Monday, October 16, 2006

OS ESCRAVOS DO TERROR

OS ESCRAVOS DO TERROR
( POR RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)


- Não! Não! Nãooo... Pára! Pára! Pára! Eu não agüento mais, feitor! Pare! Pare! Pare! Aiii...

O escravo não suporta as chicotadas. Berra e chora de dor. O feitor, insensível às súplicas do negro, continua o seu trabalho. Não que ele não gostasse do escravo. Era pago para torturar e não tinha motivos para pôr fim aos açoites. Só quando o Barão de Madureira ordena, é que ele pára de açoitar o negro.

- Já chega, feitor! Desse jeito, você me estraga a mercadoria! Pode ir cuidar dos outros escravos!

- Sim, senhor Barão!

- Isso não é justo! Chora o negro tristemente. Por que eu não tenho o direito de ser livre?! Por quê?!

O Barão de Madureira caminha até o negro e lhe diz:

- Você está reclamando do quê?! Da falta de liberdade?! Você tem casa e comida de graça, seu crioulo safado! Tem gente que trabalha, dá duro prá ter onde dormir! Você dorme na senzala de graça e ainda reclama!

- Do que adianta ter onde dormir?! Do que adianta ter o que comer, se trabalho desde o alvorecer do dia até o sol se pôr?!

- Olha, você não me venha como histórias, ouviu?! Não me venha com histórias que eu gastei muito dinheiro prá te ter de volta!O feitor se vai. O Barão de Madureira ordena a dois capatazes que tirem o escravo do tronco e o levem para a senzala. Os empregados obedecem o Barão. O nobre vai até a Casa Grande. E se arruma para ir à igreja.

***

- Irmãos, todos nós somos filhos de Deus! Fala o Arcebispo durante a missa. Nós, que nascemos brancos e abençoados pela nobreza, somos filhos de Deus! Por isso, pratiquemos a caridade! E não nos esqueçamos das palavras de Cristo: Amai-vos uns aos outros como eu voz amei!

Após as palavras do Arcebispo, escutá-se um estrondoso Amém. O Barão de Madureira ora ao lado de sua esposa e de seus três filhos. No final da missa, o Arcebispo vai cumprimentar o Barão e sua esposa. O filho mais velho vai cortejar sua futura noiva. Os dois mais novos, um menino e uma menina, vão brincar com um grupo de crianças do lado de fora da igreja, sob o olhar atento de sua mãe. O Barão de Madureira aproveita a ausência da esposa para conversar mais discretamente com o Arcebispo.

- E então?! Tudo pronto para hoje à noite?!

- Sim! Só tenho um receio!

- Fale, Arcebispo!

- A criatura já matou três dos meus escravos! E confesso que isso me incomoda! Os escravos me custaram dez contos de réis! Sei que o tesouro que nos aguarda é maior... mas não quero ficar no prejuízo!

- Entendo, Arcebispo! Mas, infelizmente, um escravo tentou fugir da fazenda à noite passada e tive prejuízos ao capturá-lo!

- Mas e o meu prejuízo, senhor Barão?!

- Senhor Arcebispo, eu vou recompensá-lo, juro!

Os dois continuam discutindo. Eles não percebem. Aliás, nem ligam para o pobre próximo a eles. Mancando de uma perna, o pobre escuta a conversa do nobre e do clérigo. E sente que a hora da caçada se aproxima.

***

Quando anoitece, o pobre vai para a igreja. Com dificuldade para se locomover, devido ao defeito na perna, ele se ajoelha e ora pela caçada desta noite.

- Deus Pai Todo-Poderoso, me dê forças para cumprir a missão que meu pai deixou-me de herança! Ajude-me a combater as forças das trevas, com o poder da fé! Amém!

O pobre faz o sinal da cruz. Ele se apóia sobre o banco de madeira para se levantar. Faz uma expressão de dor. O defeito na perna foi a herança de sua infância pobre. Seus pais eram filhos de pequenos agricultores e seguiram a profissão da família. O trabalho duro na roça e nas caçadas não lhes permitiam ter uma vida confortável. Mas a fé em Deus lhes davam forças para continuarem a luta em nome de Deus. A má alimentação enfraqueceu o corpo do pobre. E sua perna acabou pagando um alto preço.

O Padre sai da sacristia e aproxima-se do pobre.

- É verdade?!

Pergunta o sacerdote cochichando no ouvido do pobre.

- Sim! O Arcebispo e o Barão de Madureira aliaram-se ao Demônio, Padre!

- Está com fome?

- Um pouco.

- Vamos para a sacristia comer alguma coisa, então!

O Padre ajuda o pobre a ir até a sacristia. Nela, o pobre sentá-se numa cadeira próxima a uma mesa de mármore. Ele come vorazmente dois pães com ovos enquanto bebe um copo de leite.

- A situação não poderia estar pior! - Fala o Padre enquanto belisca algumas uvas numa cesta sobre a mesa. - O Barão de Madureira é a maior autoridade daqui! E agora o Arcebispo também está envolvido!

- O que a Igreja de Roma acha disso?

- As ordens são bastante claras! Quem se alia ao Demônio deve ser queimado com ele!

- Vou fazer o serviço esta noite, então!

- Mas eu não tenho dinheiro!

- Então nada feito!

O Padre e o pobre se olham seriamente por um instante.

- Preciso de dinheiro para comprar mais flechas!

- Mas e a Igreja?! Já encomendei a compra de dez imagens para enfeitá-la e não posso quebrar o compromisso!

- Então compre as imagens para enfeitar sua igreja e deixe o povo morrer nas mãos dos filhos de Satã!

- Está bem! Está bem! Pôxa, você devia ser mais ligado à Igreja!

- Sou ligado ao povo de Deus! E é por esse povo que eu combato os seres das trevas!

- Está bom! Está bom!

O Padre tira uma caixa duma gaveta. De dentro da caixa, o sacerdote pega o dinheiro e o entrega ao pobre. Este conta o dinheiro e fala:

- Agora sim o senhor falou a minha língua, Padre!

***

Tarde da noite.Uma criatura das trevas encontrá-se acorrentada pelos pés e pelas mãos. Ela sente o cheiro insuportável dos ramalhetes de alho sobre seu corpo. E geme desesperada tentando se libertar. Mas é inútil. O alho enfraquece seus poderes. Então, tenta gritar por socorro, por ajuda. Mas a mordaça de ferro em sua boca a impede de falar e o vampiro só consegue emitir grunhidos agonizantes.

O Arcebispo e o Barão de Madureira aproximam-se do vampiro caído e amordaçado.

- Está desesperado, não está? - Fala o Barão de Madureira sorrindo para o vampiro.

O nosferato, entretanto, mal consegue falar.

- Não se preocupe, meu amigo! - Fala o Barão tirando a mordaça da boca do vampiro. - Em breve, seremos irmãos!

- Por favor, me liberte! - Grita o vampiro desesperado. - Eu lhes darei a vida eterna de bom grado! Agora, por favor, me libertem! Não me machuquem, por favor!

- Acha que somos idiotas?! Se o libertarmos, você irá matar a todos nós! E sabe como eu sei disso?! Porque se fosse comigo, eu faria o mesmo!

Um dos dois capatazes, que montavam guarda do vampiro, olha para o Arcebispo. Este faz um sinal com a cabeça. O capataz, com um facão, corta o pulso direito do vampiro enquanto o outro bota um balde em baixo do membro ferido.

- Aiii...

Berra o vampiro enquanto seu sangue inunda o balde.- Finalmente! Fala o Barão de Madureira com os olhos brilhando de cobiça. Agora o poder da vida eterna é meu! Todo meu!

O Barão pega o balde e bebe todo o sangue que nele existia.

- Espere!

Fala o Arcebispo avançando contra o nobre. Você prometeu me dar a vida eterna também!O Barão de Madureira larga o balde e avança contra o Arcebispo abocanhando-lhe o pescoço.

- Iahhh...

Grita o sacerdote enquanto o nobre sugá-lhe o sangue.Assustados, os dois capatazes ficam de espingardas em punho. Após matar o Arcebispo, o Barão de Madureira se vira na direção dos dois empregados. Estes ficam apavorados. Os dentes do Barão estavam afiadíssimos, sua pele estava pálida e seus olhos, vermelhos. Tão vermelhos quanto o sangue que escorria de sua boca. O Barão de Madureira passa a língua pela boca e diz alucinado:

- Sangue! Mais sangue!

Os dois capatazes atiram contra o Barão de Madureira. Este sente o impacto dos disparos mas seus ferimentos cicatrizam. O Barão de Madureira salta sobre os dois capatazes e dá um forte tapa em um deles. O golpe foi tão poderoso que arrancou a cabeça do empregado. O nobre abocanha o pescoço do outro capataz e suga o sangue deste. Quando o corpo sem vida do empregado cai, o Barão de Madureira escuta uma batida na porta. Depois outra e mais outra, até que o pobre, com um chute, consegue arrombar a porta. Cambaleando, devido ao defeito em sua perna, o pobre cai.

- Hummm...

Faz o Barão de Madureira lambendo o sangue de sua boca. Mais sangue para sugar!

O Barão aproximá-se do pobre caído. Este, desesperado, molha uma das flechas com água benta e a coloca no arco. Quando o Barão de Madureira salta sobre seu corpo, o pobre atira a flecha contra o peito do nosferato.

- Nãooo...

Berra o Barão de Madureira enquanto seu corpo explode em chamas. Eu tenho o poder! Eu tenho o poder! Eu sou imortal! Eu sou imortal! Iahh...

Ainda em chamas, o esqueleto do Barão de Madureira cai. O pobre desviá-se a tempo e se levanta apoiando-se na parede. E o fogo finalmente consome o corpo do Barão de Madureira. Um vento frio entra por uma janela e leva as cinzas do Barão de Madureira. Dele e do outro vampiro, que não suportou a perda de sangue e a fraqueza causada pelo alho. O pobre agarra o terço em seu pescoço, o beija e diz:
- Obrigado, meu Deus! Obrigado!

***

No dia seguinte, correu a notícia da morte do Arcebispo, do vampiro e dos dois capatazes. A roupa do Barão e alguns ossos também indicavam a morte do nobre. O Padre declarou luto oficial por três semanas em respeito à morte de duas das mais ilustres figuras da nobreza e do clero. Um mês depois, o Padre foi nomeado como o novo Arcebispo, o que era sua ambição desde que soube que o antigo sacerdote tinha um pacto com o diabo.

Quanto ao pobre, continua carregando sua cruz, como caçador a serviço de Deus. Isto até o dia de sua morte. Porque todos nós, ricos ou não, libertos ou escravos, um dia morremos. Porque tudo o que tem um começo... tem um fim!

FIM

Saturday, June 17, 2006

MINHA DESPEDIDA DO GRUPO ADORÁVEL NOITE

É com pesar que anuncio que estes foram os últimos contos que escrevi
para o site! Daqui a algum tempo muito provavelmente terei de viajar e
estudar bastante para um concurso público! Só peço ao Lord Dri e a
todos os membros do grupo que não risquem o meu nome da lista de
membros do grupo! Afinal, quem sabe um dia eu possa voltar, não é
mesmo?! De qualquer forma aí estão divulgados os contos "Cão", a mini-
série O Jardim do Mal e a saga Os Portais do Inferno, que nada mais é
que a segunda( e última?!) temporada das aventuras da vampira Cintia!
Um beijo para as meninas e um abraço para os meninos!

Tudo de bom para meus amigos e uma banana para os
meus inimigos! É o que deseja, Ronaldo de Oliveira Costa! Snif! Snif!

OS PORTAIS DO INFERNO - CAPÍTULO OITAVO: O DIA SEGUINTE!

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

A chuva pára. E um lindo dia de sol ilumina a cidade do Rio de
Janeiro. Coisas do efeito estufa. Depois de uma noite infernal, que
culminou em 32 mortos e 50 desabrigados, os cariocas acordam para
verem o paraíso de beleza e encanto que o dia revela.
No entanto, não são todos os cariocas que têm tempo para contemplar a
beleza de sua cidade. A maioria corre para não chegar atrasada no
trabalho. Policiais, bombeiros, militares, taxistas, motoristas ( de
ônibus, de kômbis ou de vans ), lojistas, comerciantes, camelôs,
analistas de sistemas, advogados, professores, juízes, médicos,
promotores, executivos. Todos lutam pelo pão de cada dia. Seja por
meio do trabalho, seja pela corrupção.
Um dos felizardos, livres da rotina e da luta do dia-a-dia, é a
vampira. Ela acorda na praia da Barra da Tijuca e, ao ver as luzes
do sol sem sentir nada, dá um pulo de alegria.
- Viva! Viva! Viva! A magia da Pedra Filosofal deu certo! A magia
da Pedra Filosofal deu certo! Que dia lindo! Que sol maravilhoso!
Que praia deliciosa! Viva! Viva! Viva a vida!
A vampira não perde tempo. Ela tira a roupa ficando só de calcinha.
Na alça desta, a vampira amarra a pedra e corre para o mar. Um
mergulho na água gelada refresca o corpo e a alma da vampira. Ela
nada despreocupada. Mergulha. Dá cambalhotas. A vampira faz a
festa na praia.
- Oi, amiga! E aí?!
- Oi, colega! Como vai?!
- E aí?! Como foi a aula de Física?!
- Sei lá! Eu nunca assisto àquela aula mesmo!
As duas amigas riem. É nesse momento que seus namorados chegam.
- É ele! O meu amor! O homem a quem eu dei a vida! Aquele por quem
eu morri!
A vampira corre até a areia e abraça o seu namorado, beijando-o com
paixão.
- Meu amor! Como é bom te sentir! Como é bom te beijar de novo!
- Eu também estou feliz por te encontrar de novo, minha princesa!
- Não quer tomar um banho?! A água está ótima!
- Eu até gostaria de tomar banho com você, minha querida... mas você
está morta!
Após essas palavras, os olhos da vampira se enchem de lágrimas. A
imagem da amiga e do namorado desta se dissipam. A vampira cai de
joelhos!
- Não!
A imagem do namorado muda. O jovem se torna homem. Um homem com uma
esposa ao seu lado e uma filha.
- Nãooo...
A imagem daquela família se distancia da vampira.
- Nãooo... Volte! Volte para mim! Volte para mim! Volte para
mim! Volta! Vooooltaaaa...
A vampira cai na areia esticando o braço na direção da imagem. Mas a
família se dissipa sob a luz do sol.
- Nãoooo... Por quê?! Por quê?! Por quêêê?...
Ela chora deitada sobre a areia da praia.
- Por que meu pai quis me estuprar?! Por que ele me matou?! Por que
ele me matou?! Por que ele me matou?! Agora nunca... nunca mais
irei amar de novo! Agora nunca mais poderei ser mãe!

