Saturday, June 10, 2006

O DEMÔNIO

(POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

PRÓLOGO:

Burralândia – século XIII:

- Queimem a maldita!
- Morte ao filho do Demônio!
Desde que ficou grávida, Mariângela vem sentindo uma intensa vontade de devorar seres vivos. No início, eram as galinhas, depois as vacas. Até aí tudo bem. Apesar dos prejuízos causados aos fazendeiros, a camponesa nunca tinha cometido um ato mais grave. Isso, até o dia em que ela comeu uma criança viva.
- Que você queime no Inferno pelo filho que tirou de mim, sua possuída!
- Não! Não! Não! Eu não tive culpa! O meu filho... Foi ele quem pediu! Foi ele quem me pediu! Eu não consigo! Não posso renegar a vontade do meu nenê!
- Seu filho é um demônio! E merece morrer!
- Amarrem ela e queimem!
A mulher é amarrada a um tronco e os aldeões iniciam a fogueira.
- Povo de Burralândia! Fala o Padre Olavo. Nada pode devolver a pura criança que foi perdida para os braços do Demônio! Mas nós, como o povo de Deus, devemos cuidar para que o mal provindo do ventre desta mulher nunca mais cometa nenhuma atrocidade!
- Viva! Viva! Viva a palavra de Deus! Gritam os plebeus em polvorosa.
- Que se inicie a fogueira!
- Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Mariângela começa a gritar enquanto é queimada viva. A mulher passa mal durante sua execução e, de repente, vomita a criança para fora de seu corpo. Os aldeões olham impressionados para o ser de pele azulada e de olhos negros que saiu da boca de Mariângela.

Ronaldo de Oliveira Costa apresenta:

O Demônio

A criatura estranha o ar quente ao seu redor. As cinzas do corpo de sua mãe caem sobre o diferente ser. As memórias oriundas de seu pai atravessaram o cérebro de sua genitora e passam a fazer parte dele agora. Sim. Ele. Uma sensação sexual perpassa pelo seu corpo. E o ser descobre e se descobre como macho. Homem. Assim, como aqueles que o antecederam.

