Saturday, June 10, 2006

MORTOS

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA )


- Daniela! Daniela! Acorde Daniela!
Rafael tenta acordar sua amada, mas não consegue. A fera, por outro
lado, grita devido ao ferimento no braço esquerdo, o que assusta o
irmão de Mariângela.
No entanto, um restício das chamas absorvidas pelo monstro ainda
tinha restado no corpo do híbrido. O dedo esquerdo indicador da fera
começa a brilhar. Ela passa o dedo na ferida. O monstro grita de
dor enquanto cicatriza o ferimento. Rafael não acredita no que vê.
- Meu Deus do Céu! Que ser é esse que tem o toque que cura?! E que
devora seres humanos?!
Os olhos do monstro e de Rafael se cruzam novamente. O negro caminha
devagar na direção da fera e tocá-lhe a face. O carinho do tio deixa
o bicho feliz.
- Calma! Calma! Está tudo bem! Calma!
Ele está com uma expressão estranha! Pensa Rafael enquanto acaricia
o sobrinho. Será isso um sorriso?!
O momento de ternura é interrompido por um flashback que surge na
mente do monstro. Este levanta a cabeça para o alto e berra mais uma
vez. Assustado, Rafael se afasta da criatura e volta a acariciar
Daniela enquanto esta permanece inconsciente.

***

Ele vê a imagem. O ser. A fera. Fruto de um estupro praticado por
um alien contra uma humana. Um híbrido. Uma criatura de aparência
grotesca... mas de sentimentos bastante humanos.
Ao cravar os dentes na cabeça de John, o monstro chupou o sangue do
cérebro do irmão de David. O material genético misturá-se ao sangue
da criatura e esta descobre o motivo de John odiar tanto os negros.

***

Século XIII.

Um menino. Uma criança. Que idade John teria naquela época?!
Dez?! Onze anos?! A fera não sabia. Mas ela vê com os olhos de
John. As flores nascendo. Os capatazes chicoteando os escravos. As
plantações crescendo. O sangue dos escravos misturando-se aos pingos
da água que regava as plantas.
Ele vê David, seu irmão mais velho, escrevendo poemas para sua amada
Daniela no tempo em que eram namorados. Ele assiste o momento em que
David beija o papel e vê, desenhado neste, um coração com dois "ds"
maiúsculos em seu interior.
- D de David e D de Daniela!
O irmão, encantado com o primeiro amor, beija mais uma vez o papel.
O beijo traz uma lembrança. Algo escondido no coração da fera.

***

Século XXI.

O beijo. O suór. O sangue.
- Eu não quero! Eu não posso!
O jovem branco fez um santuário. Nele há flores, velas e a foto de
sua amada Bianca. Bryan Hoggan chora por ela. Lembrá-se de quando
se conheceram em uma danceteria. De como Bianca estava linda.
Os amigos tentaram afastá-lo dela, dizendo que ele era muita banana
para aquela "macaca". Mesmo assim, Bryan esperou a oportunidade. As
amigas de Bianca também a separavam daquele jovem afirmando que
brancos e negros não se misturavam.
Ele se lembra. Se recorda. Todos estavam bêbados demais para
intervir. Ele foi até ela.
- Oi!
Foi o que ele disse. E, ao ouvir Bryan, Bianca se virou para ele e o
olhou de uma forma tão terna que os dois passaram a sair juntos a
partir daquela noite.

***

- Eu jurei! Eu prometi que seria fiel a você até o fim da vida! E
assim o serei!
Ele se lembra de quando entregou o anel de noivado a Bianca. Os
olhos dela brilhavam tanto que ela o abraçou e os dois dormiram
juntos naquela noite.
- Eu vou cumprir minha promessa!
Atrás de Bryan, acorrentada com o corpo no ar, encontrá-se uma mulher
loira e de seios enormes.
Bryan se levanta e se aproxima da mulher desacordada. Ele olha para
o sangue que escorre pela boca. O corpo nu excita Bryan que tenta se
conter. Ele pega uma caneca e joga água no rosto da mulher loira.
- Cof! Cof! O quê?! O que estou fazendo aqui?! O que você quer
comigo?! O que você quer comigo?! Não! Não! Não! Não!
- Você se acha superior porque é branca, não é?!
Bryan fala enquanto esbofeteia a mulher.
- Vocês sempre se acham acima de tudo e de todos, não é?! Não é?!
- Não! Não! Não! Socorro! Socorro! Alguém me ajude! Não!
- Não esperava que um homem branco como eu pudesse ser um assassino,
não é?!
- Não! Não! Não! Socorro! Socorro!
- Achou que um negro seria capaz de tal feito, não é?!
Bryan pára de bater na mulher. É quando ele vê o sangue escorrendo
pelos belos seios dela e se excita.
- Cara, eu não tenho nada contra os negros! Agora, por favor, me
tira daqui! Eu não agüento mais! Me tira daqui! Me tira daqui!
Ele vê o corpo belo da mulher molhado de sangue e não agüenta. Não
suporta. Antes de Bianca, ele já tinha transado com outras. Nunca
foi fiel a nenhuma das namoradas. Mas, quando encontrou Bianca,
descobriu o amor de sua vida, a mulher de seus sonhos. E foi fiel...
até aquele momento.
- Não! Não! Não! Não! Socorro! Não! Não! Não! Ahhhh...
A mulher grita enquanto Bryan, de calças arriadas, beija seus seios e
a estupra.