***

Após alguns segundos de choro, a vampira avista um homem, deitado de
bruços, na areia da praia. E sente a sede. A sede pelo sangue da
imortalidade. O mesmo sangue do poder amaldiçoava a vampira a viver
na solidão e na esterilidade.
Ela se levanta da areia e caminha até o homem. Este sente a presença
profana, acorda e se vira na direção da vampira.
- Nãoo... Ela berra ao reconhecer o desempregado que outrora se
transformara em lobisomem.
- Você!
O desempregado fica furioso ao ver a vampira. Observando a lasca da
Pedra Filosofal atada à cintura do nosferato, o desempregado arria a
calcinha da vampira. Em seguida, salta contra ela derrubando-a na
areia. A lasca cai por ali perto. Apesar da luz do sol impedir sua
transformação em lobisomem, o desempregado ainda tinha a força
poderosa de um natimorto.
- Você matou a mulher que eu amava! Ele berra enquanto tenta
estrangular a vampira. Você quase me matou! Quase me matou e mandou
minha amada para o Inferno! Por sua causa, fui preso por um crime
que não cometi! Eu, que nunca roubei nem quando me tiraram o
emprego, fui tratado como um marginal! Por sua causa! Por sua causa!
- Aiii... Grita a vampira sentindo os raios do sol queimarem seu
corpo e as mãos do desempregado a estrangularem. Nãooo... Não!
Ai! Ai! Ai! Aiii! Não! Não! Nãooo...
A vampira berra enquanto sua pele cai e o sangue escorre de sua boca
e de seus ouvidos. Ela sente o líquido vermelho pingar da testa
ferida do desempregado até o seu rosto. E vê, num relance, a ponta
da lasca da Pedra Filosofal, que ficou cravada na testa do
desempregado, reluzir. Num lance rápido, a vampira ergue a mão
direita, sem pele e repleta de ossos, e agarra a ponta da lasca.
- Iahhh...
Um potente choque elétrico acontece no momento em que a vampira
agarra a ponta da lasca. Ela volta ao normal, mas quarenta mil volts
percorrem os corpos da vampira e do desempregado.

***
- Quanto você cobra por suruba?!
- Duzentos, mas por dois homens tão gostosos eu faço um desconto de
50%!
Os dois homens não perdem tempo. Eles abraçam a prostituta e começam
a beijá-la na boca e no pescoço. A mulher sente o homem de trás
abrir suas pernas e acariciar sua vagina enquanto o outro chupá-lhe
os seios.
- Hããã... Hãããã... Ahhh... Ahh... Ahhh...
- Nãooo...
A descarga elétrica transmite a visão ao desempregado.
- Ela ainda não era casada comigo! Não era! Não era! Não eraaaa...
E ele vê os dois homens traçarem sua esposa. Ela agarra os corpos
dos dois homens com selvageria. E o desempregado vê, no dedo anelar
direito, o anel de casamento da prostituta.
- Não! Nãooo...
Ao longe, quatro policiais vêem as descargas elétricas e correm até a
praia.

***

No apartamento do desempregado, a prostituta bate com a frigideira em
um morcego.
- Ai, meu Deus do Céu! É ela! É ela!
- Mas o que que foi?! Será que além de mulher da vida, você se
tornou viciada em drogas?!
- Eu sou piranha sim! E com muito orgulho!
- Orgulho?! Orgulho de se deitar com estranhos por dinheiro?!
- Quem foi que disse que é só por dinheiro, seu corno?! Eu trepo por
prazer! Porque eu gosto! Porque eu quero é mordomia! Ter o sexo e
o dinheiro a hora que eu quiser! Ter o homem que eu quiser! E não
um merda fracassado como você!
É nessa hora que a vampira surge atrás da prostituta. O desempregado
tenta falar, mas a vampira faz sinal de silencio. E ele obedece.
- Que foi, seu corno?! Vai chorar agora, nenezão?! Vai, chora, seu
merda! Diabo de homem que não presta prá porra nenhuma!
A expressão triste do desempregado muda para a mais pura fúria.
Mate-a! Ele pensa transmitindo uma mensagem telepática à vampira.
Acabe com ela! Acabe com ela! Acabe com ela! Acabe com ela! Mate-
a! Mate-a! Mate-a!
Sim,... meu filho!
A vampira morde o pescoço da prostituta.
- Iahhh...
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
O desempregado gargalha enquanto a vampira mata a prostituta.

***

O choque elétrico se desfaz e os dois corpos caem cada um para um
lado. Sentindo ainda os raios do sol queimarem sua pele, a vampira
se arrasta até a lasca da Pedra Filosofal e a agarra. O efeito dos
raios solares cessa e o corpo da vampira pára de queimar.
- Maldita!
O desempregado grita enquanto cai na areia da praia. Sua expressão
era a mais pura fúria. Os quatro policiais chegam até a praia e, ao
verem os dois seres nús, imaginam o pior.
- É o contrabandista que matou os nossos colegas!
- Ele deve ter tentado estuprar a garota!
- Ah, esse canalha vai ter o que merece!
Os quatro policiais partem para cima do desempregado.
- Toma, seu maldito estuprador assassino de tiras!
O policial acerta uma cacetada na cabeça do desempregado. Este se
vira e soca o rosto do guarda, arremessando sua cabeça a alguns
metros de distância.
- Atirem nele! Acabem com esse criminoso duma vez!
Os três policiais sacam seus revólveres na direção do desempregado.
- Deixem meu filho em paz!
Ao ouvirem o berro, os guardas se viram na direção da vampira.
- Meu Deus!
- É um monstro!
- Não pode ser!
- Iahhh...
A vampira se torna um morcego e voa na direção de um dos policiais
abocanhando-lhe o pescoço. Nisso, a lasca da Pedra Filosofal cai
novamente na areia.
- Aiii... Grita o guarda enquanto o morcego suga seu sangue.
- Vou matar o bicho! Diz um outro policial apontando um revólver
contra o morcego.
Mas um soco acertá-lhe as costas e atravessá-lhe o peito. O
desempregado retira o braço ensangüentado do corpo do policial e joga
o coração deste fora. O guarda cai morto. O último policial atira
contra o desempregado, mas uma mão agarra a bala antes de atingir o
homem.
- Meu Deus!
Sentindo a dor do tiro e dos raios solares, a vampira esmaga a bala
enquanto o ferimento em sua mão cicatriza.
- Deus não vai salvá-lo, mortal!
- Nãooo...
A vampira agarra o policial e morde-lhe o pescoço. Ela suga o sangue
do guarda e, em seguida devora sua carne. Depois, pega a lasca da
Pedra Filosofal do chão.
Espalhados pela areia da praia, um corpo sem cabeça, um outro sem
sangue, outro rasgado e um esqueleto compõem uma cena macabra. Mas o
desempregado não se importa com isso. Seus olhos fixam-se nos do da
vampira.
- Mamãe?!
- Sim, meu filho! Eu sou sua mãe!
A imagem da vampira jogando um caco da Pedra Filosofal em sua testa
surge em sua mente.
- Você... me matou?!
- Não! A vampira fala enquanto se aproxima do desempregado. Te dei
uma nova vida! Te dei poder... e imortalidade! Agora você é o rei
da selva... e eu... sou sua mãe!
- Oh, mãe! O desempregado fala abraçando-se à vampira. Você me
salvou! Eu sempre fui oprimido por ser pobre! Mas, agora... agora
eu tenho o poder de um deus! Obrigado, minha mãe!
Lágrimas escorrem pelo rosto da vampira.
- Eu é que te agradeço, meu filho! Agora, sei que não passarei o
resto da eternidade sozinha! Porque agora eu sou mãe! Eu finalmente
me tornei mãe!
A vampira chora de felicidade enquanto sente o conforto do filho.
Ela que, depois de se transformar em vampira, achou que nunca mais
poderia ter um filho, agora era mãe... por toda a eternidade.

EPÍLOGO

Oceano Pacífico.
O tubarão sente a solidão do mar. Distante de outros animais, ele
percebe que uma nova criatura se aproxima. Não é humana, mas também
não é peixe. É uma sereia. Inesperadamente, o novo ser faz sexo com
o tubarão... e em seguida o mata.
O prazer... Ela pensa enquanto o cadáver e o sangue do tubarão caem
no fundo do oceano. Foi por isso que meu pai me enviou para perto de
um grupo de tubarões! Não era para eu matá-los, mas sim para ter
sexo com eles, uma vez que não posso sentir o mesmo prazer com os
homens. Sim! Agora eu entendo! Essa foi a minha condenação! Ser
uma mulher belíssima, impossibilitada de transar com os homens!
Agora tudo está claro para mim! Este é o meu castigo pela miséria e
pela fome que perpetrei em meu país! A partir deste momento, eu
assumo minha animalidade... como a rainha do mar! E nenhum outro ser
humano irá me ver novamente!
A sereia nada pelo mar à procura de mais tubarões para transar. Como
tinha decidido não sair jamais da água, abandonou sua lasca da Pedra
Filosofal no fundo do oceano. A pedra. A jóia pela qual ela tanto
lutou, no fim, não servia para mais nada.
Mas, os mais poderosos são assim mesmo. Roubam, matam, fazem o diabo
para obter alguma coisa de valor. E, quando conseguem tê-la,
percebem que ela não é tão valiosa assim.

FIM

Wednesday, June 14, 2006

OS PORTAIS DO INFERNO - CAPÍTULO SÉTIMO: FUGINDO, SEMPRE FUGINDO!

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA )

Tão logo a sereia proferiu as palavras do texto acima, a água invadiu
o chão da galeria onde a vampira se encontrava. Esta ainda consegue
correr e fugir da enchente. A vampira corre, coloca a pedra no bolso
da blusa e vai até uma escada. O nível da água começa a subir
rapidamente. Ela vai até a tampa do bueiro. Tenta de todas as
formas abrir a tampa, mas a dor dos ferimentos na mão e no rosto é
intensa.
Estou fraca demais! Pensa ela enquanto tenta desesperadamente abrir
a tampa do bueiro. Não consigo. O ferimento na mão dói! Ai! Tenho
de conseguir! Tenho de conseguir!
As ondas ricocheteiam na parede da galeria. Súbito, a sereia surge
em uma das ondas. A vampira, sangue escorrendo pelo rosto, olha
assustada para ela.
- Eu quero a pedra!
- Nunca!
- Iahhhh...
A sereia volta a mergulhar no rio. O nível da água continua a subir
cada vez mais.
Vamos! Pensa a vampira desesperadamente tentando abrir a tampa do
bueiro. Vamos! Vamos! Abre! Abre! Abre! Abre! Abre!
- Abre! Abre! Abre! Abre! Vamos, abra! Por favor, abra! Não!
Não! Não! Nãooo...
O nível da água sobe cada vez mais. Abaixo do rio, a sereia se
aproxima da vampira, chega cada vez mais perto até que...
- Abri!
A vampira usa o resto das forças que lhe restam para saltar fora do
esgoto. Depois, tampa o bueiro novamente.
- Não! Berra a sereia em desespero. Não! Não! Nãooo...
- Está molhado aí embaixo?! Pergunta a vampira debochando da
sereia. Aqui em cima está bem seco, colega! Iah! Iah! Iah! Iah!
Iah!
- Não! Não! Ainda está chovendo! Ainda há água para eu respirar!
- Por pouco tempo minha querida! Esqueceu que quem provocou essa
tempestade fui eu?! Pois com um estalar de dedos eu posso cessá-la!
A vampira estala os dedos, mas nada acontece. A chuva continua a
cair. Os raios e relâmpagos não param. Ao invocar a tempestade, a
vampira alterou os padrões climáticos da cidade. Agora, a chuva cai
sem controle sobre o Rio de Janeiro.
- Pare! Berra a vampira tentando parar a tempestade. Pare, por
favor! Pare de chover! Pare de chover! Pare de chover! Pare de
choveeeeeeeer!
Mas a tempestade não pára. Então, a tampa do bueiro se move.
- Não! Diz a vampira apavorada. Não! Não! Não! Não! Não!
Nãoooo...
A vampira pula em cima da tampa tentando colocá-la no lugar. Mas um
jato d`água a derruba e joga a tampa para longe.
A vampira, ainda com o sangue escorrendo pela mão, sente a fraqueza.
Ela sabe que dessa vez não há saída. A água desce de volta para o
esgoto.
- Agora! Anda! Anda! Anda! Cura a minha mão! Anda!
A vampira esfrega a pedra na mão e no rosto a fim de curar seus
ferimentos.
- Anda! Anda! Anda! Anda! Anda! Anda! Vai! Aiiii...
E então a pedra cicatriza as feridas da vampira. É nesse momento que
um monte d`água emerge do bueiro. No topo do monte, a vampira vê a
sereia, com o sangue escorrendo pelos seios.
- Agora é o seu fim, maldita!
A vampira se levanta e encara a sereia.
- Posso estar fraca e no seu ambiente, mas não estou ferida como
você! Eu ainda posso te vencer!
- Tola! A água me dá forças! Mesmo ferida, me sinto... ai, ai, ai,
ai, ai, ai!
O monte de água se desfaz e a sereia cai na rua. A vampira se
aproxima da adversária caída.
- O que estava dizendo mesmo, hem, sua vaca?!
- Maldita! Desgraçada! Eu ainda vou te matar! Me dê a pedra!
Anda! Eu tô mandando sua pobre!
- Você não manda em mim, madama!
A vampira chuta o rosto da sereia. Os dois dentes da frente
superiores da criatura marinha saltam longe junto com sangue.
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! A sereia ficou banguela! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah!
- Maldita seja sua mendiga!
- Sim! Sou uma mendiga sim! Mas pelo menos não estou sangrando até
a morte! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
A vampira pisa na nuca da sereia e começa a esmagar o crânio desta.
- Maldita é você que se aproveitava da roubalheira do seu marido para
comprar jóias! Maldita é você que desviava o dinheiro da Saúde
Pública para gastar em shopping-centers! E maldita é você que vivia
na fartura e na bonança enquanto mendigos como eu, passam fome!
Então, mais uma vez o inesperado ocorre. Um barulho. Uma trovoada.
Então, uma enchente invade as ruas da cidade.
- Não! Não! Não!
- Sim! Este é o seu fim, mendiga dos diabos!
A sereia agarra as pernas da vampira. É quando a enchente atinge em
cheio as duas imortais levando-as para longe.

