Saturday, June 10, 2006

VIAGEM AO REINO DE MORTALÂNDIA


( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

A capela foi a única construção da fazenda de Hochfield que
sobreviveu à chuva de fogo. Repleta de imagens de santos e com a
cruz de Cristo no altar, a arquitetura barroca se manifesta de forma
maravilhosa na igrejinha. Ajoelhada diante da cruz, Cristine ora
pela vida de John, seu filho mais novo. A mulher, temente a Deus,
sempre suportou as traições do marido, a princípio, pela
cristandade. Depois, quando David e John nasceram, Cristine viu no
amor pelos filhos uma razão a mais para ser fiel ao Barão Hochfield.
- Deus, proteja o meu filho, por favor! Faça com que ele volte para
casa! Proteja-o de todo o mal e feitiçaria que assolam este reino...
E faça com que a pureza da cristandade prevaleça sobre a macumba dos
negros de Burralândia!
Na porta da capela, David se ajoelha fazendo o sinal da cruz. Em
seguida, se levanta e caminha até Cristine. A mulher sente a mão do
filho em seu ombro e a beija.
- Ele vai voltar, mãe! Meu irmão, com certeza, ainda deve estar vivo!
- Se Deus quiser, David! Se Deus quiser!
Cristine se levanta e beija a testa de David.
- Vou trazer meu irmão de volta para casa, mãe! Eu lhe prometo!
- Casa?! Nós não temos mais casa, David! Foi tudo consumido pela
feitiçaria daqueles negros malditos!
Cristine muda a expressão de tristeza para ódio. O racismo que ela
herdou de sua família e a certeza de que foi a macumba dos negros
quem causou a chuva de fogo responsável pela destruição de metade da
fazenda dos Hochfield, preenchem o coração da mulher de raiva.
- A senhora pode ter certeza que se os negros tiveram alguma coisa a
ver com o que ocorreu, eu descobrirei e os farei pagar caro pelo mal
que eles fizeram!
- Tenha cuidado, meu filho! Esses miseráveis são espertos e
traiçoeiros como os macacos que são! Preocupe-se em achar John!
Deixe que Deus castigue os seres da raça inferior!
- Sim, mamãe! Com certeza Deus desaprova a existência desses seres
demoníacos!
David ajoelha-se perante a mãe e beija a mão desta.
- A bença, minha mãe!
- Deus te abençoe, meu filho! Vá em paz e encontre seu irmão!
David, junto com um grupo de dez homens, cavalga para fora da fazenda
Hochfield... em direção à Burralândia.

***

A bela princesa dorme nos braços do ex-escravo. Em sonhos, Daniela
vê as rodas de uma carruagem passarem por cima de seu rosto. A
agonia torná-se intensa até a princesa acordar.
- Pai...
- Daniela, sou eu!
A jovem olha para Rafael e acaricia-lhe o rosto. O casal encontrava-
se à beira dum riacho e o ex-escravo tentava acordar sua bela
princesa com a água.
- Oh, Rafael! Eu senti tanto medo de morrer e de te perder!
- Mas você não morreu, meu amor! E também não me perdeu!
- Fiquei com tanto medo! Aquele demônio era tão horrível! Tomara
que Deus mande um anjo pra vir exterminá-lo!
Rafael fica sem-graça com as palavras de Daniela. Como ele poderia
explicar à sua amada que o demônio, na verdade, era seu sobrinho,
fruto de um estupro praticado por um alien contra sua irmã
Mariângela?! Era melhor não contar nada a Daniela. Os dois lutaram
muito para ficar juntos e Rafael não suportaria ficar nem mais um
minuto longe de seu amor. Daniela, no entanto, percebe que algo
incomoda seu amado.
- O que foi?!
Ele demora a responder. E sente que terá de mentir para a única
pessoa que ainda o amava. Rafael perdeu a mãe, vítima da fome. O
pai foi morto por um alienígena. A irmã, queimada na fogueira por
ser mãe solteira e por ter devorado uma criança para alimentar seu
fruto extraterrestre. Rafael estava sozinho no mundo. A única
pessoa que o amava e a qual ele dedicaria todos os dias de sua vida
era Daniela. Por isso, ele mente com medo de perdê-la.
- Tive medo que você morresse!
-Mas, Rafael, eu só desmaiei!
- Eu sei! Mas você demorou a acordar e,... com o calor do
incêndio... causado... pelo demônio... achei que você tinha morrido
desidratada!
Daniela acaricia o rosto de Rafael. Ela pode sentir a dureza de sua
face, marcada por anos servindo como escravo do Barão Hochfield. E,
ao mesmo tempo, Daniela sente o amor penetrar em seu coração ao
admirar os belos olhos verdes de Rafael.
- Sei que... mesmo não sendo mais escravo, sou negro! Continuo a ser
negro! E sei que os brancos pensam que os negros não têm
sentimentos! Que somos burros ou macacos!
E os olhos de Rafael brilhavam quando ele olhava para Daniela.
- Mas acredite! Acredite, Daniela! Eu posso não ter a pele pura
como a dos brancos; mas meu amor por você enche a minha alma de luz!
Daniela inclina o corpo e beija Rafael.
- Tem a alma mais pura e mais nobre de todo o reino de Brancalândia!
Mas, acima de tudo Rafael, você tem o meu coração!
Daniela pega a mão esquerda de Rafael e a coloca sobre seu seio. Os
dois se beijam mais uma vez e o ex-escravo sente o coração da
princesa pulsar com maior intensidade.
O homem negro e a mulher branca fazem amor às margens do riacho.


