O RENASCER DOS MORTOS
( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA )
A chuva finalmente pára de cair. Caminhando pela floresta, o monstro
de pele azulada chega próximo à caverna onde seu tio e a princesa de
Brancalândia fizeram seu ninho de amor. Mas só encontra o cadáver de
David caído sobre a relva. A criatura, o ser de olhos negros sente
que seu tio já esteve por ali. A fera sente a necessidade, o desejo
de se encontrar com o tio. Para o monstro, Rafael era a pessoa mais
importante de sua vida. E ele não deixaria ninguém se intrometer no
amor dos dois.
O monstro chega até a caverna. O cheiro de suór e sexo, além do
perfume de Daniela, o enchem de ódio. Como aquela humana poderia
roubar-lhe o tio?! Ah, ela iria pagar por essa afronta! Ah, se
iria! Para a fera, Rafael seria dela e de mais ninguém!
O monstro então aproximá-se do cadáver de David. Percebendo que o
morto era a única pista que tinha sobre o paradeiro de seu tio, a
fera faz o impensável. Ela abre a boca do cadáver de David e entra
neste. Então, o morto começa a se balançar. As lembranças de sua
vida vem como flashes. Seu amor por Daniela! O noivado com esta! O
flagrante de sua traição com Rafael!
É nessa hora que David abre seus olhos negros! Ele se lembra da luta
com Rafael! O ódio então invade-lhe a alma e o morto se levanta!
- Aquele negro maldito! Aquela desgraçada me traiu com aquele
macaco! Mas os dois hão de pagar caro por essa afronta! Não perdem
por esperar! Já que Daniela não pode ser minha, não será de mais
ninguém!
- Me leve para a casa de meu pai!
David escuta a frase proferida por Daniela antes desta desmaiar. E,
cambaleando, o morto caminha na direção do castelo de Brancalândia.
Interior do castelo de Brancalândia.
- E foi isto o que aconteceu!
Rafael acabara de contar a Richard I o seu romance com Daniela e o
desfecho terrível que este teve. O rei, sentado em uma cadeira com
rodas de madeira, escuta as palavras do negro com uma expressão
sombria.
- O senhor... quer dizer alguma coisa?!
O rei, após alguns minutos olhando para Rafael, responde:
- Você quer mesmo que eu acredite que minha filha apaixonou-se por um
macaco como você?!
- Mas é verdade, Majestade! Eu e Daniela nos amamos muito!
- Mentira! Mentira! Blasfêmia! Para mim, você tentou estuprar
minha filha e a trouxe para cá a fim de não ser queimado na fogueira!
- Não é verdade! Eu amo a sua filha e jamais lhe faria mal algum!
- Está dizendo que eu sou um mentiroso?!
- Não, mas...
- Guardas! Guardas!
Os guardas entram na biblioteca e agarram Rafael pelos braços.
- Levem esse negro estuprador para as masmorras!
- Mas eu não fiz nada! Rafael grita enquanto é arrastado pelos
guardas até as masmorras. Eu não estuprei Daniela! Ela me ama! Me
ama! Me amaaaa...
Depois que os guardas conseguem tirar Rafael da biblioteca, o rei
reflete:
Negros malditos! Por causa deles, ela morreu! Minha amada Elizabete
tinha tanta compaixão pelos inferiores! Ela nunca entendeu que o
branco simboliza Deus... e o negro, o diabo! Adoeceu sem entender os
princípios divinos da aristocracia de Brancalândia! Morreu levando
meu amor com ela!
O enterro de Elizabete.
- Você matou ela!
- Não, Daniela! Foi a feitiçaria dos negros que amaldiçoou sua mãe!
- Mentira! Mentira!
Richard I esbofeteia a menina de dez anos.
- Nunca mais me responda dessa maneira, está me ouvindo?! Ele berra
enquanto a menina abaixa os olhos. Nunca mais! Eu sou o Rei de
Brancalândia! Você é minha filha e me deve respeito!
Daniela ergue os olhos na direção do pai e diz:
- Você não viu a imagem!
- Imagem?! Que imagem?!
- Eu... e a mamãe fomos para a missa... um dia... e vimos...
- Vocês viram... Ora, Daniela, que história é essa?! Você está
inventando o quê?!
- A gente viu Cristo descer da cruz!
As palavras de Daniela impressionam Richard I.
- Quê?!
- Ele disse prá mamãe tirar o racismo de seu coração! Falou que essa
era a missão dela na Terra!
- Daniela... como pode ser isso... se Cristo era branco como nós?!
- Não! Ele era mestiço!
- Blasfêmia!
Richard I esbofeteia novamente Daniela jogando-a no chão.