***

Seu pai veio de um planeta dominado pela guerra em nome da sobrevivência. Os seres de pele azulada e olhos negros se alimentavam de abelhas verdes. Estas tinham um gosto delicioso que faziam os seres azuis extasiarem de prazer. Por outro lado, seu veneno era perigosíssimo para os seres azuis. As abelhas verdes já tinham dizimado exércitos inteiros daquela raça. O planeta vivia então em constantes guerras. Vários dos seres azuis criaram naves espaciais com o intuito de escaparem do massacre em seu mundo. Mas as abelhas verdes eram rápidas e implacáveis em seus ataques e destruíam as naves e seus ocupantes. Apenas dois dos seres de pele azul conseguiram embarcar numa nave e sair daquele mundo moribundo. Sua esperança era alcançar um outro planeta, composto por homens vermelhos. Segundo a crença de seu povo, os homens eram vermelhos por possuírem bastante carne, o que poderia alimentar os seres de pele azul pelo resto de suas vidas. No entanto, dois dos quatro motores da nave em que os dois aliens tinham embarcado estavam danificados pelo ataque das abelhas verdes. E eles acabaram vindo parar na Terra.
Um mundo em meio a uma guerra civil. O rei de Brancalândia, Richard I era um notório racista. Após a Abolição da Escravatura, ele ordenou imediatamente a aniquilação de todos os negros do reino, alegando que eles eram seres que não serviam para mais nada. A Igreja, que financiou a Abolição da Escravatura para abocanhar mais pagadores de dízimos, era contra a política racista de Richard I. Ela enviou o Padre Olavo, um negro, para tentar contornar a situação. O Padre Olavo, no entanto, era um homem simples que só queria viver em paz com Deus e com os homens. Avesso a guerras de todo o tipo, o sacerdote tentou resolver o conflito em Brancalândia da maneira mais calma possível. O Rei Richard I reagiu de outra forma. Chingou o sacerdote de "macaco" e o expulsou de seu castelo. Ferido pelo espancamento proporcionado pelos guardas do rei e abandonado na miséria, o Padre Olavo recebeu o apoio de alguns plebeus irmãos de pele que o ajudaram a se recuperar.
O sacerdote, passados alguns dias, iniciou então um movimento de retirada dos negros de Brancalândia. Ele percebeu que negros e brancos não podiam mais viver sob a batuta racista de Richard I. E começou um movimento pela liberdade de seu povo. O imperador considerou os revoltosos criminosos e ordenou um verdadeiro massacre contra eles. A igreja foi mais uma vez contra Richard I e pressionou o rei a deixar que os negros saíssem de Brancalândia e vivessem em paz. Milhares de pessoas morreram em meio aos conflitos sangrentos. Os revoltosos passaram a ver a figura do Padre Olavo como um verdadeiro santo. Seus ensinamentos lhes diziam que a graça divina não estava na cor da pele, mas sim na alma pura. Assim, o Padre Olavo defendia os negros, mas condenava aqueles que se desviavam da fé, combatendo as mães solteiras, as prostitutas e os homossexuais.
No final da guerra civil que quase destroçou Brancalândia, Richard I cedeu às pressões dos revoltosos e da igreja e reconheceu o novo reino de Burralândia como legítimo. O novo país era assim chamado porque o Padre Olavo, ao mesmo tempo que defendia a liberdade dos negros, condenava de forma preconceituosa os pecadores. Assim, nem todos os negros puderam viver no reino de Burralândia, o que causou terríveis ressentimentos. Os negros "puros", por outro lado, eram considerados burros porque seu fanatismo pela santidade não os fez enxergarem que um outro tipo de segregação estava sendo criado. O Padre Olavo, por outro lado, passou a ostentar uma impressionante influência sobre o povo negro, o que encheu seu coração de cobiça. Assim, o sacerdote, que tanto lutou pelo seu povo, corrompeu-se. No centro da capital de Burralândia, Imbecil, ele criou uma igreja onde só entrava quem pagava o dízimo.E é aí que encontramos Pedro e sua filha Mariângela. Pedro era um dos caçadores de animais que serviam de comida para o reino de Burralândia. A carne dos bichos alimentava os pobres negros que, para pagarem a igreja do Padre Olavo, viviam na miséria. A mãe de Mariângela morreu vítima da fome, e Pedro não queria que sua filha e o irmão desta, Rafael, tivessem o mesmo destino de sua genitora. Os dois estavam na floresta caçando raposas quando, de repente a jovem viu uma estrela cair do céu.
- Olhe, papai! Uma estrela!
- Nossa, Mariângela! É mesmo! - E ela caiu aqui perto! Ela veio do céu, papai! Será que é um presente de Deus?!
- Só pode, minha querida! Tudo que vem do céu é divino! - Então vamos lá ver!
- Temos que tomar cuidado, querida! Mais pro oeste ficam as terras de Bran-calândia e nós não podemos ultrapassar a fronteira sob risco de sermos abatidos a tiros!
- Está bom, papai! Tomarei cuidado!
Os dois caçadores aproximam-se da nave caída. Súbito, a porta do veículo se abre.
- Ui! Mariângela leva um susto quando a porta se abre.
