Thursday, March 09, 2006

SONHOS SANGRENTOS


ESTÁGIO QUATRO

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

Nós fomos para o antigo apartamento de Bernardo. Foi lá onde toda a sua família, inclusive ele, foram assassinados. A irmã de Bernardo se envolveu com o padre local e o pai não permitia o seu romance com o sacerdote. Enlouquecida de paixão, a jovem enve-nenou toda a família. É claro que não foi só a paixão que a motivou. Com a morte dos pais, ela herdou a fortuna deles e passou a ser independente. O padre largou a batina e, apaixonado pela jovem, casou-se com ela.Sinto que ele a amava mais do que ela. Os pensamentos de Bernardo estavam muito confusos em minha mente. Eu a vejo, acobertando o romance dele com Marcelo e ele fazendo o mesmo com ela e o pároco. Sinto que o sacerdote foi o primeiro homem dessa menina. E que ela, numa mistura de perversidade e amor, matou os pais para ficar com o homem que adorava.Quando chegamos no apartamento, imediatamente tiramos a roupa. Bernardo amava muito Marcelo. Minha sorte é que quando eles faziam sexo anal, este era o passivo e aquele o ativo. A chuva ameaça cair novamente. Eu sinto então Bernardo penetrar em mim, beijar meu pescoço, minha boca. Ouço os gemidos dele no meu ouvido. Esta é uma relação bem profana. Dois demônios transando. Sendo que apenas um deles ama o outro. O outro demônio é uma vampira disfarçada. A dor. Eu sinto a dor em meu ânus. Como dói. Ahhh...
***
Dia seguinte.
Eu acordo. E já transformada em mulher. Me assusto, mas Bernardo ainda está dormindo. Tudo bem. Dormir. Imagine. Um demônio dormindo. Mas acho que Bernardo está tentando aproveitar o momento para tornar-se humano. Incrível. Os humanos querem ser imortais e os imortais querem ser humanos. O que ninguém entende é que tudo tem seu preço. Eu detesto ter os poderes que tenho pois sei que por causa deles só posso andar de dia se estiver com uma pedra no bolso. É terrível viver assim. E acho que já sei porque voltei à forma feminina.Enquanto me visto, sinto que já é dia. E, embora as cortinas do quarto de Bernardo não permitam a entrada da luz, o poder desta enfraquece meus poderes. Mas onde está a pedra? Eu começo a procurá-la desesperadamente por todo o apartamento e não a encontro. Súbito, abro sem querer uma porta e descubro um altar improvisado. Isto só quer dizer que a irmã de Bernardo e o ex-padre moram aqui. Então, eu escuto vozes, uma feminina e outra masculina. São eles. O cunhado de Bernardo e a irmã. Eu não posso me esconder no altar pois a imagem de Cristo transmite uma luz capaz de matar até o mais poderoso dos vampiros. Escondo-me atrás de uma parede. Pela fresta desta, eu vejo o casal se beijando de forma bem íntima. Deus, eles devem estar voltando de uma festa ou uma viagem, algo assim. É nessa hora que eu vejo a pedra, próxima à porta do altar.Mas, se eu me mover, eles irão me ver. Então, o inesperado ocorre.
- E então, irmã maldita, voltou da viagem?!
- Bernardo, não, você está morto! Morto!
- Virgem Maria Santíssima!
- Sim, irmã, eu morri mas voltei dos mortos, para te levar comigo para o Inferno!
E, quando ele se vira na minha direção, eu pego a pedra. Bernardo ainda olha para mim.
- Não! Como você entrou aqui?
- Ora, meu amor! Eu falo imitando a voz de Marcelo! - Da maneira mais fácil do mundo!
Então, nessa hora, Bernardo percebe que eu me passei por Marcelo e que nós dois...
- Sua maldita! Eu vou te dominar de novo!
Bernardo assume sua forma demoníaca. A irmã dele e o marido gritam desesperadamente.
- Depois eu volto prá me vingar de você, irmã!
O corpo demoníaco de Bernardo não mantém a forma física sem a pedra. Assim, ele se torna intangível, como um fantasma! Nessa forma, ele tem a enorme necessidade de possuir outros corpos a fim de caminhar sobre a terra! Quando ele avança contra mim, eu salto para dentro do altar e me abaixo. A luz celestial da cruz de Cristo atinge em cheio o demônio que grita de forma agonizante enquanto seu corpo, mesmo imaterial, começa a derreter. Ainda assim, Bernardo me possui pelo braço, lutando para obter a pedra.
- Você quer tanto essa pedra... então toma!
Eu cravo a pedra contra o peito de Bernardo. A energia dela e da luz celestial atingem o demônio com tal força que ele não tem como resistir. Então seu corpo torna-se uma poça incandescente.
O seu choro foi agonizante enquanto sua alma retornava ao Inferno.