- Nunca mais blasfeme dessa maneira! Ele berra enquanto a menina,
com lágrimas nos olhos, o enxerga de forma assustada. Da próxima vez
que você blasfemar, eu vou...
- Nãooo...
- Daniela!
A garota, assustada com a fúria do pai, corre sem perceber a
carruagem que se aproxima. O cocheiro não tem tempo para conter os
cavalos. E Daniela sente a dor das rodas da carruagem passarem sobre
seu corpo.
- Daniela! Nãooo...
- Não!
Daniela acorda dessas lembranças, febril. Ela olha ao redor e
percebe que está em seu antigo quarto no castelo de Brancalândia. Ao
seu lado, uma empregada velava pelo seu sono.
- Que bom que acordou, Alteza!
- Estou em meu quarto! Isto quer dizer que Rafael fez o que eu lhe
pedi e me trouxe de volta para casa! Mas onde ele está?! Onde
Rafael está?!
- Está falando do negro que tentou estuprá-la?!
As palavras da empregada enchem o coração de Daniela de cólera.
- Como assim tentou me estuprar?! Do que está falando?!
- Foi o que seu pai disse!
- Meu pai?! Oh, não! Diga-me, serviçal, onde meu pai está?
- Na sala do trono! Mas Vossa Alteza está muito fraca e...
- Me largue!
A empregada tenta reter Daniela na cama. A princesa esbofeteia a
serviçal jogando-a no chão. Daniela sai do quarto e vai até a sala
do trono. Ao fitar seu pai, com o corpo todo enfaixado, a fúria é
substituída pela ternura.
- Papai!
- Daniela!
A filha ajoelhá-se abraçando o pai.
- Pai! Meu Deus! O que aconteceu com o senhor?!
- Uma maldição, filha minha! Uma chuva de fogo se abateu sobre o
reino de Brancalândia e quase me matou!
As palavras de Richard I assustam Daniela. Ela se lembra da fera, do
monstro inspirar o fogo que quase a matou. A criatura não agüentou o
calor das chamas no interior de seu corpo e cuspiu o fogo para o
alto. O céu ficou vermelho com as chamas e bolas de fogo caíram
sobre a Terra.
- Foram os negros de Burralândia! Aquele maldito Padre Olavo que
falava tanto em Deus não passava dum feiticeiro!
- Está errado, meu pai! Daniela se levanta surpreendendo Richard I.
Eu vi o demônio que fez isso!
O rei fica estupefato com as palavras da princesa.
- Um monstro horrível, pai! Tinha olhos negros, pele azul! Deus, só
de lembrar de seu aspecto terrível, eu tremo de medo!
- Então, você viu o demônio?!
- Sim! Como vi cristo anos atrás!
A expressão de Richard I fica séria por não acreditar nas palavras de
Daniela. A princesa sente isso, mas lembrá-se de Rafael.
- Onde está o negro que me trouxe aqui?
Richard I fica ainda mais furioso com as palavras de Daniela.
- O macaco com quem você dormiu?! Ele pergunta assustando a
princesa. O mestiço com quem você traiu o seu noivo?! Aonde você
acha que eu o botei?
As lágrimas começam a escorrer do rosto de Daniela quando ela diz:
- Pai... tente entender... eu o amo!
- Não! Você não o ama! Está enfeitiçada pela magia daquele macaco!
- Se existe magia na minha relação com Rafael, ela só tem um nome:
amor!
- Pelo que estou vendo, o feitiço é muito mais forte que a razão!
Está enfeitiçada, Daniela! Não sabe o que diz!
- O senhor é quem não sabe o que diz! Não passa dum boneco que segue
as idéias que seus pais e avós lhe incutiram!
- Ora, não se atreva a falar comigo dessa maneira, menina!
- Por que?! Vai me bater?! O senhor mal pode se levantar dessa
cadeira, meu pai!
- Ah, menina! Você vai receber o castigo que merece!
Dois meses depois, a vila de Brancalândia foi reconstruída. O fato
de David ter lutado com Daniela foi muito proveitoso para Hochfield.
Este, com a ajuda de alguns membros do clero, inventou que David se
tornara um anjo para lutar pelo povo. E deu o último resquício de
sua vida terrena por Brancalândia.
E foi assim que Hochfield, com o apoio de plebeus brancos e negros,
foi eleito o novo rei de Brancalândia. É lógico que, por trás disso,
havia o interesse dos nobres e dos clérigos em continuar a tradição
monárquica explorando o povo através do fanatismo religioso.
No entanto, longe de toda essa onda de ganância e alienação, uma mãe
chora pela alma de seus dois filhos.
- Deus, olhe pelo meu David, olhe pelo meu John! Lhes dêem
recompensa da vida eterna! Eles sempre foram bonzinhos em vida! Não
vão decepcionar o Senhor agora que estão mortos! Abençoe-os Deus!