***

O barulho do galope indica que David e seus dez capatazes chegaram
próximos à planície onde se deu um violento combate entre lobos.
- Veja, senhor! Pedaços de lobos!
O grupo fica impressionado com a violência das imagens. Patas,
pêlos, caras, dentes e ossos de lobos constituem uma cena macabra.
Os abutres chegam para devorar a carne. David arrisca um palpite
inocente:
- Eles devem ter entrado em confronto por causa de uma ovelha!
Animais ignorantes!
O grupo abandona o local da matança e continua sua jornada rumo à
Burralândia. Eles não sabem que os lobos foram vítimas da fera, do
monstro, da criatura que Mariângela vomitou antes de ser queimada na
fogueira. O híbrido terráqueo-alienígena que caminha pela floresta
com fome. Muita fome.
Quando David e seu grupo não estão mais no local, dois abutres
escorregam nos corpos e acabam caindo na mistura do sangue vermelho
dos lobos com o sangue verde do monstro. E uma transformação
horripilante ocorre.


***

Cai a noite.

É quando David e seu grupo chegam à Burralândia. O cenário é ainda
mais terrível. Casas destruídas, pedaços de ossos largados pelo chão
e sangue por toda a parte. Cinco dos dez empregados de David eram
negros e foram ignorados pelo Padre Olavo quando ocorreu a partilha
entre Burralândia e Brancalândia. O sacerdote só queria negros puros
em seu reino e não admitia pecadores no novo país. Os cinco negros
eram freqüentadores de prostíbulos.
- Maldito seja o Padre Olavo e o povo de Burralândia!
- Se diziam "santos", mas fizeram uma feitiçaria que pôs fim às suas
próprias vidas!
- Bando de hipócritas!
- O Padre Olavo devia ser louco! Só pode ser esta a explicação para
um homem que se dizia tão "santo" praticar a magia negra!
- Só pode ser o celibato! Esse negócio de padre não ter mulher só
pode deixar qualquer um doido!
- Ora, não blasfemem! Diz David. Eu também não gostava do Padre
Olavo e meu pai foi contra o sacerdote quando ele ignorou os
pecadores! Mas não admito que ofendam a fé cristã dessa maneira!
- Senhor, estou vendo algo estranho se aproximar! Fala um dos
capatazes brancos.
David vai até o capataz e vê, no céu, o escuro da noite se mover.
- Mas... o que será?!
- Eu não sei! Responde David. Mas está se aproximando rápido demais!
- O que faremos?!
- Preparem as armas! Arcos e flechas nas mãos e espadas a postos!
Os homens obedecem David enquanto a escuridão aproximá-se cada vez
mais do bando.
- Não sei o que é isso! Fala David. Mas se for mais uma feitiçaria
daqueles ignorantes, nós iremos...
- Iahhhh...
O branco que avisara David é a primeira vítima. Os dois abutres que
tinham encostado na mistura do sangue verde com o sangue vermelho
viraram feras gigantescas, com asas e dentes enormes. Um dos abutres
tinha mordido o ombro direito do homem branco e o devorou cuspindo os
ossos em seguida. Outro capataz branco atira uma flecha acertando a
asa esquerda do abutre. O monstro cai em cima dos destroços do que
já foi uma casa. Os nove homens, de arcos e flechas em punho,
aproximam-se da criatura caída. Esta grita e balança o corpo em
