Saturday, June 10, 2006

DENTE E GARRA

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)


No reino de Brancalândia, o caos é total. Os poucos guardas que
sobreviveram à chuva de fogo que caiu sobre a cidade, retiram água do
rio para apagar os últimos focos de incêndio. Uma imensa procissão é
feita para enterrar os mortos. Homens, mulheres, crianças, velhos,
jovens, brancos e negros. Ricos e pobres. A morte não escolhe
idade, sexo ou cor. A única diferença é que os nobres são enterrados
com todo o luxo e pompa que o dinheiro pode comprar. Enquanto que os
plebeus, na sua imensa maioria, são enterrados como indigentes por
não terem como pagar uma cerimônia decente.
Há poucos médicos para atenderem os feridos, o que aumenta o número
de mortos, cegos e aleijados. A grande maioria dos médicos tentava
salvar a vida do Rei Richard I, que estava dentro da torre que se
partiu em duas com o impacto de uma bola de fogo. O topo da torre
caiu no meio do pátio do palácio. O imperador não chegou a ser
atingido pelas chamas. Mas uma chuva de tijolos chegou a cair
pesadamente sobre seu corpo que agora se encontrava completamente
ensangüentado.
Richard I implantara uma política de segregação racial em
Brancalândia. O rei herdara da família, além da fortuna, os valores
preconceituosos e intolerantes que foram passados de geração a
geração. Ela não entendia. A rainha Elizabete não compreendia
tamanho ódio e perseguição contra uma raça que nunca lhe fizera mal
algum.
- Será possível, Elizabete?! Será que você não percebe que esses
negros são a base de nossa economia?! Que sem eles, nós não
sobreviveríamos?!
- Compreendo, meu rei! Mas para quê tantos maus-tratos?! Para quê
tanta tortura?! Tanto castigo a esses pobres inocentes cujo único
crime foi terem nascido negros?!
- Eles são animais! Não passam dum bando de macacos! E lugar de
macaco é na jaula, Elizabete!
- Não! Eles são seres humanos! Seres... humanos!
As idéias abolicionistas da rainha de Brancalândia contrastavam com
os princípios da família de Richard I. A mulher que o avô de Daniela
escolhera para o seu filho era imperfeita como os negros escravizados
pela nação. Richard I poderia anular o casamento a qualquer momento
se quisesse. Mas aí surgiu Daniela. No dia do nascimento da menina,
Richard I se sentia o homem mais feliz do mundo. A brancura da pele
de Daniela. Seus olhos azuis e seus poucos cabelos loiros fizeram
Richard I chorar de tanta emoção.
- Que pele mais branca! Tão pura! Veja, Elizabete, na há uma só
mancha no corpo do nenê! Oh, Daniela! Daniela! Daniela! Bem-vinda
minha filha! Bem-vinda meu anjo!
Um dos pintores mais famosos daquele tempo desenhou o corpo do bebê
em pleno ar, com asas nas costas, em meio ao azul do céu e à brancura
das nuvens. Na cabeça do bebê havia a coroa do reino de Brancalândia
emitindo a luz que iluminava a Terra. Assim, o sol era a cabeça de
Daniela e o corpo era o reino de Brancalândia, abençoado pela
brancura da pele de seu povo.
- Daniela...
- Ele falou! Diz um dos médicos que cuidavam de Richard I. Está
voltando a si!
- Daniela... Minha filha... Tragam... minha filha!

***


Daniela,
Como és tão bela!
E como és formosa,
A brancura de tua pele
A vida renova!

