Saturday, June 10, 2006

CONDENADOS POR AMAR


( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)


Pele negra se mistura à pele branca. Os lábios do ex-escravo tocam a
boca da princesa. Ela sente os braços musculosos do amado apertarem
seu corpo enquanto ele penetra em sua vagina. Ele sente a boca de
sua amada encostar em seu ouvido, lambendo-o, chupando-o.
- Eu te amo!
A frase escapa dos lábios de ambos. Palavras simples que traduzem a
força dos sentimentos envolvidos numa relação. Ela é Daniela, filha
do Rei Richard I. Ele é Rafael, irmão da camponesa Mariângela. Os
dois se conheceram na fazenda do Barão Hochfield. Na época, Pedro e
os dois filhos trabalhavam como escravos do nobre. O Barão, apesar
do título, sempre defendeu o fim da escravidão, alegando que todos os
homens eram iguais independente da cor da pele.
Isto só na aparência. A família do Barão Hochfield, durante
gerações, sempre explorou os negros de forma implacável. No entanto,
a guerra civil entre os abolicionistas, liderados pelo Padre Olavo, e
os escravocratas, chefiados por Richard I, tomou proporções
territorialistas muito sérias. No lado leste de Brancalândia ficava
a terra preterida pelo Padre Olavo onde seria construído o futuro
reino de Burralândia. Só que aí havia um problema. Existia uma
região no meio dos dois reinos, intitulada de Cagança, onde a terra
era rica devido à bosta dos escravos que os fazendeiros usavam em
suas plantações. Com a criação e o reconhecimento do reino de
Burralândia, cerca de 84% da região de Cagança ficou sob o domínio
dos negros libertos.
Prevendo o desastre que iria ocorrer com a emancipação de
Burralândia, o Barão Hochfield libertou todos os seus escravos antes
mesmo da Abolição da Escravatura. É lógico que os fatos acima não
ocorreram da forma rápida como foram descritos. Tudo foi feito
mediante um acordo firmado entre o Padre Olavo e o Barão Hochfield,
sem o conhecimento popular. Em troca da liberdade dos escravos, o
Barão poderia explorar metade da terra de Cagança empregando
agricultores negros que agora não eram tratados como escravos. Mas,
em compensação, recebiam uma miséria pelo duro trabalho com a terra.
E é aí que entra a nossa história de amor. Daniela era noiva de
David, filho mais velho do Barão Hochfield. O acordo que este fez
com o Padre Olavo, sem o conhecimento do rei, irritou por demais
Richard I que rompeu o noivado. David, apaixonado por Daniela,
liderou um grupo de homens bem armados que raptou a princesa. Mais
um conflito foi criado. Daniela, fingindo ainda gostar de David,
aceitou de bom grado o seqüestro. A jovem tinha um motivo secreto.
Ela se apaixonara por um jovem ex-escravo que trabalhava como
agricultor nas terras de Hochfield. Rafael, por sua vez, assim que
cruzou seus olhos verdes com os olhos azuis de Daniela também se
apaixonou de cara pela princesa. Durante o noivado com David, a
filha de Richard I se encontrava às escondidas com Rafael no estábulo
da fazenda. E os dois ficaram namorando durante algum tempo.
Paralelamente a esses eventos, Pedro já tinha sido morto por um dos
aliens que chegaram à Terra e Mariângela também descobriu que estava
grávida. Como o Padre Olavo condenava a existência de mães solteiras
em Burralândia, Rafael e sua irmã tiveram de viver escondidos no
reino da "liberdade". A alienação crescente em relação à caça aos
filhos de Pedro favorecia ainda mais o Padre Olavo que enriquecia às
custas do trabalho do povo.
Daniela, passados alguns dias, aturando o babão do David ( que só
pensava no amor por sua bela princesa ) e a hipocrisia de Hochfield,
resolveu se encontrar às escondidas com seu amado Rafael. Este em
maus lençóis estava. Mariângela já tinha sido queimada na fogueira
após devorar uma criança e o amado de Daniela sentia que ele seria o
próximo a morrer por ter escondido a irmã do Tribunal da Inquisição.
Mas aí, o híbrido terráqueo-alienígena atacou a população local e
destruiu o reino de Burralândia. Rafael aproveitou o ataque de seu
sobrinho para fugir. Na floresta, encontrou Daniela e os dois foram
para uma caverna onde tiveram sua primeira noite de amor.
***