agonia.
O outro abutre, com as garras da asa esquerda, rasga os corpos de
três dos cinco negros. O sangue salta a quilômetros de distância.
Os gritos dos homens são desesperadores.
- Atirem nele! Ordena David.
Os capatazes atiram flechas contra o abutre. A criatura negra, no
entanto, some na escuridão desviando-se dos disparos.
A outra ave retira com os dentes a flecha de sua asa esquerda. E,
emitindo um berro assustador, com a asa direita crava garras na
barriga de outro capataz branco.
- Iahhh...
O capataz cai de joelhos enquanto a barriga é aberta. Os outros
homens não perdem tempo e atiram flechas contra a ave. Enquanto é
atingido, o abutre balança as asas jogando seu sangue marrom contra
os capatazes. Três homens brancos são atingidos. O sangue age como
ácido em seus corpos.
- Ai!
- Iahhh...
- Deus!
Eles gritam enquanto a pele sai de seus corpos. Muitos dos cavalos,
com medo, fogem. David vê o abutre colocar a cabeça para fora dos
destroços e emitir um berro assustador. O filho mais velho do Barão
Hochfield toma distância e acerta uma flecha na cabeça do monstro
despedaçando-a.
Atrás do grupo, o outro abutre fecha suas asas sobre os dois homens
negros restantes. O animal coloca a cabeça para dentro das asas e
começa a picar os dois negros ferindo-os bastante. Os gritos dos
capatazes negros misturam-se aos dos três brancos.
O clima é de medo. David vê os cavalos partirem e, apavorado, salta
em um dos animais, fugindo.
Dentro das asas, o abutre devora um dos dois negros. O outro, sangue
escorrendo pela testa, corta a asa esquerda do bicho com uma espada.
O sangue marrom espalha-se pelo chão e atinge os três brancos que
gritavam em agonia. Agora, o ácido derrete seus pés e sua dor torná-
se maior enquanto a morte fecha suas asas para eles.
- Iahhh...
Com a asa direita, o abutre crava garras no braço esquerdo do homem
negro que lhe rasgara o outro membro. Súbito, o homem branco, com a
pele e o sangue da barriga caindo pelo chão, arrastá-se até o animal
e acerta sua espada na asa direita do bicho cortando-a. O sangue
marrom cai sobre ele e sobre o rosto do abutre. Os dois seres berram
de tanta dor.
O homem negro se afasta e, com muita dificuldade, coloca uma flecha
em seu arco.
- Morra criatura dos infernos!
Ele atira a flecha acertando o olho esquerdo do abutre, que morre.
O negro vai até o homem branco e lhe pergunta:
- Por que?! Por que voltou para me salvar?!
- Eu... Eu... iria... morrer... de qualquer forma! Mas... não
podia... deixar este mundo... sem antes destruir... a obra de Lúcifer!
O homem branco morre com o sangue escorrendo pela boca e pelo nariz!
O capataz negro fecha os olhos do morto e diz:
- Que Deus guarde sua alma!

***

De manhã.

Com o braço enfaixado e um curativo na testa, o homem negro enterra
os corpos de seus colegas. Ele caminha para fora daquele lugar,
compreendendo que o reino de Burralândia estava morto e que, em seu
lugar só existia Mortalândia, onde nada mais vive.

seguir: A FLORESTA E AS FERAS

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