***

Terror na delegacia.
- Socorro! Socorro! Não! Não! Não! Não! Nãooo...
O lobisomem devora cada preso e cada policial que encontra. A noite,
escura como as trevas, alimenta seus poderes. As balas são
amortecidas por seus pêlos. O chão escorrega tamanho é o sangue que
salta das vítimas do lobisomem. Partes de pele e de ossos se
espalham pelos cantos. O lobisomem se banqueteia com suas vítimas.
No final, quando a criatura termina de matar todos os homens e
mulheres da delegacia, ela emite um uivo:
- Auuuuuuuuuuuuuuuuu...
Então, o chifre do lobisomem começa a brilhar. Ele sente a presença
de algo, de uma presença profana por perto. O animal vai até o
depósito de armas. É de lá que vem a presença profana. Ele arranca
a porta do lugar. E vê o que o atraía. Outra lasca da Pedra
Filosofal. A lasca que a vampira apanhou no Inferno. Quando a
nosferato usou aquela mesma pedra para matar uma modelo, cujo corpo
foi possuído por um demônio, foi presa na hora. A polícia apreendeu
a pedra como prova do crime. A vampira conseguiu sair da prisão com
a ajuda de seu antigo amante.
Agora, o lobisomem vê a pedra e sente um estalo em sua testa. As
duas partes da Pedra Filosofal lhe dariam um poder quase ilimitado.
O lobisomem sente a atração pela pedra. Pelo poder. Por mais
imortalidade. Mas, quando estava prestes a apanhar a lasca, a
enchente que atingiu a vampira e a sereia ainda há pouco invade a
delegacia.
A força das águas puxa o lobisomem para fora do lugar. Ele ainda vê
a pedra. Tenta esticar a mão para alcançá-la. Mas aí um rato morde-
lhe o membro.
O lobisomem rasga o corpo do rato com as garras da outra mão. A
correnteza leva a lasca embora. O animal não tem tempo para se
preocupar com ela. Um verdadeiro exército de ratos parte em sua
direção. O lobisomem nada contra eles e ocorre o choque. Os dentes
dos ratos mordem suas pernas e seus braços. O lobisomem vai
devorando os ratos um por um. Seu sangue se mistura com o dos
ratos.
Debaixo d`água, as feras se mordem numa luta desesperada. O instinto
dos ratos pela perda de seus entes queridos não os deixa saírem da
batalha. Eles arranham e mordem o corpo do lobisomem. O imortal, no
entanto, não se importa. Garras e dentes do lobisomem vingam os
ferimentos em seu corpo, rasgando e devorando os ratos. Não há som
debaixo d`água, mas a cena é aterrorizante.

***

Ainda debaixo d`água, um outro confronto ocorre. A sereia morde a
coxa direita da vampira. Esta grita. A dor e a falta de ar a
enfraquecem ainda mais. A sereia aproveitá-se disso e toma a pedra
da mão da vampira.
Não! Não! Não! Pensa a vampira em desespero. Eu a perdi! Eu a
perdi! Agora nunca mais poderei ver a luz do sol novamente! Nunca
mais! Nunca mais!
Perto dali, um jovem, com uma tábua, surfa sobre as ondas da enchente.
- Olha só que demais cara! Muito maneiro!
Os colegas do jovem, em um lugar seco, observam o amigo surfar e riem.
- Esse é o mar do favelado!
- Tu não tá com medo não, cara?!
- Medo?! Eu, com medo?! Medo de que?!
- Sei lá!
- Tu acha o que, amigo?! Que uma vampira vai surgir do meio da água
e me levar pro fundo?!
- Iahhh...
- Não!
A vampira puxa o garoto pela perna até o fundo da enchente. Os
amigos do jovem correm assustados, gritando sem saber o que fazerem.
- Cadê o cara?! Cadê o cara?! Cadê o cara?! Cadê o cara?!
Os jovens tentam encontrar o amigo em vão.

***

- Socorro! Socorro! Alguém me ajude!
O homem tenta se segurar nos carros e nos destroços das casas para
escapar da enchente. Mas é tarde demais. Ele afunda e desmaia.
Súbito, braços o agarram pelas costas tentando trazê-lo para a
superfície. Após uma árdua luta contra a correnteza, o salvador do
homem consegue levá-lo para terra firme.
- Cof! Cof! Cof! Muito obrigado! Muito obrigado! Muito obrigado!
- Não há de que, mortal!
- O que?! Não! Não! Não! Nãoooo...
A sereia ataca o homem arrancando sua pele com as garras das unhas e
devorando seu corpo.

***

Do alto de um campo de futebol que não foi atingido pela enchente, a
sereia usa a lasca da Pedra Filosofal para se curar. Depois
adormece. A bela loira estava exausta, cansada. Precisava recuperar
as forças. Ao lado dela, jaz um esqueleto humano. Ela olha para
ele. Depois, olha para o mar formado pela enchente ao redor do campo
de futebol. A chuva não pára e os pingos são como um alimento para
seu ser. Os dentes que ela tinha perdido há pouco renascem de forma
devagar.
Ela se lembra de seu pai. O demônio que a recriou. Que lhe deu o
poder e a imortalidade, tentou estuprá-la. Ela se lembra do pênis
dele rasgando seu rabo de peixe, procurando lhe meter de qualquer
jeito. A dor foi enorme.
- Você não pode mais fazer sexo!
A frase desperta a sereia. Ela acorda. Ela sente. O demônio não
pôde estuprá-la porque ela não tinha vagina.
- Oh, não! Isso quer dizer... Não! Não! Não! Não!
A sereia chora. Só naquele momento ela percebeu. Embora tivesse as
mais belas formas que todo homem gostaria de ter nas mãos, ela jamais
poderia transar.
- Não! Não! Não! Não! Nãoooo...
Eternamente condenada a viver sem sentir prazer. Sem experimentar um
corpo de homem sobre o seu. E, ao mesmo tempo, presa a uma forma tão
bela que atrai os homens para o mar e para a morte. Esta é a
maldição da sereia. A maldição que lhe perseguirá até o fim dos dias.

***

O rio corre próximo a uma planície seca. De repente a água torná-se
vermelha. E o cadáver do garoto que surfava ainda há pouco na
enchente, bóia levado por uma correnteza de sangue.
- Iahhh...
A vampira grita quando consegue colocar a cabeça para fora d`água.
Nadando, ela luta contra a correnteza para chegar até a planície. A
coxa ferida, no entanto, atrapalha a vampira. O sangue escorrendo
por sua perna torna-a pesada. É como se tivessem amarrado uma bola
de chumbo em seu pé. A vampira não desiste. Nada, nada, nada até
que...
- Aiiii...
Finalmente ela alcança a superfície da planície. A ferida em sua
coxa, no entanto, dói.
- Ai! Ai! Ai! Aiii...
A vampira se arrasta pela grama enquanto o sangue escorre cada vez
mais de sua coxa. Quando se vê totalmente livre da enchente, vira o
corpo de barriga para cima e fecha os olhos.
Eu não entendo! Ela pensa em meio à imensa dor que está sentindo.
Sempre ouvi dizer que os vampiros são seres imortais! Tiros, facas,
nada pode destruí-los! E aqui estou eu, sangrando até a morte por
causa da mordida duma sereia! Ai!
A vampira se contorce. Sua mão direita toca o ferimento em sua coxa.
Talvez eu tenha me tornado muito dependente da pedra! Pensa a
vampira concentrando-se no sangue que sugou do garoto e na energia
que a escuridão da noite lhe transmite. Tenho que... tentar... o
encantamento!
- Ferim... nefus... cure!
Nada acontece. O sangue continua a escorrer da ferida e a vampira
sente a fraqueza.
- Vamos! Ai! Ferim nefus cure! Ferim nefus cure! Ferim nefus
cure! Ai! Ai! Aiii...
Ela chora. Lágrimas saltam de seus olhos. A vampira pressiona as
pálpebras. Concentrá-se.
- Ferim nefus cure! Ferim nefus cure! Aiii... Feeeerim neeeefus
cuuuuuuureeee... Iahhh...
E a ferida cicatriza, parando de sangrar.
- Ai, graças a Deus! A vampira cai para trás, suando frio.
Obrigada, Deus! Obrigada!
De repente, ela sente um estalo em sua coxa. Então, a dor da dentada
recomeça.
- Não! Grita a vampira chorando. Não! Não! Nãoooo...
E a ferida se abre maior, derramando ainda mais sangue pela relva.
- Aiiiii...
A vampira berra chorando. É nessa hora que ela sente um estalo em
seu peito. E uma sensação conhecida, um elo simbiótico há muito
esquecido, a faz sorrir.
- É ela! Ai, Deus seja louvado! É ela! A minha pedra! A pedra que
me deu o poder! A pedra que me transformou em um nosferato! Ela
está aqui por perto! Posso senti-la! Aiii...
A vampira virá-se de bruços e se arrasta novamente pela grama.
- Ai, vamos! Esquece a dor, garota! Vamos! Ai!
A vampira se concentra na força da noite para suportar a dor. Ao
longe, ela escuta as vozes de dois criminosos.
- Mermão, olha só o que encontrei!
- Uau, cara! Que pedra bonita!
- Essa pedra deve valer uma cara! Se a gente vender ela, nunca mais
vamos ter de assaltar caixa eletrônico!
- Que é isso, cara?! Mesmo que a gente venda essa pedra por um bom
preço, não vamos desperdiçar a grana que a gente tá faturando com os
assaltos!
- Essa pedra é minha!
Os dois assaltantes viram-se para trás e vêem a garota caída próxima
a uma árvore, com o sangue escorrendo de sua coxa.
- Essa pedra me pertence! Ela berra em tom impositivo. Me devolvam
agora mesmo!
- Ih, olha a patricinha querendo dar ordem na gente, mano!
- Me devolvam a pedra agora!
Um dos assaltantes vai até a garota e a esbofeteia.
- Não vem gritar com a gente não! Berra o assaltante sacando um
revólver. Não vem gritar com a gente não que eu te mato, sua
vagabunda!
- Iahhh...
- Deus, nãooo...
A vampira crava os dentes no pescoço do bandido. Este não pára de
atirar contra o peito do nosferato enquanto ela chupá-lhe o sangue.
- Nossa Senhora! Grita o outro assaltante enquanto a pedra não pára
de brilhar em sua mão.
Quando termina de matar o bandido, a vampira se ergue. O sangue
ainda escorria de sua perna, mas ela estava mais forte do que nunca.
- Bem melhor! Diz a vampira lambendo o sangue de seus dedos enquanto
os ferimentos no peito cicatrizavam. Até que o sangue desse inútil
era bem delicioso!
- Nãooo...
O assaltante saca um revólver e dá um tiro na testa da vampira. O
impacto do disparo foi tão forte que virou a cabeça do nosferato para
trás. O corpo da vampira, no entanto, continua de pé.
- Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Não! Não! Não!
Nãoooo...
A vampira tira a bala de sua testa com a mão direita. Em seguida,
ela vira a cabeça voltando-se para o assaltante.
- Tome sua bala de volta!
- Nãooo...
Ela atira a bala acertando a testa do bandido. Este cai morto.
A vampira tira a pedra da mão do morto e a encosta na ferida em sua
coxa. O ferimento cicatriza e pára de sangrar bem como o buraco em
sua testa.
- Ah, finalmente! Fala a vampira sentindo-se mais forte. Agora, eu
entendo! Ferimentos comuns podem ser cicatrizados sem o auxílio da
pedra! Já ferimentos causados por outros imortais, só a pedra pode
curar!
A vampira ergue o corpo e observa a enchente que assola a cidade
enquanto a chuva não pára de cair.
- Agora finalmente estou livre daquela miserável! Tomara que as
águas da enchente a tenham levado para bem longe daqui! Maldita!
A vampira se transforma em morcego e voa para longe dali. Agora, ela
e a pedra eram um só ser novamente.

***

Segundos após a saída do morcego, pedaços e sangue de ratos bóiam na
água próxima à planície. Erguendo-se das águas, surge o lobisomem
com o corpo todo ensangüentado. O animal, enfraquecido pelas
mordidas dos ratos, cai sobre a relva. O chifre brilha em sua
testa. Rapidamente, os ferimentos cicatrizam e o sangue pára de
escorrer. O lobisomem dorme tentando recuperar o fôlego. Ele se
recupera da batalha recente contra os ratos enquanto uma outra se
aproxima.
- Grr...
O lobisomem escuta o grunhido e acorda. O animal se levanta e vê um
leão, com a boca manchada de sangue, se aproximar. A água da
enchente invadiu o zoológico. O nível do rio cresceu a tal ponto que
quase afogou o leão em sua jaula. O animal usou toda a sua força e
conseguiu abrir sua prisão. Aproveitando-se que os funcionários
lutavam para não se afogar na enchente, o leão os atacou devorando
seus corpos.
- Grr...
- Au!
- Grr... Grrr... Grrr...
- Au! Au! Au! Au!
Os gritos de guerra prenunciam a batalha. O leão salta sobre o
lobisomem e morde-lhe o braço esquerdo. Ratos, pulgas, formigas e
aranhas aproximam-se para presenciar o combate. O lobisomem crava as
garras de sua mão direita na barriga do leão, abrindo-a.
- Grrr... Grita o leão enquanto as tripas caem de seu corpo.
- Auuuuuu...
O lobisomem crava o chifre na garganta do leão atravessando-a. O
animal cospe sangue enquanto a vida escapa-lhe do corpo. O leão
cai. O lobisomem pega o cadáver do animal e o ergue.
- Auuuu... Berra o lobisomem anunciando a vitória.
Os outros animais, ao verem aquela cena, fogem assustados,
respeitando o novo senhor da selva. O lobisomem joga o cadáver na
enchente e as águas do rio levam para longe o corpo e o sangue do
leão.
O chifre do lobisomem brilha e o ferimento em seu braço esquerdo
cicatriza. Então, ele sente um cheiro familiar. Através de seu
olfato apurado, o lobisomem sente a presença da vampira. Ele
encontra os cadáveres dos dois assaltantes e percebe que ela já
esteve ali obtendo a outra lasca da Pedra Filosofal. O poder. Ele
podia sentir a força de seu corpo musculoso. E queria mais. O
lobisomem já era o rei da selva. Faltava agora ele ser o rei deste e
de outros mundos. Imperador da Terra. Soberano do Inferno. Rei do
Céu.
Com a outra lasca da Pedra Filosofal, o lobisomem sentia que iria se
tornar o ser mais poderoso do Universo.
Seguindo o rastro da vampira, o lobisomem dá um salto estupendo indo
parar no alto de um edifício de dez andares. Desse edifício ele
salta para outro. Saltando de edifício em edifício, o lobisomem
chega à praia da Barra da Tijuca. Ele salta sobre a areia espalhando
os grãos desta a quilômetros de distância. O lobisomem sabia que a
vampira se encontrava por ali. Mas aí, os primeiros raios do sol
atingem-lhe o corpo. O chifre recua em sua testa, que começa a
sangrar. O lobisomem se transforma no desempregado. Este cai na
areia da praia e dorme enquanto a água da chuva cai sobre seu corpo.