Ele se lembra dos versos que fez para a amada quando lhe pediu em
noivado. David chora calado a possível perda de sua noiva. Era
inacreditável que Daniela pudesse ter sobrevivido à chuva de fogo.
Sem um apoio, sem ninguém que pudesse ajudá-la. E ela era tão
inocente, tão dócil, não sabia sequer se defender. Era mesmo
improvável que Daniela tenha sobrevivido.
- David, o que está fazendo?!
Os pensamentos do irmão de John são interrompidos pelas palavras de
Hochfield.
- Nada, pai! Só estava pensando...
- Em Daniela?!
- Isso!
- No seu irmão, que também está desaparecido, você não pensa, não
é?! Na sua mãe, que está chorando pela volta dele, também não, é
verdade?!
- É claro que também estou preocupado com John, papai!
- Pois se estivesse, não ficaria por aí, chorando pelos cantos
enquanto sua mãe sofre pela ausência de seu irmão!
- Temos poucos homens, pai! E a maioria dos poucos que restaram está
tentando apagar os últimos focos de incêndio!
- Balela!
- Ora, pai, o que quer que eu faça?!
- Que você seja o homem que eu criei. Que você monte em seu cavalo e
lidere um grupo de homens até Burralândia!
- Mas prá quê isso agora, pai?!
- A explosão veio de lá!
- Como é?! Mas eu pensei que a chuva de fogo vinha do céu!
- Foi o que eu também achava! Mas um dos empregados viu quando um
raio de fogo atingiu o céu. E foi aí que tudo começou! O céu ficou
vermelho com as chamas que depois caíram sobre a Terra!
- Do que desconfia, meu pai?!
- Aquele bando de pretos que mora em Burralândia não tem nada de
santo! Fizeram uma macumba, um feitiço para trazer as chamas do
Inferno prá Terra!
- Meu Deus, pai! Que horror! E o que quer que eu faça em
Burralândia?!
- Quero que você investigue o que aconteceu! E, dependendo de
conforme for, avise àquele padreco bruxo que o nosso trato está
desfeito! E que eu quero a outra metade das terras de Cagança!
- E se ele se recusar?!
Hochfield esboça um sorriso maligno.
- Vá até Brancalândia e avise ao rei que sua filha é prisioneira do
Padre Olavo!
- Mas pai... isso é mentira!
O Barão esbofeteia David.
- Não me questione! Agora vá... e cumpra as minhas ordens!
David olha tristemente para o pai.
- Antes vou me despedir de mamãe! Fala David indo, chorando, em
direção à capela onde Cristine se encontrava.
- Diga à sua mãe que você parte hoje mesmo para Burralândia a fim de
ver aonde seu irmão se enfiou!
- Sim! E pode ser que Daniela esteja com ele!
David esboça um sorriso.
- Está vendo como o seu pai pensa em tudo?! Agora vá cumprir minhas
ordens e nunca mais questione as palavras de seu pai!
- Sim, papai! Agora mesmo! Daniela! Daniela! Daniela!
Quando David se vai, o Barão Hochfield pensa:
Tô pouco me importando com aquela franguinha! Mas, assim que Richard
I souber que a princesinha dele está presa em Burralândia, eu quero
ver aquele padre crioulo peitar a guarda imperial e o meu exército de
jagunços juntos! E aí, Burralândia e as terras de Cagança serão
minhas! Rê! Rê! Rê! Rê! Rê!

***


- Ahhh... Ai! Não! Não! Não! Mamãe! Mamãe!
John caminha pela mata confuso e desmemoriado. Ele vê Mariângela
sendo queimada na fogueira por ser mãe solteira. Lembrá-se do
momento em que flagrou o pai tendo relações com uma escrava.
- Não! Mamãe! Estão matando a minha mãe! Não! Por quê?! Por quê?!
John chora enquanto bate a cabeça nas árvores. Ele não percebe que
uma alcatéia de lobos ferozes e famintos se aproxima. O jovem cai
numa planície. Ajoelhado, ele começa a chorar.
- Por quê?! Por que a minha mãe?! Por quê?!
Então, as imagens se mesclam. Mariângela e a escrava eram negras.
As duas mulheres se unem e John vê, em sua mente, Mariângela tento
relações com Hochfield.
- Não! Não! Não!
Um dos lobos aproximá-se do topo da planície e salta na direção de
John.
- Afaste-se dela!
Ele grita no momento em que estica o braço na direção do lobo.
Garras gigantescas surgem em sua mão e ele rasga o corpo do animal.
- Deus!
John recolhe as garras e sua mão volta ao normal. Ele começa a
lembrar-se de quem é. É quando os outros lobos saltam sobre ele e
começam a mordê-lo e a arranhá-lo.
- Ai! Ai! Ai! Não! Não! Não!
As garras e os dentes perfuram o corpo. Causam dor. Ele se lembra.
Recordá-se do poder. Os olhos tornam-se negros. A carne é arrancada
e uma pele azul surge no lugar da pele humana. O corpo de John
começa a crescer. Os músculos estufam. As garras surgem. Os dentes
e a boca crescem. O rosto de John rasga e a cara da fera surge
comendo a cabeça de um dos lobos. Suas garras gigantescas rasgam os
outros animais. Com dez metros de altura, o monstro se levanta com
dois dos lobos agarrados a seus braços pelos dentes. A fera grita.
Depois, abocanha um dos lobos desgrudando-o do braço. Em seguida, o
devora e cospe os ossos para bem longe.
Com o braço direito livre, ela agarra o outro lobo e desgarra-o do
membro esquerdo. O lobo morde o rosto da fera, que grita em agonia.
Ela estica a mão esquerda para o alto. E, com uma só garra no dedo
indicador ela mata o lobo. A garra atravessa o crânio do animal que
cai morto.
Pingos de sangue verde escorrem do rosto da fera. O chão fica
repleto de pêlos e pedaços dos lobos. O sangue verde misturá-se ao
sangue vermelho, formando uma ater-rorizante e perigosa mistura.

No próximo número: Viagem ao Reino de Mortalândia.

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