Súbito, a luz celestial me atinge também. Eu agarro a pedra, mas ainda assim, sinto o poder da luz sobre mim, queimando meu corpo tal qual fez com Bernardo. A luz celestial é uma força muito mais poderosa do que a pedra pode suportar. Ao perceber isso, comecei a gritar e a chorar sem parar. Ainda consegui chegar na porta do altar, de joelhos, com a pele caindo de meu corpo. O marido da irmã de Bernardo, ao presenciar tudo o que tinha acontecido, me puxou para fora do altar e trancou a porta deste.
- Você ficou maluco? Aquele era o Bernardo e essa... essa é uma criatura das trevas!
- O que ela diz é verdade! Eu falo enquanto me recupero.
- Eu sou uma vampira! O senhor não deveria ter me salvado!
O ex-sacerdote olhou bem para mim e disse:
- Eu já fui um servo da luz! Hoje não sou mais! Em nome do amor por uma mulher, eu quebrei o voto sagrado que fiz perante Cristo e me envolvi numa trama de orgia e ambição! Se Bernardo veio para nos assombrar, é porque temos culpa na morte dele!
E ele olhou seriamente para a irmã de Bernardo enquanto eu voltava ao normal. Ele não sabia, mas quando viu Bernardo, percebeu. A esposa tinha matado o irmão e os próprios pais não só por amor, mas para também obter a fortuna que estes lhe deixaram de herança.
- O que você está querendo insinuar com esses olhos?
- Acho que você já sabe!
- Sei o que? Não vai me dizer que você acha que eu teria envenenado meus pais e meu irmão?
Ela chora fingidamente. Ele ainda se comove com o sofrimento dela porque a ama muito. Quando eu me levanto, ele segura as minhas mãos e diz:
- Obrigado por ter salvo nossas vidas!
- Eu não salvei sua vida "padre"!Ao ouvir esta última palavra, o marido da irmã de Bernardo estremece. De posse da jóia, eu me transformo em morcego e saio dali voando por uma janela. Ao longe, eu escuto, o cunhado de Bernardo abrir a porta do altar, sentar-se diante da cruz de Cristo e rezar pela alma do irmão de sua amada.
***
-Alan!
- Presente!
- Alice!
- Presente!
- Bernardo!
- Tô aqui!
- Bianca!
- Oi, professora!
- Carlos!
- Eu!
- Celso!
- Eu!
- Clarissa!
-...
- Clarissa!
-...
- Faltou de novo!
Meu Deus! Já é a nona falta só esse mês. Pensa a professora. A Clarissa sempre foi uma menina tão dedicada! O que será que está havendo?
Inteligente! Educada! Sempre foi uma das melhores alunas da sala. Mas, nos últimos tempos, Clarissa anda rebelde, arredia! Desde que os pais se mudaram, a garota tornou-se uma jovem arruaceira e revoltada. As marcas de sua revolta estão nas surras que seu pai lhe dá com o cinto. As coxas da jovem chegam a estar roxas de tanto apanhar.
Quando apanha, Clarissa grita, berra, chora. Agora mesmo ela está berrando. As lágrimas saltam de seus olhos. Mas, desta vez o choro não é de dor e sim de prazer.
- O que?
O inspetor fica boquiaberto ao abrir a porta do almoxarifado. Ele flagra Clarissa e o namorado dela. A cabeça dele debaixo de sua saia. E ela estava sem calcinha.
***
- Você ficou louca, Clarissa? Como pôde permitir uma coisa dessas? Meu Deus, você sempre foi uma garota tão boazinha! O que foi? O que foi que eu e seu pai te fizemos prá você agir dessa maneira?
Enquanto a mãe anda furiosa de um lado para o outro, a menina se lembra dos momentos felizes que partilhou com seu primeiro homem. Os dois nús na praia se beijando e se acariciando. Ela sentindo-o dentro de seu corpo cada vez mais. E, quando o orgasmo ocorre, ela se sente livre. Livre da opressão de seu pai autoritário. Livre das reclamações de sua mãe.
- Por que você está agindo dessa maneira, Clarissa? Fale! Eu sou sua mãe! Tenho o direito de saber!
- Você não é minha mãe!
- Sua maldita!A mulher esbofeteia Clarissa.
- Você não é minha mãe! Não é!
A garota corre para as escadas em direção ao seu quarto.
- Pode correr! Fuja enquanto pode! Quando seu pai chegar em casa, você vai ver!
- Sim! Meu pai! Que ele venha! Estou pronta para ele!
As imagens vem em sua mente. Ele tentou estuprá-la. Quando viu o horror de seu ato, espancou-a. Ela caiu da escada e morreu.
- Hã! Clarissa arregala os olhos.
A visão de seu pai matando uma garota surge em sua mente. Ele tentou estuprá-la. Sua própria filha. E acabou matando-a.
A informação atravessou seu cérebro quando ela deparou-se com a criatura. Um ser saído de dentro de um caixão largado no meio da sala da nova casa que ela agora habita. As imagens eram confusas e cruéis mas não saíram mais de dentro da mente de Clarissa. A vida dela transformou-se desde então. O desejo de matar seu pai aumenta à medida que ela é surrada por este. E o ser que agora reside no corpo de Clarissa sente que esta será a noite da vingança.