OS PORTAIS DO INFERNO - CAPÍTULO SÉTIMO: FUGINDO, SEMPRE FUGINDO!

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA )

Tão logo a sereia proferiu as palavras do texto acima, a água invadiu
o chão da galeria onde a vampira se encontrava. Esta ainda consegue
correr e fugir da enchente. A vampira corre, coloca a pedra no bolso
da blusa e vai até uma escada. O nível da água começa a subir
rapidamente. Ela vai até a tampa do bueiro. Tenta de todas as
formas abrir a tampa, mas a dor dos ferimentos na mão e no rosto é
intensa.
Estou fraca demais! Pensa ela enquanto tenta desesperadamente abrir
a tampa do bueiro. Não consigo. O ferimento na mão dói! Ai! Tenho
de conseguir! Tenho de conseguir!
As ondas ricocheteiam na parede da galeria. Súbito, a sereia surge
em uma das ondas. A vampira, sangue escorrendo pelo rosto, olha
assustada para ela.
- Eu quero a pedra!
- Nunca!
- Iahhhh...
A sereia volta a mergulhar no rio. O nível da água continua a subir
cada vez mais.
Vamos! Pensa a vampira desesperadamente tentando abrir a tampa do
bueiro. Vamos! Vamos! Abre! Abre! Abre! Abre! Abre!
- Abre! Abre! Abre! Abre! Vamos, abra! Por favor, abra! Não!
Não! Não! Nãooo...
O nível da água sobe cada vez mais. Abaixo do rio, a sereia se
aproxima da vampira, chega cada vez mais perto até que...
- Abri!
A vampira usa o resto das forças que lhe restam para saltar fora do
esgoto. Depois, tampa o bueiro novamente.
- Não! Berra a sereia em desespero. Não! Não! Nãooo...
- Está molhado aí embaixo?! Pergunta a vampira debochando da
sereia. Aqui em cima está bem seco, colega! Iah! Iah! Iah! Iah!
Iah!
- Não! Não! Ainda está chovendo! Ainda há água para eu respirar!
- Por pouco tempo minha querida! Esqueceu que quem provocou essa
tempestade fui eu?! Pois com um estalar de dedos eu posso cessá-la!
A vampira estala os dedos, mas nada acontece. A chuva continua a
cair. Os raios e relâmpagos não param. Ao invocar a tempestade, a
vampira alterou os padrões climáticos da cidade. Agora, a chuva cai
sem controle sobre o Rio de Janeiro.
- Pare! Berra a vampira tentando parar a tempestade. Pare, por
favor! Pare de chover! Pare de chover! Pare de chover! Pare de
choveeeeeeeer!
Mas a tempestade não pára. Então, a tampa do bueiro se move.
- Não! Diz a vampira apavorada. Não! Não! Não! Não! Não!
Nãoooo...
A vampira pula em cima da tampa tentando colocá-la no lugar. Mas um
jato d`água a derruba e joga a tampa para longe.
A vampira, ainda com o sangue escorrendo pela mão, sente a fraqueza.
Ela sabe que dessa vez não há saída. A água desce de volta para o
esgoto.
- Agora! Anda! Anda! Anda! Cura a minha mão! Anda!
A vampira esfrega a pedra na mão e no rosto a fim de curar seus
ferimentos.
- Anda! Anda! Anda! Anda! Anda! Anda! Vai! Aiiii...
E então a pedra cicatriza as feridas da vampira. É nesse momento que
um monte d`água emerge do bueiro. No topo do monte, a vampira vê a
sereia, com o sangue escorrendo pelos seios.
- Agora é o seu fim, maldita!
A vampira se levanta e encara a sereia.
- Posso estar fraca e no seu ambiente, mas não estou ferida como
você! Eu ainda posso te vencer!
- Tola! A água me dá forças! Mesmo ferida, me sinto... ai, ai, ai,
ai, ai, ai!
O monte de água se desfaz e a sereia cai na rua. A vampira se
aproxima da adversária caída.
- O que estava dizendo mesmo, hem, sua vaca?!
- Maldita! Desgraçada! Eu ainda vou te matar! Me dê a pedra!
Anda! Eu tô mandando sua pobre!
- Você não manda em mim, madama!
A vampira chuta o rosto da sereia. Os dois dentes da frente
superiores da criatura marinha saltam longe junto com sangue.
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! A sereia ficou banguela! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah!
- Maldita seja sua mendiga!
- Sim! Sou uma mendiga sim! Mas pelo menos não estou sangrando até
a morte! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
A vampira pisa na nuca da sereia e começa a esmagar o crânio desta.
- Maldita é você que se aproveitava da roubalheira do seu marido para
comprar jóias! Maldita é você que desviava o dinheiro da Saúde
Pública para gastar em shopping-centers! E maldita é você que vivia
na fartura e na bonança enquanto mendigos como eu, passam fome!
Então, mais uma vez o inesperado ocorre. Um barulho. Uma trovoada.
Então, uma enchente invade as ruas da cidade.
- Não! Não! Não!
- Sim! Este é o seu fim, mendiga dos diabos!
A sereia agarra as pernas da vampira. É quando a enchente atinge em
cheio as duas imortais levando-as para longe.

***

Terror na delegacia.
- Socorro! Socorro! Não! Não! Não! Não! Nãooo...
O lobisomem devora cada preso e cada policial que encontra. A noite,
escura como as trevas, alimenta seus poderes. As balas são
amortecidas por seus pêlos. O chão escorrega tamanho é o sangue que
salta das vítimas do lobisomem. Partes de pele e de ossos se
espalham pelos cantos. O lobisomem se banqueteia com suas vítimas.
No final, quando a criatura termina de matar todos os homens e
mulheres da delegacia, ela emite um uivo:
- Auuuuuuuuuuuuuuuuu...
Então, o chifre do lobisomem começa a brilhar. Ele sente a presença
de algo, de uma presença profana por perto. O animal vai até o
depósito de armas. É de lá que vem a presença profana. Ele arranca
a porta do lugar. E vê o que o atraía. Outra lasca da Pedra
Filosofal. A lasca que a vampira apanhou no Inferno. Quando a
nosferato usou aquela mesma pedra para matar uma modelo, cujo corpo
foi possuído por um demônio, foi presa na hora. A polícia apreendeu
a pedra como prova do crime. A vampira conseguiu sair da prisão com
a ajuda de seu antigo amante.
Agora, o lobisomem vê a pedra e sente um estalo em sua testa. As
duas partes da Pedra Filosofal lhe dariam um poder quase ilimitado.
O lobisomem sente a atração pela pedra. Pelo poder. Por mais
imortalidade. Mas, quando estava prestes a apanhar a lasca, a
enchente que atingiu a vampira e a sereia ainda há pouco invade a
delegacia.
A força das águas puxa o lobisomem para fora do lugar. Ele ainda vê
a pedra. Tenta esticar a mão para alcançá-la. Mas aí um rato morde-
lhe o membro.
O lobisomem rasga o corpo do rato com as garras da outra mão. A
correnteza leva a lasca embora. O animal não tem tempo para se
preocupar com ela. Um verdadeiro exército de ratos parte em sua
direção. O lobisomem nada contra eles e ocorre o choque. Os dentes
dos ratos mordem suas pernas e seus braços. O lobisomem vai
devorando os ratos um por um. Seu sangue se mistura com o dos
ratos.
Debaixo d`água, as feras se mordem numa luta desesperada. O instinto
dos ratos pela perda de seus entes queridos não os deixa saírem da
batalha. Eles arranham e mordem o corpo do lobisomem. O imortal, no
entanto, não se importa. Garras e dentes do lobisomem vingam os
ferimentos em seu corpo, rasgando e devorando os ratos. Não há som
debaixo d`água, mas a cena é aterrorizante.

***

Ainda debaixo d`água, um outro confronto ocorre. A sereia morde a
coxa direita da vampira. Esta grita. A dor e a falta de ar a
enfraquecem ainda mais. A sereia aproveitá-se disso e toma a pedra
da mão da vampira.
Não! Não! Não! Pensa a vampira em desespero. Eu a perdi! Eu a
perdi! Agora nunca mais poderei ver a luz do sol novamente! Nunca
mais! Nunca mais!
Perto dali, um jovem, com uma tábua, surfa sobre as ondas da enchente.
- Olha só que demais cara! Muito maneiro!
Os colegas do jovem, em um lugar seco, observam o amigo surfar e riem.
- Esse é o mar do favelado!
- Tu não tá com medo não, cara?!
- Medo?! Eu, com medo?! Medo de que?!
- Sei lá!
- Tu acha o que, amigo?! Que uma vampira vai surgir do meio da água
e me levar pro fundo?!
- Iahhh...
- Não!
A vampira puxa o garoto pela perna até o fundo da enchente. Os
amigos do jovem correm assustados, gritando sem saber o que fazerem.
- Cadê o cara?! Cadê o cara?! Cadê o cara?! Cadê o cara?!
Os jovens tentam encontrar o amigo em vão.

***

- Socorro! Socorro! Alguém me ajude!
O homem tenta se segurar nos carros e nos destroços das casas para
escapar da enchente. Mas é tarde demais. Ele afunda e desmaia.
Súbito, braços o agarram pelas costas tentando trazê-lo para a
superfície. Após uma árdua luta contra a correnteza, o salvador do
homem consegue levá-lo para terra firme.
- Cof! Cof! Cof! Muito obrigado! Muito obrigado! Muito obrigado!
- Não há de que, mortal!
- O que?! Não! Não! Não! Nãoooo...
A sereia ataca o homem arrancando sua pele com as garras das unhas e
devorando seu corpo.

***

Do alto de um campo de futebol que não foi atingido pela enchente, a
sereia usa a lasca da Pedra Filosofal para se curar. Depois
adormece. A bela loira estava exausta, cansada. Precisava recuperar
as forças. Ao lado dela, jaz um esqueleto humano. Ela olha para
ele. Depois, olha para o mar formado pela enchente ao redor do campo
de futebol. A chuva não pára e os pingos são como um alimento para
seu ser. Os dentes que ela tinha perdido há pouco renascem de forma
devagar.
Ela se lembra de seu pai. O demônio que a recriou. Que lhe deu o
poder e a imortalidade, tentou estuprá-la. Ela se lembra do pênis
dele rasgando seu rabo de peixe, procurando lhe meter de qualquer
jeito. A dor foi enorme.
- Você não pode mais fazer sexo!
A frase desperta a sereia. Ela acorda. Ela sente. O demônio não
pôde estuprá-la porque ela não tinha vagina.
- Oh, não! Isso quer dizer... Não! Não! Não! Não!
A sereia chora. Só naquele momento ela percebeu. Embora tivesse as
mais belas formas que todo homem gostaria de ter nas mãos, ela jamais
poderia transar.
- Não! Não! Não! Não! Nãoooo...
Eternamente condenada a viver sem sentir prazer. Sem experimentar um
corpo de homem sobre o seu. E, ao mesmo tempo, presa a uma forma tão
bela que atrai os homens para o mar e para a morte. Esta é a
maldição da sereia. A maldição que lhe perseguirá até o fim dos dias.