- Cristine!
A mulher ergue os olhos na direção do marido.
- Está feliz agora?! Agora que é o rei de Brancalândia, não precisa
mais correr atrás do dinheiro! É só isso que te interessa, não é
Hochfield?! Esse maldito dinheiro que custou a vida de nossos filhos!
Cristine chora desconsolada. Hochfield a abraça tentando confortá-
la. É quando Cristine vê uma lágrima rolar pelo olho do marido.
- Você... está... chorando!
- Acha que eu não sinto a falta dos meninos, Cristine?! É claro que
sinto! Eu sou pai... mas não sou tolo!
Hochfield olha firmemente nos olhos de Cristine e diz:
- Eu lamento tanto a morte de meus filhos, Cristine! Mas e daí?! Eu
ainda tenho você! E juntos poderemos ter outros filhos, talvez até
filhas! E que, com certeza, serão mais fortes do que foram o nosso
David e o nosso John!
- Hochfield... o que está dizendo?!
- John sempre viveu na aba da sua saia! Sempre foi apegado demais a
você! E o David foi uma decepção! Apaixonou-se pela vagabunda da
filha do Richard I! Deixou-se levar pelo amor ao invés de aproveitar
a oportunidade de enriquecer sendo noivo da princesa de
Brancalândia! Cristine, sei que é duro dizer isso, mas nossos filhos
trilharam os caminhos que eles mesmos escolheram!
Cristine se aconchega ao corpo de Hochfield. Ela reflete sobre as
palavras do marido e vê que ele tem razão. Que importasse o
desaparecimento de John e a morte de David?! Ambos escolheram o seu
próprio destino! E ela era jovem ainda, em condições de dar mais
frutos ao seu amado rei.
- Eu sempre quis ter uma menina!
Cristine diz a frase e, em seguida beija Hochfield.
Conclui em: E AO PÓ VOLTARÁS.
A chuva finalmente pára de cair. Caminhando pela floresta, o monstro
de pele azulada chega próximo à caverna onde seu tio e a princesa de
Brancalândia fizeram seu ninho de amor. Mas só encontra o cadáver de
David caído sobre a relva. A criatura, o ser de olhos negros sente
que seu tio já esteve por ali. A fera sente a necessidade, o desejo
de se encontrar com o tio. Para o monstro, Rafael era a pessoa mais
importante de sua vida. E ele não deixaria ninguém se intrometer no
amor dos dois.
O monstro chega até a caverna. O cheiro de suór e sexo, além do
perfume de Daniela, o enchem de ódio. Como aquela humana poderia
roubar-lhe o tio?! Ah, ela iria pagar por essa afronta! Ah, se
iria! Para a fera, Rafael seria dela e de mais ninguém!
O monstro então aproximá-se do cadáver de David. Percebendo que o
morto era a única pista que tinha sobre o paradeiro de seu tio, a
fera faz o impensável. Ela abre a boca do cadáver de David e entra
neste. Então, o morto começa a se balançar. As lembranças de sua
vida vem como flashes. Seu amor por Daniela! O noivado com esta! O
flagrante de sua traição com Rafael!
É nessa hora que David abre seus olhos negros! Ele se lembra da luta
com Rafael! O ódio então invade-lhe a alma e o morto se levanta!
- Aquele negro maldito! Aquela desgraçada me traiu com aquele
macaco! Mas os dois hão de pagar caro por essa afronta! Não perdem
por esperar! Já que Daniela não pode ser minha, não será de mais
ninguém!
- Me leve para a casa de meu pai!
David escuta a frase proferida por Daniela antes desta desmaiar. E,
cambaleando, o morto caminha na direção do castelo de Brancalândia.
***
Interior do castelo de Brancalândia.
- E foi isto o que aconteceu!
Rafael acabara de contar a Richard I o seu romance com Daniela e o
desfecho terrível que este teve. O rei, sentado em uma cadeira com
rodas de madeira, escuta as palavras do negro com uma expressão
sombria.
- O senhor... quer dizer alguma coisa?!
O rei, após alguns minutos olhando para Rafael, responde:
- Você quer mesmo que eu acredite que minha filha apaixonou-se por um
macaco como você?!
- Mas é verdade, Majestade! Eu e Daniela nos amamos muito!
- Mentira! Mentira! Blasfêmia! Para mim, você tentou estuprar
minha filha e a trouxe para cá a fim de não ser queimado na fogueira!
- Não é verdade! Eu amo a sua filha e jamais lhe faria mal algum!
- Está dizendo que eu sou um mentiroso?!
- Não, mas...
- Guardas! Guardas!