- Nossa, a porta se abriu rápido, né?!
- Verdade, papai! Mas veja, há fumaça branca saindo de dentro dessa coisa!
- E vejo dois seres saindo de lá de dentro!
- São os anjos de Deus! O quê?! Não!
Os dois seres saem devagar de dentro da nave. A aparência deles assusta Mariângela. Cansados da viagem interestelar, os aliens tentam se acostumar com a atmosfera da Terra. Por isso, eles demoram a notar os outros seres que estão à sua frente. As garras e os dentes afiados fazem os dois caçadores tremerem de medo.
- Meu Deus, pai! Eles são demônios!
- Vamos, filha! Vamos embora daqui! Eles não nos notaram! Vamos embora daqui! Vamos embora daqui!
- Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!
- Psiu! Fique quieta! Assim, eles não podem ouvir os nossos movimentos! Agora, vamos embora daqui! Vamos embora daqui!
Pai e filha sobem devagar a planície onde a nave caiu tentando se distanciar dela e dos dois aliens. Os dois alienígenas vêem tudo embaçado e na cor vermelha devido aos potentes raios do sol. No entanto, sua visão vai se tornando mais clara. E então, é quando um deles vê Pedro e Mariângela subirem a planície. Ele olha para os músculos das pernas de Pedro e sente a fome. A necessidade de se alimentar.
Então, ele salta na direção dos dois.
- Ahhhh...
- Ai!
O monstro morde a perna direita de Pedro e suspende o corpo dele para o alto.
- Papai! Não!
- Ai! Ai! Ai! Ai! Mariângela, vá embora daqui!
- Não! Não! Não! Não! Papai!
Os três estão no topo da planície. É nesse momento que o segundo alien recupera sua visão.
- Ai! Ai! Pedro berra enquanto sente os dentes do alien perfurarem sua perna.
- Papai! Pai!
- Mariângela, vá embora! Cuide de seu irmão! Ai! Ai!
A jovem corre para a floresta. Pedro tira uma flecha de trás de suas costas e a enfia no olho esquerdo do monstro. Este solta o caçador e berra em agonia. Pedro cai no chão sem a perna. Mariângela escuta o berro e olha para trás.
- Papai!
- Mariângela, vá embora!
- Não, pai!
A garota corre na direção de Pedro enquanto a fera tira a flecha de seu olho. Sangue verde escorre pelo rosto do alien. O monstro se prepara para terminar de devorar Pedro.
- Mariângela, vá embora daqui! Vá!
- Mas pai...
- Vá logo, Mariângela, vá logo!
A jovem olha para o pai. Olha para o monstro, que prepara um novo ataque. As lágrimas caem do rosto da menina.
- Mamãe! Papai! Não!
Ela limpa o rosto. Engole as lágrimas. Olha para o alien com ódio. Com raiva de tanta injustiça e tamanho pecado. Mariângela tira uma flecha das costas e põe no arco.
- Por Deus e pelo reino dos céus, morra criatura dos infernos!
O alien escuta o berro de Mariângela e olha para ela. A menina atira a flecha que acerta em cheio a testa do alienígena. O monstro cai morto na planície.
- Papai!
- Filha!
Mariângela corre na direção de Pedro. Os dois sentem o amor de pai e filha mais forte naquele momento. Embora sejam pobres e tenham passado por várias dificuldades, o seu amor é verdadeiro... e eterno.
O momento paternal é interrompido quando o outro alien salta até o topo da planície e crava as garras na barriga de Pedro abrindo o corpo deste em dois.
- Papai! Não! As lágrimas de Mariângela saltam do rosto. O monstro virá-se para ela. A garota coloca a face entre as mãos e chora ainda mais. De repente uma lembrança. Uma imagem surge na mente do monstro. Uma outra menina negra chora, após levar dois tiros de seu pai. Os gritos, as lágrimas. Tudo se mistura na mente do monstro.
- Maldito!
Mariângela grita enquanto coloca outra flecha no arco. O alien, vendo que aquela arma matou seu irmão, dá um tapa com sua enorme mão em Mariângela, jogando o arco a vários quilômetros de distância. Em seguida, ele fica sobre o corpo da jovem agarrando-a pelos braços.
- Não! Não! Não! Deus, por favor, me ajude!
Mariângela era uma negra linda. Suas coxas eram grossas e fortes. Seus seios eram fartos. Sua boca e seus olhos verdes davam ao rosto um tom maravilhoso de beleza. A fera começa a babar tamanha é a formosura da menina.
Então, as imagens surgem em sua mente. Imagens do século XXI, onde Bryan Hoggan, um assassino serial, espera no corredor da morte, o seu destino. Bryan tinha matado doze mulheres sendo, que destas, ele estuprou quatro. Ele tinha prometido ser fiel ao seu amor. Tinha prometido vingar a morte de sua querida. Ele sabia que Bianca, onde quer que ela estivesse, condenaria suas ações. Mas um ano tinha se passado desde sua morte. No início das matanças, ele não sentia desejo algum por suas vítimas. Sempre concentrado em seu amor, em sua paixão eterna. Ele se lembra da única noite de amor que teve com Bianca. Quando sua boca passou por seus enormes seios enquanto sua mão tirava a calcinha por debaixo de sua saia. As mãos dele passando por suas coxas, a boca chupando os biquinhos dos seios. Ela gemia de prazer por seu homem. Pelo belo homem branco que a metia, cada vez mais... de forma devagar e ainda assim intensa.

