Thursday, March 09, 2006

SONHOS SANGRENTOS

ESTÁGIO CINCO

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)
A chuva cai sobre meu corpo, mas eu não sinto frio.
Meu corpo está aquecido.
O calor vem do sangue que chupei de minhas vítimas.
Minha boca está molhada de sangue.
De meus olhos caem lágrimas e escorrem pingos de chuva.
Ao meu lado, amontoados uns sobre os outros, os cadáveres apodrecem.
Eu choro.
Eu não queria isso.
Não era essa a vida que eu planejei, mas minha fome era imensa.
Eu precisava, necessitava do sangue daquelas pessoas.
***
- Que casa maravilhosa, amor!
- É, depois que eles pintaram, ela ficou linda, não é querida?
- Sim! Mas ela só não é mais bonita do que seus olhos meu amor!
O casal se beija. A criança no colo da mulher começa a chorar, interrompendo o momento romântico. Era como se ela sentisse a minha presença por perto, prestes a atacar, a fome quase que saltando dos olhos.
- Calma, neném! Calma!
A mulher leva o bebê para o berço. O homem fica todo bobo só de vê-los. A mulher que ele ama, o filho que eles sempre quiseram ter. É pena que tenha de acabar tão cedo.
- Ahhh...
Ele grita assim que eu arrombo a porta e entro na casa. Avanço para cima do homem e mordo seu pescoço. O sangue dele era delicioso e quente. A mulher sai do quarto e grita no momento em que o corpo de seu marido cai de meus braços.
- Não! Não! Não! Não!
Ela corre.
Eu me transformo em morcego e vôo atrás dela. Quando a mordo no pescoço o grito quase sai da garganta como um gemido:
- Meu bebê...
Ela não correu para se salvar, mas sim para pegar a criança. Eu sugo todo o seu sangue já transformada em vampira. Ouço o choro do bebê. É como se ele sentisse que os pais estão mortos. Que toda a proteção que ele tinha neste mundo se foi para sempre. Pobre criança. Eu sempre tive meu pai e minha mãe para cuidarem de mim. Nunca me faltou nada. No entanto, o amor que eu sentia por meu amado foi incompreendido por meu pai. Este não me via como filha, mas como mulher. Tentou me estuprar, mas acabou me matando.
É uma dor terrível a que eu sinto. Aquele que me ajudou a dar os primeiros passos, a andar de bicicleta, a sorrir, a chorar, a ler e a escrever, tentou me estuprar. Eu me levanto depois de matar a mulher e caminho em direção ao berço. A criança não pára de chorar. Não. Ela jamais terá os pais que eu tive. Jamais terá a boa educação que eu tive. O carinho dos meus pais. O amor deles. Eu fui vítima da violência na adolescência. Não se compara à essa pobre criança, que foi vitimada na infância. Eu penso então que o sofrimento, que a dor dela é infinitesimal perto da minha. Eu tinha tudo e um dia, um crime me tirou a vida. Essa criança nem saberá o que é sentir o beijo da mãe. O carinho do pai. É terrível a vida que espera por ela. Então, eu choro. Eu não queria nada disso. Não queria ter matado os pais dessa criança. Mas a fome que eu sinto é terrível. Não dá para segurar. A criança chora. Ela perdeu os pais ainda bebê e eu sou a responsável. Mas o que será dessa criança quando crescer, hem? Será que se tornará um adulto reprimido, com medo de tudo e de todos. Achando que um vampiro possa estar no meio dessas pessoas e, por isso, considerar que deve se afastar delas. Tornar-se-á um misantropo, alheio ao que ocorre no mundo, sem poder trabalhar com medo de ser morto por seus colegas ou seu chefe. Sem poder amar com medo que o parceiro seja um vampiro também. Morrerá na miséria e na solidão em nome desse medo, sem nunca ter amado... sem nunca ter parido.
Ou então revoltar-se-á contra o mundo que matou seus pais. E se tornará um criminoso. Dedicará sua vida a matar as pessoas, a vender drogas para enriquecer. Quantas pessoas morrerão por suas mãos?! Quantas vítimas você fará com o veneno que vender?! E ainda assim não será suficiente! Irá abandonar sua vida na orgia e engravidará mulheres! As mães solteiras crescerão pelo mundo com a sua maldita semente! Milhares de crianças sem pai crescerão com ódio e revolta e se tornarão criminosas como você! É a reprodução da desigualdade! Violência gerando violência! Ódio conduzindo ao ódio!