Os guardas entram na biblioteca e agarram Rafael pelos braços.
- Levem esse negro estuprador para as masmorras!
- Mas eu não fiz nada! Rafael grita enquanto é arrastado pelos
guardas até as masmorras. Eu não estuprei Daniela! Ela me ama! Me
ama! Me amaaaa...
Depois que os guardas conseguem tirar Rafael da biblioteca, o rei
reflete:
Negros malditos! Por causa deles, ela morreu! Minha amada Elizabete
tinha tanta compaixão pelos inferiores! Ela nunca entendeu que o
branco simboliza Deus... e o negro, o diabo! Adoeceu sem entender os
princípios divinos da aristocracia de Brancalândia! Morreu levando
meu amor com ela!
***
O enterro de Elizabete.
- Você matou ela!
- Não, Daniela! Foi a feitiçaria dos negros que amaldiçoou sua mãe!
- Mentira! Mentira!
Richard I esbofeteia a menina de dez anos.
- Nunca mais me responda dessa maneira, está me ouvindo?! Ele berra
enquanto a menina abaixa os olhos. Nunca mais! Eu sou o Rei de
Brancalândia! Você é minha filha e me deve respeito!
Daniela ergue os olhos na direção do pai e diz:
- Você não viu a imagem!
- Imagem?! Que imagem?!
- Eu... e a mamãe fomos para a missa... um dia... e vimos...
- Vocês viram... Ora, Daniela, que história é essa?! Você está
inventando o quê?!
- A gente viu Cristo descer da cruz!
As palavras de Daniela impressionam Richard I.
- Quê?!
- Ele disse prá mamãe tirar o racismo de seu coração! Falou que essa
era a missão dela na Terra!
- Daniela... como pode ser isso... se Cristo era branco como nós?!
- Não! Ele era mestiço!
- Blasfêmia!
Richard I esbofeteia novamente Daniela jogando-a no chão.
- Nunca mais blasfeme dessa maneira! Ele berra enquanto a menina,
com lágrimas nos olhos, o enxerga de forma assustada. Da próxima vez
que você blasfemar, eu vou...
- Nãooo...
- Daniela!
A garota, assustada com a fúria do pai, corre sem perceber a
carruagem que se aproxima. O cocheiro não tem tempo para conter os
cavalos. E Daniela sente a dor das rodas da carruagem passarem sobre
seu corpo.
- Daniela! Nãooo...
***
- Não!
Daniela acorda dessas lembranças, febril. Ela olha ao redor e
percebe que está em seu antigo quarto no castelo de Brancalândia. Ao
seu lado, uma empregada velava pelo seu sono.
- Que bom que acordou, Alteza!
- Estou em meu quarto! Isto quer dizer que Rafael fez o que eu lhe
pedi e me trouxe de volta para casa! Mas onde ele está?! Onde
Rafael está?!
- Está falando do negro que tentou estuprá-la?!
As palavras da empregada enchem o coração de Daniela de cólera.
- Como assim tentou me estuprar?! Do que está falando?!
- Foi o que seu pai disse!
- Meu pai?! Oh, não! Diga-me, serviçal, onde meu pai está?
- Na sala do trono! Mas Vossa Alteza está muito fraca e...
- Me largue!
A empregada tenta reter Daniela na cama. A princesa esbofeteia a
serviçal jogando-a no chão. Daniela sai do quarto e vai até a sala
do trono. Ao fitar seu pai, com o corpo todo enfaixado, a fúria é
substituída pela ternura.
- Papai!
- Daniela!
A filha ajoelhá-se abraçando o pai.
- Pai! Meu Deus! O que aconteceu com o senhor?!
- Uma maldição, filha minha! Uma chuva de fogo se abateu sobre o
reino de Brancalândia e quase me matou!
As palavras de Richard I assustam Daniela. Ela se lembra da fera, do
monstro inspirar o fogo que quase a matou. A criatura não agüentou o
calor das chamas no interior de seu corpo e cuspiu o fogo para o
alto. O céu ficou vermelho com as chamas e bolas de fogo caíram
sobre a Terra.
- Foram os negros de Burralândia! Aquele maldito Padre Olavo que
falava tanto em Deus não passava dum feiticeiro!
- Está errado, meu pai! Daniela se levanta surpreendendo Richard I.
Eu vi o demônio que fez isso!
O rei fica estupefato com as palavras da princesa.
- Um monstro horrível, pai! Tinha olhos negros, pele azul! Deus, só
de lembrar de seu aspecto terrível, eu tremo de medo!
- Então, você viu o demônio?!
- Sim! Como vi cristo anos atrás!
A expressão de Richard I fica séria por não acreditar nas palavras de
Daniela. A princesa sente isso, mas lembrá-se de Rafael.
