Thursday, March 09, 2006

SONHOS SANGRENTOS

ESTÁGIO UM
( POR: RONALDO DE OLIVEIRA COSTA)

Eu lembro da dor dos tapas.
Das palavras furiosas.
De como ele não queria que eu saísse de casa.
Eu lembro do meu assassino.
Meu pai.
Meu criador... e meu destruidor!
A mesma mão que cria também destrói. Ele me destruiu. Eu caí e bati com a cabeça. Nunca mais acordei desde então. Os olhos que se abrem não são meus. A boca com que beijo outra boca não é a minha. Mas a sensação é a mesma. O calor dos corpos se roçando na cama. O sangue dele está quente. Eu posso sentir. A fome é imensa. A fome do estômago. Mas, por um instante, a fome da virilha supera a minha dor. Então eu deixo ele gozar dentro de mim antes... antes de cravar os dentes em seu pescoço e sugar seu sangue.
Nesse momento, eu sinto outra coisa, fora o pênis dele, entrar em meu corpo. Sinto seus pensamentos. Suas lembranças. Suas dores. Seu amor. Ele me amava. Deus, como ele me amava. Não tenho coragem de comer seu corpo como fiz com os outros. Ele me amava. Ele me queria como sua mulher. Como a mãe de seus filhos. Outrora eu tive os mesmos sonhos que os dele. De amar, de ser amada, de constituir uma família. Mas meu pai não queria. Ele não entendia meus sonhos, minha vida. E a destruiu. Eu matei alguém que me amava. Antes de morrer, ainda escutei meu pai dizer "eu fiz isso porque te amava minha filha". Ele me amava. Ele me queria como mulher. Mamãe nunca suspeitou de nada por causa do imenso amor que sentia por ele. Ela nunca suspeitou. Achava que as broncas e as surras ocorriam devido ao meu jeito rebelde.Mas não eram. Ele me queria. Meu próprio pai. Quis me possuir naquele dia. Me agarrar. Ele tentou me estuprar. Meu pai. E, quando percebeu a loucura de seu ato, me culpou por tentá-lo. E me espancou até me matar. Hoje, eu sigo a trilha de sangue de meu genitor. Eu matei pela fome. Pela necessidade. Eu agarro o corpo inerte do garoto e choro. Ele me amava. Tal qual meu namorado. Deus, como eu queria ter tido filhos com ele. Ele me amava também. Nós poderíamos ter sido tão felizes. Mas o demônio de meu pai estragou tudo.
- Me perdoe!
Eu choro enquanto agarro o corpo do garoto.
- Me perdoe, Deus, me perdoe! Eu não queria! Eu não queria! Eu não queria...
As lágrimas se perdem em meio ao clarão do dia.
A seguir: Descendo ao Inferno

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