- Esse negrinho insolente abusou demais de sua liberdade!
A frase tinha sido proferida por John, irmão mais novo de David, que
já desconfiava que a princesa tinha um caso com Rafael.
- Como Daniela pôde trair o meu irmão com um ser inferior?! Ah, mas
ela vai pagar! Ah, se vai!
- Seu John, acho que a gente não pode fazer isso não! A menina é
filha do Rei Richard I! Se a gente matar ela...
- Essa rameira desonrou o pai ao deitar-se com esse... com esse
macaco! Não merece o título que ostenta e deve morrer... pela
Igreja... e pela pureza da nossa raça!
John e os três capatazes começam a queimar lenha ao redor da caverna
onde Rafael e Daniela estão dormindo. Olhos negros, em meio à
floresta, observam a cena.
- Hummm... Acorda Rafael com o cheiro da fumaça. Mas que cheiro é...
Daniela! Daniela! Acorde! Acorde!
- Mas... Meu Deus! Rafael, a caverna está pegando fogo!
Os dois se vestem e correm até a saída da caverna, mas um incêndio
explode na frente deles.
- Rafael, meu Deus!
Daniela se encolhe nos braços do amado. Por de trás das chamas, o
casal vê o rosto de John sorrindo.
- Eu condeno você, Daniela, a morrer na fogueira por ter se deitado
com um negro antes do casamento! E por ter traído o meu irmão! Você
cometeu um crime contra Deus e contra a santa raça branca!
- Eu sou a Princesa de Brancalândia, John! Grita Daniela se
desvencilhando dos braços de seu amado. Tenho privilégios reais!
Não posso ser queimada como uma qualquer!
- Você não tem direito a nada! Estamos nas terras de Burralândia e
seu pai não tem jurisdição aqui! Nessas terras, o meu pai é a lei!
E duvido que ele iria deixar passar uma traição dessas!
- Mas seu pai é um abolicionista, um defensor dos negros! Fala
Rafael. Tenho certeza de que ele iria compreender a situação!
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
- Por que ri?!
- Bem se vê que os habitantes de Burralândia não passam dum bando de
idiotas!
- O que disse?!
- Meu pai nunca ligou para sua raça imunda! Tudo o que ele queria
era a terra de Cagança! Aliás, você sabia que o Padre Olavo também
lucrou bastante com o acordo que fez com meu pai?!
Rafael fica estupefato com a história.
- Não pode ser! O Padre Olavo condenou a minha irmã pelo fato dela
ser uma mãe solteira! Mas daí a ele ser um...
- Um ladrão?! Um estelionatário?! Pois é isso o que o grande herói
de sua raça é! Um canalha!
- Seu pai também é um patife, John! Diz Daniela.
- Como é?!
- Ele também defendia a libertação dos escravos em troca de
dinheiro! Ele também é um ladrão, um bandido, um canalha como você
mesmo diz!
- Meu pai é branco! Não ouse compará-lo com aquele macaco!
- O roubo não escolhe a cor da pele!
- Meu pai é um santo homem!
- Seu pai é um bandido!
- Que você queime agora e para sempre nas chamas do Inferno, sua
maldita!
Os gritos são interrompidos pelo berro de um dos capangas de Jonh.
Garras gigantescas rasgam o corpo do homem que cospe o coração longe.
O híbrido surge na frente dos humanos.
- Meu Deus!
- Jesus Cristo, o que é isso?!
- É a macumba! Esses negros ficam fazendo rituais de feitiçaria a
fim de invocar demônios!
Rafael reconhece o ser que saiu da boca de Mariângela.
- Meu Deus do Céu, Rafael, o que é isso?! Pergunta Daniela se
agarrando a seu amado.
- Eu não sei, meu amor! Eu não sei!
Rafael sente o elo simbiótico entre ele e o híbrido. Mas não conta
nada a Daniela com medo que ela deixe de amá-lo. Afinal, a criatura
era horrível e assassina.
- Eu vou dar o fora daqui!
- Eu também!
- Voltem aqui, seus covardes! Não vêem que este é um demônio e nós,
como os filhos de Deus, devemos executá-lo?!
- Prefiro ser um filho de Deus vivo do que morto!
Os capatazes montam em seus cavalos e correm dali. John coloca um
crucifixo no pescoço e tira uma espada da bainha.
O monstro recolhe as garras e se vira na direção de Jonh, que avança
contra a criatura de espada em punho.
- Venha demônio! Venha me enfrentar! Eu sou um filho de Deus e nada
temo do Inferno!
- Ai, meu Deus, Rafael! Eu tô com medo!
- Calma, meu amor! Calma! Tudo vai se resolver!
Daniela encolhe o rosto e chora. Rafael aproximá-se das chamas para
ver o que acontece.
- Vamos! Me enfrente! Encare a ira de Deus!
Jonh faz um corte no braço direito da criatura. O monstro berra em
agonia. Depois, crava os dentes na cabeça de John e o devora.
***