***

O rio corre próximo a uma planície seca. De repente a água torná-se
vermelha. E o cadáver do garoto que surfava ainda há pouco na
enchente, bóia levado por uma correnteza de sangue.
- Iahhh...
A vampira grita quando consegue colocar a cabeça para fora d`água.
Nadando, ela luta contra a correnteza para chegar até a planície. A
coxa ferida, no entanto, atrapalha a vampira. O sangue escorrendo
por sua perna torna-a pesada. É como se tivessem amarrado uma bola
de chumbo em seu pé. A vampira não desiste. Nada, nada, nada até
que...
- Aiiii...
Finalmente ela alcança a superfície da planície. A ferida em sua
coxa, no entanto, dói.
- Ai! Ai! Ai! Aiii...
A vampira se arrasta pela grama enquanto o sangue escorre cada vez
mais de sua coxa. Quando se vê totalmente livre da enchente, vira o
corpo de barriga para cima e fecha os olhos.
Eu não entendo! Ela pensa em meio à imensa dor que está sentindo.
Sempre ouvi dizer que os vampiros são seres imortais! Tiros, facas,
nada pode destruí-los! E aqui estou eu, sangrando até a morte por
causa da mordida duma sereia! Ai!
A vampira se contorce. Sua mão direita toca o ferimento em sua coxa.
Talvez eu tenha me tornado muito dependente da pedra! Pensa a
vampira concentrando-se no sangue que sugou do garoto e na energia
que a escuridão da noite lhe transmite. Tenho que... tentar... o
encantamento!
- Ferim... nefus... cure!
Nada acontece. O sangue continua a escorrer da ferida e a vampira
sente a fraqueza.
- Vamos! Ai! Ferim nefus cure! Ferim nefus cure! Ferim nefus
cure! Ai! Ai! Aiii...
Ela chora. Lágrimas saltam de seus olhos. A vampira pressiona as
pálpebras. Concentrá-se.
- Ferim nefus cure! Ferim nefus cure! Aiii... Feeeerim neeeefus
cuuuuuuureeee... Iahhh...
E a ferida cicatriza, parando de sangrar.
- Ai, graças a Deus! A vampira cai para trás, suando frio.
Obrigada, Deus! Obrigada!
De repente, ela sente um estalo em sua coxa. Então, a dor da dentada
recomeça.
- Não! Grita a vampira chorando. Não! Não! Nãoooo...
E a ferida se abre maior, derramando ainda mais sangue pela relva.
- Aiiiii...
A vampira berra chorando. É nessa hora que ela sente um estalo em
seu peito. E uma sensação conhecida, um elo simbiótico há muito
esquecido, a faz sorrir.
- É ela! Ai, Deus seja louvado! É ela! A minha pedra! A pedra que
me deu o poder! A pedra que me transformou em um nosferato! Ela
está aqui por perto! Posso senti-la! Aiii...
A vampira virá-se de bruços e se arrasta novamente pela grama.
- Ai, vamos! Esquece a dor, garota! Vamos! Ai!
A vampira se concentra na força da noite para suportar a dor. Ao
longe, ela escuta as vozes de dois criminosos.
- Mermão, olha só o que encontrei!
- Uau, cara! Que pedra bonita!
- Essa pedra deve valer uma cara! Se a gente vender ela, nunca mais
vamos ter de assaltar caixa eletrônico!
- Que é isso, cara?! Mesmo que a gente venda essa pedra por um bom
preço, não vamos desperdiçar a grana que a gente tá faturando com os
assaltos!
- Essa pedra é minha!
Os dois assaltantes viram-se para trás e vêem a garota caída próxima
a uma árvore, com o sangue escorrendo de sua coxa.
- Essa pedra me pertence! Ela berra em tom impositivo. Me devolvam
agora mesmo!
- Ih, olha a patricinha querendo dar ordem na gente, mano!
- Me devolvam a pedra agora!
Um dos assaltantes vai até a garota e a esbofeteia.
- Não vem gritar com a gente não! Berra o assaltante sacando um
revólver. Não vem gritar com a gente não que eu te mato, sua
vagabunda!
- Iahhh...
- Deus, nãooo...
A vampira crava os dentes no pescoço do bandido. Este não pára de
atirar contra o peito do nosferato enquanto ela chupá-lhe o sangue.
- Nossa Senhora! Grita o outro assaltante enquanto a pedra não pára
de brilhar em sua mão.
Quando termina de matar o bandido, a vampira se ergue. O sangue
ainda escorria de sua perna, mas ela estava mais forte do que nunca.
- Bem melhor! Diz a vampira lambendo o sangue de seus dedos enquanto
os ferimentos no peito cicatrizavam. Até que o sangue desse inútil
era bem delicioso!
- Nãooo...
O assaltante saca um revólver e dá um tiro na testa da vampira. O
impacto do disparo foi tão forte que virou a cabeça do nosferato para
trás. O corpo da vampira, no entanto, continua de pé.
- Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Não! Não! Não!
Nãoooo...
A vampira tira a bala de sua testa com a mão direita. Em seguida,
ela vira a cabeça voltando-se para o assaltante.
- Tome sua bala de volta!
- Nãooo...
Ela atira a bala acertando a testa do bandido. Este cai morto.
A vampira tira a pedra da mão do morto e a encosta na ferida em sua
coxa. O ferimento cicatriza e pára de sangrar bem como o buraco em
sua testa.
- Ah, finalmente! Fala a vampira sentindo-se mais forte. Agora, eu
entendo! Ferimentos comuns podem ser cicatrizados sem o auxílio da
pedra! Já ferimentos causados por outros imortais, só a pedra pode
curar!
A vampira ergue o corpo e observa a enchente que assola a cidade
enquanto a chuva não pára de cair.
- Agora finalmente estou livre daquela miserável! Tomara que as
águas da enchente a tenham levado para bem longe daqui! Maldita!
A vampira se transforma em morcego e voa para longe dali. Agora, ela
e a pedra eram um só ser novamente.

***

Segundos após a saída do morcego, pedaços e sangue de ratos bóiam na
água próxima à planície. Erguendo-se das águas, surge o lobisomem
com o corpo todo ensangüentado. O animal, enfraquecido pelas
mordidas dos ratos, cai sobre a relva. O chifre brilha em sua
testa. Rapidamente, os ferimentos cicatrizam e o sangue pára de
escorrer. O lobisomem dorme tentando recuperar o fôlego. Ele se
recupera da batalha recente contra os ratos enquanto uma outra se
aproxima.
- Grr...
O lobisomem escuta o grunhido e acorda. O animal se levanta e vê um
leão, com a boca manchada de sangue, se aproximar. A água da
enchente invadiu o zoológico. O nível do rio cresceu a tal ponto que
quase afogou o leão em sua jaula. O animal usou toda a sua força e
conseguiu abrir sua prisão. Aproveitando-se que os funcionários
lutavam para não se afogar na enchente, o leão os atacou devorando
seus corpos.
- Grr...
- Au!
- Grr... Grrr... Grrr...
- Au! Au! Au! Au!
Os gritos de guerra prenunciam a batalha. O leão salta sobre o
lobisomem e morde-lhe o braço esquerdo. Ratos, pulgas, formigas e
aranhas aproximam-se para presenciar o combate. O lobisomem crava as
garras de sua mão direita na barriga do leão, abrindo-a.
- Grrr... Grita o leão enquanto as tripas caem de seu corpo.
- Auuuuuu...
O lobisomem crava o chifre na garganta do leão atravessando-a. O
animal cospe sangue enquanto a vida escapa-lhe do corpo. O leão
cai. O lobisomem pega o cadáver do animal e o ergue.
- Auuuu... Berra o lobisomem anunciando a vitória.
Os outros animais, ao verem aquela cena, fogem assustados,
respeitando o novo senhor da selva. O lobisomem joga o cadáver na
enchente e as águas do rio levam para longe o corpo e o sangue do
leão.
O chifre do lobisomem brilha e o ferimento em seu braço esquerdo
cicatriza. Então, ele sente um cheiro familiar. Através de seu
olfato apurado, o lobisomem sente a presença da vampira. Ele
encontra os cadáveres dos dois assaltantes e percebe que ela já
esteve ali obtendo a outra lasca da Pedra Filosofal. O poder. Ele
podia sentir a força de seu corpo musculoso. E queria mais. O
lobisomem já era o rei da selva. Faltava agora ele ser o rei deste e
de outros mundos. Imperador da Terra. Soberano do Inferno. Rei do
Céu.
Com a outra lasca da Pedra Filosofal, o lobisomem sentia que iria se
tornar o ser mais poderoso do Universo.
Seguindo o rastro da vampira, o lobisomem dá um salto estupendo indo
parar no alto de um edifício de dez andares. Desse edifício ele
salta para outro. Saltando de edifício em edifício, o lobisomem
chega à praia da Barra da Tijuca. Ele salta sobre a areia espalhando
os grãos desta a quilômetros de distância. O lobisomem sabia que a
vampira se encontrava por ali. Mas aí, os primeiros raios do sol
atingem-lhe o corpo. O chifre recua em sua testa, que começa a
sangrar. O lobisomem se transforma no desempregado. Este cai na
areia da praia e dorme enquanto a água da chuva cai sobre seu corpo.

OS PORTAIS DO INFERNO - CAPÍTULO SEXTO: VAMPIRAXSEREIA ( SEGUNDO ROUND)

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

O desempregado acorda na escuridão. Por um instante, seus olhos
tornam-se vermelhos e seus músculos crescem. Mas aí, uma lâmpada
pendurada acima de seu corpo emite uma luz que interrompe a
transformação profana. Os músculos diminuem, mas os olhos continuam
vermelhos. O sangue não pára de pingar da testa do desempregado.
Pequenas gotas vermelhas sujam o chão do lugar.
Amarrado pelos pés e pelas mãos no pau-de-arara, o desempregado
subitamente sente a dor dos choques elétricos em seu ânus e em seus
órgãos genitais.
- Aiiiiiiiiiiiiii... Ai! Ai! Não! Não! Não! Ai!
Aiiiiiiiiiii... Não! Por favor, parem! Pelo amor de Deus, parem!
Por favor... Nãoooooo...
Mas a tortura continua. Os policiais molham o corpo do desempregado
para que a corrente elétrica torne-se mais forte. A dor aumenta.
- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiii... Não! Por Deus, nãoooooo... Por favor,
parem! Pelo amor de Deus, parem! Parem, por Deus, nãooooo...
Nãoooo... Aiiiiiiiiiiii... Não, por favor!
- Isso é prá você aprender a não matar polícia!
- Mas eu não matei ninguém! Eu não sou assassino! Eu juro... Por
favor, aiiiiiiiiiiiii...
Os choques elétricos aumentam à medida que a lâmpada acima do corpo
do desempregado começa a queimar. Assim, luzes e trevas se alternam
no lugar sombrio. Os olhos do desempregado continuam vermelhos. O
sangue que escorre de sua testa suja as paredes do local. Ele se
contorce gritando de dor. Os músculos ora diminuem, ora aumentam,
bem como os pêlos. A boca e o nariz chegam a ter um aspecto lupino
por um instante. Os choques elétricos e os gritos do desempregado se
intensificam. Em meio à dor, ele vê outros presos serem torturados
como ele, gritarem de dor como ele. A dor que é silenciada pelas
gargalhadas dos policiais. Um traficante. Um estuprador. Um
revolucionário. Todos sofrem no pau-de-arara. Todos os pobres
sofrem no pau-de-arara. O desempregado vê a dor daqueles homens.
Ouve seus gritos de clemência.
- Eu sou inocente! Eu não matei ninguém! Eu não matei ninguém! Só
vendia o bagulho prá quem pagava mais! Aiiii...
- Ela tava dando mole prá mim, polícia! Eu não tive culpa! Eu não
tive culpa! Eu sou homê! Eu sou homê, porra! Aiiiii...
Aiiiiii... Aiiiii... Parem, pelo amor de Deus! Eu só queria dar
uns pegas naquela vagabunda! Aiiiii...
- Aiiiii... Aiiii... Aiiiiii...! Aiiiiiii... Não! Não! Não!
Nãoooo... Aiiii... Aiiii... Aiiii...
- E aí?! Vai parar de falar mal dos militares ou já não foi o
suficiente?!
- Nun... Nunca! Prefiro morrer aqui do que trair o meu país! Um...
Um dia outros como eu vão derrubar a Ditadura Militar e aí o Brasil
vai ser o maior país do mundo!
- Então prefere morrer?!
- Pelo Brasil, sim! Aiiii... Aiiii... Aiiii... Aiiii... Aiiii...
Só naquele momento o desempregado percebeu. Aquelas eram as almas
das pessoas que tinham morrido naquele lugar. Os gritos deles se
misturam aos seus gritos. Ele escuta as suas súplicas em sua mente.
Ouve os fantasmas dos mortos lhe pedirem ajuda, lhe pedirem clemência.
- Eu não matei ninguém! Eu não matei ninguém! Eu só vendia a
droga! Eu só vendia a droga! Eu só vendia a droga!
- Ela tava dando mole prá mim! Só depois que eu beijei ela é que a
vagabunda começou a gritar! Pô, se tu visse a mulher tu também ia
querer trepar com ela! Ela era muito linda! Muito linda!
- Liberte o povo brasileiro da opressão! Liberte o povo brasileiro
da opressão! Liberte o povo brasileiro da opressão! Diretas Já!
Diretas Já! Diretas Já!
- Nãoooo...
Era demais. A dor física se mistura à dor mental. O desempregado
não agüenta. Usa toda a sua força. E quebra o pau-de-arara se
libertando das cordas. Caído no chão da cela, ele ainda sente a dor
dos chutes dos policiais que o torturavam.

***

Caminhando por uma das galerias subterrâneas, uma criatura das trevas
chora enquanto o sangue escorre de suas mãos.
- Ai! Ai! Por favor, me cura! Ai! Ai! Ai, minhas mãos! Ai, como
dói! Ai!
A vampira cai próxima a um córrego. Ela pega a pedra no bolso e a
coloca entre as mãos feridas.
- Faça parar de sangrar! Faça parar de sangrar! Faça a dor passar!
Eu não agüento mais! Eu não agüento mais!
A pedra nada faz. A vampira não agüenta. O ser das trevas estava
muito fraco. Tinha perdido muito sangue. Já não agüentava. A
vampira sabia. Sentia que sua hora tinha chegado. Que finalmente
iria pagar pelos crimes que cometeu, no Inferno. Era o fim.
A cabeça da vampira cai para trás. Ela fecha os olhos. As imagens
transmitidas pela pedra surgem em sua mente.
Ela vê o senador, o vampiro de quem sugou os poderes, em uma suruba.
Vê a mulher, a sereia que confrontou ainda há pouco, em outra forma.
Mais velha, cabelos grisalhos, a senhora cuida da roupa do filho.
Verifica se a empregada passou as camisas e as calças direito. Ela
estava tão orgulhosa. Seu filho viria a se tornar governador. E,
mais tarde, quem sabe, presidente da República. Como ela tinha
orgulho do filho, de sua inteligência, de seu porte. Ele era como o
pai. Bonito, elegante e inteligente. Através de sua sabedoria, as
famílias da mulher e do senador iriam enriquecer ainda mais. Ele era
o futuro. Um futuro com dias mais felizes. Com mais dinheiro para
gastar.
Mas o acidente com o avião mudou tudo. Tudo. Ela morreu junto com o
marido. A vampira vê o momento em que o demônio derrama o sangue de
vampiros mortos por caçadores, pela boca do senador. Vê o momento em
que ele se torna o vampiro. Presencia o momento em que a mulher é
jogada no mar de fogo. E as duas mulheres, a vampira e a sereia, a
jovem e a mulher, vêem o senador gastar o dinheiro do Saneamento
Básico com prostitutas.
- Ele não podia ter feito isso comigo! Eu era sua esposa! A mãe do
seu filho! A mulher a quem ele jurou lealdade! Ele não podia! Não
podia...
Então a verdade é revelada. O senador só se casou com a mulher
porque esta era duma família rica. Ele precisava mostrar ao povo que
era um homem casado e que tinha uma família cristã a fim de ganhar a
eleição. E foi o que aconteceu.
A mulher chora no mar de fogo tamanha é a dor que está sentindo. O
demônio se apaixona por ela. Os olhos da mulher brilham pedindo
vingança contra a traição cometida. O demônio, louco de amor pela
mulher, a transforma em uma sereia. Foi naquele momento que a Pedra
Filosofal explodiu em um trilhão de pedaços. Os demônios e vampiros
começaram a lutar entre si por fragmentos daquela pedra amaldiçoada.
A jovem tinha sido torturada por demônios e já não suportava mais
tamanha dor. Foi quando ela viu. Uma lasca da Pedra Filosofal tinha
caído perto dali. Ela se arrasta sem perceber o senador, agora
transformado em vampiro, segui-la. Ela se aproxima. A dor no corpo
é terrível. Mas a jovem sentia que aquela pedra era a saída de volta
para casa. Estica o braço. A mão quase alcança a pedra.
A sereia também se arrasta na direção do vampiro e da jovem. Ela quer
se vingar das traições cometidas pelo marido. Quer destruí-lo com as
próprias mãos. As duas mulheres se esforçam numa luta satânica. No
momento em que a jovem agarra a lasca da Pedra Filosofal, o vampiro
morde-lhe o pescoço. Aí, o impensável acontece. A jovem, através do
poder da Pedra Filosofal suga-lhe os poderes e a essência. O vampiro
derrete enquanto dentes afiados crescem na boca da jovem.
- Nãoooo...
A sereia grita com ódio. Ela se vira na direção do demônio e fala:
- Ela me negou a vingança! Destrua-a!
O demônio arremessa um machado de fogo na direção da vampira. Esta
estica o braço na direção da criatura. A lasca absorve o machado e o
devolve em forma de lâminas flamejantes. O demônio tem então o corpo
todo esquartejado.
- Pai, nãooooo... Meu pai! Ele me recriou! Me deu poder para me
vingar daquele maldito! Nãooo... Ele era meu pai! Meu pai! Meu
pai!
- Meu pai! Ele me amava! Ele me queria como mulher! Por causa
dele, fui morta e vim parar no Inferno! O lugar onde me transformei
em vampira!
A vampira acorda. O ferimento em suas mãos já está cicatrizado. O
sangue já não escorre mais. Ainda cansada, a vampira volta a
dormir.
Agora eu sei! Pensa ela enquanto descansa. Agora sei porque aquela
sereia me odeia! Pois muito bem! Ela quer vingar a morte do pai que
a recriou! Pois que venha! Eu estarei esperando por ela! Que ela
venha! Que venha!