Então, criança, decidi que você não merece viver! Eu abro a boca e mostro os dentes. O bebê chora ainda mais! Quando eu cravo os dentes nele, um espirro de sangue salta de dentro do berço e suja a parede atrás de mim!
***
O pênis dele roça em minha vagina. Eu o conheci em uma danceteria. Ele me olhou, nós conversamos, falamos da vida, ele disse o seu nome, eu disse o meu. Nada que me comprometesse. Ele falou que os pais se odiavam por causa da fortuna de seu genitor. O dinheiro poderia ser uma razão para uni-los, mas não. Sua mãe gastava o dinheiro do pai em futilidades e só tinha tempo para suas amigas e para o luxo da sociedade. Seu pai não via mais prazer na vida, a não ser na bebida.
Um casal unido para os outros e separado na vida íntima. Ele sofria por isso?! Ele dizia que não, mas eu sentia o contrário. Aquele belo e divertido jovem ainda tinha amargura no coração... e a esperança vazia de um dia ver o pai e a mãe juntos novamente. Talvez seja por saber lá no fundo que essa esperança era vazia que ele teve seus primeiros contatos com a heroína. Droga injetável, cuja seringa não esterilizada pode transmitir a AIDS. Ele se importa com isso?! Creio que não! Afinal, de que vale a vida se aquilo que nos originou apodreceu?! Se a razão de nossa existência não existe mais?! O que une um homem e uma mulher numa cama é o desejo! Mas o que faz ambos terem um filho é o amor! E quando esse amor se vai, o que será dessa criança quando crescer?! Quais os sonhos e esperanças que a aguardam quando o pai e a mãe protetores não suportam sequer se olhar?!
Quando eu falo para ele que meu pai morreu e que minha mãe me odeia, seus olhos parecem brilhar de tristeza! Eu não preciso falar dos detalhes da minha vida! Ele compreende que meu pai tentou me estuprar e que eu tive de matá-lo! Ele não me julga! Ao contrário, sente que somos almas gêmeas! Isso, em parte, é verdadeiro! Mas não é no todo! A alma dele ainda está viva, mergulhando em direção à morte com a ajuda das drogas! Já a minha alma está morta!Nós vamos a um motel! Dez horas de sexo regadas a champanhe! Esse homem é muito rico! Não é como os mendigos que perambulam a Praça Tiradentes e pedem esmolas próximos ao Teatro João Caetano! Nem como as prostitutas que se vendem no ponto final do 391! Não! Ele é rico, poderoso, tem carro importado, celular e até computador de bolso! Ele faz parte da elite endinheirada e de bem com a vida! A elite que explora os trabalhadores! Que demite os pobres sem piedade! Que tira o sustento de pais de família! Ele me quer! Ele me beija e se entrega!
Eu sinto sua boca em meu pescoço! Deslizando pelos meus seios, pelas minhas coxas! Ele só pensa na dor de seus pais, unidos pelo matrimônio, separados pela antipatia! Eu sinto o pênis dele penetrando em mim, cada vez mais! O garoto é lindo e eu me deixo levar pelo prazer! Os dois corpos nus se roçando na cama provocam um calor intenso! O problema é que ele adora se drogar depois de cada transa!
- Ahhh...Ele geme quando a agulha perfura sua veia e pergunta se eu também quero. Eu digo "não". A substância daquela droga pode envenenar minha corrente sangüínea e me destruir! Eu digo que meu lema é ter um corpo e uma saúde perfeitos. Ele insiste. Então eu saio falando que não quero. O jovem fica furioso. Ele aproveita que eu me arrumo de costas e enfia a agulha na minha bunda.
- Ahhh...Eu grito transformando-me em vampira.
- Ahh... Ele berra apavorado.
- Seu idiota! Eu disse que não queria!
Tiro a injeção da minha bunda e avanço contra ele. Mordo seu pescoço e chupo seu sangue. Ele cai morto na cama. Que pena. Ele era tão bom de cama que quase me deu vontade de poupá-lo. E tão bonito... tão espetacularmente belo que... por um instante, uma tentação que eu já tive antes me domina.
Eu estou há muito tempo sozinha desde que voltei prá Terra. Carente, sedenta por sexo! Minha sorte é que ele só teve tempo de me espetar! O líquido ainda não tinha sido inserido em minha corrente sangüínea! Bom! Isso me dá tempo de admirar o seu corpo antes de partir! Mas eu fiquei tempo demais no quarto! A carência por sexo é imensa! Eu o desejo! O quero! Eu não pretendia! O meu plano era ficar alguns segundos admirando o corpo daquele belo jovem e depois partir! Mas os segundos viraram minutos! E, então, fiz o que aprendi lendo velhos livros de magia!