- Minha nossa Senhora!
Rafael e Daniela assistem apavorados o monstro comer o corpo de
Jonh. A criatura termina de devorar o irmão de David e passa a
língua pela boca a fim de limpar o sangue. Em seguida, ela se vira
na direção de Rafael e Daniela. A jovem princesa se afasta com
medo. Rafael, por outro lado, não foge do monstro.
O híbrido terráqueo-alienígena tinha dez metros de altura, pele azul,
dentes e garras enormes. Os olhos negros da criatura fixam-se nos
olhos verdes de Rafael. O monstro reconhece o parente. Lembrá-se de
quando ele viveu escondido com sua mãe, fugindo do povo de
Burralândia. O híbrido se recorda de Mariângela acariciando a
própria barriga com tanto amor. Ela tinha acabado de devorar uma
criança a fim de alimentar a fome do filho. Mariângela chupava um
dos ossos da criança quando os guardas do Padre Olavo finalmente a
encontraram.
A prisão. O julgamento. A tortura. A morte. O monstro revive a
dor das pedras arremessadas pelo povo, acertando o rosto e a barriga
de Mariângela. Depois, as chamas consumindo o corpo da irmã de
Rafael. Os gritos e o desespero de Mariângela enchem o coração da
fera de agonia. O monstro começa a gritar e a balançar o corpo de
tanta tristeza. Daniela não pára de gritar também, com medo do que
possa ocorrer. Rafael não. Ele percebe que há algo errado com seu
sobrinho e o chama:
- Nos ajude!
A fera se vira na direção do casal, parando de gritar. Ela vê as
chamas se aproximando de seu tio. As mesmas chamas que mataram sua
mãe. Ele não pode. Não vai permitir que outro parente seu morra
vítima do incêndio divino.
O monstro inspira todo o fogo pelo nariz. Daniela olha impressionada
para a criatura. Rafael diz:
- Obrigado!
A fera olha para o tio com tristeza. Ela gostaria de ser como ele.
De ter o dom da fala. Mas não adianta. Suas tentativas de falar
tornam-se grunhidos aterrorizantes, assustando mais ainda Daniela.
Os gritos aumentam de timbre. Tornam-se berros. Alguma coisa
angustia por demais o monstro no interior de seu corpo. E Rafael vê
a barriga da criatura brilhar devido às chamas que ela absorveu.
O monstro olha para o alto. Abre a boca enorme e dispara uma rajada
de fogo contra o céu. Este torná-se vermelho tamanha é a potência da
rajada.
***