- Onde está o negro que me trouxe aqui?
Richard I fica ainda mais furioso com as palavras de Daniela.
- O macaco com quem você dormiu?! Ele pergunta assustando a
princesa. O mestiço com quem você traiu o seu noivo?! Aonde você
acha que eu o botei?
As lágrimas começam a escorrer do rosto de Daniela quando ela diz:
- Pai... tente entender... eu o amo!
- Não! Você não o ama! Está enfeitiçada pela magia daquele macaco!
- Se existe magia na minha relação com Rafael, ela só tem um nome:
amor!
- Pelo que estou vendo, o feitiço é muito mais forte que a razão!
Está enfeitiçada, Daniela! Não sabe o que diz!
- O senhor é quem não sabe o que diz! Não passa dum boneco que segue
as idéias que seus pais e avós lhe incutiram!
- Ora, não se atreva a falar comigo dessa maneira, menina!
- Por que?! Vai me bater?! O senhor mal pode se levantar dessa
cadeira, meu pai!
- Ah, menina! Você vai receber o castigo que merece!
***
A Praça da Ordem Divina. É aqui onde os criminosos são julgados pelo
Tribunal da Inquisição e, em seguida, queimados vivos.
- Iahhh...
Em uma cela, com os pulsos acorrentados, Daniela é açoitada por um
carrasco e berra de dor. Ao lado dela, Richard I e um padre oram por
sua alma. As lágrimas saltam dos olhos da princesa.
- Deus, tire desta jovem o pecado da carne! Fala o padre. Faça com
que ela se arrependa do mau passo que deu!
- Eu não me arrependo de nada! Daniela berra enquanto é açoitada.
Eu não me arrependo de nada! De nada! De nada! Iahhh... Aiiii...
- Daniela, prefere ser queimada no Inferno do que renunciar à sua
obsessão por esse macaco?! Pergunta Richard I.
- O senhor... é quem vai queimar!
O poder de Daniela estava prestes a se manifestar, mas os portões de
sua cela se abriram. Foi naquele momento que Daniela viu Rafael,
acorrentado e sangrando, ser encaminhado até a plataforma onde iria
ser acesa a fogueira. O carrasco pára de açoitar Daniela e se dirige
até a plataforma. O padre empurra a cadeira onde Richard I se
encontrava até a mesa julgadora. A multidão se reúne ao redor da
Praça da Ordem Divina.
- Rafael! Grita Daniela chorando. Rafael, não! Por favor, por
Deus, não o matem! Não o matem, pelo amor de Deus!
Uma mordaça de ferro é colocada na boca da princesa. O arcebispo
profere a sentença antes do julgamento:
- Este negro ousou tentar estuprar a Princesa de Brancalândia! Por
ser negro, não terá direito a julgamento e será queimado agora mesmo
pelo Tribunal da Inquisição!
Uma pedra atinge o rosto do arcebispo.
- Mas o que é isso?! Pergunta Richard I impressionado.
- Morte à tirania de Richard I!
Um levante popular ocorre em meio ao julgamento. Os plebeus estavam
revoltados por não poderem dar um enterro justo aos seus parentes e
amigos mortos pela chuva de fogo. Eles queriam se aproveitar do
julgamento de Rafael para protestar. E uma violenta manifestação
popular reúne brancos e negros contra Richard I.
- Guardas, matem os rebeldes! Ordena o imperador de Brancalândia.
As lanças dos guardas atravessam os corpos dos plebeus. Os
revoltosos reagem matando muitos guardas a pauladas. Os cadáveres
ensangüentados caem pelo chão. Arqueiros se posicionam nas muralhas
do palácio e atiram contra os plebeus matando muitos deles.
- É agora! Fala Daniela concentrando-se em seu poder. Tenho de me
concentrar! Tenho de libertar Rafael! Preciso! Preciso libertar o
meu amor!
A princesa concentrá-se no amor que sente pelo negro. Alguns
segundos se passam. Rafael, com o sangue escorrendo pela garganta,
olha para Daniela. E o poder do amor de ambos quebra os grilhões da
injustiça. Rafael, ainda inconsciente, cai sobre um monte de
cadáveres.
Naquele momento, os rebeldes subiram na plataforma. Eles avançam
contra o carrasco e, armados de facas de cozinha, o esquartejam.
Depois, avançam para a mesa julgadora. Um punhal perfura o peito do
arcebispo. Outro punhal corta a garganta do padre. E um garfo
perfura os olhos de Richard I atravessando o crânio do imperador.
- Nãooo...
Daniela berra chorando.
- Pai! Pai! Paiiii...
