Tuesday, June 06, 2006

A SANGUE FRIO

( POR RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)
Uma noite na África em 1910.
Richard crava a estaca no peito do negro.
- Aiii... Grita o vampiro enquanto o sangue escorre pela garganta. Seu maldito! Já que não pude ser livre em vida, serei depois de morto!
O nosferato estica uma das mãos contra a garganta de Richard. E acaba tocando no terço pendurado no pescoço do caçador.
- Iahhh... Berra o nosferato enquanto sua mão queima.
- Vá logo para o Inferno, criatura maldita!
- Não! Não! Nãooo...
E o vampiro morre. Richard tira um facão da bolsa e corta a cabeça do nosferato. Em seguida, a coloca num saco preto e olha o ambiente ao seu redor. Os corpos e o sangue de vários negros compõem uma cena macabra.
- Droga! Diz o caçador fechando e abrindo os olhos. Não se pode ter medo nessa profissão!Richard se levanta enquanto seu criado, negro como o vampiro que ele acabara de matar, chega e sobressaltasse com a cena.
- Pelos deuses de Ogum! O senhor está bem?
- Sim! Diz Richard andando enquanto carrega o saco com cabeça do vampiro dentro. Só estou um pouco...
- Assustado?!
- Não, Mambu! Cansado! Eu ia dizer cansado!
- Está bem, senhor! Mas o que vamos fazer com todos esses corpos?!
- Enterre-os!
Mambu obedece às ordens de seu amo e, com a ajuda de outros criados, enterra os cadáveres.

***

Inglaterra, noite seguinte.
Richard tenta dormir dentro da carruagem. Mas não consegue. As imagens de vampiros, de morte e de sangue perturbam seu sono.
Será que vale a pena continuar essa vida?! Pensa o caçador. Mal consigo dormir de tanto trabalho! Sinto vontade de largar tudo e voltar a ter a vida que tinha! Mulheres, farras, beberagens! E pensar que tudo começou como uma aventura! Um passatempo! Mas aí minha fortuna começou a aumentar graças às caçadas! É um bom dinheiro, mas... ah, eu não preciso disso!
- Chegamos, senhor!
Mambu, que dirigia a carruagem, interrompe os pensamentos de seu amo. Richard não se importa. Desce da carruagem e entra na igreja de Notthingam.

***

- Aqui está o seu dinheiro!
- E aqui está a sua cabeça!
Assim que recebe o dinheiro das mãos do Bispo Holligan, Richard tira a cabeça do saco e a joga sobre a mesa.
- Richard! Fala Holligan apagando as velas para evitar que a luz queime a cabeça do nosferato. Esta peça é uma relíquia! Não pode estragar!
- Pouco me importo com sua coleção, Bispo! Diz Richard. Este é meu último trabalho! Estou fora!
- Espere! Você ainda não me disse se é verdade que os escravos vem realizando rituais de magia negra para se tornarem vampiros!
- Porque essa informação vale mais do que o que o senhor me pagou!
- Ora, como ousa?! Richard, você é rico! Quando seus pais morreram, eles lhe deixaram uma vasta fortuna! Esse dinheiro não vai lhe fazer falta!
Richard fita seriamente o Bispo Holligan.
- Se não fosse por tudo o que meu pai me ensinou, eu jamais teria me tornado um guerreiro! Fala Richard. Vocês têm que dar graças a Deus por eu estar do seu lado!
O Bispo Holligan olha com raiva para Richard. O sacerdote pega a cabeça de cima da mesa e a leva a uma sala. Em seguida, acende uma vela e tira dinheiro duma gaveta. O Bispo Holligan entrega o dinheiro a Richard.
- E então?
- É verdade! Os escravos vem realizando rituais para tornarem-se vampiros!
- Ai, mas que sacrilégio! Que blasfêmia! Como esses seres inferiores ousam desafiar a Santa Ordem?!
- Os negros acreditam que podem ser livres depois de mortos! E por isso, aliaram-se ao Demônio!
- Bando de seres desalmados! A Grã-Bretanha está mais do que certa em continuar explorando as colônias na África! Esses seres inferiores não são criaturas de Deus!
- Bom! Já vou indo então!
- Espere!
- O que é?
- Tenho um último serviço para você!
- Ah, não! Eu já disse que estou fora!
- O nome "Alice" te diz alguma coisa?
Richard fica petrificado de pavor ao ouvir as palavras de Holligan.
- Pois ela, meu caro, é a próxima a morrer!