***

Na escuridão mais sombria, a luz se faz presente.
No chão da cela, o desempregado chora enquanto vozes ocultas na
escuridão riem dele. O sangue que escorre de sua testa misturá-se ao
líquido vermelho que sai de sua boca e de seu nariz.
- Olha o bebê chorão, olha!
- Tá com medinho, é assassino?!
- Você nunca vai sair vivo daqui, seu marginal!
- Olha como ele chora! Parece uma menininha! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Os outros policiais acompanham a risada do colega. O desempregado,
cheio de hematomas, só chora.
- Escute, nós sabemos que você não contrabandeou arma nenhuma!
O desempregado se vira na direção do policial. Uma pergunta escapa
de seus lábios machucados:
- Por que... eu?!
- Porque você é pobre! E pobre e bandido é a mesma coisa!
Mais lágrimas escorrem dos olhos do desempregado. Antes de perder o
emprego, ele era um trabalhador, um homem que pensava em constituir
uma família com a mulher que amava. Mas aí, o governo aumentou os
impostos sobre os produtos que a fábrica onde ele trabalhava fazia.
Para cortar gastos, a empresa foi obrigada a praticar uma demissão em
massa. Era isso o que os empresários pensavam dos trabalhadores, dos
homens honestos que perderam o seu sustento, um gasto.
- Será que ele tem medo do escuro, será?!
- Vamos apagar a luz para ver!
Um dos policiais apaga a lâmpada. E aí o inferno começa.
- Não! Não! Não!
- Ai! Ai! Ai! Nãoooo...
- Pare! Ai! Ai! Pare!
- Segurem ele! Segurem ele! Aiiii...
- Não, por Deus não! Nãoooo...
Os policiais do lado de fora da cela escutam os gritos e correm até o
local. É quando um dos guardas que estavam com o desempregado
consegue abrir a porta.
- Nãoooo...
- Meu Deus!
- Minha Nossa Senhora!
- Mas o que é isso?!
O policial que tinha aberto a porta estava sem as duas pernas e tinha
se arrastado até a porta. O sangue atrás dele se espalha. A luz do
dia invade o recinto sombrio. Peles e ossos humanos estavam
espalhados pelo chão da cela. No fundo do lugar, encolhido em um
canto, o desempregado só chora.
- Deus! Oh, Deus, o que aconteceu?! O que foi que eu fiz?!
Os hematomas e os sangramentos tinham sumido. Só sua testa
continuava ferida.
- Ele... Foi ele... Bluuurp...
O policial aponta para o desempregado. Depois, vomita sangue e morre.

***

Cai a noite.
Abaixo da terra, a escuridão reina absoluta. É quando os imortais
recobram suas energias e se preparam para a batalha.
A pedra, nas mãos da vampira começa a brilhar. Então, ela sente um
estalo e acorda. Algo se aproxima. Algo poderoso e sombrio como o
mais mortífero dos redemoinhos está chegando pelo córrego perto da
galeria. Pelo chão desta, os pedaços dos corpos das vítimas do
acidente no metrô bem como daqueles que foram assassinados pela
sereia apodrecem enquanto ratos devoram a carne.
A vampira se levanta. Ela sabe. Ela sente. Algo se aproxima.
- É ela! Está vindo! Conseguiu recobrar suas forças! Mas eu também
recobrei as minhas! Já é noite! Me sinto mais forte agora! Só
preciso de um pouco de sangue! Mas antes, está na hora de acertar as
contas!
A vampira se vira de um lado para o outro sentindo que a sereia se
move em várias direções, procurando o momento e o lugar adequados
para atacar. A espera dura segundos, minutos, duas horas. A agonia
toma conta da vampira. O silêncio é sepulcral. A vampira sente
medo, mas sabe que não há escolha. Se fugir, a sereia irá caçá-la
novamente e esse conflito nunca iria ter fim. Então que termine
agora. Que o confronto venha. No entanto, a espera pelo combate
aborrece a vampira.
- Qual é?! Está com medo, madama?! Sim, eu sei que você já foi
rica! Sei que você foi esposa de um senador corrupto, o mesmo homem
que me deu o poder! O mesmo homem que te traiu usando o dinheiro que
ele e você roubaram do povo, sua corna! Corna! Corna! Sua corna!
Sua corna! Chifruda! Você disse que queria vingar a morte de quem
lhe deu o poder?! Pois eu nem me importei com o seu marido quando
ele me deu o meu! Está ouvindo, chifruda?!
Uma mão gigantesca feita de água emerge do córrego, agarra a vampira
e a puxa para dentro do rio. No interior deste, a vampira sente a
água entrar em sua boca, em seu nariz, nos ouvidos, nos olhos. A
falta de ar é insuportável e a vampira grita, berra mas as ondas
silenciam sua voz. Um grito. Um berro silencioso em meio às trevas
fluviais. Enquanto isso, nadando na velocidade de um tubarão, a
sereia se aproxima cada vez mais. Presa pela força das correntes, a
vampira se debate, tenta se libertar das correntes feitas de água.
Mas a falta de ar a consome. O desespero toma conta de seu ser. A
dor é intensa. Ela não percebe a criatura marinha se aproximando.
Rápida. Veloz. As unhas tornam-se garras. Os dentes crescem. Os
olhos tornam-se vermelhos. A bela sereia se transforma num monstro
horripilante.
Era com certeza o fim da vampira. Mas, às vezes um simples lance de
olhares pode mudar tudo. Quando a Ditadura Militar foi imposta,
todos achavam que o regime ditatorial iria durar para sempre. Mas
aqueles que financiaram o governo sabiam que tudo muda. Tudo muda e
tudo pode mudar. Esta sereia já foi uma mulher oriunda de uma das
famílias políticas mais corruptas deste país. Um acidente com um
avião mudou o seu destino. Assim é o acaso. Assim é a vida! Assim é
a morte!
E eis que o acaso surge. A vampira vê, pelo canto do olho direito, a
sereia se aproximar. A pedra estava em sua mão direita. Então,
suportando a falta de ar e a dor, a vampira pronuncia um antigo
encantamento usado pelos deuses do mar.
- Mum mar fogeeeeeee...
Então, um vento forte invade a galeria espalhando os pedaços dos
mortos por quilômetros. O sangue frio deles espirra nas paredes da
galeria manchando-as. O vento atinge em cheio o lugar onde a vampira
e a sereia travam a batalha. A sereia chega perto da vampira e se
prepara para devorá-la sem se importar com o efeito que a carne de
uma imortal possa causar em seu organismo. Até que o vento
impulsiona-a para longe da vampira. Súbito, a água ao redor da
nosferato também se afasta, criando um buraco de terra em meio ao
córrego. A vampira cai no buraco libertando-se das correntes de água
que a prendiam. O corpo da sereia voa para fora das águas, levado
pelo vento. A vampira, ainda sem ar, tem forças para transformar a
pedra numa lança e depois arremessá-la contra os peitos da criatura
marinha.
- Iahhhhh... A sereia grita enquanto a lança atravessa seu corpo e
se finca na parede atrás dela.
O peito da sereia explode em sangue. A vampira pronuncia mais um
encantamento:
- Vá lá ventuno!
O vento se vai.
O córrego volta ao seu curso normal. E o corpo da sereia cai sobre
as águas.

***

Andando sobre o córrego, a vampira se aproxima da sereia. Esta,
ainda viva, começa a vomitar sangue.
- Ai! Ai! Ai!
- O que foi?! Está tão acostumada a viver no luxo e no dinheiro que
ainda não suporta a dor?!
- Sua... maldita! Eu... Você matou o único ser que me deu alento no
pior momento... da minha vida!
- Nós não estamos vivas sua tola! Nós somos imortais agora! Mas
você... você é uma idiota!
- Maldita! Eu te odeio! Eu vou te matar!
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
- Eu ainda vou vingar o meu pai!
- Seu pai?! Sabe a quem você está chamando de pai?! A um demônio!
A um ser maligno!
A vampira pega a sereia pelos cabelos.
- Ai!
- Dói, não dói?!
- Ai, pare! Pare! Não é justo! Você matou meu pai! Eu tinha de me
vingar de você! Ninguém tem o direito de tirar a vida do pai de uma
pessoa! Mesmo se esse pai for um demônio!
- Hãããã...
A vampira estapeia a sereia. A cabeça desta vira para trás.
- Não me venha falar de pai! Não me venha dizer que ninguém tem o
direito de matar um demônio!
- E se fosse o seu pai?!
A vampira olha com ódio para a sereia e diz:
- Meu pai me matou! Meu pai quis me estuprar! Ele achava que eu era
sua propriedade e por isso considerou que eu devia ser sua mulher!
A vampira corre até um canto, se encolhe e começa a chorar. A
lembrança de que seu genitor, aquele que lhe deu a vida, foi seu
assassino ainda é dolorosa em sua mente.
Súbito, a sereia percebe algo. As palavras da vampira penetram em
sua mente de forma dolorosa. Então, as duas imortais sentem. O
ranço do teleporte. Um portal do Inferno se forma. A vampira se
ergue. A sereia olha para trás e vê seu pai, o demônio que a recriou
na forma de um ser magnífico, sair de dentro do portal. Os chifres e
os dentes do demônio assustam a sereia.
- Não queria me ver, filhota?!
- Pai, não! Não! Não! Não! Não!
- Pois aqui estou eu!
- Não! Não! Não! Nãooo...
O demônio agarra a sereia pela cintura. A vampira vê a cena e
lágrimas escorrem de seu rosto. Tudo volta em sua mente. Ela
imagina que tudo aquilo não passou de uma tortura preparada pelo
Inferno para fazê-la sofrer ainda mais. Os mesmos gritos. A mesma
dor de quem foi quase estuprada por aquele que lhe criou. A luta.
Os tapas. O sangue. A morte.
- Não! Não! Não, pai! Nãooo... Não! Não! Não! Não!
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
- Não, pai! Não! Pare! Está doendo! Está doendo! Não! Nãoooo...
O demônio começa a meter na sereia. A vampira vê a lança ainda presa
contra a parede da galeria. Ela não suporta. Não agüenta. O
nosferato corre até a lança e a arremessa contra o peito do demônio.
- Iahhhh...
A criatura grita em agonia enquanto sangue verde escorre de seu peito.
- Volte para o Inferno, demônio!
- Iahhhh...
O demônio explode em mil pedaços. O portal do Inferno se fecha. A
sereia cai. Ao lado dela, a pedra também cai no rio. A força da
correnteza leva a lasca da Pedra Filosofal para longe.
- Não! Grita a vampira correndo na direção da pedra. Não! Volte!
Eu preciso de você para caminhar de dia! Não! Não! Nãooo...
A sereia, com o sangue ainda escorrendo do peito, nada até a pedra e
a agarra.
- Iahhh...
A vampira pula em cima da sereia e as duas afundam em meio à merda
que escorre pelo rio. No interior deste cada uma puxa a pedra para o
seu lado.
- Largue! Grita a sereia. Eu preciso da pedra para me curar! E
para andar sobre a terra! Largue!
A sereia morde o pulso da vampira. Esta grita e solta a pedra. A
sereia tenta nadar para longe dali, mas a vampira a agarra pelo rabo
de peixe. Então, a sereia faz um gesto com a mão e correntes de água
prendem as pernas e os braços da vampira. Esta se esforça para
libertar. Sente novamente a falta de ar. As correntes a puxam para
o fundo do rio. As merdas também contribuem para sufocá-la. Em meio
à dor e ao desespero a vampira tenta esticar a mão para o alto. Do
lado de fora dos esgotos, o céu negro fica ainda mais sombrio.
Nuvens de chuva se aproximam. Pingos d`água começam a cair. Raios e
relâmpagos preenchem o negro vazio do céu.
Ela ainda tenta esticar mais a mão para o alto. Tenta. Tenta.
Tenta. A merda entra pelo nariz. A dor e o fedor são
insuportáveis. Mas, então finalmente acontece. Um relâmpago atinge
a calçada que desaba sobre o esgoto impedindo que o rio e a sereia
prossigam.
- Não! Não! Não!
A sereia se volta para a vampira acorrentada. Com um puxe de mão a
água leva a vampira até a sereia.
- Faça parar! Faça parar! Iahhh...
A sereia esbofeteia a vampira. Sem poder falar devido à merda e à
água que a sufocam, a vampira sofre em silêncio. Sua expressão é a
mais desesperadora possível. A sereia crava as garras no rosto da
vampira. O sangue escorre da nosferato e ela sente a sede, a vontade
de chupar mais do líquido vermelho.
Então, um novo relâmpago entra pelo buraco na calçada e atinge a
sereia.
- Iahhhhh...
Dez mil. Vinte mil. Trinta mil. Quarenta mil volts. A água fica
iluminada. A eletricidade corre pelo rio. Corpos de ratos são
explodidos pela descarga elétrica.
- Não... vou... desistir!
E nem eu! Pensa a vampira.
A descarga elétrica aumenta. Já são oitenta mil volts de
eletricidade correndo no corpo da sereia.
- Iahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...
O ser marítimo desmaia. A vampira nada até o corpo da sereia e tira
a pedra de suas mãos. As descargas elétricas diminuem até cessarem.
A vampira sai do rio toda fedida.
- Cof! Cof! Cof! Cof!
Ela tosse, tentando recuperar o fôlego. E vê o corpo da sereia
sangrando, boiar no rio. Encostada a uma das paredes da galeria, a
vampira geme tentando respirar. Cansada. Exausta. E toda fedida.
Então, a pedra brilha mais uma vez. E a vampira sente a presença
dela. Um monte de água é formado e sobre ele, a sereia, sangrando.
É nessa hora que a vampira percebe que sua mão e seu rosto estão
sangrando também.
- Eu preciso da pedra para caminhar sobre a terra!
- Você... Você é uma sereia, é a rainha do mar! Seu lugar não é
aqui! É embaixo das águas! É lá o lugar para onde você deve ir!
Vá! Volte para o mar! Cure suas feridas!
- Não! Eu não quero ficar só no mar! Eu quero andar sobre a terra
também! Como eu fazia antes quando estava viva!
- Pelo que vejo, sua morte não destruiu sua ambição! Você nunca se
contenta com mais, não é mesmo?! O salário do seu senador era para
mais de vinte mil reais! Mas você se contenta com isso?! Não!
Querem mais! Sempre mais!
- Eu quero a pedra! E tudo o que eu quero, eu consigo!
A vampira se levanta revoltada.
- Dessa vez não! Se quer a pedra, venha pegar!
- Pois muito bem! Foi você quem pediu!