- Noite? Já é noite?
- Clarissa, venha já para baixo! Eu vou te dar uma lição, menina!
- Papai!
- Você vai ver no que dá "responder" à sua mãe, sua atrevida!
A garota se aquieta assustada com medo de apanhar.
- Não se assuste garota! Você não é rebelde, não é valente?
- Por favor, não deixa ele me bater! A garota fala enquanto chora. Não deixa, por favor!
A menina escuta as batidas na porta e chora ainda mais.
- Não deixa ele me bater! Por favor! Por favor!
- Clarissa, abra já essa porta!
A voz do pai ecoa como um trovão. A garota só chora em desespero.
- Abra essa porta, Clarissa! Abra já! Ande logo! Eu já estou perdendo a paciência, garota!
- Não deixa ele me bater! Não deixa, por favor!
Súbito, os olhos da menina tornam-se vermelhos. Um rugido e uma voz demoníaca saem de sua boca:
- Pode deixar irmã! Nós não vamos deixar que ele faça com você... o que fez comigo!
- Abra já essa porta, Clarissa! Eu já perdi a paciência! Se você não abrir essa porta, eu vou arrombar! Eu estou avisando! Você não me obedece, mas agora vai ver só uma coisa!
Ele arromba a porta e entra no quarto.
- Meu Deus!
- Vem, papai! Vem me "arrombar", vem!
A garota, completamente nua, fala de forma sedutora para seu genitor com as pernas abertas.
- Sua prostituta!
O pai esbofeteia o rosto da filha. Quando esta vira a face em sua direção, o homem caminha para trás apavorado. E ele vê a imagem da menina que assombra seus sonhos, no rosto de Clarissa.
- O que foi, papai?! Clarissa fala enquanto se levanta. Você não gosta de me ver no corpo de minha irmã?
- N-N-N-Não pode ser!
A garota aproximá-se do pai.
- Não! Afaste-se! Fique longe! Eu não sei quem é você! Eu não sei quem é você! Eu não sei...
- Sabe sim! Eu sou a filha que você tentou estuprar há dezessete anos!
- Não!
- Você me matou! Me destruiu para esquecer o seu erro!
- Não! Não! Não!
- Mas você nunca vai me esquecer! Porque agora pai, eu estarei dentro de você... para sempre!
- Não! Não! Não! Afaste-se de mim! Afaste-se! Afaste-se!
Clarissa agarra o pai e o beija na boca. O corpo da garota em seguida desmaia enquanto seu rosto volta ao normal. O homem começa a gritar horrorizado com o que está em sua mente.
- Não! Não! Não! Afaste esses tridentes de mim! Afaste! Afaste!
Ele vê os diabos espetando o corpo de sua filha com tridentes. Vê a alma torturada de sua menina gritar chorando no Inferno. Em meio à dor e à tristeza, os olhos da jovem tornam-se vermelhos de raiva, de ódio, arregalados com o brilho da vingança.
- Eu vou pegar você! Eu vou pegar você!
- Não! Não! Não!
- Você vai me pagar... pelo que fez a mim e à minha mãe!
- Não! Saia da minha cabeça! Saia! Saia! Saia! Não! Não! Não!
- Como ele pôde me abandonar? Eu que sempre fui fiel a ele! Eu que o ajudei a construir tudo o que ele tem hoje!
As imagens da ex-esposa, velha, pobre e adoentada doem. O homem começa a bater com a cabeça na parede. As memórias são como cacos de vidro perfurando seu cérebro. A dor é tão forte que o homem quebra o espelho do quarto batendo com a cabeça nele.
- Amor, o que está acontecen... Meu Deus!
A mulher sobe as escadas, vê a filha desmaiada e o marido chorando com o rosto todo desfigurado.
- O que você fez com Clarissa?
- Minha filha! Eu matei minha filha!
- Não! Não! Não! Como pôde fazer isso? Por quê? Por quê?
- Eu... Eu... Aiii... Eu... queria...
Ele olha para a esposa e vê sua filha mais velha.
- Vem cá vem!
- O que?! Pare! Me largue! O que deu em você?
- Vou fazer contigo, filhota, o que devia ter feito há muito tempo!
- Não! Não! Não! Não! Os dois lutam furiosamente. O sangue escorrendo pela cabeça do marido, no entanto, o cega. A mulher aproveita, pega um dos cacos do espelho. Quando o marido avança, ela crava o caco no peito do homem e este cai morto.
- Não! Não! Não!
A mulher ajoelha-se, abraça a cabeça do marido e chora.
- Por que? Por que?
Invisivelmente, a alma da vampira sai do corpo do pai. A tentação de matar a mulher que roubou o criador de sua genitora é grande. Mas a visão de seu assassino, o destruidor que outrora a criou com tanto amor e carinho, morto e o sofrimento da amante dele já lhe traz uma satisfação tremenda.

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