Quebrei uma garrafa de champanhe numa mesa. Em seguida, peguei um dos cacos e cortei meu pulso direito com ele. Abri a boca do cadáver e pinguei meu sangue em sua garganta! Dizem que o sangue de um vampiro transforma um morto em outro vampiro! Mas já se passaram dez minutos e nada! A fraqueza foi tomando conta do meu corpo! Mas eu precisava, ainda queria uma última transa! Vamos, homem! Acorde! Venha para mim! Venha para mim!
Súbito, ele avança contra meu pulso e chupa de forma mais selvagem o meu sangue! O homem renasce! O frio do túmulo é substituído pelo calor do desejo! Eu sorrio feliz! Mas ele está chupando sangue demais! Demais! Eu sinto o frio! Cada vez mais! Pare! Pare agora mesmo! Pare! Pare!
Eu soco seu rosto e o afasto do meu pulso! Sem entender o que está havendo, a criatura só tem sede de mais sangue! Mais! Mais! Eu preciso de mais!
Foi nessa hora que eu senti que ele ainda estava muito fraco para me atacar! Então espalhei meu sangue pela boca, pelo queixo, pelo pescoço, pelos seios, pela vagina, pelas coxas! Breve, todo o meu corpo estava sujo de sangue! E eu falei:
- Vem! Vem me chupar!
Antes do ataque dele, cicatrizei o ferimento no pulso com a pedra. Em seguida, senti a boca dele na minha, no meu queixo, deslizando pelo pescoço e pelos seios. Comecei então a gritar de prazer ao sentir seus beijos e seu corpo dentro de mim! O sangue vermelho misturava-se ao sangue branco do gozo! Nunca senti tanto prazer! Foi maravilhoso!
Então, derrubei seu corpo na cama e fiquei sobre ele, de pernas abertas, sentindo-o dentro de mim! Foi quando ele falou:
- A injeção! Eu preciso da injeção!
- Não!
- Sim!
- Não! Você não precisa de nada! Você é imortal agora!
- Mas eu quero...
- Não! Você vai ficar comigo! Comigo, entendeu?! Olha! Olha pros seus dentes! Olha pros meus dentes! Vê! Você vê?! Está vendo?! Você renasceu... como eu! Você e eu somos iguais agora! Lá na boate, você me disse que nós éramos iguais! Eu menti dizendo que concordava, mas sabia que era errado! Agora, nós somos iguais! Nós somos carne da mesma carne! Sangue do mesmo sangue!
- Então, seja como eu!
- O que?!
- Agora eu sou como você, sedento por sangue!
E foi nessa hora, que eu senti o pênis dele entrar com mais intensidade em minha vagina.
- Somos criaturas sedentas por sangue! Mas você não é como eu! Não tem o mesmo poder que eu tenho!
- Ahhh...
- Quando você ver o que eu vejo toda vez que injeto a droga na veia...
- Não! Ahhh... Isso é idiotice! Ahhh... Ahhh...
- Ahh...
E nós transávamos cada vez mais.
- Vocês, humanos são tolos! Criam lendas a respeito de criaturas das trevas! Que nós somos amaldiçoados pela necessidade de chupar o sangue dos mortais! Mas esse sangue! Ahhh...
E eu o mordi novamente.
- Ahhh...
- Esse sangue é o sangue da imortalidade! O sangue profano da imortalidade! Somos viciados nele para continuarmos vivos! Enquanto vocês criam substâncias que viciam para a morte!
- Ahhh...
Nessa hora, eu senti o gozo em meu corpo enquanto o sangue escorria da garganta dele.
- Vocês são tolos! Essa droga envenena até demônios! Por isso, meu amor...
- Não!
- Sinto muito, mas você não merece estar entre os imortais!
- Não! Mais uma dose...
- Iahhhh...
Agarrei-o pelo rosto e forcei a cabeça para o lado, quebrando seu pescoço.
Ele ainda não estava morto. Por isso, peguei a pedra e a cravei em seu coração. O grito dele foi desesperador enquanto sua alma era sugada para as profundezas do Inferno.
***
"Assassinado filho de industrial".
Veja este jovem.
Veja esta vida.