OS PORTAIS DO INFERNO - CAPÍTULO QUINTO: O HOMEM É O PAI DO LOBO


( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA )

- Não! Não! Não! Nãooo...
O homem natimorto é cercado de pêlos, suas unhas tornam-se garras
afiadas, suas orelhas, seu nariz e sua boca crescem assemelhando-se
aos de um animal. Seus dentes, manchados pelo sangue que escorria da
testa, crescem de forma assustadora. Em sua testa, um chifre de
unicórnio nasce de forma lenta, espalhando sangue por todo o
apartamento.
- Au! Au! Au! Au! Au!
Os gritos de dor do lobo são aterrorizantes. Ganham eco. A vampira
cai botando as mãos nas orelhas, tamanho é o som dos uivos da
criatura.
- Au! Au! Au! Au! Au!
- Ahhhhh...
- Au! Au! Au! Au! Au!
- Ahhhh... Não! Não! Não! Nãoooo...
Parte do sangue cai sobre a vampira. Ela lambe o sangue tentando
recobrar forças para combater a criatura. A transformação profana
finalmente termina e o desempregado renasce como o lobo com um chifre
no meio da testa. Um lobisomem.
A vampira se levanta devagar, temendo a reação da fera.
- Mã...
A vampira só geme assustada, procurando uma saída. Ela tenta avançar
até a porta de forma devagar.
- Mã... E... Eu...
A criatura não entende o que a fera quer lhe dizer. O lobisomem
balbucia de forma incompreensível.
- Eu...
- Você... Você quer... O que você quer?!
- Eu... Mã...
- Diga-me... o que você é?! O que você quer?!
- Sangue!
O lobisomem ergue a cabeça na direção da vampira.
- O sangue que alimenta!
- Ah, meu Deus! Ah, meu Deus!
- O seu sangue! O sangue da vida! O sangue de seus seios!
- Ahhh...
O lobisomem avança contra a vampira. Esta, assustada, se joga contra
a janela da sala, que se quebra. A luz do sol invade o apartamento e
atinge o lobisomem em cheio.
- Ahhh...
Ele grita sentindo o chifre recuar para dentro da testa. O sangue
volta a escorrer pela cabeça do animal, cujos pêlos vão sumindo.
- Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!
A transformação é repleta de dor. Os dentes, o nariz e a boca
começam a voltar ao tamanho normal de forma dolorosa. E finalmente o
animal transforma-se em homem. O desempregado desmaia de tanta dor.
- Mã... Ma... Mamãe!
Ele geme enquanto o sangue continua a escorrer de sua testa.

***

Paralelamente à transformação profana, do lado de fora do prédio, a
vampira mal tem tempo para se transformar em morcego. Tão logo os
raios do sol a atingem em pleno ar, ela se transforma numa bola de
fogo.
- Não! Não! Não! Nãoooo...
Ela grita em desespero enquanto cai e as chamas começam a dilacerar o
seu corpo.
- Não! Não! Me ajudem! Alguém! Não! Não! Não! Não! Me
ajudem! Deus, nãooo... Não! Não! Não!
O corpo, como um meteoro em chamas, cai rápida e dolorosamente. As
pessoas na rua se assustam com a bola de fogo que cai do céu e saem
correndo. O corpo em chamas da vampira finalmente atinge o chão. A
criatura, quase sem forças, profere um encanto para sobreviver ao fim
inevitável.
- Chum abrum... torraaaaaa...
O chão se abre no momento do impacto. Dentro da terra, em meio às
trevas, ela mergulha abrindo outro buraco em direção ao metrô no
exato momento em que um expresso estava passando. As pessoas dentro
do trem mal têm tempo para gritar. Ainda em chamas, a vampira atinge
o expresso, provocando uma explosão. Um outro buraco é aberto. A
vampira cai no esgoto em cima d`água. Ratos correm assustados com a
presença profana.
- Não! Não! Não!
A água seca as chamas, mas não impede um desastre maior. O trem e as
pedras caem sobre a vampira... deixando-a na mais completa escuridão.

***

O passado.
O jovem dorme na areia da praia depois de ter feito amor com a
namorada. Esta acaricia os cabelos do garoto admirando a beleza
deste. O jovem acorda, olha para a namorada e diz:
- Como é bom sentir o seu carinho... e o seu amor!
Os dois se beijam.
- Também gosto de sentir o seu amor!
- O nosso amor, minha querida! O nosso amor... é para sempre!
As mãos de um e de outro se tocam e os dois falam:
- Para sempre!
Os dois jovens se beijam mais uma vez.

***

- Oi, mãe!
A garota chega em casa e tira a mochila das costas. A mãe se levanta
e encara a filha seriamente. A jovem desvia o olhar e sobe as
escadas em direção ao seu quarto.
- Vou trocar de roupa e depois a gente vai almoçar, tá, mãe?!
- Tá, tá bom!
A mãe vai até a cozinha enquanto a jovem sobe para seu quarto.
Quando a garota abre a porta do quarto qual é sua surpresa ao ver o
pai, sentado em sua cama, com uma cartela de camisinhas à mostra.
- O que significa isto?!
A filha encara o pai com ódio enquanto ele se levanta e larga a
cartela sobre a cama.
- Significa que finalmente surgiu um homem que irá me libertar da sua
opressão!
- Quem é esse rapaz?! Com quem você anda saindo?! Responda! Você é
minha filha e me deve obediência!
- Eu não te devo nada porque você não é o meu pai! Não é o mesmo
homem que me deu tanto amor e carinho quando eu era pequena! Você é
um monstro!
O pai agarra a filha pelos braços.
- Não ouse erguer a voz para mim! Grita o pai. Não ouse me
desafiar! Eu te dei a vida! Te criei! Te dei casa, comida, roupa!
Eu sou o seu criador e só eu posso ter você!
- Não! Ela grita enquanto tenta se soltar do pai. Você nunca irá me
ter, seu monstro! Eu sempre amei você porque era meu pai! Mas,
agora, eu sinto nojo de você!
- Eu sou seu pai! Tenho direitos! Você tem que me obedecer!
- Nunca! Nunca! Nunca! Me largue! Me largue! Me largue!
O pai tenta beijar a filha. Ela se desvia da boca do criador. Este
agarra a criatura pelos cabelos e a beija na boca.
- Não! Não! Não! Na... Não! Me largue! Me solte!
A filha dá um tapa no rosto do pai. Este esbofeteia a filha. Esta
tenta fugir, mas ele a agarra e começa a rasgar a roupa da garota
enquanto bate nela.
- Venha cá, filhota! Vem cá ver o tamanho do pau do seu pai!
- Não! Não! Mamãe! Mamãe, me ajude! Mamãe! Mamãe! Mamãe! Mãe!
Socorro! Socorro!
- Isso é prá você aprender a não desobedecer o seu pai! Berra a mãe
na parte de baixo da casa. É para o seu próprio bem!
- Não! Não! Não! Ele está tentando me estuprar! Meu pai está
tentando me estuprar!
O pai agarra novamente a garota pelos cabelos e beija a sua boca de
novo. Ela sente a língua do pai passear em sua garganta. Sente os
lábios de seu genitor tocarem os seus. O nojo toma conta da criatura
enquanto o criador tenta abrir-lhe as pernas para meter nela.
- Não! Não! Não!
A garota grita enquanto o pai tenta forçá-la a abrir as pernas. Ele
beija mais uma vez a boca da filha. Esta não suporta tamanho
tormento e morde o lábio superior do pai.
- Sua filha ingrata!
O pai berra enquanto esbofeteia a filha mais uma vez. A garota cai e
saí do quarto. O pai a persegue até a entrada da escada. O criador
agarra a criatura pelo braço e a vira para si.
- Eu criei você... e posso destruir você!
Ele esbofeteia a filha mais uma vez. A garota rola as escadas e bate
fortemente com a cabeça no chão. O sangue começa a escorrer da testa
da jovem e ela morre.

***

O presente.
- Não! Não! Não! Não! Não! Pai, não! Não! Não!
A vampira berra. Em meio à escuridão, ela tem lembranças de seu
assassinato. Do lado de fora dos escombros, os bombeiros e a Defesa
Civil tentam retirar as pedras que rolaram com o desmoronamento. Até
que um dos bombeiros escuta os gritos da vampira.
- Ouvi gritos por aqui!
O bombeiro sobe até o topo da pilha de pedras.
- Vamos ajudar!
Os outros bombeiros se aproximam do colega. Este, com os olhos
vermelhos e dentes de vampiro, se vira na direção dos companheiros.
- Eu não preciso de ajuda!

***

Debaixo dos escombros, a vampira não pára de gritar. A escuridão do
lugar se assemelha com a do Inferno e ela fica apavorada.
- Não! Não! Não! Eu não quero voltar para o Inferno! Eu não quero
voltar para o Inferno! Eu não quero voltar para o Inferno! Não!
Súbito, os gritos dela são interrompidos por berros oriundos do lado
de fora dos escombros.
- Ai!
- Não!
- Socorro!
- Ai!
- Alguém nos ajude! Bluarrpp...
A vampira fica quieta estranhando os gritos.
- O que é isso?! Ela fala apavorada. Meu Deus, o que é isso?! O
que está acontecendo?! O que está acontecendo?!
- Não! Não! Ai! Ai! Não! Não!
Os gritos deixam a vampira ainda mais apavorada. Ela chega a suar
frio. De repente, os gritos param. O silêncio é aterrador.
- Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Deus!
Deus! Deus!
As pedras começam a ser retiradas de cima dela. É quando a vampira
vê um machado caindo em sua direção.
- Não! Ela estica os braços para o alto.
Suas mãos agarram a ponta do machado e começam a sangrar.
- Ai! Ai! Ai!
- Isso! Sofra! Que sua dor se espalhe por todo o universo!
O bombeiro, com olhos vermelhos e dentes afiados, tenta matar a
vampira. Ela não entende. Como um simples machado poderia destruir
um imortal?! É quando ela vê os corpos dos outros bombeiros
sangrando, espalhados pela galeria.
A vampira percebe então que aquele não era um simples bombeiro, mas
um outro ser das trevas. Ela chuta a barriga do bombeiro jogando-o
longe ao mesmo tempo em que lhe toma o machado das mãos.
- Iahhhh...
Se levantando em meio aos escombros, a vampira berra com o machado na
mão direita e o punho esquerdo fechado. O sangue continua a escorrer
de suas mãos. O machado se transforma num dos fragmentos da Pedra
Filosofal.
- Não! Ai! Não! Não! Não!
A vampira escuta os gritos do bombeiro e virá-se na direção dele.
- Meu Deus!
A vampira fica apavorada. Sem a lasca da Pedra Filosofal, a sereia
não pode continuar em outros corpos. A pele do bombeiro começa então
a cair enquanto a sereia saí de dentro do corpo dele.
- Meu Deus do Céu!
- Não! Ai! Ai! Ai! Ai!
Se arrastando pelo chão da galeria, a sereia começa a ressecar com a
falta de ar. Súbito, o seu olhar crava no olhar da vampira. Esta a
reconhece. As duas ex-mulheres, mesmo em outras formas, sentem que
já se encontraram no Inferno.
- Você! A esposa do senador!
- Maldita seja! Você me privou da vingança e matou meu pai! Mas eu
vou me vingar de você... custe o que custar! Aiiii...
A sereia continua se arrastando na direção da vampira. Apesar da dor
e da falta de ar, a vingança toma conta de seu corpo de uma forma
indescritível. A vampira não perde tempo. Corre até a sereia e
chutá-lhe o rosto arremessando-a no rio que corria ali perto.
Antes de ser tragada pelas águas imundas do esgoto, a sereia gritou:
- Você não escapará da minha vingança! Eu vou vingar meu pai! Eu
vou vingar meu pai!

