assusta com a minha feiúra. Me
reconhece, chega a dizer meu nome, mas foge de mim apavorado. De
repente, os diabos alados retornam. Um me pega pelos braços e me
leva de volta ao mar de fogo. E eu sinto a dor novamente. O fogo
queimando minha alma, apagando o resto do meu ser. Depois, eles
avançam contra meu marido. Este reage e uma luta furiosa se trava
entre eles.
Antes de afundar novamente no fogo, pude vê-lo arrancar uma das asas
de um deles com a força dos dentes.
***
Depois descobri que o mar de fogo no qual fui jogada não continha
apenas dor e sofrimento físico. Aquele era também um ambiente de
tortura mental. Uma imagem dolorosa vem em minha mente. É o meu
marido, o pai de meu filho, aquele a quem fui fiel, transando com uma
outra mulher em uma de suas viagens a negócios. Depois, eu o vejo em
uma suruba, rodeado de mulheres em um prostíbulo.
A imagem dele me traindo faz minha cabeça doer.
- Não! Não! Não! Eu não acredito! É mentira! Ele me ama! É
mentira!
Então, o gigantesco demônio que tinha transformado meu marido em
vampiro, começa a girar o mar de fogo com uma colher enorme. Nesse
momento eu vejo os pensamentos dele. Então tudo o que ele é me é
revelado da forma mais dolorosa possível.
Nós estamos nos beijando, nos acariciando na cama de nosso quarto. O
prazer é intenso e eu quero mais. Essa mulher é muito bonita e ainda
por cima é filha de uma das famílias mais ricas de Brasília. Me unir
a ela foi a melhor idéia que eu já tive na vida. A fortuna que meus
pais me deixaram aumentará ainda mais. E com a imagem de bom marido
e de bom pai que eu faço pro povo, o Senado já está no papo.
***
- Você vê, agora?!
O demônio fala enquanto continua a remexer o mar de fogo com a colher.
- Ele só te queria porque precisava duma esposa para vencer a
eleição! E porque sua família era rica como a dele! Por isso, ele
te traía com outras mulheres!
- Então... Então... ele nunca me amou?!
- Do mesmo jeito que você o amou?! Sim, mas a diferença é que você é
mulher e ele é homem! E os homens sempre podem mais do que as
mulheres em seu mundo! Mas aqui, no Inferno, o que importa é a
força, o poder! Aqui, não importa o sexo, mas sim que o mais forte
vença! E, agora que você descobriu a verdade sobre o homem que
amava, deseja vencê-lo, não?!
Foi nessa hora que o brilho do ódio tomou conta de mim. E eu vi nos
olhos do demônio que ele tinha gostado da minha pessoa. Eu senti que
aquele ser das trevas faria qualquer coisa por mim. Então, eu
respondi:
- Sim! Eu quero me vingar dele! Por todas as traições que ele
aprontou comigo! Eu fui fiel a ele! Cuidei do nosso filho sozinha
enquanto ele se divertia na orgia! Eu quero me vingar dele! E vou
me vingar!
- Pois muito bem! Você morreu no mar e agora renascerá no mar! Que
o fogo do ódio ilumine suas ações! E que o brilho da vingança
reflita em seus olhos a onda de fúria que invadiu-lhe a alma!
Então, os meus gritos de dor foram maiores nessa hora. O demônio
mexia no mar de fogo com rapidez transformando meu corpo, cada vez
mais. Eu sentia o fogo arrancar a pele dos meus ossos. Era como se
as chamas se transformassem em lâminas. Meus olhos, meus dentes,
minhas orelhas, minhas pernas, meus braços, todo o meu corpo era
arrancado de mim. No lugar de meus curtos cabelos negros, longos
cabelos loiros surgiam, meus olhos castanhos foram substituídos por
olhos azuis. Todo o meu corpo se transformava. Meus seios tornavam-
se mais esbeltos e eu senti minha antiga e decrépita forma ser
substituída por outra, mais jovem, mais sensual.
No entanto, uma grande explosão atraiu a atenção do demônio. Nessa
hora, saí do mar de fogo. A transformação, embora bem-vinda, era
dolorosa demais e eu já não agüentava tamanho sofrimento. Nessa
hora, percebi com horror que minha cintura e minhas pernas foram
substituídas por um enorme rabo de peixe. Eu não podia acreditar no
que estava havendo. Não sabia se gritava de horror ou de alegria
pelo que eu tinha me tornado. Eu agora era um ser metade humano,
metade peixe.
A admiração em breve foi substituída pelo espanto. Os demônios
lutavam furiosamente entre si pelos pedaços de uma pedra que tinha
explodido. E meu marido estava entre eles. Ao fitá-lo, meu coração
se enche de ódio. O homem a quem eu tinha sido fiel, me traía da
forma mais torpe que se poderia imaginar. Me arrastei em sua direção
e senti a vulnerabilidade desse novo corpo. Eu não podia andar, só
rastejar pelo chão. Era necessário me adaptar àquela nova situação.
Mas eu não tinha tempo para o aprendizado. Só pensava na vingança.
Eu sentia, apesar dessa minha debilidade, que o demônio tinha me dado
um poder incrível. Eu teria de aprender a lidar com ele. Mas só
aprenderia depois de me vingar do homem a quem eu entreguei meu
coração e que tão ordinariamente me traiu.
Aproximei-me devagar da criatura. Ele tinha se tornado um vampiro
feroz. Matava os demônios com uma rapidez e uma fúria
impressionantes. O chão do Inferno escorregava com o sangue verde
dos demônios que ele ia matando. Então aconteceu o inesperado. No
momento, em que eu ia destruí-lo, meu marido mordeu uma garota, uma
outra pessoa condenada a viver o tormento no Inferno.
Eu não sabia quem ela era. Só sei que a garota tinha pego um dos
cacos daquela pedra mágica. E, quando meu marido a mordeu, ela sugou
toda a sua essência, todo o seu ser, transformando meu ex-amado em
uma poça de ácido incandescente. Aquilo me revoltou de uma forma
indescritível. A vingança pelo que eu tinha passado nas mãos daquele
crápula me foi negada.
O demônio viu que eu estava furiosa, pegou um machado de fogo e o
atirou na direção da garota. Ela esticou a pedra na frente. A pedra
absorveu aquele enorme poder e o devolveu em forma de lâminas
sulfúreas. O demônio que tinha me transformado, que tinha me dado o
poder, foi destruído. Eu gritei de raiva contra aquela bandida.
Além de ter me negado a vingança, ela matou aquele que me recriou com
tanta dor e com tanto poder.
Foi nessa hora, que um portal se abriu e a garota foi tragada por
ele. Outros demônios e mais cacos daquela pedra mágica foram pegos
pelo tranco do teleporte. Eu me arrastei em direção a ele. Mas eu
não tinha pernas e já estava começando a enfraquecer. Mas não podia
desistir. Aquela garota me negou a vingança, destruiu meu criador,
meu pai.
Eu tinha de persegui-la até no Céu se fosse preciso. Mas não podia
perdê-la. A vingança contra ela foi tudo o que me restou. Só mais
um pouco. Mais um pouco e eu vou entrar no portal. Ele está se
fechando. Não. Eu não vou permitir. Eu vou me vingar. Ela
destruiu meu pai. Meu criador. Eu me vingarei. Eu me vingarei.

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