***

Fidelidade. Tentação. Brancos e negros. John escuta os gritos. A
mulher não pára de berrar enquanto sente o homem penetrar nela. Ele
corre. Vai até o estábulo e abre a porta. A escuridão do lugar é
preenchida pela luz. Ele vê Bryan estuprar a mulher. Aí, a imagem
muda. O que era oculto pelas trevas é descoberto. John vê seu pai e
uma escrava nús, após cometerem o ato sexual.
- O que está olhando?! Berra Hochfield revoltado. Feche já essa
porta! Feche já essa porta!
- O senhor não pode trair a minha mãe dessa maneira! Não pode!
- Eu sou o Barão Hochfield, moleque! Ninguém me diz o que eu devo ou
não fazer!
- Isso é pecado! O senhor não pode...
- Não me irrite, seu fedelho!
O Barão esbofeteia o filho. Bryan esbofeteia uma vez mais a mulher
depois de estuprá-la.
- Agora, vai pagar por todo o racismo! Por toda a perseguição que os
brancos impuseram aos negros durante todos esses anos!
- Não! Não! Não! Aiiiiii...
O cenário muda. John, com quinze anos, acorrenta a escrava amante do
pai no tronco.
- Agora vai pagar pelo crime que cometeu contra Deus e contra a minha
mãe!
- Sinhozinho, eu não tive culpa! Seu pai é meu dono e eu não posso
fazer nada!
- Vai pagar! Vai pagar... em nome de Deus e da Santa Igreja...
Bryan tira a faca do bolso:
- Eu nome da liberdade...
- ... eu condeno você... Fala John enquanto pega um balde.
- ... a ser punida... Diz Bryan arrancando a pele dos dedos das mãos
da mulher.
- Ai! Grita a mulher.
- ... pelos crimes que a sua raça imunda cometeu! Diz John
derramando óleo fervente sobre a escrava.
O grito das duas mulheres ecoa através dos tempos. A pele da mulher
loira cai. E o corpo sem vida da escrava negra desaba atado ao tronco.
- Me perdoe! Diz Bryan virando-se para o altar e ajoelhando-se
perante ele. Me perdoe, Bianca! Por favor, eu te traí! Mas ainda
te amo! Ainda te amo, meu amor! E nem o racismo e a intolerância
vão nos separar! E eu juro... juro que continuarei a te vingar pelo
resto dos meus dias!
John virá-se de costas para o cadáver da escrava. Ele olha para o
alto e caminha dizendo:
- Por minha mãe! Por minha mãe! Por minha mãe!
***

- Por... minha... mãe!
- Meu Deus, o que é isso?!
Rafael sobressaltasse com o que vê. A fera tinha falado... com a voz
de John.
- Por... minha... mãe! Por... minha... mãe! Mãe! Mãe!
De repente a criatura começa a encolher. Suas garras e seus dentes
vão diminuindo. Rafael fica estupefato com a transformação que
ocorre diante de seus olhos. A pele azul torná-se humana. E o
monstro torná-se John.
- Não posso... acreditar!
- Mãe!
John olha para o alto enquanto as lágrimas escorrem de seus olhos.
Ele se lembra de Mariângela sendo queimada na fogueira. De quando
ela vomitou o filho para fora de seu corpo! Era como se ela dissesse:
- Vá meu filho! Eu vou morrer! Mas você continuará vivo!
- Mamãe!
John olha para Rafael.
- Ti... Ti... Titio! Eles mataram a minha mãe! Por... Por quê?!
- Eu... Eu também lamento muito o que ocorreu! Fala Rafael com
lágrimas nos olhos. Ela era minha irmã! E eu a amava muito, muito,
muito!
- Minha mãe... sua irmã!
- Sim! Ela foi condenada por não ter lhe dado um pai!
- Papai?!
Então, a imagem de Hochfield nú com a escrava aparece de novo na
mente de John. Ele vê a surra que o pai lhe deu por ter matado a
escrava.
A expressão de John muda para o mais puro ódio.
- Ele traiu... minha mãe! Me bateu!
- Quem?! Quem traiu sua mãe?! Quem te bateu?!
- Ele pagará... pelo que fez... a mim... e a minha mãe!
John entra na floresta e se vai. As memórias do monstro e do irmão
de David se chocam na mente da fera. Confusa, a criatura parte para
se vingar de um homem que nunca lhe fez mal.

Na próxima edição: Dente e Garra

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