Fazenda dos Hochfield. No quarto do Barão, a Baronesa Cristine
acorda com o barulho das chamas. Ela se levanta da cama. Hochfield
continua dormindo. Cristine vai até a janela e agarra o crucifixo.
- Virgem Maria!
A mulher fica pálida ao ver o céu vermelho e pensa que o apocalipse
chegou.
***

Castelo de Richard I, onde, de uma torre, o rei também vê o céu
vermelho e arrisca um palpite ignorante:
- É nisso que dá libertar esse bando de macacos! Agora, eles fazem a
sua feitiçaria para amaldiçoar o meu reino! Macumbeiros duma figa!
De repente a força da gravidade se impõe sobre o fogo. A criatura
pára de disparar a rajada. É quando uma chuva de chamas cai sobre a
vila de Brancalândia. Os plebeus correm desesperados, tentando
escapar do que parece ser uma maldição do Inferno. A carne das
pessoas queima enquanto estas gritam em agonia. As casas explodem.
Pedaços de tijolos, em chamas, atingem aqueles que não são acertados
pelo fogo que vem do céu.
O Rei Richard I olha para baixo. E se impressiona. Brancos e negros
morrem em meio ao incêndio que se espalha.
- Mas isso não pode ser! Será que além de burros, os negros também
são desunidos?!
Naquele momento uma bola de fogo aproximou-se da torre onde o rei se
encontrava.
- Não! Não! Não!
A bola de fogo acerta a torre, abaixo do lugar onde Richard I se
encontrava. A torre quebrou no meio e o lugar onde o rei estava caiu
dentro do pátio do palácio. Guardas e médicos correm até o local da
queda a fim de socorrerem o imperador enquanto o povo morre queimado.
***
E, na fazenda do Barão Hochfield, as chamas atingem as plantações da
terra de Cagança. Os poucos agricultores que foram trabalhar morrem
queimados. David, montado em um cavalo, desviá-se das chamas. O
filho de Hochfield vê quando uma bola de fogo começa a cair na
direção da casa de seus pais.
- Mamãe! Papai! Saiam da casa! Mamãe! Papai! Saiam da casa!
Ele cavalga na direção da casa enquanto grita alertando Cristine da
tragédia iminente. A mãe de Jonh e de David se desespera ao ver este
correr na direção da casa enquanto bolas de fogo caem por de trás
dele.
- David! David! David!
- Mãe, a casa vai explodir! Saia da casa! Saia da casa! Saia da
casa!
Os gritos do filho e a movimentação dos empregados dentro da casa
alertam Cristine e acordam Hochfield.
- Meu Deus!
- Cristine, temos que ir embora daqui!
- Mas, querido, e as minhas jóias?! E os meus tapetes?!
- Cristine, a casa vai pegar fogo! Temos de ir embora!
Todos os empregados já tinham saído da casa. David chega e coloca os
pais na garupa do cavalo. Os três escapam no momento em que a bola
de fogo atinge em cheio a casa dos Hochfield. O lugar explode.
Quando a chuva de chamas termina, Cristine abraça David chorando.
- Oh, meu filho! Oh, meu menino! Eu tive tanto medo de te perder!
- E eu também mamãe! Eu também!
Enquanto abraça a mãe, David se lembra de Daniela que tinha saído
antes de começar a chuva de fogo.
Ela morreu! Ele pensa chorando. Minha noiva! A mulher que eu
amava... morreu!
- Não! Não! Não!
A dor no coração de David era imensa. Seu amor por Daniela era
intenso. Mas, um outro grito de dor irrompe em meio à tragédia.
- Minha plantação! Minhas terras! Não pode ser! Não pode ser!
Hochfield avista a metade da terra de Cagança. A terra que foi alvo
de tanta disputa e cobiça... agora não passava duma enorme cratera
fumegante.
Enquanto isso, a quilômetros dali, a fera abre os braços e emite um
urro de alívio que ecoa pela floresta em chamas.
Daniela não agüenta tamanho horror e desmaia.


Na próxima edição: MORTOS

0 Comments:

Post a Comment

<< Home