***

A viagem até o palácio dos duques Hallstrom não durou mais de duas horas. Richard conhecia Alice desde pequena! Os dois cresceram na aristocracia britânica! Com o tempo tornaram-se amigos! A morte dos pais de Richard, ocorrida numa caçada a elefantes, traumatizou o jovem nobre. Richard pensou primeiro em se matar! Não conseguindo, caiu na vida! Teve as mulheres mais lindas que o dinheiro pode comprar em seus braços! Bebia todos os licores que existiam na adega do palácio! Quando soube da profissão de caçador de monstros, decidiu participar achando tudo uma grande aventura! Quem diria que sua última caçada, depois de tantos anos longe de Alice, viria a ser justamente a sua amiga?!
- Chegamos, senhor!
- Obrigado, Mambu!
- Qualquer coisa eu estou às ordens!
Richard desce da carruagem e bate na porta do palácio. Nada. Bate mais uma vez. Ninguém vem atender. Richard olha para o céu. Já é quase dia, ele pensa.
O caçador tira o arco da bolsa. E dispara o arpéu contra uma das torres. Richard sobe pela corda até uma janela entreaberta. Ele entra num quarto. A escuridão é total. Os olhos do caçador ficam atentos. Ele sente o vento vir em sua direção. Atrás.
Richard, com um crucifixo em punho, virá-se na direção de Alice.
- Iahh... Berra o nosferato afastando-se do crucifixo.
- Alice! Sou eu!
A vampira olha para o caçador e o reconhece.
- Richard!
- Sim! Sou eu! Vim aqui para salvá-la!
- Mentiroso! Você veio aqui para me matar!
Então, a ternura é substituída pela raiva. Richard, ao ver tamanho ódio nos olhos de Alice, sente algo que jamais experimentou desde a morte dos pais: tristeza.
- Sim! Ele responde quase chorando. Vim aqui para matá-la, Alice! Mas, primeiro, preciso saber por quê?-
Por que eu me tornei uma vampira?
Richard responde afirmativamente com a cabeça.
- Acha que foi porque eu quis?! Eu estava doente, Richard! Estava com lepra e sabia que iria morrer! Os médicos tentaram de tudo mas não conseguiram me curar! Então, uma escrava entrou em meu quarto, cortou os pulsos e derramou seu sangue em minha boca! Ela dizia que eu carregaria a herança do povo negro em minhas veias! Então, o caçador que a perseguia, a matou antes que eu pudesse me deliciar com o sangue da escrava! Mas eu fui paciente! Fingi que estava morta e o ataquei!
- Mas... e seus pais?! E os criados?!
- Todos... mortos!
Richard fica petrificado de pavor.
- Eles eram seus pais, Alice!
- E você acha que eu não sofro por isso? Berra Alice chorando. Acha que eu quis matar minha mãe?! Mas eu não tive escolha, Richard! Eu não tive escolha!
Alice se encolhe chorando. Foi nessa hora que Richard largou o crucifixo e a bolsa no chão. Ele se ajoelhou e a abraçou.
- Oh, Richard! Você entende agora? Eu nunca quis ser uma vampira! Nunca!
- Sim! Eu te entendo! Você não teve culpa! Eu sei!
- Mas a sede de sangue é muito forte! Muito... forte!
Richard sente quando os dentes de Alice aproximam-se de sua jugular. Mas é pela boca da vampira que o sangue escorre. Richard, antes de largar a bolsa e o crucifixo, tinha guardado a estaca no cinto sob o sobretudo. Alice cai nos braços do caçador vomitando sangue, sentindo a dor da estaca em seu peito.
- Eu te amo!
Ela diz suas últimas palavras e a cabeça cai para trás. Só naquele momento é que Richard percebeu. Ele sempre amou Alice e ela a ele. Quando seus pais morreram, Richard poderia ter aproveitado o momento e pedido a mão de Alice. Mas, se deixou levar pela tristeza e pela luxúria, perdendo a oportunidade de ser feliz.
Agora, Richard chora enquanto os primeiros raios do sol derretem o corpo já morto de Alice.
- Nunca mais!
Ele berra em meio ao clarão do dia.
E, a partir daquele momento, Richard nunca mais caçou monstro algum.

FIM

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