As paredes da prisão desabam. As correntes e a mordaça caem. E a
princesa Daniela, com os olhos brancos, flutua no céu de
Brancalândia. Guardas, plebeus e Rafael olham estupefatos para
Daniela. A expressão desta traduz a mais pura fúria.
- Vejam! Grita uma senhora. A princesa é um anjo!
- Povo maldito! Daniela berra apavorando a multidão. Vocês mataram
o meu pai! Agora hão de pagar pelo crime cometido!
- Daniela! Grita Rafael. Não faça isso, Daniela!
A princesa ergue o braço direito para o alto. Então, uma enorme bola
de fogo sai do sol e flutua sobre a palma da mão de Daniela. Ela
atira a bola contra a plataforma. A bola explode em um incêndio
queimando os plebeus que tinham matado Richard I. As chamas se
espalham matando mais pessoas.
- Ousamos desafiar o poder de Deus e ele mandou um anjo para nos
castigar!
- Fujam da ira de Deus!
- Iahhh...
- Aiiii...
As pessoas berram enquanto tentam fugir das chamas assassinas.
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Daniela gargalha tenebrosamente.
- Daniela! Rafael fala chorando. Não!
Súbito, uma mão branca agarra o negro pelos cabelos e o levanta.
- Daniela!
Rafael e a princesa se viram na direção do berro e não acreditam.
Era David.
- Nãooo... Berra Daniela apavorada. Não pode ser!
- Mas é! Berra David. Daniela, eu voltei dos mortos para me vingar
de você!
Rafael olha para David e percebe seus olhos negros. E logo sente que
seu sobrinho é quem controla o corpo de David.
- Você não é David! Grita Rafael.
David virá-se com ódio na direção de Rafael.
- Eu sei quem você é!
David olha fixamente para Rafael e se lembra. A dor de Mariângela.
As chamas matando sua mãe. As mesmas chamas que quase mataram Rafael
e Daniela. Seu tio, seu único parente vivo.
- Nãoooo... Berra David soltando Rafael. Eles mataram minha mãe!
Eles tentaram matar meu tio! Meu tio me traiu! Daniela me traiu com
meu tio! Não! Não! Nãooo...
David vê o incêndio queimar as pessoas e olha para Daniela.
- Você! Você é um deles! Os seres que gostam de queimar as
pessoas! Você! Minha mãe! Ela foi queimada viva! Você me traiu
com meu tio! Você também vai queimar!
David inspira as chamas pelo nariz. E expira o fogo pela boca na
direção de Daniela. Ela estica a mão na direção das chamas contendo-
as com um campo de força invisível. Mas sente que o poder de David é
muito mais poderoso que o seu.
- Daniela! Geme Rafael. Ela vai morrer! Eu não vou deixar! Eu a
amo! Não vou deixá-la morrer! Eu perdi minha mãe, meu pai e minha
irmã! Eu só tenho Daniela! Não permitirei que morra!
Rafael pega um punhal que tinha caído perto dele. Armado com o
punhal, o homem negro avança contra o homem branco. David se vira
para Rafael, parando de disparar as chamas. O negro crava o punhal
no peito do branco. Parte da pele humana cai dando lugar a um corpo
azul.
- Não! Você é meu tio! Você não pode me matar!
- Volte para o Inferno, Demônio!
- Não! Não! Nãoooo...
O punhal atravessa o corpo azulado de David rasgando-o. Ainda
existiam chamas no corpo do monstro. E, ao ter o corpo destruído, a
fera liberou o fogo. O incêndio atinge Rafael e David, que morrem
queimados. A fera, antes de morrer, com a voz de David, ainda grita:
- Eu te amo!
- Rafael! Daniela grita chorando. Oh, Deus, Rafael! Não! Não!
Nãooo...
De braços abertos e olhando para o alto, Daniela berra de tristeza.
A dor foi tão forte que a princesa desmaiou. Daniela cai sobre os
escombros da plataforma. A princesa tem traumatismo craniano e morre.
Tribunal da Inquisição e, em seguida, queimados vivos.
- Iahhh...
Em uma cela, com os pulsos acorrentados, Daniela é açoitada por um
carrasco e berra de dor. Ao lado dela, Richard I e um padre oram por
sua alma. As lágrimas saltam dos olhos da princesa.
- Deus, tire desta jovem o pecado da carne! Fala o padre. Faça com
que ela se arrependa do mau passo que deu!
- Eu não me arrependo de nada! Daniela berra enquanto é açoitada.
Eu não me arrependo de nada! De nada! De nada! Iahhh... Aiiii...
- Daniela, prefere ser queimada no Inferno do que renunciar à sua
obsessão por esse macaco?! Pergunta Richard I.
- O senhor... é quem vai queimar!
