Thursday, March 09, 2006

SONHOS SANGRENTOS

ESTÁGIO DOIS

( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)
O mesmo sol que iluminava nossos corpos enquanto nos amávamos na praia, hoje me faz tão mal. Meu amor, minha vida. Como era bom te sentir. Como era bom te amar. Como era bom te beijar.
- Filho, cheguei!
A mãe do garoto entra na casa. Eu me levanto e me visto rapidamente.
Ouço os passos dela na escada. Não posso esquecer a pedra. Então, a transformação surge. E eu já sou um morcego. Vôo pela janela aberta enquanto escuto os gritos e o choro da mãe do garoto. Uma lágrima cai pelo meu olho direito. Mas não é hora para choro agora. O sol é tão bonito. É uma dádiva do Inferno que uma lasca da Pedra Filosofal nos proteja dos raios solares. Quando a jóia famosa se partiu em um trilhão de pedaços, vários demônios e vampiros se apoderaram de alguns dos estilhaços. Foi o momento de meu renascimento. Eu vi uma multidão de demônios cem mil vezes mais poderosos do que eu tentarem a sorte de sair do Inferno. Eles se destruíam uns aos outros no processo. Era a sobrevivência do mais forte. Só os mais poderosos conseguiam sobreviver à batalha. Eu era fraca, assustada, chorando entristecida pelo meu destino. Morta pelo meu próprio pai, que tentou me estuprar. Nunca mais eu veria minha mãe, meus primos, meus tios e, principalmente, meu amado. Todas as pessoas que me amavam. Eu nunca mais as veria. Então surgiu a oportunidade. Era a sobrevivência dos mais fortes. Apenas os mais poderosos demônios sobreviveriam à guerra profana. Era eu ou eles. Bastou eu esticar a mão em direção a um dos estilhaços. O poder não dependia apenas da força bruta. Mas da agilidade... e da inteligência de quem pudesse aproveitar a oportunidade. Eu estiquei a mão. Havia um segundo entre o aqui e o nada. Entre o mortal e o imortal. Eu segurei a pedra com a força de um tigre. Então, senti seu poder entrar dentro de mim. Um vampiro me atacou por trás na esperança de me derrubar. Então, num pensamento eu desejei o impossível.
E, quando ele cravou os dentes em meu pescoço, não soltou mais. Eu absorvi todos os seus poderes, toda a sua essência. Ele se tornou uma poça de ácido derretida. Quanto mais ele se enfraquecia mais forte eu me tornava. Um demônio lançou um machado de fogo em minha direção na tentativa de me derrubar. Eu estiquei a pedra na frente. Ela absorveu aquele enorme poder e as chamas saíram de dentro dela em forma de pequenas facas. O demônio teve o corpo todo esquartejado pelas lâminas flamejantes. Então, um pensamento de amor e de tristeza invadiu minha alma enquanto meus dentes cresciam e meus olhos se tornavam negros. O túnel de volta para casa se abriu para mim. Outros demônios me acompanhavam nessa jornada satânica. Meus belos e lisos cabelos loiros foram então substituídos por curtos cabelos negros. Meus enormes seios encolheram. Minhas coxas grossas emagreceram. O poder do Inferno tinha um preço. Um triste e terrível preço. Eu já não era mais eu. Eu já não era mais a jovem feliz e apaixonada que me tornara. Eu era uma criatura das trevas. Sedenta por sangue. Ao longe eu via dois demônios que tinham sido pegos no teleporte junto comigo brigarem violentamente por mais um pedaço dessa pedra maldita. Um deles aumentou o tamanho de seus dentes superiores a tal ponto que eles eram maiores que um elefante. Ele cravou os dentes no pescoço do outro demônio e em seguida devorou sua cabeça. Eu só chorava com saudades da minha mãe. Eu não podia mais ser mãe. Ninguém me disse, mas eram o que os instintos me falavam. Não poderia nunca mais ter filhos. Nunca mais. Deus, por que? Por que eu tinha de ser transformada num demônio? Eu que fui a vítima? Eu que quase fui estuprada por meu pai! Eu que fui destruída pelo meu criador? Eu penso em minha mãe! Então, com o poder de um pensamento, eu me transformo em um morcego! A transformação foi dolorosa, difícil! Como da primeira vez em que transei com meu amado! A mesma dor precedida de prazer! A minha vagina se encolhe para dar espaço à genitália de um animal! Dessa vez a dor é precedida por mais dor! Eu encontro a minha mãe já velha e adoentada, abandonada por meu pai em um barraco velho e apodrecido. Eu choro de tristeza quando a vejo. Sinto vontade de abraçá-la, de apertá-la em meus braços. Minha mãe, minha pobre e triste mãe. Ele te abandonou, não foi? Ela não precisa me dizer nada! Eu leio seus pensamentos e vejo que aquele velho safado a traiu com uma mulher mais nova. Maldito! Desgraçado! Como a Justiça pôde deixar que ele te abandonasse dessa maneira? Sem lhe dar um alento, um conforto em sua vida! Como este país pode ser tão covarde para com aqueles que trabalham e lutam por um futuro melhor? Minha mãe sempre ajudou meu pai em tudo! Em tudo! E é isso que ela recebe? É como dizem, no Brasil, quem presta mandam matar! Seja por balas, seja pela miséria!