Um garoto que nasceu com tudo para ter uma vida melhor.
Assassinado. Esfaqueado com uma lasca da Pedra Filosofal. Morto por uma vampira! A polícia já fez os exames com as marcas dos dentes que deixei na vítima. A pista os levou ao necrotério onde descobriram meu antigo corpo. Ao averiguarem que a arcada dentária pertencia a uma defunta, os legistas consideraram que o assassino é um dentista ou alguém da área odontológica que retirou os dentes da morta para cometer um assassinato. Mas o gerente do motel declarou que uma mulher subiu até uma suíte junto com a vítima antes dela ser assassinada. O dentista do rapaz era um homem. Travesti?
É provável que sim, dizem os investigadores. Acontece que o dentista é um pai de família sem antecedentes criminais. A não ser que ele tivesse um caso com a vítima e matou o rapaz por ciúmes. Não havia provas de que isso era verdade. E, na noite do assassinato, o dentista tinha ido jantar fora com sua esposa e suas duas filhas. O gerente do restaurante onde eles tinham estado confirmou a informação. A polícia buscou então um outro foco. O gerente do motel falou de uma mulher. Ele declarou não a ter visto descer da suíte e nem chegou a vê-la sair do estabelecimento. Rapidamente, os policiais buscaram alguma pista de que houvesse uma entrada secreta na suíte por onde a suposta assassina possa ter saído. Não deu em nada. Não existia entrada secreta. Mas o fato do principal suspeito do crime ser uma mulher levantou uma outra hipótese.
Duas semanas antes do crime, o jovem tinha brigado feio com uma mulher com quem saía. Os dois não eram namorados, nem amantes e nem noivos. Só saíam por mero prazer. As pessoas que escutaram a discussão que eles tiveram em uma danceteria disseram que ela queria ter um compromisso sério com ele, mas este não queria. A jovem disse que os pais a estavam pressionando a dar um jeito naquela situação e que o amava muito. Mas o rapaz achava que o pai da moça, dono de uma rede de padarias, só queria aumentar ainda mais a sua fortuna com o casamento dos dois. O jovem dizia que o dinheiro herdado por seus pais, quando estes morressem, seria dele e só dele. Uma vez que estes não se amavam mais e também não lhe davam mais carinho, a única coisa que lhe importava ter deles era o seu dinheiro.
Diante dessa situação, a polícia trabalhou com duas hipóteses. Ou a garota mandou uma mulher seduzir e matar o jovem, ou a própria garota, disfarçada de outra pessoa, o matou com suas próprias mãos. Isto porque a descrição da mulher dada pelo gerente era de uma fisionomia completamente diferente da jovem com quem o rapaz saía. A polícia começou então a desconfiar que o gerente e os funcionários do motel eram cúmplices no assassinato do rapaz. Mas não havia provas quanto a isso.
As famílias do rapaz assassinado e da principal suspeita do crime, por outro lado, entraram numa verdadeira guerra. A polícia passou a ser pressionada pelos dois lados a resolver o mistério que envolvia aquele assassinato. A moça então confessou que o rapaz era viciado em drogas. A família do jovem entrou com um processo na Justiça contra ela. Mas os advogados da família da moça arrolaram testemunhas, filhos de outras famílias "nobres" da alta sociedade, e elas declararam que o rapaz assassinado realmente era viciado em heroína.Isso caiu como uma bomba contra a polícia. Os pais do rapaz subornaram os policiais para que estes não declarassem à Imprensa que havia vestígios da citada droga na suíte onde o filho foi assassinado. E o gerente disse aos repórteres que, ao contrário do que os investigadores declararam, foram encontradas sim seringas contendo heroína na suíte. A mídia agora volta sua atenção para que a polícia investigue porque os policiais responsáveis pelo caso não declararam à Imprensa que a vítima era viciada em drogas.
Tudo isso ocorreu em menos de 24 horas. Os mendigos que eu mato nos becos dessa cidade mesmo não foram sequer sepultados. Incrível como o Brasil trata os mortos pobres dos mortos ricos.
***
Mas o que?
Sinto que alguém me observava enquanto eu lia o jornal. Mas seja quem for, já se foi. Bom, sorte a minha que agora a polícia está super-ocupada investigando a corrupção dentro dela e a mídia não deu mais atenção ao meu crime. Tenho de ser cuidadosa. Da próxima vez que sugar o sangue de uma pessoa rica, tenho de devorar o corpo para não deixar vestígios.

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