O poder de Daniela estava prestes a se manifestar, mas os portões de
sua cela se abriram. Foi naquele momento que Daniela viu Rafael,
acorrentado e sangrando, ser encaminhado até a plataforma onde iria
ser acesa a fogueira. O carrasco pára de açoitar Daniela e se dirige
até a plataforma. O padre empurra a cadeira onde Richard I se
encontrava até a mesa julgadora. A multidão se reúne ao redor da
Praça da Ordem Divina.
- Rafael! Grita Daniela chorando. Rafael, não! Por favor, por
Deus, não o matem! Não o matem, pelo amor de Deus!
Uma mordaça de ferro é colocada na boca da princesa. O arcebispo
profere a sentença antes do julgamento:
- Este negro ousou tentar estuprar a Princesa de Brancalândia! Por
ser negro, não terá direito a julgamento e será queimado agora mesmo
pelo Tribunal da Inquisição!
Uma pedra atinge o rosto do arcebispo.
- Mas o que é isso?! Pergunta Richard I impressionado.
- Morte à tirania de Richard I!
Um levante popular ocorre em meio ao julgamento. Os plebeus estavam
revoltados por não poderem dar um enterro justo aos seus parentes e
amigos mortos pela chuva de fogo. Eles queriam se aproveitar do
julgamento de Rafael para protestar. E uma violenta manifestação
popular reúne brancos e negros contra Richard I.
- Guardas, matem os rebeldes! Ordena o imperador de Brancalândia.
As lanças dos guardas atravessam os corpos dos plebeus. Os
revoltosos reagem matando muitos guardas a pauladas. Os cadáveres
ensangüentados caem pelo chão. Arqueiros se posicionam nas muralhas
do palácio e atiram contra os plebeus matando muitos deles.
- É agora! Fala Daniela concentrando-se em seu poder. Tenho de me
concentrar! Tenho de libertar Rafael! Preciso! Preciso libertar o
meu amor!
A princesa concentrá-se no amor que sente pelo negro. Alguns
segundos se passam. Rafael, com o sangue escorrendo pela garganta,
olha para Daniela. E o poder do amor de ambos quebra os grilhões da
injustiça. Rafael, ainda inconsciente, cai sobre um monte de
cadáveres.
Naquele momento, os rebeldes subiram na plataforma. Eles avançam
contra o carrasco e, armados de facas de cozinha, o esquartejam.
Depois, avançam para a mesa julgadora. Um punhal perfura o peito do
arcebispo. Outro punhal corta a garganta do padre. E um garfo
perfura os olhos de Richard I atravessando o crânio do imperador.
- Nãooo...
Daniela berra chorando.
- Pai! Pai! Paiiii...
As paredes da prisão desabam. As correntes e a mordaça caem. E a
princesa Daniela, com os olhos brancos, flutua no céu de
Brancalândia. Guardas, plebeus e Rafael olham estupefatos para
Daniela. A expressão desta traduz a mais pura fúria.
- Vejam! Grita uma senhora. A princesa é um anjo!
- Povo maldito! Daniela berra apavorando a multidão. Vocês mataram
o meu pai! Agora hão de pagar pelo crime cometido!
- Daniela! Grita Rafael. Não faça isso, Daniela!
A princesa ergue o braço direito para o alto. Então, uma enorme bola
de fogo sai do sol e flutua sobre a palma da mão de Daniela. Ela
atira a bola contra a plataforma. A bola explode em um incêndio
queimando os plebeus que tinham matado Richard I. As chamas se
espalham matando mais pessoas.
- Ousamos desafiar o poder de Deus e ele mandou um anjo para nos
castigar!
- Fujam da ira de Deus!
- Iahhh...
- Aiiii...
As pessoas berram enquanto tentam fugir das chamas assassinas.
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Daniela gargalha tenebrosamente.
- Daniela! Rafael fala chorando. Não!
Súbito, uma mão branca agarra o negro pelos cabelos e o levanta.
- Daniela!
Rafael e a princesa se viram na direção do berro e não acreditam.
Era David.
- Nãooo... Berra Daniela apavorada. Não pode ser!
- Mas é! Berra David. Daniela, eu voltei dos mortos para me vingar
de você!
Rafael olha para David e percebe seus olhos negros. E logo sente que
seu sobrinho é quem controla o corpo de David.
- Você não é David! Grita Rafael.
David virá-se com ódio na direção de Rafael.
- Eu sei quem você é!
David olha fixamente para Rafael e se lembra. A dor de Mariângela.
As chamas matando sua mãe. As mesmas chamas que quase mataram Rafael
e Daniela. Seu tio, seu único parente vivo.
- Nãoooo... Berra David soltando Rafael. Eles mataram minha mãe!