***

- Ok, gravando!
- Um míssil atingiu esta rua no centro da Cidade na manhã de hoje e
causou uma tremenda explosão, ocasionando esta cratera que está atrás
de mim! Até agora temos a confirmação de 20 mortos, segundo a Defesa
Civil, mas esse número pode aumentar! Estamos aqui com o Comandante
da 16ª DP que pode nos dar mais informações! Comandante, isto foi um
atentado terrorista?!
- Olha, nós ainda não temos certeza disso! Mas, ao que tudo indica,
tudo não passou de um acidente!
- Um acidente?! Mas foi um míssil que foi disparado...
- Nós acreditamos que o míssil tenha sido disparado acidentalmente
daquele apartamento ali!
O comandante aponta para o apartamento onde o desempregado mora.
- E quem mora naquele apartamento, Comandante?!
- Um homem que recebia armas que eram contrabandeadas do Afeganistão
para o Brasil! Nós já iniciamos uma investigação no apartamento do
elemento e descobrimos uma grande quantidade de granadas e uma bazuca
de onde provavelmente veio o míssil!
- E já sabem quem é esse homem?!
- Nós estamos interrogando o proprietário do imóvel para saber a
identidade desse contrabandista!
- O que faz a polícia pensar que tenha se tratado de um acidente e
não um atentado terrorista?!
- Olha, não há razão para pensarmos que se trata de um atentado
terrorista...
- Por que não há razão para se pensar na hipótese de um atentado
terrorista?!
- Porque os criminosos, geralmente traficantes e contrabandistas, não
costumam usar armas de grande poder de fogo como a bazuca aqui no
Brasil! É muito mais lucrativo para eles vender essas armas, aí sim
nós já estamos trabalhando com essa hipótese, para países onde os
atentados terroristas são comuns, como Iraque, Israel e o próprio
Afeganistão! Outro fator que deve ser levado em consideração é que o
terrorismo, mesmo sendo uma ação abominável, é impulsionado por
princípios ideológicos, políticos e até religiosos! Os criminosos
daqui do Brasil não estão interessados nesses princípios! O que eles
querem é o lucro! E é muito pouco lucrativo para eles causar um
atentado terrorista no Brasil porque essas armas custam muito caro,
mesmo entrando no país de forma ilegal! É mais lucrativo para eles
revender essas armas para os países que eu já citei! Mesmo assim nós
vamos iniciar uma investigação para saber se há ligações de
traficantes e contrabandistas brasileiros com grupos terroristas no
exterior!
- E o que vai acontecer com esse contrabandista que recebia as armas,
supostamente vendidas por terroristas internacionais?!
- Esse contrabandista vai ser encaminhado por meio de uma ambulância
para um hospital! Um outro fator que indica ter se tratado de um
acidente é que encontramos o elemento ferido em seu apartamento!
Isso é um forte indício de que o disparo foi acidental! E assim que
ele for devidamente medicado, nós vamos interrogá-lo para saber se
ele era mesmo receptador dessas armas que foram encontradas em seu
apartamento! Mas tudo indica que sim!
- Muito obrigado, Comandante! Mário Salgado para o Tudo na TV!
A explosão causada pela vampira provocou um enorme estrago. Os danos
de propriedade foram imensos! O número de mortos aumentava! A
Opinião Pública exigia uma resposta das autoridades! Pressionados
pela Imprensa, a polícia colocou uma bazuca e granadas no apartamento
do desempregado para fazer deste um bode expiatório. O homem era
pobre e seria fácil inventar que ele era um receptador de armas.
Para a polícia foi fácil, portanto, incriminar o desempregado pela
explosão que abriu uma cratera no meio da rua, destruiu o metrô e
atingiu as galerias subterrâneas, causando mais de 50 mortes.

***

Escuridão.
A fronteira entre o Céu e o Inferno. Entre o mundo mortal e o mundo
imortal. A alma do desempregado viaja entre os dois mundos. Os
sussurros de dor de quem vive no Inferno. A alegria de quem chegou
no Paraíso. Tudo isso ele escuta enquanto afunda... aonde?! A
escuridão e as vozes assustam o desempregado! Súbito, ele vê, ouve!
Abaixo de si, sendo puxada pelas trevas, ele enxerga sua amada!
- Socorro! Socorro! Me ajude!
- Segure em minha mão! Segure em minha mão!
- Me ajude! Me ajude!
- Segure em minha mão! Segure em minha mão!
O desempregado mergulha nas trevas e estica a mão na direção do braço
da prostituta. O esforço era terrível. Era como se a escuridão
tivesse a força das ondas do mar. Um oceano negro feito de nada.
Ele continua a esticar a mão, seu dedo indicador toca o dedo médio da
prostituta. O desempregado se esforça, luta para salvar seu grande
amor.
- Não consigo mais manter o braço erguido!
- Tente, meu amor! Tente! Eu não vou deixar você morrer! Eu não
vou deixar você morrer! Eu não vou deixar você morrer!
A força do amor do desempregado pela prostituta vence. Ele
finalmente alcança a mão da mulher.
- Obrigada, meu amor! Obrigada!
Os olhos de ambos se enchem de lágrimas.
- Eu te amo!
- Eu também te... Aiiii...
- Não!
O cenário subitamente muda. Um demônio enorme e gordo morde a perna
esquerda da prostituta e começa a devorá-la. O mar negro torná-se
branco nesse momento.
- Não! Segure firme meu amor! Eu vou puxá-la!
- Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!
O desempregado usa toda a sua força para puxar a prostituta de
volta. Mas não adianta. A mulher é devorada pelo demônio.
- Não! Não! Não!
- Hummm! Fala o demônio chupando um dos ossos da prostituta. Que
carne mais suculenta!
- Maldito! Desgraçado!
O desempregado começa a socar o rosto do demônio em desespero.
- Traga ela de volta prá mim! Traga ela de volta prá mim! Traga ela
de volta prá mim! Traga ela de volta prá mim!
O demônio não reage. Os socos do desempregado são cheios de força e
violência. Pingos de sangue verde se espalham pelo céu branco. O
corpo do demônio explode em mil pedaços à medida que o desempregado o
soca. O céu torná-se verde enquanto o desempregado desce até um chão
branco.
- Cadê?! Cadê?! Cadê?! Cadê?! Cadê?!
O desempregado procura entre os destroços da criatura, partes do
corpo da prostituta. Súbito, uma imagem vestida de branco sai de
baixo do chão onde o desempregado se encontrava. Era um homem negro
com asas nas costas e vestido de branco. A única pergunta que escapa
dos lábios do desempregado ao ver o anjo negro é esta:
- Onde está ela?! Onde está ela?!
- Acalme-se meu bom homem!
- Diga! Onde está ela?! Onde está o meu amor?!
- Num lugar onde os ímpios são condenados!
- Não!
- Num local onde a tentação da carne é banida!
- Não! Não! Não! Não!
O desempregado começa a chorar. Apesar da esposa ter sido uma
prostituta em vida, ele ainda a amava. Acreditava mesmo que através
de uma vida honesta poderia mudá-la. Mesmo depois de morto, ele
achava que ainda existia salvação para a prostituta.
- Mas alegre-se! Apesar de você ter cometido alguns pecados, sua
vida foi um exemplo de virtude e de dignidade! Seus pecados foram
pequenos e você ficará aqui, no Purgatório, o espaço entre o Céu... e
o reino das trevas!
- Não! Eu não quero ficar aqui! Eu quero ir pro Inferno!
O anjo se sobressalta com as palavras do desempregado.
- Mas lá é um lugar onde só há dor e tristeza!
- Mas é lá que ela está! E, aonde o meu amor estiver, eu quero
estar, não importa a dor, não importa o desespero! Quando me casei
com ela, eu prometi estar ao seu lado na saúde e na doença, na dor e
na tristeza! E, se o Inferno foi o destino dela, será meu destino
também!
Súbito, um forte vento, como um sopro de vida, perpassa pelas duas
criaturas. O anjo, sentindo a voz de Deus em seu coração, fala:
- É verdade, meu amigo! Seu lugar não é aqui! Mas não porque quer
acompanhar sua amada no reino maligno! E sim porque sua alma ainda
não está morta!
- Mas meu amor,... eu quero ficar com ela!
- E ficará! Infelizmente, você foi amaldiçoado pela Pedra
Filosofal! Sua alma só está aqui porque seu corpo está em coma!
Mas, em breve ele despertará! E, quando morrer de novo, você estará
no reino de Lúcifer como tanto deseja, ao lado de seu amor!
A imagem do anjo e todo o cenário começam a se afastar do
desempregado.
- Não! Eu quero ficar ao lado dela agora! Eu preciso dela! Eu a
amo muito! Por favor, volte! Não! Não! Não! Não!
A brancura do cenário é substituída pela escuridão de uma
ambulância. O desempregado vê soros e tubos enfiados em seu corpo
enquanto sua testa não pára de sangrar.
- Ah, a bela adormecida acordou! Diz um dos três PMs que
acompanhavam o desempregado.
- Onde?! Onde?!
Confuso e desorientado, o desempregado não sabe o que dizer. Ele
sente um estalo no corpo. Os músculos começam a crescer.
- Mas você não vai ficar aqui por muito tempo, seu contrabandista
maldito!
- Contrabandista?! Eu?! Mas eu...
- Pode aplicar o veneno!
Um dos três PMs aplica uma injeção com um líquido verde na seringa do
soro do desempregado. O coração do homem começa a bater de forma
acelerada. A dor que ele sente é intensa.
- Você vai morrer!
- Contrabandista!
- Você vai morrer!
- Pobre não tem direito à defesa!
- Você vai morrer!
- Contrabandista!
- Contrabandista!
- Contrabandista!
- Contrabandista!
- Não! Não! Eu não sou um criminoso! Eu não sou um criminoso! Eu
não sou... Grrr...
Os pêlos crescem, a boca e os dentes também. Os chifre de unicórnio
se estica. Com as garras, o lobisomem rasga as algemas.
- Meu Deus!
- O que é isso?!
- Nossa!
Os PMs não perdem tempo e começam a bater cacetetes no lobisomem.
Este, com a força de uma das mãos, arranca o braço esquerdo de um dos
PMs.
- Aiiii...
- Meu Deus do Céu!
O lobisomem crava as garras de seus dois braços contra o peito de
outro PM arrancando-lhe o coração e os pulmões.
O terceiro policial saca um revólver e atira três vezes contra o
animal. Os pêlos do lobisomem, entretanto, amortecem o impacto dos
tiros. A criatura abre sua boca e, com a força dos dentes, arranca a
pele do rosto do policial. Este, com uma caveira no lugar do rosto,
cai morto.
O PM sem o braço começa a gritar.
- Apoio! Apoio! Alguém me ajude!
O motorista da ambulância e o policial ao lado deste escutam os
gritos oriundos da parte traseira do veículo. Mas é tarde demais. O
lobisomem crava o chifre de unicórnio na grade que separa as duas
partes da ambulância. O chifre atravessa o peito do motorista,
matando-o.
- Meu Deus! Grita o policial ao lado do motorista.
Garras atravessam o corpo do PM não lhe dando tempo para agir. O
sangue escorre pela boca do policial.
O outro PM sem o braço tenta desesperadamente abrir a porta traseira
da ambulância. O lobisomem se vira para ele e agarra suas pernas
enquanto começa a devorá-lo.
- Não! Não! Não! Ahhh... Ahhh...
O lobisomem come as duas pernas do PM. Este saca um revólver e atira
contra a criatura. Os disparos só servem para distrair o lobisomem
enquanto o policial se arrasta até a porta traseira da ambulância.
Uma poça de sangue se forma atrás do PM, oriunda do lugar onde
ficavam suas duas pernas. O lobisomem corre até o policial. Este se
vira novamente e atira contra a criatura. O animal berra sentindo o
impacto dos disparos. Mas, nada sofre. Seus pêlos são tão grossos
que amortecem as balas. Por falar nelas, as do revólver do policial
já acabaram. Ao perceber isso, o PM tenta se arrastar novamente até
a porta.
- Abre! Abre! Abre! Abre! Abre! Abre!
O lobisomem se recupera dos disparos e corre até o PM.
- Abre! Abre! Abre! Pelo amor de Deus, abre! Abre! Abre! Abre!
Não! Não! Nãoooo...
O lobisomem devora a cabeça do policial matando-o. O ato ocorre ao
mesmo tempo que o PM consegue abrir a porta traseira da ambulância.
A luz do sol atinge em cheio o lobisomem, que volta a se transformar
no desempregado, completamente pelado e com o sangue escorrendo pela
testa.
- Meu Deus!
A ambulância estava parada em um engarrafamento. Ao ver um homem nú,
além de corpos e pedaços de corpos espalhados pela ambulância, o
motorista do carro de atrás treme de medo.
- Deus, o que aconteceu?! Se pergunta o desempregado gritando.
Os outros motoristas dos outros carros correm para o local onde a
ambulância se encontrava.
- Ele matou todos aqueles policiais! Diz um comerciante.
- Olha, ele está nú! Fala um padre.
- Não tem vergonha! Diz uma senhora.
- Deve ser um daqueles assassinos seriais! Comenta um jovem playboy.
- Uau, que pedaço de homem! Diz uma adolescente.
- Esse homem é um assassino! Grita um policial reformado.
- Eu não sou assassino! Eu não sou assassino!
- É, sim, um assassino! E o seu lugar é na cadeia! Polícia!
Polícia! Polícia!
- Não! Não! Eu não sou um assassino! Não sou um assassino!
- Polícia! Polícia!
Havia uma viatura ali perto que ouviu os apelos do aposentado. Os
dois policiais correm até a ambulância. O desempregado não perde
tempo e foge do local do crime.
- Meu Deus! Diz um dos dois policiais quando eles chegam na
ambulância e vêem os corpos e pedaços de corpos.
- Foi aquele tarado quem matou os seus colegas, policial! Aponta o
aposentado. Vinguem a morte de nossos companheiros!
Os policiais correm até o desempregado e o agarram.
- Eu não sou assassino! Eu não sou assassino!
- Ora, cale a boca! Diz um dos policiais socando o meio das pernas
do desempregado.
- Ai! Ai!
O outro policial acerta uma cacetada na cabeça do desempregado, que
desmaia. Os dois tiras colocam o desempregado na viatura e o levam.
- Viva! Grita o aposentado. A justiça foi feita!
A adolescente dá um tapa no braço do aposentado.
- Ai! Mas o que é isso, menina?! Por quê você me bateu?!
- Por ter espantado o homem gostoso que estava aqui! Ah, que droga!
Um pedaço de homem como aquele e o senhor vem dar uma de moralista!
- Ah, sua atrevida!
- O senhor tem é inveja daquele homem gostoso ser mais bonito que o
senhor!
E a senhora, que achou um absurdo ver aquele homem pelado, ficou a
favor do aposentado. O playboy tentou apartar a briga, mas sabem
como é, no meio da monotonia da cidade grande, quando acontece alguma
coisa de diferente, brasileiro sempre arranja espaço para discussão.