***

A fera não sabia porque estava tendo aquelas lembranças. No entanto, ao ver o corpo de Mariângela, o alien sente o desejo, a vontade. Ele rasga a blusa da menina. A beleza dos seios dela salta aos olhos. Ele passa a língua, devagar e calmamente. A baba e a saliva se misturam nos seios de Mariângela.
- Não! Não! Não!
Ela sente que o monstro não a está agarrando com tanta força. É nessa hora, que Mariângela solta uma das mãos, agarra uma pedra pontiaguda e a acerta na testa do alien. Este solta a garota e recua. Mariângela se levanta e sai correndo. O monstro se recupera do golpe e virá-se na direção da menina. Ele estica o pênis, que se torna gigantesco, e atinge em cheio o meio das pernas de Mariângela, rasgando a bermuda desta.
- Ai! Ai! Ai! Ahhhhh...
Mariângela berra enquanto sente o monstro penetrar cada vez mais em sua vagina. O alien, por outro lado, grita de alegria e de prazer gozando no corpo da menina. No entanto, o esforço foi demais. E, enquanto mete cada vez mais em Mariângela, a pele começa a cair de seu corpo. Viciado no prazer, ele goza de novo. Não satisfeito, ele continua. Os gritos de dor se misturam aos de prazer. No fim, tudo o que resta é um esqueleto alienígena. Mariângela desmaia de tanta dor... e de tanto prazer.

***

O recém-nascido se lembra que os terráqueos não viam com bons olhos sua mãe. Eles encontraram o esqueleto do alien e presumiram que se tratava de um demônio. Por vários meses, ela e o irmão Rafael tiveram de se esconder da fúria e do preconceito do povo de Burralândia. Mariângela sofria em desespero os sintomas da gravidez. Os enjôos, os vômitos. A fome desesperadora que dominava-lhe o corpo. Todo o sacrifício, toda a dor por um ser que ela amava, embora fruto duma relação profana. O híbrido alienígena-humano tenta agarrar as cinzas de sua mãe. Acreditando docilmente que seus poderes possam rescussitá-la. No entanto, nada acontece.
- Queimem a criatura!
- Matem o demônio!
- Que você queime junto das cinzas de sua amaldiçoada mãe!
Este último grito, proferido pelo Padre Olavo, encheu a criatura de ódio. Ele tinha tido todas aquelas lembranças em um décimo de segundo. E agora, era a hora da vingança.
O alien grita em meio à multidão. Os plebeus jogam pedras contra a criatura. Ele estica as garras na direção dos homens e mulheres que o atacam e estraçalha seus corpos. Em seguida, virá-se na direção do Padre Olavo.
- Não! Não! Não! Não! Não!
A criatura, com fome, devora o sacerdote mordendo sua cabeça e aumentando de tamanho. Suas garras e dentes também cresciam enquanto comia o homem negro. Este homem de Deus que lutou tanto pela liberdade de seu povo do preconceito, do racismo, mas que se corrompeu com o poder concedido pelos plebeus, foi direto para o Inferno.
Os negros de Burralândia ficaram com ódio da criatura e começaram a atirar flechas contra o monstro, já com um metro e meio de altura. O híbrido desviá-se dos disparos e acerta suas garras contra os aldeões rasgando seus corpos.
- Matem a criatura!
- Exterminem o demônio
!- Ai!
- Não!
- Morte ao Anticristo! Aiiiii...
Os gritos de ódio e de dor ecoam por Burralândia. O híbrido vai devorando os corpos cada vez mais, crescendo e se tornando forte e rápido como um leão enfurecido.
- Atirem as flechas de fogo!
Os negros de Burralândia botam fogo na ponta das flechas e as atiram contra o monstro. A fera, já com dois metros de altura, abre sua enorme boca e engole as flechas. A energia do fogo alimenta seu organismo que cresce, cresce, até atingir dez metros de altura. A criatura abre a boca novamente e cospe fogo contra os aldeões. Os gritos destes são desesperadores. Logo, o incêndio se espalha e as casas explodem. O híbrido grita como se comemorasse a matança. Ele enfia as suas garras nos corpos já queimados dos plebeus e os devora como se estivesse num churrasco. E foi assim que o reino de Burralândia tornou-se o reino de Mortalândia. Porque, depois do ataque do monstro, nada mais vive no reino.

Na próxima edição:

Condenados por Amar!

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