Eles tentaram matar meu tio! Meu tio me traiu! Daniela me traiu com
meu tio! Não! Não! Nãooo...
David vê o incêndio queimar as pessoas e olha para Daniela.
- Você! Você é um deles! Os seres que gostam de queimar as
pessoas! Você! Minha mãe! Ela foi queimada viva! Você me traiu
com meu tio! Você também vai queimar!
David inspira as chamas pelo nariz. E expira o fogo pela boca na
direção de Daniela. Ela estica a mão na direção das chamas contendo-
as com um campo de força invisível. Mas sente que o poder de David é
muito mais poderoso que o seu.
- Daniela! Geme Rafael. Ela vai morrer! Eu não vou deixar! Eu a
amo! Não vou deixá-la morrer! Eu perdi minha mãe, meu pai e minha
irmã! Eu só tenho Daniela! Não permitirei que morra!
Rafael pega um punhal que tinha caído perto dele. Armado com o
punhal, o homem negro avança contra o homem branco. David se vira
para Rafael, parando de disparar as chamas. O negro crava o punhal
no peito do branco. Parte da pele humana cai dando lugar a um corpo
azul.
- Não! Você é meu tio! Você não pode me matar!
- Volte para o Inferno, Demônio!
- Não! Não! Nãoooo...
O punhal atravessa o corpo azulado de David rasgando-o. Ainda
existiam chamas no corpo do monstro. E, ao ter o corpo destruído, a
fera liberou o fogo. O incêndio atinge Rafael e David, que morrem
queimados. A fera, antes de morrer, com a voz de David, ainda grita:
- Eu te amo!
- Rafael! Daniela grita chorando. Oh, Deus, Rafael! Não! Não!
Nãooo...
De braços abertos e olhando para o alto, Daniela berra de tristeza.
A dor foi tão forte que a princesa desmaiou. Daniela cai sobre os
escombros da plataforma. A princesa tem traumatismo craniano e morre.
***
Dois meses depois, a vila de Brancalândia foi reconstruída. O fato
de David ter lutado com Daniela foi muito proveitoso para Hochfield.
Este, com a ajuda de alguns membros do clero, inventou que David se
tornara um anjo para lutar pelo povo. E deu o último resquício de
sua vida terrena por Brancalândia.
E foi assim que Hochfield, com o apoio de plebeus brancos e negros,
foi eleito o novo rei de Brancalândia. É lógico que, por trás disso,
havia o interesse dos nobres e dos clérigos em continuar a tradição
monárquica explorando o povo através do fanatismo religioso.
No entanto, longe de toda essa onda de ganância e alienação, uma mãe
chora pela alma de seus dois filhos.
- Deus, olhe pelo meu David, olhe pelo meu John! Lhes dêem
recompensa da vida eterna! Eles sempre foram bonzinhos em vida! Não
vão decepcionar o Senhor agora que estão mortos! Abençoe-os Deus!
- Cristine!
A mulher ergue os olhos na direção do marido.
- Está feliz agora?! Agora que é o rei de Brancalândia, não precisa
mais correr atrás do dinheiro! É só isso que te interessa, não é
Hochfield?! Esse maldito dinheiro que custou a vida de nossos filhos!
Cristine chora desconsolada. Hochfield a abraça tentando confortá-
la. É quando Cristine vê uma lágrima rolar pelo olho do marido.
- Você... está... chorando!
- Acha que eu não sinto a falta dos meninos, Cristine?! É claro que
sinto! Eu sou pai... mas não sou tolo!
Hochfield olha firmemente nos olhos de Cristine e diz:
- Eu lamento tanto a morte de meus filhos, Cristine! Mas e daí?! Eu
ainda tenho você! E juntos poderemos ter outros filhos, talvez até
filhas! E que, com certeza, serão mais fortes do que foram o nosso
David e o nosso John!
- Hochfield... o que está dizendo?!
- John sempre viveu na aba da sua saia! Sempre foi apegado demais a
você! E o David foi uma decepção! Apaixonou-se pela vagabunda da
filha do Richard I! Deixou-se levar pelo amor ao invés de aproveitar
a oportunidade de enriquecer sendo noivo da princesa de
Brancalândia! Cristine, sei que é duro dizer isso, mas nossos filhos
trilharam os caminhos que eles mesmos escolheram!
Cristine se aconchega ao corpo de Hochfield. Ela reflete sobre as
palavras do marido e vê que ele tem razão. Que importasse o
desaparecimento de John e a morte de David?! Ambos escolheram o seu
próprio destino! E ela era jovem ainda, em condições de dar mais
frutos ao seu amado rei.
- Eu sempre quis ter uma menina!
Cristine diz a frase e, em seguida beija Hochfield.
Conclui em: E AO PÓ VOLTARÁS.

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