Eu invado os sonhos dela. Nós duas estamos em um imenso jardim. Quando ela me vê em minha antiga forma, seus olhos brilham. Nós duas nos abraçamos. Eu posso sentir o momento. Os braços dela me aconchegando como ela fazia comigo quando eu era pequena. As lágrimas dela me pedindo perdão. Não há o que perdoar, minha mãe! Você sempre foi, é e será a minha mãezinha querida! Ela toca meu rosto, meus olhos, meus lábios sem acreditar no que vê! Filha, você está viva! Deus, como eu senti sua falta, minha menina, minha doce menininha! As duas mulheres se abraçam! As lembranças de nossas vidas perpassam pelas nossas mentes! Um turbilhão de memórias! O amor dela pelo meu pai! A vida que eles construíram juntos! Ele chegando tarde do trabalho, querendo se alimentar e dormir! Ela, depois de trabalhar também o dia inteiro na cozinha, no fogão, lavando e passando a roupa, não podia sequer cochilar nessa hora! Enquanto ele ainda tinha tempo para dormir, ela não descansava nunca! Deus, como minha mãe amava meu pai!
- Foi sua culpa!
- Quê?
- Se você não fosse tão rebelde... se não tivesse se envolvido com aquele rapaz, ele jamais me abandonaria! Jamais me abandonaria! Eu te avisei! Quantas vezes eu te falei para não sair com ele! Mas você não me escutou! Você nunca me escuta! Nunca!
- Mãe, meu pai tentou me estuprar!
- Não, é mentira! É mentira! Saia daqui! Saia daqui!
- Sua burra!Eu grito acordando do sonho. Burra! Burra! Burra! Idiota! Maldita! Malditos pais! Maldita mãe! Maldito mundo! Maldito país!
O demônio que engoliu a cabeça do outro, de repente, sente a dor! A língua do outro demônio passeia por sua garganta espalhando ácido! A dor é terrível! O demônio grita em agonia enquanto saem dentes da língua do outro demônio! Espinhos! A língua, já enorme, atravessa o crânio do demônio queimado e começa a devorá-lo transformando-se em outro demônio.
- Eu venci! Finalmente eu consegui! Eu, Deontônio, sou o maior dos demônios! Me escondi na língua do demônio devorado só esperando o momento certo para atacar! A Pedra Filosofal agora é minha! Minha! Minha! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
A essa altura da minha nova vida eu estava revoltada. Meu sangue não congela ao ver a criatura. De modo contrário, ele ferve! O ódio toma conta do meu coração! O desejo de matar é enorme! Então eu descubro o meu poder e arranco uma árvore do lugar com a força das unhas de minhas mãos!
- Eu conquistarei este mundo! Eu serei o ser supremo da Terra e farei dela um novo Inferno! Lúcifer será destronado tão logo eu me aposse deste e de outros mundos! Eu conquistarei a galáxia, as estrelas... Buuurp...
O ódio é tudo o que tenho! Mais de um milhão de galhos pontiagudos penetram na carne demoníaca. O sangue verde dele se espalha por quilômetros, enquanto eu o estilhaço com toda a minha força. O mundo não deve ser conquistado! Deve ser destruído! Aqui só há injustiça! Só há cobiça! Não há paz, não há amor! O dinheiro supera a paz! O desejo doentio de transar loucamente, até com crianças, supera o amor! Este mundo não merece viver! E ninguém tem o direito de conquistá-lo! Ninguém! Eu destruirei esse mundo! Chega de injustiça! Chega! Chega!
E o demônio cai de bruços inerte. Seu corpo transformá-se em uma massa incandescente e eu vejo a alma do homem que habitava o corpo satânico gritar em desespero enquanto os outros demônios o puxavam em direção ao Inferno. No fundo é tudo isso o que nós somos, vivos ou não, não é mesmo? As carapaças monstruosas de nossas peles escondem de nós os nossos maiores medos! De que o maior mal é o praticado por seres humanos! Não há honra maior no Inferno do que esta! Não há vergonha maior para a humanidade do que esta!
Na próxima edição: Luta pela sobrevivência!

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